A Propagação do Calvinismo no Século XVI
Este é o 2º Artigo desta série. O primeiros é:
A comunicação é sempre uma questão de grande importância em qualquer civilização ou cultura, mas tem se tornado mais importante do que o comum em nossa própria sociedade. A imprensa, o rádio e a televisão desempenham grande papel em nossas decisões e, de uma forma geral, em nossa maneira de pensar. Com as facilidades de comunicação que temos hoje, e que o homem jamais teve em tempos passados, temos a tendência de achar que o tempo em que vivemos é o único período em que a comunicação, a propaganda – ou como quer que a chamemos – é valorizada de fato. Contudo, quando nos voltamos para o século dezesseis, não temos como evitar a surpresa ante a maneira como informações e idéias de todos os tipos circulavam pela Europa. Um dos exemplos mais marcantes desta difusão de idéias torna-se visível na forma como o Calvinismo se espalhou a partir da pequena cidade Suíça, Genebra, por grande parte da Europa, indo dos braços mais baixos do Danúbio até as regiões nórdicas da Escócia.
O Luteranismo também se espalhou bastante rapidamente nos primeiros tempos da Reforma, mas logo começou a recuar como maré vazante, com exceção feita apenas às regiões mais teutônicas como a Alemanha e Escandinávia. As idéias de Calvino, por outro lado, penetravam e, freqüentemente, suplantavam as de Lutero em regiões tão diversas quanto as da França, Escócia, Holanda e Hungria. Apesar das dificuldades da geografia física, dos obstáculos causados por oposição política e pela perseguição instigada por autoridades católicas, o Calvinismo conseguiu expandir sua influência e ampliar suas fronteiras a ponto de vir a ser considerado o inimigo numero um da Igreja Católica Romana e dos governos absolutistas. Embora haja inúmeras razões que demonstram este fato, um fator muito importante é constituído pela forma e pelos meios utilizados na propagação do Calvinismo por toda a Europa do século dezesseis.
Ao tentarmos compreender esta questão da comunicação, devemos reconhecer que a transmissão de idéias depende muito da sociedade em que estas idéias são expressas. Temos tido muito bons exemplos deste fato nos jargões criados por estudantes universitários e pela geração hippie dos anos sessenta. Além disto, a questão de tecnologia da comunicação e da transmissão de idéias na sociedade hoje é de importância crucial. Haja vista que hoje o computador está assumindo uma função completamente revolucionária neste mesmo campo. No entanto, dada à técnica desta maneira de comunicar, ela é compreendida por muitos poucos, ou seja, apenas por aqueles que foram tecnicamente treinados para usá-la. Desta forma, para compreender o sucesso da transmissão das idéias de Calvino, e para explicar parcialmente o sucesso obtido em divulgá-las, é necessário que olhemos primeiro os antecedentes sociais da Reforma e o desenvolvimento dos meios de comunicação.
Desenvolvimento no Final do Período Medieval e no Início dos Tempos Modernos
Os dois séculos que se passaram entre 1300 e 1500 foram séculos de mudanças rápidas, e mesmo revolucionárias, na sociedade da Europa Ocidental. Se Petrarca ou Dante pudessem voltar para conversar com Erasmo, teriam se encontrado em um mundo completamente diferente daquele que haviam conhecido. De um lado, a Europa havia sofrido o ataque devastador da Peste Negra ou peste bubônica que matara um terço da população de alguns países. Esta tragédia produzira efeitos e implicações de longo alcance. Precisamos nos lembrar também de que foi durante estes séculos que eclodiu a Renascença, que o Grande Cisma e o Movimento Conciliatório na Igreja seguiam seu curso e, finalmente, que descobertas geográficas modificaram muitas das perspectivas dos europeus ocidentais – inclusive a descoberta da América e a circunavegação do Cabo de Boa Esperança, e a abertura posterior de um caminho direto para o distante Oriente. Por volta de 1500 a Europa era um continente diferente, com uma sociedade fundamentalmente modificada.
Um dos efeitos da Peste Negra foi o declínio da economia na Europa Ocidental, quando diminuiu a demanda de bens, assim como a mão-de-obra que os produzia. Contudo, por volta da metade do século quinze, na medida em que as pessoas se tornavam mais resistentes à doença, as populações começaram a crescer e, mesmo que seu número não tenha chegado aos níveis anteriores à praga – senão quando o século dezesseis já ia bem adiantado -, a indústria e o comércio começaram a se recuperar. Novas técnicas criadas nas indústrias de manufatura de tecidos de lã, nas de mineração do carvão e nas de produção de armamentos, tudo contribuía para estimular a economia; especialmente nos países do noroeste, como a Inglaterra e Holanda. Em função disto, aumentou a necessidade de um fluxo maior de dinheiro, resultando no aperfeiçoamento dos métodos de financiamento, e no surgimento de importantes empresas de operações bancárias, como a dos Médicis de Florença e a dos Fuggers de Augsburg. Todos estes fatores contribuíram para a expansão geral do comércio depois de 1450, o que levou, por sua vez, à formação de uma rede de comunicações que viria a desempenhar papel muito importante na transmissão de idéias durante o século dezesseis.
Esta rede surgiu também em função das mudanças de classe que estavam ocorrendo em algumas regiões da Europa, em conseqüência dos desenvolvimentos econômicos. Apesar de sempre ter havido mercadores e artesãos aos quais podemos chamar de classe média por estarem entre a nobreza e a classe dos servos, não foi senão na última parte do século quinze que a verdadeira classe média começou a surgir. Ao invés de alguns poucos comerciantes e banqueiros, um número muito maior de homens interessados em comércio, mesmo que em escala bastante pequena, começou a desempenhar esta função na sociedade. Ao noroeste da Europa, em países como a Inglaterra, Holanda e Alemanha, a nova classe de homens começava a desalojar a nobreza de sua posição de comando da sociedade. Enquanto a nobreza sofria por causa da inflação que grassava, a nova classe comercial vicejava em decorrência da expansão econômica e se tornava o suporte de reis que tinham uma necessidade cada vez maior de dinheiro vivo.
Politicamente, os séculos quatorze e quinze viram o rápido crescimento de um sentimento de nacionalismo em muitas regiões. Foi o período do esforço de expansão dos ingleses, tanto nas ilhas Britânicas como na França, do outro lado do Canal, esforços que resultaram no desenvolvimento e na consolidação do sentimento nacionalista não apenas dos ingleses, mas também dos franceses e escoceses. Já no final do período, o nacionalismo espanhol fortaleceu-se na luta contra os mouros. Este nacionalismo popular, por sua vez, auxiliou o surgimento do que veio a ser conhecido como as “novas monarquias”. Os monarcas das nações em desenvolvimento, com o objetivo de consolidarem seu poder, tanto dentro de seus próprios países como na oposição a inimigos externos, precisavam de uma administração e de exércitos que só podiam ser mantidos com o apoio financeiro da nova classe média. Desta forma, o equilíbrio político do poder estava começando a se modificar em alguns países.
Uma outra mudança, que ocorreu entre 1300 e 1500, teve lugar na orientação do pensamento ocidental. A teologia de Thomas de Aquino, com sua aceitação da realidade dos universais, nos quais participavam os particulares, perdeu a primazia com o surgimento de idéias “modernas” anunciadas por homens como Marsílio de Pádua e Guilherme de Occam. O individual ou o particular passou então a ser considerado como a única entidade real, ao passo que os universais passaram a ser considerados apenas como classificações nominais. Este novo modo de pensar foi ainda mais enfatizado com o interesse demonstrado pelo pensamento clássico expresso nas então recém-descobertas ou recém-estudadas obras de autores gregos e latinos. O humanismo renascentista, com sua ênfase sobre o indivíduo, particularmente sobre homem de “virtu”, deu uma força adicional ao ponto de vista de que o indivíduo é a figura central de qualquer conceito a respeito do homem e de suas atividades, visão esta concretamente demonstrada por Pico dela Mirandolla em sua “Oration on the Glory of Man” (= “Oração à Glória do Homem”).
Todas estas mudanças tiveram sua influência sobre o padrão de comunicação. Certamente, a Idade Média tinha seu próprio método de transmitir idéias, mas esse método alcançava um número relativamente pequeno de pessoas e, por isso, o movimento de idéias era bastante limitado. Considerando que a grande maioria das pessoas era analfabeta, a sociedade medieval era uma sociedade basicamente oral e visual. A Igreja transmitia seus ensinamentos às pessoas através de quadros, imagens e cerimônias. Mesmo a pregação não era comum. Normalmente, quando os governos precisavam registrar muitos atos, privilégios e eventos, usavam os serviços do clero, a única classe letrada. As novas idéias, desenvolvidas nas escolas daqueles dias por pensadores revolucionários, como Pedro Abelardo, eram geralmente transmitidas por alunos que haviam estudado com estes homens. Os livros e documentos daquele tempo, produzidos em pergaminho até 1300, eram normalmente escritos em latim. Desta forma, sua leitura era limitada àqueles que tinham educação universitária e dinheiro suficiente para comprar artigos extremamente caros.
O século quinze assistiu a uma mudança radical de mentalidade. De um lado, a redescoberta da literatura clássica despertou um novo interesse pela educação e pela cultura, interesse fortalecido pelo uso do papel na produção de livros, fato que reduziu consideravelmente seu preço. Além disso, apesar dos conflitos internacionais constantes, o surgimento de estados nacionais facilitou um pouco a circulação pela Europa, resultando no aumento do número de estudantes que se deslocavam de uma universidade para outra. O fato de Copérnico, depois de estudar na Polônia, poder ir estudar ciência na Universidade de Pádua, na Itália, demonstra o quanto a situação estava se modificando. À medida que a classe média crescia, era indispensável, que os que a integravam, tivessem ao menos uma educação elementar para poderem comerciar e negociar. Um novo grupo de leitores começou a surgir; contudo, um público capaz de ler no vernáculo e não no latim das universidades.
Tudo isto fornecia as bases para o mais revolucionário desenvolvimento do século quinze: a invenção da imprensa. No início do século, havia sido divulgado o uso de blocos de madeira entalhada para a reprodução de ilustrações e de textos relativamente curtos. Apesar de os livros poderem ser reproduzidos desta maneira, sua publicação era lenta e bastante dispendiosa. Foi por volta de 1450, no entanto, que John Gutenberg, um alemão de Mainz, desenvolveu uma liga de metal que podia ser usada para fazer tipos móveis. O resultado foi uma verdadeira revolução em todo o processo de transmissão e comunicação de idéias.
Trabalhando primeiro em Mainz e depois em Estrasburgo, Gutenberg conseguiu uma reputação bastante rápida para suas publicações e, conseqüentemente, outros indivíduos destas duas cidades passaram a se dedicar também ao ofício de impressor. A partir da Alemanha, as técnicas do novo processo logo se espalharam para a Itália, e Veneza se tornou o principal centro de obras impressas. Pouco tempo depois, outras cidades, como Basiléia, na Suíça, seguiram seu exemplo, de forma que por volta de 1500 a imprensa se tornara relativamente comum. Estima-se que entre 1450 e 1500 tenham sido produzidos entre 10.000 a 15.000 textos diferentes, atingindo um total de quinze a vinte milhões de cópias. O uso do papel e do tipo móvel deu, à produção de livros, um caráter completamente diferente do que tivera antes de 1450.
Além de tornar possível a produção de livros baratos e em grande quantidade, a imprensa contribuiu para o surgimento de uma revolução intelectual em muitos outros aspectos também. Embora seja verdade que, até 1500, a maioria dos livros impressos eram antigas obras de autores latinos, obras novas começaram a surgir com freqüência cada vez maior, nas línguas vernáculas. Isto significa que os novos métodos de produção de livros visavam aos novos leitores. Estas obras não eram mais produzidas só para as pessoas que tinham formação universitária, mas também para aqueles que só podiam ler em sua língua materna. Talvez, de igual importância, como apontado por Marshall McLuhan, uma nova disposição de espírito foi gerada pela revolução da imprensa. Conquanto seja um pouco difícil pensar segundo o padrão linear de pensamento de McLuhan, resta pouca dúvida de que a ênfase passou a ser dada muito mais à palavra escrita e à sua compreensão intelectual. A comunicação visual tornou-se menos importante do que a capacidade de compreender o raciocínio intelectual ou, mesmo, abstrato.
A nova classe de leitores, tendo recebido um tipo de treinamento diferente daquele que era dado um século antes, começava agora a pensar em diferentes termos, podendo avaliar e absorver novas idéias. Além disto, com a possibilidade de produzir livros mais rápida e economicamente, as novas idéias podiam ser espalhadas mais facilmente, alcançando classes sociais que, até aquele momento, haviam estado à margem de tais questões. Mesmo que muitas pessoas não pudessem ler, outros liam para elas, dando-lhes condições para aceitar e avaliar não apenas a necessidade de instrução, mas também as idéias contidas nos livros. Esta foi a base sobre a qual se deu a transmissão dos ensinamentos dos Reformadores protestantes e, particularmente, dos de João Calvino.
Desenvolvimento do Século Dezesseis
O século dezesseis viu o clímax do desenvolvimento dos dois séculos precedentes, nos quais o novo padrão cultural se tornara completamente declarado, preparando o advento da Idade Moderna. Assim, para entendermos o que aconteceu no século dezesseis, precisamos ter em mente o que aconteceu antes e reconhecer que novas formas e elementos estavam influenciando a cultura e a civilização da Europa Ocidental.
Uma das características do século dezesseis foi a aceleração do processo que tivera início cerca de cinqüenta ou cem anos antes. A inflação, por exemplo, parece ter sido acelerada, em parte devido à afluência do ouro vindo do Novo Mundo, aliada à reabertura das minas de prata do Tirol, de onde os Fuggers de Augsburg retiraram muito de sua riqueza. O resultado desta espiral inflacionária, aliada ao aumento da população e a outros fatores, foi a aceleração do desenvolvimento do comércio com seu conseqüente estímulo ao crédito, operações bancárias e investimentos. Consta, ainda, que com a economia européia dirigida para o Oeste mais do que para o Oriente Próximo, e devido ao rápido desenvolvimento econômico de regiões como a Holanda, o Vale do rio Reno e partes das Ilhas Britânicas, o peso da economia européia voltou-se mais rapidamente do que antes para o Noroeste.
Estas mudanças econômicas produziram mudanças correspondentes nas relações das classes sociais assim como em sua distribuição geográfica. No decorrer do século dezesseis, a nobreza começou a sentir que sua posição econômica se tornava mais difícil e cada dia, pois, apesar de serem ricos em terras, tinham pouco dinheiro vivo. Por esta razão, com freqüência, estavam direta o indiretamente, na dependência financeira dos elementos da população que se dedicavam ao comércio. Diretamente, eles podiam obter empréstimos dos comerciantes ou banqueiros, e, indiretamente, eles podiam se alistar em exércitos mercenários ou no serviço dos monarcas cujas rendas tinham uma proporção cada vez maior das taxas cobradas à classe média. Isto significa que “quem paga a conta, dá o tom”. As classes mercantis, aliadas a grupos de profissionais liberais, como os advogados, estavam desta forma ganhando cada vez maior influência sobre o governo, fenômeno particularmente visível nas regiões do Noroeste.
As mudanças sociais se refletiam na arena política, mesmo nos países onde o absolutismo da Nova Monarquia se tornara mais óbvio. A dependência que o Imperador Carlos V tinha do apoio financeiro dos Fuggers para a guerra contra os turcos ou contra os luteranos, e a dependência que Francisco I tinha dos comerciantes de Paris tanto para manter seu poder dentro de seu próprio país, quanto para a guerra contra o imperador, demonstram a importância que a classe dos comerciantes e banqueiros havia assumido para os monarcas, que já não podiam mais depender de serviços feudais ou de seus vassalos, quer na qualidade de soldados, quer na qualidade de conselheiros. Na verdade, foi a recusa dos banqueiros em fornecer mais fundos para o rei francês, de um lado, e para o imperador, de outro, que pôs fim à guerra franco-espanhola por volta de 1559, com o Tratado de Chateau-Cambresis. Outros monarcas, como Henrique VIII da Inglaterra, e os Stewarts, da Escócia, todos enfrentavam os mesmos problemas.
Quase se poderia afirmar que foram os constantes conflitos do século dezesseis que tornaram possível, à classe média, adquirir tanto poder. Até 1559, França e Espanha, e depois o Império, estavam quase que constantemente lutando um contra o outro, estando a Inglaterra, a Escócia e a Dinamarca sempre envolvidas, ora de um lado, ora de outro. O envolvimento do papado nestes conflitos, acabou por minar sua influência espiritual. A partir de 1560, o tipo de conflito começou a mudar, pois esta era a idade de guerras religiosas. De fato, tinha havido lutas na Alemanha entre os luteranos e as forças imperiais na década de 1530 e 1540, mas estes conflitos eram bastante intermitentes, ao passo que as guerras religiosas na França e Holanda, com a participação adicional da Inglaterra e Escócia, ocuparam a maior parte dos últimos quarenta anos do século dezesseis.
Por trás destes conflitos, em todo o decorrer da última parte do século, havia diferenças e conflitos ideológicos. Novas idéias estavam sendo disseminadas à medida que a Renascença alcançava seu apogeu no pensamento literário, artístico, político e social. Não é por acaso que grandes trabalhos como os de Michelangelo, na Capela Cistina, a conclusão da Basílica de São Pedro, a obra “O Príncipe” de Maquiavel, e “The Courtiers” de Castiglione, todos pertencem ao século dezesseis. Na década de 1540, surgiu a obra de Copérnico sobre a revolução dos astros e o livro de Vesalius sobre a fábrica do corpo humano. Estes foram dois tratados científicos revolucionários que causaram, à Igreja Católica Romana e também a algumas Igrejas Protestantes, sérias dificuldades intelectuais. Com o surgimento da imprensa, esta nova mentalidade estava se espalhando velozmente, particularmente entre a crescente classe média, agora um público leitor que acolhia, de bom grado, a visão humanística do indivíduo como sendo o responsável por seu próprio progresso por meio do uso de sua razão.
No entanto, a maior das mudanças intelectuais veio com a Reforma. No dia 31 de Outubro, segundo a tradição, Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Apesar de ele ter feito isso inicialmente apenas como um exercício acadêmico, desafiando, em latim, a todos os que viessem para um debate sobre aqueles pontos, logo se tornou claro que esse gesto havia gerado um conflito, na verdade, uma revolução muito maior do que ele jamais poderia ter imaginado. Sua declaração de que a Igreja Católica e suas doutrinas estavam em conflito com os ensinamentos das Escrituras causaram tal furor na Alemanha e além de suas fronteiras, que tanto ele quanto a Igreja foram tomados de surpresa.
A pergunta que surge então é: Como e por que o fato de Lutero ter divulgado suas teses – um estratagema acadêmico comum para provocar debates – causou tamanho tumulto? Provavelmente, a razão fundamental foi o fato de Lutero ter sido primeiramente, e antes de mais nada, um pregador que proclamava suas idéias, em primeiro lugar, dentro da Igreja, para as pessoas do povo. Ele sustentava que apenas pela pregação as Escrituras se tornavam a palavra viva. Além disso, ele tinha dois grupos de aliados na disseminação de suas idéias: estudantes de Wittenberg e os pregadores treinados e enviados de sua universidade para viajar pelo país pregando as doutrinas que haviam aprendido nas aulas de Lutero.
Tão importante quanto os pregadores e professores das doutrinas de Lutero, foi a palavra impressa. Uma das razões para a rápida disseminação das Noventa e Cinco Teses por toda a Saxônia, foi o fato de um arrojado impressor local ter conseguido que o documento fosse traduzido para o Alemão. Em seguida, imprimiu-o em grande quantidade e vendeu-o por todo o país. Comerciantes, soldados e outros viajantes que passavam pela Saxônia, obtinham cópias que levavam para suas próprias terras. Quer porque concordassem com Lutero ou comprassem as cópias só por curiosidade, o fato é que as idéias de Lutero foram divulgadas ampla e rapidamente. Contudo, Lutero não parou nestas teses, pois tornou-se um prolífero panfletário para o resto de sua vida, soltando panfletos como balas de canhão a cada duas semanas, para o desconforto do inimigo e auxílio dos amigos e de seus defensores.
Lutero, no entanto, não era um pensador ou escritor sistemático. Ele resolvia os problemas à medida que surgiam, mas nunca elaborou uma afirmação sistemática de sua posição teológica que, por esta razão, precisa ser montada a partir de seus panfletos, de seus comentários e de suas “conversações ao redor da mesa”. A sistematização da Reforma luterana foi feita por Philip Melanchthon, que tentou estabelecer, com seu “Loci Communes” (1521), a primeira teologia sistemática luterana. Contudo, apesar de ter sido um trabalho muito importante, no sentido de apresentar uma visão sistemática da fé evangélica, parece nunca ter tido grande popularidade fora da Alemanha. Escrita originalmente em latim, nunca foi traduzida para muitas línguas vernáculas como foram muitas das produções de Lutero. Os escritos de Lutero e de Melanchthon, no entanto, divulgaram as novas doutrinas amplamente apesar de serem freqüentemente atacados e reprimidos por autoridades políticas e eclesiásticas antagônicas.
Enquanto isto, a Reforma tomava corpo na Suíça, onde Zwínglio liderava um movimento pró-Reforma em Zurique, obtendo relativo sucesso, pois conseguiu, inclusive, persuadir algumas das outras cidades da região germano-suíça, como Basiléia e Berna – cidades de língua francesa – a livrarem-se do jugo da Igreja de Roma. Ele também entrou em conflito com Lutero sobre a doutrina da presença de Cristo no Sacramento da Ceia do Senhor. Como outros homens envolvidos no movimento reformado, escreveu alguns trabalhos curtos que não parecem ter gozado de grande popularidade em seus próprios dias. Envolvendo-se nos conflitos políticos com o Cantão Suíço, Zwínglio morreu na Batalha de Kappel, e 1532.
Henry Bullinger, o homem que substituiu Zwínglio, teve uma vida bem mais longa e uma influência bem maior do que a de seu predecessor. Oferecendo proteção a protestantes perseguidos em outros países, foi capaz de influenciar muitos que tinham vindo em busca de segurança e de instrução em sua cidade. Quando estes refugiados voltavam para seus lares, Henri Bullinger mantinha com eles constante correspondência, tendo escrito mais cartas que todos os outros reformadores reunidos. Para aumentara a extensão da influência do Protestantismo, Bullinger também escreveu extensivamente e, apesar de nunca ter produzido uma teologia sistemática completa, sua “Decades”, que consistia de estudos bíblicos, e seus muitos panfletos exerceram influência sobre protestantes tão distantes quanto os Reformadores ingleses e húngaros. Desta forma, Bullinger, como os outros Reformadores, produziu seu impacto sobre as consciências religiosas da Europa Ocidental.
Enquanto isso, na pequena cidade de Genebra, situada junto ao Lago Leman e, na verdade parte do Ducado de Sabóia, os acontecimentos, vinham se dirigindo para a Reforma, não obstante ter surgido primeiro como uma revolta dos cidadãos conta a autoridade do bispo. Quanto de interesse religioso os cristãos tinham, realmente, é difícil de avaliar. Mas o fato é que expulsaram seu bispo e, ao mesmo tempo, com a ajuda dos habitantes de Berna, seus vizinhos de língua francesa, forçaram o Duque de Sabóia a fugir para o norte. Em 1535, um certo Guillaume Farel (também conhecido como Willian Farel em inglês), pregador protestante refugiado que veio de Paris, chegou a Genebra onde, imediatamente, tomou providências no sentido de implantar uma reforma religiosa que teve resultados que ele, provavelmente, nunca previra.
A Disseminação das Idéias de Calvino
Caso algum leitor deste artigo venha a pensar que gastamos um tempo muito longo para chegar ao tema aqui apresentado, é necessário levar em conta dois fatos. Primeiro, não é possível compreender a disseminação das idéias teológicas de Calvino ou, mesmo suas outras idéias, a menos que tenhamos alguma noção do clima social e intelectual no qual ela ocorreu. Foi o ambiente radicalmente transformado que possibilitou a difusão rápida e ampla de suas idéias. E só na medida em que conhecemos a forma como as idéias de outros reformadores foram transmitidas, é que podemos compreender como num espaço de tempo menor do que vinte anos, as idéias de Calvino se propagaram mais largamente do que as de muitos, senão de todos os outros reformadores.
Para que possamos compreender as bases da influência de Calvino, precisamos nos reportar à sua educação inicial. Em primeiro lugar, estudando na Universidade de Paris, provavelmente sob a orientação de homens como John Major, o escolástico escocês, ele se interessou pelas disciplinas humanistas à medida que se preparava para ingressar no clero. No entanto, em função de uma controvérsia que seu pai teve com o bispo de Noyon, para quem vinha trabalhando como tabelião, Calvino, de repente, recebeu ordens para deixar o sacerdócio e mudar para Orleans, onde poderia receber treinamento como advogado. Em Orleans e Bourges, Calvino recebeu instrução sobre Direito do professor tradicionalista, Pierre de L’Estoile e do humanista italiano Andréa Alciat. Igualmente importante é o fato de Calvino poder ter-se convertido ao protestantismo enquanto estudava em Orleans ou Bourges, de forma que, após a morte de seu pai, Calvino retornou a Paris para continuar ali seus estudos humanistas. Sua perspectiva agora era bastante diferente da que tivera ao sair dali.
Nos primeiros tempos de sua vida cristã, Calvino recebeu a incumbência de escrever o prefácio de uma Bíblia francesa traduzida do latim por um primo seu, Pierre Robert Oliétan, e isto deve ter ocorrido aproximadamente na mesma época em que ele publicava seu primeiro trabalho importante, o seu comentário sobre o “De Clementia”, do filósofo romano Sêneca. Pouco depois disto, Calvino iniciou sua participação na disputa teológica ao escrever um ataque à doutrina que ensinava a “morte da alma”, anunciada por um dos grupos anabatistas. O mais importante neste momento, no entanto, foi seu pequeno livro de sete capítulos, escrito para auxiliar grupos de estudo, livro no qual divulgava doutrinas bíblicas visando a defendê-las de interpretações errôneas. Este livro era a sua “Instituta da Religião Cristã”, publicado em Basiléia, em 1536. Era o início de uma longa série de sete edições revistas e aumentadas até 1559.
A intenção original de Calvino era passar sua vida estudando e escrevendo sobre teologia e filosofia; contudo, não seria assim. Quando de passagem por Genebra foi, na verdade, detido por Guillaume Farel que insistiu com ele para que o ajudasse a implantar a Reforma naquela cidade. Apesar de relutante, Calvino, afinal, consentiu. Ele e Farel, no entanto, buscavam uma Reforma tão absolutamente completa, não só em questões de fé como também nas de moral, ou seja, nas de comportamento e costumes. Por isso, em 1538, foram obrigados a se retirar. Calvino, sem dúvida, recebeu sua expulsão com grande prazer, esperando encontrar em Estrasburgo a paz e o sossego para estudar. Isto, no entanto, não aconteceria, pois Martin Bucer constrangeu-o a assumir o pastorado da congregação de refugiados franceses naquela cidade, fazendo-o também participar de alguns encontros entre protestantes e católicos que ocorriam naquela época. Para completar, quando o Cardeal Sadoleto escreveu ao povo de Genebra, induzindo a população a retornar ao aprisco romano, mandaram sua carta para Calvino, pedindo-lhe que a respondesse. Ele o fez, e com grande eficiência.
Em parte, como conseqüência da resposta de Calvino a Sadoleto em 1540, momento em que Genebra se encontrava em estado de virtual anarquia, o Conselho da cidade decidiu chamar Calvino de volta para ser seu orientador e guia. Quando Calvino respondeu que não desejava retornar, as autoridades de Genebra escreveram a Farel, que havia partido para Lausanne, e ele, finalmente, persuadiu Calvino a retornara a Genebra em 1541. Depois do seu retorno, Calvino permaneceu em Genebra até sua morte, em 1564. Foi desta pequena cidade – na cabeceira do rio Ródano, cidade de pouco prestígio econômico, político e intelectual -, que Calvino exerceu grande influência sobre a Reforma religiosa da Europa Ocidental, sentindo-se, ainda hoje, os efeitos deste movimento. Em seus cinqüenta e cinco anos de vida, Calvino provocou impacto em sua própria geração, e nas gerações posteriores foi um impacto igualado por muito poucos na história. A questão que se levanta é: como e por que foi ele capaz de provocar tal impacto? Os Calvinistas, obviamente, responderiam, como o fez John Knox, que ele era um “notável servo do Senhor”. Contudo, houve também alguns fatores circunstanciais de seu trabalho e uma situação que, pela providência de Deus lhe deram condições para exercer sua influência tão ampla e efetivamente.
É provável que o fator mais importante na divulgação das idéias de Calvino tenha sido o próprio caráter dele. Calvino era um pensador e escritor sistemático. Quando se lê, mesmo a primeira edição das Institutas, escrita quando ele tinha vinte e cinco anos, fica-se impressionado com o estabelecimento cuidadoso de sua posição e de suas afirmações. Mesmo que alguns acusem a Calvino de ser um racionalista, a verdade é que ele era lógico em seu raciocínio, procurando evitar deduções e analogias falsas. Contudo, ao mesmo tempo, ele estava totalmente preparado para reconhecer que não tinha todas as respostas, uma vez que lidava com o mistério do Próprio Deus. Agindo assim, estava sempre disposto a traçar uma linha e dizer: “Até este ponto, e não além”. Nisto demonstrava um misto de lógica sistemática e um senso de mistério que respeitaria, e não investigaria. Suas Institutas, seus comentários bíblicos, suas cartas e seus panfletos, todo o seu trabalho traz estas características que podem não ter agradado alguns, mas que falaram ao coração de muitos.
Talvez, possamos compreender a estrutura de pensamento de Calvino se observarmos os princípios que regiam o seu pensamento teológico.
O seu princípio formal era a autoridade das Escrituras, do Antigo e do Novo Testamentos. Ele acreditava que a Bíblia era a Palavra de Deus escrita. Não obstante o esforço de alguns, em anos recentes, em incluir o apoio de Calvino a várias formulações doutrinárias sobre inspiração verbal, inerrância das Escrituras ou coisas semelhantes, Calvino não faz qualquer declaração explícita sobre este assunto. Sua opinião era que a Bíblia é reconhecida como a Palavra de Deus, não por deduções lógicas ou por observações e testes experimentais, mas porque o Espírito Santo testifica ao crente que ela é a Palavra de Deus. E, por ser a Palavra de Deus, deve ter autoridade final sobre todas as outras formas de conhecimento no que se refere à natureza do homem e à sua relação com Deus, seu Criador e Senhor. Quanto ao conhecimento e compreensão humana da natureza, o homem faz descobertas através de investigações experimentais, tendo sempre em mente, é claro, que a Bíblia estabelece a interpretação final para todas as coisas (cf. seus comentários sobre astronomia e Gênesis 1.16).
O princípio material do pensamento de Calvino era a soberania de Deus. Como Criador, Sustentador, Redentor e Rei, Deus é soberano sobre todas as suas criaturas, bem como sobre as ações destas. Esta doutrina estabelece a base e o fundamento para todas as demais. Caso alguma formulação doutrinária tendesse a transgredir a soberania de Deus, precisaria ser ou reformulada, ou rejeitada completamente.
Desta forma, sua declaração sistemática da fé cristã partiu, naturalmente, da doutrina da soberania de Deus. No entanto, todas as declarações de fé devem, necessariamente, ser orientadas e delimitadas pelos ensinamentos das Escrituras. Ao formular uma doutrina como a da eleição, por exemplo – não obstante estar ela baseada na soberania de Deus -, seria possível ceder à tentação de incluir muitas implicações lógicas, e Calvino considerou impróprio, na verdade, pecaminoso, ir além daquilo que a Bíblia diz sobre a questão. Ainda que esta limitação deixe, mesmo assim, certos paradoxos na fé cristã, esses paradoxos devem ser aceitos, disse ele, pois idéias que parecem inconciliáveis devem ser mantidas em tensão, uma vez que o Deus soberano falara por intermédio de Seus Profetas e Apóstolos. Mesmo que esta postura não satisfaça aos racionalistas, Calvino, seguindo seus dois princípios fundamentais, não poderia pensar de outra forma.
Calvino, no entanto, não era apenas um teórico desvinculado de qualquer interesse prático. Como advogado – função pela qual de certa maneira, se tornara a força motriz da reforma legislativa de Genebra e, como polemista, lutando constantemente para manter e fortalecer o Movimento Reformado -, ele precisava ser prático na utilização de seus princípios teológicos. Quando se lêem suas Cartas, suas Institutas, seus Comentários e seus Panfletos, tem-se a impressão de estar diante de um homem muito ligado aos fatos que ocorriam em seu mundo. Seus panfletos sobre astrologia e sua carta sobre a questão da usura, refletem pensamentos práticos, da mesma forma as alusões que fazia de seus textos em seus sermões. Não é de surpreender, portanto, que não só os estudiosos, mas também o obstinado negociante de seus dias respondessem com considerável entusiasmo às suas idéias.
Para entender a ampla influência de Calvino, devemos observar não apenas o seu modo de expressar-se e sua maneira de pensar, mas também os meios de que se utilizou para comunicar suas idéias. Pregações e cursos foram os meios básicos de propagação de seus pensamentos; de igual importância foram seus contatos pessoais e, mais importante que tudo, foram seus escritos. Será necessário examinarmos todos estes meios de comunicação se quisermos compreender como ele teve, e por isso ainda tem, uma força tão abraangente sobre o pensamento Ocidental. Mais do que isto, precisamos adquirir alguns conhecimentos a respeito daqueles a quem ele influenciou; daqueles que aceitaram sua teoria e a colocaram em prática no século dezesseis.
Como já foi mencionado, a pregação era fundamental na exposição e na comunicação das idéias de Calvino. Neste aspecto, Calvino estava de pleno acordo com Lutero, Bullinger, Bucer, e com a maioria dos outros Reformadores. Poder-se-ia quase dizer que a reforma trouxe o renascimento da pregação. Calvino, aparentemente, começara a pregar logo depois de sua conversão, pois, segundo a tradição afirma, ele costumava pregar em algumas igrejas em Bourges ou perto de Bourges, quando era estudante. Ao voltar para Genebra, em 1541, a pregação se tornou sua principal ocupação, uma vez que assumira o púlpito da Igreja de Saint Pierre não apenas aos domingos mas, inclusive, por mais três vezes durante a semana. Este fato deu a ele grande oportunidade de apresentar sua interpretação das Escrituras para os cidadãos de Genebra bem como para os estrangeiros, tanto os que viviam na cidade, como para os que ali se encontravam apenas de passagem.
Provavelmente, devido ao fato de pregar com tanta freqüência, Calvino, ao que parece, não tinha o hábito de escrever seus sermões, senão esporadicamente, pois sabemos que, em certa ocasião, redigiu alguns sermões que havia pregado, mandando-os para Elizabeth I, rainha da Inglaterra. Seu procedimento normal parece ter sido o de gastar um tempo considerável pensando no significado do seu texto. Depois disto, subia ao púlpito preparado para fazer uma homilia sobre uma passagem de cinco a quinze ou vinte versículos. Isto consistia num rápido comentário sobre o texto, com uma aplicação de seu ensino essencial à vida cotidiana do cristão, mas especialmente voltada para o crescimento espiritual e para uma avaliação de sua relação com Deus.
De acordo com sua maneira sistemática de trabalhar, Calvino normalmente seguia o esquema de pregar sobre um determinado livro da Bíblia, do começo ao fim, capítulo por capítulo, domingo após domingo. Isto significa que havia continuidade nos seus ensinamentos, tanto em relação à explanação do texto como na aplicação das Escrituras. Calvino tinha o cuidado de manter suas explanações, bem como suas aplicações, dentro do contexto do livro como um todo e, também dentro do contexto de sua situação histórica. Não interpretava as Escrituras alegoricamente. Sempre trazia os ouvintes de volta ao fato de que o centro da vida cristã é o próprio Cristo.
Os ouvintes de Calvino, freqüentemente, expressavam o desejo de ter cópias impressas de seus sermões, para sua própria leitura ou para dá-las a outros, mas Calvino não cedia, em parte por redigir apenas alguns de seus sermões. Em conseqüência disto, e apesar de sua oposição, alguns dos membros de sua Congregação contrataram um certo Raguenier de Bar-sur-Seine, um refugiado francês, para anotar os sermões de Calvino em uma espécie de taquigrafia. Alguns impressores de Genebra quiseram, então, imprimir estes sermões, ao que Calvino foi firmemente contrário, a princípio. Afinal, em 1557, deu a Conrad Badius, cunhado do editor Robert Estienne, permissão para imprimir sua série de sermões sobre os dez mandamentos. No ano seguinte, outra vez, depois de muita pressão e discussão, permitiu a publicação de seus sermões sobre a vida e a obra de Cristo. Muitos destes sermões nunca foram publicados, tendo sido descobertos apenas recentemente. Contudo, os sermões publicados foram logo traduzidos para muitas outras línguas vernáculas e se tornaram um importante meio para a divulgação ampla dos ensinamentos do Reformador de Genebra.
Foi assim que os sermões de Calvino passaram a cumprir uma dupla função. Naturalmente, influenciavam aqueles que os ouviam, pois sabemos que, depois das pregações, as pessoas se aglomeravam ao redor de Calvino para conversar com ele sobre o que ele havia dito e, em geral, formavam uma procissão para acompanhá-lo até sua casa. Mas os sermões influenciavam também os que os liam em outros países, quer no original francês, quer em suas próprias línguas. Com relação a este fato, é interessante notar o que Richar Bannatyne, secretário de John Knox, relata. Diz ele que enquanto Knox estava em seu leito de morte, alguns sermões do “Messire João Calvino” eram lidos para ele em francês, língua que ele compreendia muito bem. Eram, provavelmente, os sermões sobre “La passion de Notre Seigneur”. Os sermões eram, portanto, o principal meio de transmissão das idéias de Calvino.
Profundamente relacionada com seu trabalho de pregador era sua atuação como professor. Quando, em Estrasburgo, ele esteve em íntimo contato com Jean Sturn e Martin Bucer, ambos muito interessados em desenvolver um sistema educacional que proporcionasse instrução a todas as crianças da cidade. Ao voltar para Genebra, ele trabalhou por algum tempo com base nesta idéia, até que, finalmente, ele em 1559, estabeleceu um completo sistema de educação. A partir de seus esforços, surgiu a Academia de Genebra, instituição que, mais tarde, se tornaria a Universidade da cidade. Calvino não apenas desempenhou proeminente papel no estabelecimento da Universidade, mas foi também um dos seus professores de teologia, ensinando aqueles que planejavam entrar para o ministério. Durante muitos anos, ele fez conferências, fazendo exposições sobre vários livros da Bíblia. O responsável pela Academia era Theodore Beza, que viera de Lausanne.
O trabalho de Calvino, tanto como pregador quanto como professor, foi extremamente eficaz em Genebra, pois, estudando-se a história da cidade durante este período, pode-se ver que muito da mudança ocorrida ali foi provocada por suas atividades. É verdade que até 1555 ele enfrentou forte oposição às suas idéias, especialmente às que se referiam à disciplina da Igreja, oposição por parte daqueles que discordavam tanto de suas doutrinas quanto de seus conceitos a respeito de moralidade. Contudo, a partir do momento em que assumiu o principal púlpito da cidade, do qual pregava cerca de cinco vezes por semana, além das preleções bíblicas que fazia, Calvino passou a dispor do meio mais eficiente para instilar suas idéias. Como resultado, por volta de 1555, ele ganhou a batalha e, deste ano em diante, até sua morte em 1564, sua influência teológica e moral dominava Genebra.
Contudo, havia algo mais do que a influência geral que ele exercia sobre Genebra e além dela. A população da cidade, cerca de nove mil habitantes, quase se duplicara pelo número de refugiados que para ali afluíam a fim de descansarem das perseguições que sofriam em seus próprios países. A Congregação francesa era a maior e, em alguns aspectos, a mais impopular, mas havia também Congregações espanholas e italianas às quais foi acrescentada a Congregação inglesa sob orientação de John Knox, durante o reinado de Mary Tudor. Havia ainda aqueles que vinham estudar com Calvino e com seus colegas de magistério. Vinham de muitos países diferentes, mas, particularmente, da França, Holanda, Alemanha, Inglaterra e Itália. Muitos deles voltaram para seus próprios países mais tarde, continuando ali o trabalho da Reforma. Depois da fundação da Academia, a afluência de estudantes se tornou ainda maior, na medida em que vinham estudar não apenas teologia, mas também direito, bem como para adquirir uma educação geral. Quando estes estudantes retornavam para seus lares, levavam consigo as idéias de Calvino, as quais buscavam proclamar. Não era raro que terminassem suas carreiras na fogueira.
Não obstante, a maioria dos historiadores de Calvino enfatizam o valor de sua pregação e de seu magistério, e pouco parecem achar que sua relação com as pessoas fosse de alguma importância. Calvino é normalmente descrito como um homem muito austero, triste, e, mesmo, mal humorado. No entanto, o testemunho daqueles que visitaram Genebra, e tiveram contato com Calvino, nos oferece uma imagem muito diferente: Ele, ao que tudo indica possuía um senso de humor que tinha um quê de satírico, como se pode ver através de alguns de seus escritos como, por exemplo, seu panfleto sobre a necessidade de se fazer um inventário de todas as relíquias religiosas da Europa. Apesar de sofrer de uma série de doenças crônicas, inclusive de úlcera, Calvino parece ter sido muito hospitaleiro. Um relato conta que ele era saudável o suficiente para gostar de jogar boliche. Acima e além de tudo isto, no entanto, o fato de ele ter conquistado a lealdade quase feroz de uma ampla variedade de tipos de personalidade, indica que era capaz de comunicar suas idéias de forma efetiva e dinâmica em seus relacionamentos pessoais.
Calvino recebia muitos visitantes que vinham das mais diversas regiões e passavam pouco tempo em Genebra, muito freqüentemente apenas para encontrarem-se com ele. John Foxe, o martirologista inglês, e o Bispo Coverdale são dois bons exemplos. Calvino estava também em constante contato com outros Reformadores, especialmente com Bucer, Bullinger e Melanchthon, com os quais sempre trocava idéias. Foi em conseqüência de seu relacionamento com Bullinger que ambos assinaram o Consensus Tigurinus de 1549, no qual fazem a declaração de que “presença real” de Cristo, na Ceia do Senhor, é efetivada pelo Espírito Santo no momento em que o crente recebe os elementos. Desta maneira, foi definida uma posição intermediária entre a “consubstanciação”, defendida por Lutero, e a interpretação puramente simbólica de Zwínglio.
Além de seus contatos com estudantes e com outros Reformadores, Calvino mantinha volumosa correspondência, com homens e mulheres de toda a Europa, desde reis e seus conselheiros, até pessoas de classes baixas que lhe escreviam pedindo auxílio ou conselho.
Talvez, estas suas cartas sejam o melhor retrato do “verdadeiro” Calvino. Estas cartas eram sempre práticas e muito diretas. Ele escreveu uma carta para confortar John Knox quando Majorie, sua esposa, morreu; escreveu uma convicta carta de repreensão para Louis du Tillet, um velho amigo que desertara da causa reformada, retornando à Igreja de Roma; escreveu também cartas de incentivo para os que enfrentavam perseguições e conflitos por causa da fé, como foi o caso de cinco estudantes de Lausanne que iam ser mortos na fogueira de Lyon; escreveu cartas, dando conselhos a protestantes que planejavam fundar uma congregação e mandou também uma carta a um ministro que lhe escrevera pedindo conselho sobre problemas particulares. Em todas essas cartas, pode-se ver suas muitas facetas: sua ternura, sua compaixão, sua raiva ocasional para com aqueles que se provavam indignos de confiança e, também, sua integridade e força intelectual. Quase não há dúvida de que estas cartas tenham sido muito importantes, não apenas no sentido de manifestar sua personalidade como também no sentido de divulgar suas idéias por toda a extensão do território europeu.
Não obstante falarmos das pregações e do magistério de Calvino, de seu relacionamento pessoal e de sua correspondência, sem dúvida sabemos que o meio mais eficaz de que se valeu para difundir suas idéias, foram seus escritos formais. Pode-se dizer que os outros meios de comunicação eram a fonte de onde brotavam seus escritos formais, pois em mais de uma ocasião foi como resultado de suas próprias experiências como pregador, professor ou em conseqüência de seus contatos pessoais que ele sentiu a necessidade de escrever. E, foram seus escritos que tiveram a maior circulação e o efeito mais duradouro, como se pode observar no fato de muitos deles estarem sendo republicados em diferentes países e em muitas línguas diferente ainda no século vinte e vinte um.
Sem dúvida que, dentre todos os seus escritos, as Institutas da Religião Cristã foi, e ainda é, a mais importante. Publicado originalmente em 1536, foi revisada e republicada sete vezes tanto em Latim como em Francês, partindo de uma pequena monografia de sete capítulos que ele mesmo escreveu, para se tornar uma obra de setenta e nove capítulos na edição de 1559. No início, Calvino procurou seguir a ordem do Credo Apóstólico, mais tarde, no entanto, achando isto insatisfatório, mudou a estrutura da obra, expandindo e ajustando seu pensamento mais completamente a cada nova edição. Quando se lê o trabalho da última edição em inglês, editada por J. T. McNeil e Ford Lewis Battles, na Biblioteca de Clássicos Cristãos, atento para as referências às diferentes edições, pode-se observar facilmente que Calvino, o estudante incansável, acrescentava a cada nova edição os conhecimentos exegéticos e teológicos que acumulara desde a edição anterior. Estudando constantemente, tanto a Bíblia como escritores como Bernard de Clairvaux e muitos dos diferentes pais da Igreja, Calvino acrescentava um número cada vez maior de referencias a eles, edição após edição.
Da maior importância neste processo de divulgação foi o fato de que, a partir de 1541, Calvino estava preparando Comentários sobre vários livros da Bíblia, em função de suas pregações e suas aulas. Rejeitando o método alegórico quádruplo dos comentaristas medievais, e evitando as “admoestações” do Comentário de Lutero sobre Gálatas, Calvino seguiu a técnica tipicamente humanista da exegese histórico-gramatical, apegando-se firmemente ao contexto histórico dos livros e procurando entender exatamente o que eles estavam querendo dizer. Seu método era um método verdadeiramente empírico. Na medida em que acumulava mais conhecimentos com estes estudos, Calvino foi capaz de utilizá-los nas revisões de sua “Institutas”. No decorrer de toda sua vida, escreveu Comentários sobre a maior parte dos livros da Bíblia, tendo evitado alguns dos textos mais difíceis, como o de Cantares de Salomão e o Livro das Revelações ou Apocalipse. Calvino parece ter evitado fazer afirmações claras sobre o que estes livros verdadeiramente significavam. O conjunto de seus Comentários foi finalmente editado em Genebra, no final da década de 1570 e no início da década de 1580, sendo amplamente disseminados.
Calvino era também um panfletário. Uma das primeiras edições de sua coleção de panfletos, de posse do autor deste artigo, forma um volume, in-fólio, de mais de mil páginas. Seus panfletos eram, não só numerosos, mas muito variados também em temas e objetivos. Um dos principais motivos que levavam Calvino a divulgar, em formato pequeno, o significado de algumas das doutrinas e práticas cristãs, era seu desejo de esclarecer o povo. Um de seus panfletos, “Forme dês Prières (=Forma de Orações), era, na verdade, um guia de culto para a Igreja de Genebra, mas teve considerável influência sobre a prática litúrgica das Igrejas Reformadas em Genebra, na França bem como na Escócia, Holanda e em outros países, onde suas idéias haviam sido aceitas. Talvez, o mais panfletário de todos os seus panfletos tenha sido sua explanação sobre o significado da Ceia do Senhor. Este panfleto foi parcialmente responsável pela assinatura do “Consensus Tigurinus”; Lutero afirmou que este teria evitado seu conflito com Zwínglio.
O motivo essencial de Calvino, para escrever panfletos, no entanto, parece ter sido a polêmica. Naturalmente que um de seus alvos principais era a Igreja Católica Romana. Foi em 1541 que ele escreveu sua carta ao cardeal Sadoleto, o qual instara com os genebreses para que retornassem à Igreja Romana. Nesta carta, Calvino mostra que Roma desertara do Cristianismo bíblico. Dois anos mais tarde, publicou seu artigo satírico sobre as relíquias e outro artigo constrangendo o Imperador Carlos V a parar de perseguir os protestantes. Depois das primeiras sessões do Concílio de Trento, Calvino escreveu um panfleto atacando suas decisões. Não podemos nos esquecer também, de que as Institutas, com sua carta dedicada a Francisco I da França, rogando tolerância para com os protestantes, era, em si mesma, um panfleto, ainda que um panfleto bastante volumoso.
Calvino não se limitou a controvérsias com os católicos romanos. Um dos seus primeiros panfletos, intitulado PSYCHOPANNICHIA, atacava a doutrina da “morte da alma” defendida por alguns anabatistas. Em um panfleto posterior, lançou alguns dardos sobre um grupo de anarquistas espirituais conhecidos como os Libertinos. Em outro escreveu uma crítica devastadora à astrologia, que era tão popular naquele dias quanto o é hoje e, em grande parte, pelo mesmo motivo: o declínio na fé cristã. Assim, mesmo imerso em questões de pregação e magistério, mesmo enquanto escrevia Comentários e revisava suas Institutas, Calvino encontrava tempo para abordar os problemas temporâneos enfrentados pelo movimento protestante. É de se perguntar como ele conseguia fazer tudo isto? Não surpreende que Calvino tenha morrido aos cinqüenta e cinco anos!
A maior parte de seus panfletos aparecia primeiro em Latim, pois eram endereçados à classe mais instruída; aos acadêmicos. Contudo, pouco tempo depois surgiam também em francês, traduzidos, às vezes, pelo próprio Calvino, e às vezes por algum dos editores de Genebra. Normalmente, depois de um panfleto surgir em francês era logo publicado também em língua vernácula. Uma das primeiras traduções foi a de seu panfleto contra o papa Paulo II, que surgiu em alemão em 1541. Em 1545, seu Catecismo foi publicado em Latim, Francês e Italiano, quase que simultaneamente. Em 1546, houve uma versão tcheca de um folheto, e a partir de 1548 seus panfletos começaram a surgir em Inglês, Espanhol, Holandês e mesmo em Grego. Desta maneira, tiveram um efeito bem amplo sobre o movimento da Reforma.
Os escritos de Calvino tinham uma grande gama de leitores porque eram publicados tanto em Latim como em várias outras línguas vernáculas. Era natural que, sendo em Latim a língua dos eruditos, acadêmicos e teólogos pudessem ler seus artigos logo que surgiam em Latim. Isto, no entanto, teria tido relativamente pequeno efeito sobre o povo comum. O importante é que havia então uma classe média letrada, que podia ler em sua própria língua, mesmo que fossem incapazes de fazê-lo em Latim. Foi a esta classe que Calvino fez seu maior apelo. Tendo vindo da classe média, possuindo vivência profissional, ele sabia falar àquelas pessoas tão bem quanto aos acadêmicos, ganhando sua atenção desde o início.
Um dos fatores importantes no sucesso de Calvino em propagar suas idéias, foram seu estilo e método de apresentação. Ele não estava interessado em fazer um nome para si mesmo ou em tornar-se uma figura literária proeminente. Sua primeira preocupação era a de ser capaz de fazer com que suas idéias chegassem até o leitor. Ele queria ser claro como cristal naquilo que tinha a dizer. Acreditava que a característica mais importante de um bom estilo era a clareza, e praticava aquilo que pregava. Como resultado, era muito bem compreendido tanto por aqueles que o ouviam como por aqueles que liam seus trabalhos. Mesmo hoje, seu estilo, quando comparado com o de muitos de nossos contemporâneos, é mais claro e mais direto. Sua clareza e precisão, sem dúvida, desempenharam um importante papel na difusão de seu pensamento.
Contudo, Calvino não deve sua influência apenas a seu estilo. Conforme destacou Pierre Chaunu, os movimentos de Reforma, na Igreja, passam por dois estágios. O primeiro é evangelístico, e o segundo sistemático. Lutero foi o evangelista da Reforma. Além do mais, ele era obviamente teutônico em sua abordagem, e conservador quase ao ponto de ser arcaico, seguindo o princípio de que só deveria ser mudado, na Igreja, aquilo que conflitasse com a Palavra de Deus. Calvino, por outro lado, educado como humanista e advogado, foi o sistematizador Par Excellence. Mais do que isto, sua insistência em que, no campo da teologia e da liturgia da Igreja, nada que não fosse ordenado pelas Escrituras deveria permanecer, era muito mais radical do que qualquer posição defendida por Lutero. Além do mais, Lutero permitia que as autoridades civis tivessem sobre a Igreja uma influência muito maior do que a que Calvino jamais lhes permitiu.
Foi assim que todo o enfoque e posicionamento de Calvino se adaptaram muito mais rapidamente à estrutura de pensamento dos elementos mais radicais do cenário da Europa Ocidental.
Como Lutero, Calvino também estava interessado primeiramente nos aspectos religiosos e teológicos da Reforma e, na maior parte dos pontos, Calvino se sentia de acordo com seu precursor alemão. Há, em seus trabalhos, freqüentes referências de apreciação às realizações de Lutero, e Calvino constantemente reiterava as doutrinas fundamentais pregadas pelo Reformador alemão sobre a autoridade exclusiva das Escrituras e sobre a justificação só pela fé. No entanto, em função de seu enfoque mais sistemático, pode-se mesmo dizer, do seu enfoque científico, Calvino não apenas tornou mais claro o ponto de vista de Lutero, como também desenvolveu outros aspectos da fé cristã que não haviam sido abordados por Lutero. Nesse sentido, foi além do reformador alemão, criando uma estrutura teológica mais ampla, estrutura que satisfazia a muitos, inclusive a alguns dos mais veementes defensores de Lutero, como Phillip Melanchthon. Esta foi uma das razões pelas quais o Calvinismo suplantou o Luteranismo em muitos países, como por exemplo, na França, Inglaterra, Escócia e Holanda.
Foi também por causa de seu enfoque teológico mais amplo e sistemático que Calvino exerceu uma considerável influência sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, de forma geral, sobre sua própria geração e sobre as gerações subseqüentes. Ele acreditava que a teologia, de tal forma, envolve todo o pensamento humano, que todo o pensamento pode estar sujeito ou submisso a Jesus Cristo. Desta maneira, observa-se o poderoso impacto que ele teve nas universidades, não apenas de uma maneira geral, mas muito concretamente no trabalho de homens como Pierre de la Rameé, Jerome Zanchius, Andew Melville, e de muitos outros. Estes homens procuraram aplicar a teoria Calvinista de Vida-e-Mundo a todas as áreas do pensamento, esforçando-se por apresentar suas interpretações das várias áreas do pensamento, com vistas sob dois aspectos: sub specie seternitatis e soli Deo Gloria.
Calvino, como declarado anteriormente, não escrevia apenas para os acadêmicos, nem seu trabalho era mero exercício teórico. Ele era um homem prático que acreditava que o pensamento precisa produzir ação. Em Genebra, lutou pela organização de uma cidade que manifestasse, em sua forma de vida, uma cultura que confessasse o Senhorio de Jesus Cristo em todas as suas atividades. Este princípio tornou-se o ponto predominante no pensamento de seus seguidores em outros países. O resultado disto foi que calvinistas da Inglaterra, Escócia, França, Holanda e América, vieram a ser considerados políticos radicais, pressionando constantemente para o estabelecimento de uma forma democrática de governo. Alguns chegavam ao extremo de afirmar que os magistrados subordinados, que constituíam os Estados Gerais ou o Parlamento, poderiam mesmo destronar um rei – e, em algumas ocasiões chegaram a fazê-lo. Por outro lado, foram os calvinistas que, na França, Inglaterra e na Holanda, se mostraram dispostos a tomar a iniciativa de aventuras comerciais fora do continente europeu, mostrando-se prontos a arriscar até mesmo suas próprias vidas na colonização de novos países. Eles é que estavam sempre prontos a enfrentar o trabalho árduo para atender ao chamado para o qual Deus os vocacionara, não importando o que fosse. Qualquer que tenha sido o erro cometido pelo sociólogo Max Weber, em sua teoria sobre a relação entre o Calvinismo e o surgimento do Capitalismo, este erro certamente não foi sua ênfase sobre a importância que a doutrina da vocação tem no pensamento Calvinista, uma doutrina cujos efeitos temos podido observar de país para país, até o momento presente.
Precisamos reconhecer também que, em função deste sentimento de vocação, a influência de Calvino não foi originalmente gerada por organização ou propaganda de massa. Sua influência foi espalhada através de indivíduos devotos que haviam sido imbuídos da visão de Calvino a respeito da soberania de Deus e de seu chamado para o trabalho de Deus, tendo respondido a este chamado em fé e em obediência. Acadêmicos como Zanchius, Ramée e Melville; cientistas como Ambroise Pare, Bernard Palissay e Francis Bacon; artistas como os mestres holandeses do final do século dezesseis, e muitos outros, todos desempenharam seu papel. Algumas vezes, a influência calvinista levou à organização de grupos como o exército huguenote de Coligny e Henrique de Navarra e o exército dos Lordes escoceses da Congregação de Jesus Cristo, mas, em última instância, o impacto de Calvino surgiu da convicção de indivíduos crentes que confessavam a fundamentação de suas idéias na autoridade suprema da Bíblia, a Palavra de Deus.
O impacto de Calvino não ficou limitado a seus próprios dias, mas continuou nos séculos subseqüentes, em diversas regiões do mundo, à medida que a Europa se expandia, quer por comércio, quer por conquista. Na última metade do século dezenove e início do século vinte, esta influência tendeu a desaparecer em face da modificação dos padrões de pensamento provocada pelo humanismo ateu e pelo materialismo. Em anos recentes, no entanto, o Calvinismo vem passando por um reavivamento de proporções consideráveis. Está começando, uma vez mais, a exercer influência no cenário mundial. Esta obra traz, de alguma forma, o testemunho deste ressurgimento.
Não deixe de ler SUÍÇA: TRIUNFO E DECLÍNIO, o próximo artigo desta série a ser postado.
O Luteranismo também se espalhou bastante rapidamente nos primeiros tempos da Reforma, mas logo começou a recuar como maré vazante, com exceção feita apenas às regiões mais teutônicas como a Alemanha e Escandinávia. As idéias de Calvino, por outro lado, penetravam e, freqüentemente, suplantavam as de Lutero em regiões tão diversas quanto as da França, Escócia, Holanda e Hungria. Apesar das dificuldades da geografia física, dos obstáculos causados por oposição política e pela perseguição instigada por autoridades católicas, o Calvinismo conseguiu expandir sua influência e ampliar suas fronteiras a ponto de vir a ser considerado o inimigo numero um da Igreja Católica Romana e dos governos absolutistas. Embora haja inúmeras razões que demonstram este fato, um fator muito importante é constituído pela forma e pelos meios utilizados na propagação do Calvinismo por toda a Europa do século dezesseis.
Ao tentarmos compreender esta questão da comunicação, devemos reconhecer que a transmissão de idéias depende muito da sociedade em que estas idéias são expressas. Temos tido muito bons exemplos deste fato nos jargões criados por estudantes universitários e pela geração hippie dos anos sessenta. Além disto, a questão de tecnologia da comunicação e da transmissão de idéias na sociedade hoje é de importância crucial. Haja vista que hoje o computador está assumindo uma função completamente revolucionária neste mesmo campo. No entanto, dada à técnica desta maneira de comunicar, ela é compreendida por muitos poucos, ou seja, apenas por aqueles que foram tecnicamente treinados para usá-la. Desta forma, para compreender o sucesso da transmissão das idéias de Calvino, e para explicar parcialmente o sucesso obtido em divulgá-las, é necessário que olhemos primeiro os antecedentes sociais da Reforma e o desenvolvimento dos meios de comunicação.
Desenvolvimento no Final do Período Medieval e no Início dos Tempos Modernos
Os dois séculos que se passaram entre 1300 e 1500 foram séculos de mudanças rápidas, e mesmo revolucionárias, na sociedade da Europa Ocidental. Se Petrarca ou Dante pudessem voltar para conversar com Erasmo, teriam se encontrado em um mundo completamente diferente daquele que haviam conhecido. De um lado, a Europa havia sofrido o ataque devastador da Peste Negra ou peste bubônica que matara um terço da população de alguns países. Esta tragédia produzira efeitos e implicações de longo alcance. Precisamos nos lembrar também de que foi durante estes séculos que eclodiu a Renascença, que o Grande Cisma e o Movimento Conciliatório na Igreja seguiam seu curso e, finalmente, que descobertas geográficas modificaram muitas das perspectivas dos europeus ocidentais – inclusive a descoberta da América e a circunavegação do Cabo de Boa Esperança, e a abertura posterior de um caminho direto para o distante Oriente. Por volta de 1500 a Europa era um continente diferente, com uma sociedade fundamentalmente modificada.
Um dos efeitos da Peste Negra foi o declínio da economia na Europa Ocidental, quando diminuiu a demanda de bens, assim como a mão-de-obra que os produzia. Contudo, por volta da metade do século quinze, na medida em que as pessoas se tornavam mais resistentes à doença, as populações começaram a crescer e, mesmo que seu número não tenha chegado aos níveis anteriores à praga – senão quando o século dezesseis já ia bem adiantado -, a indústria e o comércio começaram a se recuperar. Novas técnicas criadas nas indústrias de manufatura de tecidos de lã, nas de mineração do carvão e nas de produção de armamentos, tudo contribuía para estimular a economia; especialmente nos países do noroeste, como a Inglaterra e Holanda. Em função disto, aumentou a necessidade de um fluxo maior de dinheiro, resultando no aperfeiçoamento dos métodos de financiamento, e no surgimento de importantes empresas de operações bancárias, como a dos Médicis de Florença e a dos Fuggers de Augsburg. Todos estes fatores contribuíram para a expansão geral do comércio depois de 1450, o que levou, por sua vez, à formação de uma rede de comunicações que viria a desempenhar papel muito importante na transmissão de idéias durante o século dezesseis.
Esta rede surgiu também em função das mudanças de classe que estavam ocorrendo em algumas regiões da Europa, em conseqüência dos desenvolvimentos econômicos. Apesar de sempre ter havido mercadores e artesãos aos quais podemos chamar de classe média por estarem entre a nobreza e a classe dos servos, não foi senão na última parte do século quinze que a verdadeira classe média começou a surgir. Ao invés de alguns poucos comerciantes e banqueiros, um número muito maior de homens interessados em comércio, mesmo que em escala bastante pequena, começou a desempenhar esta função na sociedade. Ao noroeste da Europa, em países como a Inglaterra, Holanda e Alemanha, a nova classe de homens começava a desalojar a nobreza de sua posição de comando da sociedade. Enquanto a nobreza sofria por causa da inflação que grassava, a nova classe comercial vicejava em decorrência da expansão econômica e se tornava o suporte de reis que tinham uma necessidade cada vez maior de dinheiro vivo.
Politicamente, os séculos quatorze e quinze viram o rápido crescimento de um sentimento de nacionalismo em muitas regiões. Foi o período do esforço de expansão dos ingleses, tanto nas ilhas Britânicas como na França, do outro lado do Canal, esforços que resultaram no desenvolvimento e na consolidação do sentimento nacionalista não apenas dos ingleses, mas também dos franceses e escoceses. Já no final do período, o nacionalismo espanhol fortaleceu-se na luta contra os mouros. Este nacionalismo popular, por sua vez, auxiliou o surgimento do que veio a ser conhecido como as “novas monarquias”. Os monarcas das nações em desenvolvimento, com o objetivo de consolidarem seu poder, tanto dentro de seus próprios países como na oposição a inimigos externos, precisavam de uma administração e de exércitos que só podiam ser mantidos com o apoio financeiro da nova classe média. Desta forma, o equilíbrio político do poder estava começando a se modificar em alguns países.
Uma outra mudança, que ocorreu entre 1300 e 1500, teve lugar na orientação do pensamento ocidental. A teologia de Thomas de Aquino, com sua aceitação da realidade dos universais, nos quais participavam os particulares, perdeu a primazia com o surgimento de idéias “modernas” anunciadas por homens como Marsílio de Pádua e Guilherme de Occam. O individual ou o particular passou então a ser considerado como a única entidade real, ao passo que os universais passaram a ser considerados apenas como classificações nominais. Este novo modo de pensar foi ainda mais enfatizado com o interesse demonstrado pelo pensamento clássico expresso nas então recém-descobertas ou recém-estudadas obras de autores gregos e latinos. O humanismo renascentista, com sua ênfase sobre o indivíduo, particularmente sobre homem de “virtu”, deu uma força adicional ao ponto de vista de que o indivíduo é a figura central de qualquer conceito a respeito do homem e de suas atividades, visão esta concretamente demonstrada por Pico dela Mirandolla em sua “Oration on the Glory of Man” (= “Oração à Glória do Homem”).
Todas estas mudanças tiveram sua influência sobre o padrão de comunicação. Certamente, a Idade Média tinha seu próprio método de transmitir idéias, mas esse método alcançava um número relativamente pequeno de pessoas e, por isso, o movimento de idéias era bastante limitado. Considerando que a grande maioria das pessoas era analfabeta, a sociedade medieval era uma sociedade basicamente oral e visual. A Igreja transmitia seus ensinamentos às pessoas através de quadros, imagens e cerimônias. Mesmo a pregação não era comum. Normalmente, quando os governos precisavam registrar muitos atos, privilégios e eventos, usavam os serviços do clero, a única classe letrada. As novas idéias, desenvolvidas nas escolas daqueles dias por pensadores revolucionários, como Pedro Abelardo, eram geralmente transmitidas por alunos que haviam estudado com estes homens. Os livros e documentos daquele tempo, produzidos em pergaminho até 1300, eram normalmente escritos em latim. Desta forma, sua leitura era limitada àqueles que tinham educação universitária e dinheiro suficiente para comprar artigos extremamente caros.
O século quinze assistiu a uma mudança radical de mentalidade. De um lado, a redescoberta da literatura clássica despertou um novo interesse pela educação e pela cultura, interesse fortalecido pelo uso do papel na produção de livros, fato que reduziu consideravelmente seu preço. Além disso, apesar dos conflitos internacionais constantes, o surgimento de estados nacionais facilitou um pouco a circulação pela Europa, resultando no aumento do número de estudantes que se deslocavam de uma universidade para outra. O fato de Copérnico, depois de estudar na Polônia, poder ir estudar ciência na Universidade de Pádua, na Itália, demonstra o quanto a situação estava se modificando. À medida que a classe média crescia, era indispensável, que os que a integravam, tivessem ao menos uma educação elementar para poderem comerciar e negociar. Um novo grupo de leitores começou a surgir; contudo, um público capaz de ler no vernáculo e não no latim das universidades.
Tudo isto fornecia as bases para o mais revolucionário desenvolvimento do século quinze: a invenção da imprensa. No início do século, havia sido divulgado o uso de blocos de madeira entalhada para a reprodução de ilustrações e de textos relativamente curtos. Apesar de os livros poderem ser reproduzidos desta maneira, sua publicação era lenta e bastante dispendiosa. Foi por volta de 1450, no entanto, que John Gutenberg, um alemão de Mainz, desenvolveu uma liga de metal que podia ser usada para fazer tipos móveis. O resultado foi uma verdadeira revolução em todo o processo de transmissão e comunicação de idéias.
Trabalhando primeiro em Mainz e depois em Estrasburgo, Gutenberg conseguiu uma reputação bastante rápida para suas publicações e, conseqüentemente, outros indivíduos destas duas cidades passaram a se dedicar também ao ofício de impressor. A partir da Alemanha, as técnicas do novo processo logo se espalharam para a Itália, e Veneza se tornou o principal centro de obras impressas. Pouco tempo depois, outras cidades, como Basiléia, na Suíça, seguiram seu exemplo, de forma que por volta de 1500 a imprensa se tornara relativamente comum. Estima-se que entre 1450 e 1500 tenham sido produzidos entre 10.000 a 15.000 textos diferentes, atingindo um total de quinze a vinte milhões de cópias. O uso do papel e do tipo móvel deu, à produção de livros, um caráter completamente diferente do que tivera antes de 1450.
Além de tornar possível a produção de livros baratos e em grande quantidade, a imprensa contribuiu para o surgimento de uma revolução intelectual em muitos outros aspectos também. Embora seja verdade que, até 1500, a maioria dos livros impressos eram antigas obras de autores latinos, obras novas começaram a surgir com freqüência cada vez maior, nas línguas vernáculas. Isto significa que os novos métodos de produção de livros visavam aos novos leitores. Estas obras não eram mais produzidas só para as pessoas que tinham formação universitária, mas também para aqueles que só podiam ler em sua língua materna. Talvez, de igual importância, como apontado por Marshall McLuhan, uma nova disposição de espírito foi gerada pela revolução da imprensa. Conquanto seja um pouco difícil pensar segundo o padrão linear de pensamento de McLuhan, resta pouca dúvida de que a ênfase passou a ser dada muito mais à palavra escrita e à sua compreensão intelectual. A comunicação visual tornou-se menos importante do que a capacidade de compreender o raciocínio intelectual ou, mesmo, abstrato.
A nova classe de leitores, tendo recebido um tipo de treinamento diferente daquele que era dado um século antes, começava agora a pensar em diferentes termos, podendo avaliar e absorver novas idéias. Além disto, com a possibilidade de produzir livros mais rápida e economicamente, as novas idéias podiam ser espalhadas mais facilmente, alcançando classes sociais que, até aquele momento, haviam estado à margem de tais questões. Mesmo que muitas pessoas não pudessem ler, outros liam para elas, dando-lhes condições para aceitar e avaliar não apenas a necessidade de instrução, mas também as idéias contidas nos livros. Esta foi a base sobre a qual se deu a transmissão dos ensinamentos dos Reformadores protestantes e, particularmente, dos de João Calvino.
Desenvolvimento do Século Dezesseis
O século dezesseis viu o clímax do desenvolvimento dos dois séculos precedentes, nos quais o novo padrão cultural se tornara completamente declarado, preparando o advento da Idade Moderna. Assim, para entendermos o que aconteceu no século dezesseis, precisamos ter em mente o que aconteceu antes e reconhecer que novas formas e elementos estavam influenciando a cultura e a civilização da Europa Ocidental.
Uma das características do século dezesseis foi a aceleração do processo que tivera início cerca de cinqüenta ou cem anos antes. A inflação, por exemplo, parece ter sido acelerada, em parte devido à afluência do ouro vindo do Novo Mundo, aliada à reabertura das minas de prata do Tirol, de onde os Fuggers de Augsburg retiraram muito de sua riqueza. O resultado desta espiral inflacionária, aliada ao aumento da população e a outros fatores, foi a aceleração do desenvolvimento do comércio com seu conseqüente estímulo ao crédito, operações bancárias e investimentos. Consta, ainda, que com a economia européia dirigida para o Oeste mais do que para o Oriente Próximo, e devido ao rápido desenvolvimento econômico de regiões como a Holanda, o Vale do rio Reno e partes das Ilhas Britânicas, o peso da economia européia voltou-se mais rapidamente do que antes para o Noroeste.
Estas mudanças econômicas produziram mudanças correspondentes nas relações das classes sociais assim como em sua distribuição geográfica. No decorrer do século dezesseis, a nobreza começou a sentir que sua posição econômica se tornava mais difícil e cada dia, pois, apesar de serem ricos em terras, tinham pouco dinheiro vivo. Por esta razão, com freqüência, estavam direta o indiretamente, na dependência financeira dos elementos da população que se dedicavam ao comércio. Diretamente, eles podiam obter empréstimos dos comerciantes ou banqueiros, e, indiretamente, eles podiam se alistar em exércitos mercenários ou no serviço dos monarcas cujas rendas tinham uma proporção cada vez maior das taxas cobradas à classe média. Isto significa que “quem paga a conta, dá o tom”. As classes mercantis, aliadas a grupos de profissionais liberais, como os advogados, estavam desta forma ganhando cada vez maior influência sobre o governo, fenômeno particularmente visível nas regiões do Noroeste.
As mudanças sociais se refletiam na arena política, mesmo nos países onde o absolutismo da Nova Monarquia se tornara mais óbvio. A dependência que o Imperador Carlos V tinha do apoio financeiro dos Fuggers para a guerra contra os turcos ou contra os luteranos, e a dependência que Francisco I tinha dos comerciantes de Paris tanto para manter seu poder dentro de seu próprio país, quanto para a guerra contra o imperador, demonstram a importância que a classe dos comerciantes e banqueiros havia assumido para os monarcas, que já não podiam mais depender de serviços feudais ou de seus vassalos, quer na qualidade de soldados, quer na qualidade de conselheiros. Na verdade, foi a recusa dos banqueiros em fornecer mais fundos para o rei francês, de um lado, e para o imperador, de outro, que pôs fim à guerra franco-espanhola por volta de 1559, com o Tratado de Chateau-Cambresis. Outros monarcas, como Henrique VIII da Inglaterra, e os Stewarts, da Escócia, todos enfrentavam os mesmos problemas.
Quase se poderia afirmar que foram os constantes conflitos do século dezesseis que tornaram possível, à classe média, adquirir tanto poder. Até 1559, França e Espanha, e depois o Império, estavam quase que constantemente lutando um contra o outro, estando a Inglaterra, a Escócia e a Dinamarca sempre envolvidas, ora de um lado, ora de outro. O envolvimento do papado nestes conflitos, acabou por minar sua influência espiritual. A partir de 1560, o tipo de conflito começou a mudar, pois esta era a idade de guerras religiosas. De fato, tinha havido lutas na Alemanha entre os luteranos e as forças imperiais na década de 1530 e 1540, mas estes conflitos eram bastante intermitentes, ao passo que as guerras religiosas na França e Holanda, com a participação adicional da Inglaterra e Escócia, ocuparam a maior parte dos últimos quarenta anos do século dezesseis.
Por trás destes conflitos, em todo o decorrer da última parte do século, havia diferenças e conflitos ideológicos. Novas idéias estavam sendo disseminadas à medida que a Renascença alcançava seu apogeu no pensamento literário, artístico, político e social. Não é por acaso que grandes trabalhos como os de Michelangelo, na Capela Cistina, a conclusão da Basílica de São Pedro, a obra “O Príncipe” de Maquiavel, e “The Courtiers” de Castiglione, todos pertencem ao século dezesseis. Na década de 1540, surgiu a obra de Copérnico sobre a revolução dos astros e o livro de Vesalius sobre a fábrica do corpo humano. Estes foram dois tratados científicos revolucionários que causaram, à Igreja Católica Romana e também a algumas Igrejas Protestantes, sérias dificuldades intelectuais. Com o surgimento da imprensa, esta nova mentalidade estava se espalhando velozmente, particularmente entre a crescente classe média, agora um público leitor que acolhia, de bom grado, a visão humanística do indivíduo como sendo o responsável por seu próprio progresso por meio do uso de sua razão.
No entanto, a maior das mudanças intelectuais veio com a Reforma. No dia 31 de Outubro, segundo a tradição, Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Apesar de ele ter feito isso inicialmente apenas como um exercício acadêmico, desafiando, em latim, a todos os que viessem para um debate sobre aqueles pontos, logo se tornou claro que esse gesto havia gerado um conflito, na verdade, uma revolução muito maior do que ele jamais poderia ter imaginado. Sua declaração de que a Igreja Católica e suas doutrinas estavam em conflito com os ensinamentos das Escrituras causaram tal furor na Alemanha e além de suas fronteiras, que tanto ele quanto a Igreja foram tomados de surpresa.
A pergunta que surge então é: Como e por que o fato de Lutero ter divulgado suas teses – um estratagema acadêmico comum para provocar debates – causou tamanho tumulto? Provavelmente, a razão fundamental foi o fato de Lutero ter sido primeiramente, e antes de mais nada, um pregador que proclamava suas idéias, em primeiro lugar, dentro da Igreja, para as pessoas do povo. Ele sustentava que apenas pela pregação as Escrituras se tornavam a palavra viva. Além disso, ele tinha dois grupos de aliados na disseminação de suas idéias: estudantes de Wittenberg e os pregadores treinados e enviados de sua universidade para viajar pelo país pregando as doutrinas que haviam aprendido nas aulas de Lutero.
Tão importante quanto os pregadores e professores das doutrinas de Lutero, foi a palavra impressa. Uma das razões para a rápida disseminação das Noventa e Cinco Teses por toda a Saxônia, foi o fato de um arrojado impressor local ter conseguido que o documento fosse traduzido para o Alemão. Em seguida, imprimiu-o em grande quantidade e vendeu-o por todo o país. Comerciantes, soldados e outros viajantes que passavam pela Saxônia, obtinham cópias que levavam para suas próprias terras. Quer porque concordassem com Lutero ou comprassem as cópias só por curiosidade, o fato é que as idéias de Lutero foram divulgadas ampla e rapidamente. Contudo, Lutero não parou nestas teses, pois tornou-se um prolífero panfletário para o resto de sua vida, soltando panfletos como balas de canhão a cada duas semanas, para o desconforto do inimigo e auxílio dos amigos e de seus defensores.
Lutero, no entanto, não era um pensador ou escritor sistemático. Ele resolvia os problemas à medida que surgiam, mas nunca elaborou uma afirmação sistemática de sua posição teológica que, por esta razão, precisa ser montada a partir de seus panfletos, de seus comentários e de suas “conversações ao redor da mesa”. A sistematização da Reforma luterana foi feita por Philip Melanchthon, que tentou estabelecer, com seu “Loci Communes” (1521), a primeira teologia sistemática luterana. Contudo, apesar de ter sido um trabalho muito importante, no sentido de apresentar uma visão sistemática da fé evangélica, parece nunca ter tido grande popularidade fora da Alemanha. Escrita originalmente em latim, nunca foi traduzida para muitas línguas vernáculas como foram muitas das produções de Lutero. Os escritos de Lutero e de Melanchthon, no entanto, divulgaram as novas doutrinas amplamente apesar de serem freqüentemente atacados e reprimidos por autoridades políticas e eclesiásticas antagônicas.
Enquanto isto, a Reforma tomava corpo na Suíça, onde Zwínglio liderava um movimento pró-Reforma em Zurique, obtendo relativo sucesso, pois conseguiu, inclusive, persuadir algumas das outras cidades da região germano-suíça, como Basiléia e Berna – cidades de língua francesa – a livrarem-se do jugo da Igreja de Roma. Ele também entrou em conflito com Lutero sobre a doutrina da presença de Cristo no Sacramento da Ceia do Senhor. Como outros homens envolvidos no movimento reformado, escreveu alguns trabalhos curtos que não parecem ter gozado de grande popularidade em seus próprios dias. Envolvendo-se nos conflitos políticos com o Cantão Suíço, Zwínglio morreu na Batalha de Kappel, e 1532.
Henry Bullinger, o homem que substituiu Zwínglio, teve uma vida bem mais longa e uma influência bem maior do que a de seu predecessor. Oferecendo proteção a protestantes perseguidos em outros países, foi capaz de influenciar muitos que tinham vindo em busca de segurança e de instrução em sua cidade. Quando estes refugiados voltavam para seus lares, Henri Bullinger mantinha com eles constante correspondência, tendo escrito mais cartas que todos os outros reformadores reunidos. Para aumentara a extensão da influência do Protestantismo, Bullinger também escreveu extensivamente e, apesar de nunca ter produzido uma teologia sistemática completa, sua “Decades”, que consistia de estudos bíblicos, e seus muitos panfletos exerceram influência sobre protestantes tão distantes quanto os Reformadores ingleses e húngaros. Desta forma, Bullinger, como os outros Reformadores, produziu seu impacto sobre as consciências religiosas da Europa Ocidental.
Enquanto isso, na pequena cidade de Genebra, situada junto ao Lago Leman e, na verdade parte do Ducado de Sabóia, os acontecimentos, vinham se dirigindo para a Reforma, não obstante ter surgido primeiro como uma revolta dos cidadãos conta a autoridade do bispo. Quanto de interesse religioso os cristãos tinham, realmente, é difícil de avaliar. Mas o fato é que expulsaram seu bispo e, ao mesmo tempo, com a ajuda dos habitantes de Berna, seus vizinhos de língua francesa, forçaram o Duque de Sabóia a fugir para o norte. Em 1535, um certo Guillaume Farel (também conhecido como Willian Farel em inglês), pregador protestante refugiado que veio de Paris, chegou a Genebra onde, imediatamente, tomou providências no sentido de implantar uma reforma religiosa que teve resultados que ele, provavelmente, nunca previra.
A Disseminação das Idéias de Calvino
Caso algum leitor deste artigo venha a pensar que gastamos um tempo muito longo para chegar ao tema aqui apresentado, é necessário levar em conta dois fatos. Primeiro, não é possível compreender a disseminação das idéias teológicas de Calvino ou, mesmo suas outras idéias, a menos que tenhamos alguma noção do clima social e intelectual no qual ela ocorreu. Foi o ambiente radicalmente transformado que possibilitou a difusão rápida e ampla de suas idéias. E só na medida em que conhecemos a forma como as idéias de outros reformadores foram transmitidas, é que podemos compreender como num espaço de tempo menor do que vinte anos, as idéias de Calvino se propagaram mais largamente do que as de muitos, senão de todos os outros reformadores.
Para que possamos compreender as bases da influência de Calvino, precisamos nos reportar à sua educação inicial. Em primeiro lugar, estudando na Universidade de Paris, provavelmente sob a orientação de homens como John Major, o escolástico escocês, ele se interessou pelas disciplinas humanistas à medida que se preparava para ingressar no clero. No entanto, em função de uma controvérsia que seu pai teve com o bispo de Noyon, para quem vinha trabalhando como tabelião, Calvino, de repente, recebeu ordens para deixar o sacerdócio e mudar para Orleans, onde poderia receber treinamento como advogado. Em Orleans e Bourges, Calvino recebeu instrução sobre Direito do professor tradicionalista, Pierre de L’Estoile e do humanista italiano Andréa Alciat. Igualmente importante é o fato de Calvino poder ter-se convertido ao protestantismo enquanto estudava em Orleans ou Bourges, de forma que, após a morte de seu pai, Calvino retornou a Paris para continuar ali seus estudos humanistas. Sua perspectiva agora era bastante diferente da que tivera ao sair dali.
Nos primeiros tempos de sua vida cristã, Calvino recebeu a incumbência de escrever o prefácio de uma Bíblia francesa traduzida do latim por um primo seu, Pierre Robert Oliétan, e isto deve ter ocorrido aproximadamente na mesma época em que ele publicava seu primeiro trabalho importante, o seu comentário sobre o “De Clementia”, do filósofo romano Sêneca. Pouco depois disto, Calvino iniciou sua participação na disputa teológica ao escrever um ataque à doutrina que ensinava a “morte da alma”, anunciada por um dos grupos anabatistas. O mais importante neste momento, no entanto, foi seu pequeno livro de sete capítulos, escrito para auxiliar grupos de estudo, livro no qual divulgava doutrinas bíblicas visando a defendê-las de interpretações errôneas. Este livro era a sua “Instituta da Religião Cristã”, publicado em Basiléia, em 1536. Era o início de uma longa série de sete edições revistas e aumentadas até 1559.
A intenção original de Calvino era passar sua vida estudando e escrevendo sobre teologia e filosofia; contudo, não seria assim. Quando de passagem por Genebra foi, na verdade, detido por Guillaume Farel que insistiu com ele para que o ajudasse a implantar a Reforma naquela cidade. Apesar de relutante, Calvino, afinal, consentiu. Ele e Farel, no entanto, buscavam uma Reforma tão absolutamente completa, não só em questões de fé como também nas de moral, ou seja, nas de comportamento e costumes. Por isso, em 1538, foram obrigados a se retirar. Calvino, sem dúvida, recebeu sua expulsão com grande prazer, esperando encontrar em Estrasburgo a paz e o sossego para estudar. Isto, no entanto, não aconteceria, pois Martin Bucer constrangeu-o a assumir o pastorado da congregação de refugiados franceses naquela cidade, fazendo-o também participar de alguns encontros entre protestantes e católicos que ocorriam naquela época. Para completar, quando o Cardeal Sadoleto escreveu ao povo de Genebra, induzindo a população a retornar ao aprisco romano, mandaram sua carta para Calvino, pedindo-lhe que a respondesse. Ele o fez, e com grande eficiência.
Em parte, como conseqüência da resposta de Calvino a Sadoleto em 1540, momento em que Genebra se encontrava em estado de virtual anarquia, o Conselho da cidade decidiu chamar Calvino de volta para ser seu orientador e guia. Quando Calvino respondeu que não desejava retornar, as autoridades de Genebra escreveram a Farel, que havia partido para Lausanne, e ele, finalmente, persuadiu Calvino a retornara a Genebra em 1541. Depois do seu retorno, Calvino permaneceu em Genebra até sua morte, em 1564. Foi desta pequena cidade – na cabeceira do rio Ródano, cidade de pouco prestígio econômico, político e intelectual -, que Calvino exerceu grande influência sobre a Reforma religiosa da Europa Ocidental, sentindo-se, ainda hoje, os efeitos deste movimento. Em seus cinqüenta e cinco anos de vida, Calvino provocou impacto em sua própria geração, e nas gerações posteriores foi um impacto igualado por muito poucos na história. A questão que se levanta é: como e por que foi ele capaz de provocar tal impacto? Os Calvinistas, obviamente, responderiam, como o fez John Knox, que ele era um “notável servo do Senhor”. Contudo, houve também alguns fatores circunstanciais de seu trabalho e uma situação que, pela providência de Deus lhe deram condições para exercer sua influência tão ampla e efetivamente.
É provável que o fator mais importante na divulgação das idéias de Calvino tenha sido o próprio caráter dele. Calvino era um pensador e escritor sistemático. Quando se lê, mesmo a primeira edição das Institutas, escrita quando ele tinha vinte e cinco anos, fica-se impressionado com o estabelecimento cuidadoso de sua posição e de suas afirmações. Mesmo que alguns acusem a Calvino de ser um racionalista, a verdade é que ele era lógico em seu raciocínio, procurando evitar deduções e analogias falsas. Contudo, ao mesmo tempo, ele estava totalmente preparado para reconhecer que não tinha todas as respostas, uma vez que lidava com o mistério do Próprio Deus. Agindo assim, estava sempre disposto a traçar uma linha e dizer: “Até este ponto, e não além”. Nisto demonstrava um misto de lógica sistemática e um senso de mistério que respeitaria, e não investigaria. Suas Institutas, seus comentários bíblicos, suas cartas e seus panfletos, todo o seu trabalho traz estas características que podem não ter agradado alguns, mas que falaram ao coração de muitos.
Talvez, possamos compreender a estrutura de pensamento de Calvino se observarmos os princípios que regiam o seu pensamento teológico.
O seu princípio formal era a autoridade das Escrituras, do Antigo e do Novo Testamentos. Ele acreditava que a Bíblia era a Palavra de Deus escrita. Não obstante o esforço de alguns, em anos recentes, em incluir o apoio de Calvino a várias formulações doutrinárias sobre inspiração verbal, inerrância das Escrituras ou coisas semelhantes, Calvino não faz qualquer declaração explícita sobre este assunto. Sua opinião era que a Bíblia é reconhecida como a Palavra de Deus, não por deduções lógicas ou por observações e testes experimentais, mas porque o Espírito Santo testifica ao crente que ela é a Palavra de Deus. E, por ser a Palavra de Deus, deve ter autoridade final sobre todas as outras formas de conhecimento no que se refere à natureza do homem e à sua relação com Deus, seu Criador e Senhor. Quanto ao conhecimento e compreensão humana da natureza, o homem faz descobertas através de investigações experimentais, tendo sempre em mente, é claro, que a Bíblia estabelece a interpretação final para todas as coisas (cf. seus comentários sobre astronomia e Gênesis 1.16).
O princípio material do pensamento de Calvino era a soberania de Deus. Como Criador, Sustentador, Redentor e Rei, Deus é soberano sobre todas as suas criaturas, bem como sobre as ações destas. Esta doutrina estabelece a base e o fundamento para todas as demais. Caso alguma formulação doutrinária tendesse a transgredir a soberania de Deus, precisaria ser ou reformulada, ou rejeitada completamente.
Desta forma, sua declaração sistemática da fé cristã partiu, naturalmente, da doutrina da soberania de Deus. No entanto, todas as declarações de fé devem, necessariamente, ser orientadas e delimitadas pelos ensinamentos das Escrituras. Ao formular uma doutrina como a da eleição, por exemplo – não obstante estar ela baseada na soberania de Deus -, seria possível ceder à tentação de incluir muitas implicações lógicas, e Calvino considerou impróprio, na verdade, pecaminoso, ir além daquilo que a Bíblia diz sobre a questão. Ainda que esta limitação deixe, mesmo assim, certos paradoxos na fé cristã, esses paradoxos devem ser aceitos, disse ele, pois idéias que parecem inconciliáveis devem ser mantidas em tensão, uma vez que o Deus soberano falara por intermédio de Seus Profetas e Apóstolos. Mesmo que esta postura não satisfaça aos racionalistas, Calvino, seguindo seus dois princípios fundamentais, não poderia pensar de outra forma.
Calvino, no entanto, não era apenas um teórico desvinculado de qualquer interesse prático. Como advogado – função pela qual de certa maneira, se tornara a força motriz da reforma legislativa de Genebra e, como polemista, lutando constantemente para manter e fortalecer o Movimento Reformado -, ele precisava ser prático na utilização de seus princípios teológicos. Quando se lêem suas Cartas, suas Institutas, seus Comentários e seus Panfletos, tem-se a impressão de estar diante de um homem muito ligado aos fatos que ocorriam em seu mundo. Seus panfletos sobre astrologia e sua carta sobre a questão da usura, refletem pensamentos práticos, da mesma forma as alusões que fazia de seus textos em seus sermões. Não é de surpreender, portanto, que não só os estudiosos, mas também o obstinado negociante de seus dias respondessem com considerável entusiasmo às suas idéias.
Para entender a ampla influência de Calvino, devemos observar não apenas o seu modo de expressar-se e sua maneira de pensar, mas também os meios de que se utilizou para comunicar suas idéias. Pregações e cursos foram os meios básicos de propagação de seus pensamentos; de igual importância foram seus contatos pessoais e, mais importante que tudo, foram seus escritos. Será necessário examinarmos todos estes meios de comunicação se quisermos compreender como ele teve, e por isso ainda tem, uma força tão abraangente sobre o pensamento Ocidental. Mais do que isto, precisamos adquirir alguns conhecimentos a respeito daqueles a quem ele influenciou; daqueles que aceitaram sua teoria e a colocaram em prática no século dezesseis.
Como já foi mencionado, a pregação era fundamental na exposição e na comunicação das idéias de Calvino. Neste aspecto, Calvino estava de pleno acordo com Lutero, Bullinger, Bucer, e com a maioria dos outros Reformadores. Poder-se-ia quase dizer que a reforma trouxe o renascimento da pregação. Calvino, aparentemente, começara a pregar logo depois de sua conversão, pois, segundo a tradição afirma, ele costumava pregar em algumas igrejas em Bourges ou perto de Bourges, quando era estudante. Ao voltar para Genebra, em 1541, a pregação se tornou sua principal ocupação, uma vez que assumira o púlpito da Igreja de Saint Pierre não apenas aos domingos mas, inclusive, por mais três vezes durante a semana. Este fato deu a ele grande oportunidade de apresentar sua interpretação das Escrituras para os cidadãos de Genebra bem como para os estrangeiros, tanto os que viviam na cidade, como para os que ali se encontravam apenas de passagem.
Provavelmente, devido ao fato de pregar com tanta freqüência, Calvino, ao que parece, não tinha o hábito de escrever seus sermões, senão esporadicamente, pois sabemos que, em certa ocasião, redigiu alguns sermões que havia pregado, mandando-os para Elizabeth I, rainha da Inglaterra. Seu procedimento normal parece ter sido o de gastar um tempo considerável pensando no significado do seu texto. Depois disto, subia ao púlpito preparado para fazer uma homilia sobre uma passagem de cinco a quinze ou vinte versículos. Isto consistia num rápido comentário sobre o texto, com uma aplicação de seu ensino essencial à vida cotidiana do cristão, mas especialmente voltada para o crescimento espiritual e para uma avaliação de sua relação com Deus.
De acordo com sua maneira sistemática de trabalhar, Calvino normalmente seguia o esquema de pregar sobre um determinado livro da Bíblia, do começo ao fim, capítulo por capítulo, domingo após domingo. Isto significa que havia continuidade nos seus ensinamentos, tanto em relação à explanação do texto como na aplicação das Escrituras. Calvino tinha o cuidado de manter suas explanações, bem como suas aplicações, dentro do contexto do livro como um todo e, também dentro do contexto de sua situação histórica. Não interpretava as Escrituras alegoricamente. Sempre trazia os ouvintes de volta ao fato de que o centro da vida cristã é o próprio Cristo.
Os ouvintes de Calvino, freqüentemente, expressavam o desejo de ter cópias impressas de seus sermões, para sua própria leitura ou para dá-las a outros, mas Calvino não cedia, em parte por redigir apenas alguns de seus sermões. Em conseqüência disto, e apesar de sua oposição, alguns dos membros de sua Congregação contrataram um certo Raguenier de Bar-sur-Seine, um refugiado francês, para anotar os sermões de Calvino em uma espécie de taquigrafia. Alguns impressores de Genebra quiseram, então, imprimir estes sermões, ao que Calvino foi firmemente contrário, a princípio. Afinal, em 1557, deu a Conrad Badius, cunhado do editor Robert Estienne, permissão para imprimir sua série de sermões sobre os dez mandamentos. No ano seguinte, outra vez, depois de muita pressão e discussão, permitiu a publicação de seus sermões sobre a vida e a obra de Cristo. Muitos destes sermões nunca foram publicados, tendo sido descobertos apenas recentemente. Contudo, os sermões publicados foram logo traduzidos para muitas outras línguas vernáculas e se tornaram um importante meio para a divulgação ampla dos ensinamentos do Reformador de Genebra.
Foi assim que os sermões de Calvino passaram a cumprir uma dupla função. Naturalmente, influenciavam aqueles que os ouviam, pois sabemos que, depois das pregações, as pessoas se aglomeravam ao redor de Calvino para conversar com ele sobre o que ele havia dito e, em geral, formavam uma procissão para acompanhá-lo até sua casa. Mas os sermões influenciavam também os que os liam em outros países, quer no original francês, quer em suas próprias línguas. Com relação a este fato, é interessante notar o que Richar Bannatyne, secretário de John Knox, relata. Diz ele que enquanto Knox estava em seu leito de morte, alguns sermões do “Messire João Calvino” eram lidos para ele em francês, língua que ele compreendia muito bem. Eram, provavelmente, os sermões sobre “La passion de Notre Seigneur”. Os sermões eram, portanto, o principal meio de transmissão das idéias de Calvino.
Profundamente relacionada com seu trabalho de pregador era sua atuação como professor. Quando, em Estrasburgo, ele esteve em íntimo contato com Jean Sturn e Martin Bucer, ambos muito interessados em desenvolver um sistema educacional que proporcionasse instrução a todas as crianças da cidade. Ao voltar para Genebra, ele trabalhou por algum tempo com base nesta idéia, até que, finalmente, ele em 1559, estabeleceu um completo sistema de educação. A partir de seus esforços, surgiu a Academia de Genebra, instituição que, mais tarde, se tornaria a Universidade da cidade. Calvino não apenas desempenhou proeminente papel no estabelecimento da Universidade, mas foi também um dos seus professores de teologia, ensinando aqueles que planejavam entrar para o ministério. Durante muitos anos, ele fez conferências, fazendo exposições sobre vários livros da Bíblia. O responsável pela Academia era Theodore Beza, que viera de Lausanne.
O trabalho de Calvino, tanto como pregador quanto como professor, foi extremamente eficaz em Genebra, pois, estudando-se a história da cidade durante este período, pode-se ver que muito da mudança ocorrida ali foi provocada por suas atividades. É verdade que até 1555 ele enfrentou forte oposição às suas idéias, especialmente às que se referiam à disciplina da Igreja, oposição por parte daqueles que discordavam tanto de suas doutrinas quanto de seus conceitos a respeito de moralidade. Contudo, a partir do momento em que assumiu o principal púlpito da cidade, do qual pregava cerca de cinco vezes por semana, além das preleções bíblicas que fazia, Calvino passou a dispor do meio mais eficiente para instilar suas idéias. Como resultado, por volta de 1555, ele ganhou a batalha e, deste ano em diante, até sua morte em 1564, sua influência teológica e moral dominava Genebra.
Contudo, havia algo mais do que a influência geral que ele exercia sobre Genebra e além dela. A população da cidade, cerca de nove mil habitantes, quase se duplicara pelo número de refugiados que para ali afluíam a fim de descansarem das perseguições que sofriam em seus próprios países. A Congregação francesa era a maior e, em alguns aspectos, a mais impopular, mas havia também Congregações espanholas e italianas às quais foi acrescentada a Congregação inglesa sob orientação de John Knox, durante o reinado de Mary Tudor. Havia ainda aqueles que vinham estudar com Calvino e com seus colegas de magistério. Vinham de muitos países diferentes, mas, particularmente, da França, Holanda, Alemanha, Inglaterra e Itália. Muitos deles voltaram para seus próprios países mais tarde, continuando ali o trabalho da Reforma. Depois da fundação da Academia, a afluência de estudantes se tornou ainda maior, na medida em que vinham estudar não apenas teologia, mas também direito, bem como para adquirir uma educação geral. Quando estes estudantes retornavam para seus lares, levavam consigo as idéias de Calvino, as quais buscavam proclamar. Não era raro que terminassem suas carreiras na fogueira.
Não obstante, a maioria dos historiadores de Calvino enfatizam o valor de sua pregação e de seu magistério, e pouco parecem achar que sua relação com as pessoas fosse de alguma importância. Calvino é normalmente descrito como um homem muito austero, triste, e, mesmo, mal humorado. No entanto, o testemunho daqueles que visitaram Genebra, e tiveram contato com Calvino, nos oferece uma imagem muito diferente: Ele, ao que tudo indica possuía um senso de humor que tinha um quê de satírico, como se pode ver através de alguns de seus escritos como, por exemplo, seu panfleto sobre a necessidade de se fazer um inventário de todas as relíquias religiosas da Europa. Apesar de sofrer de uma série de doenças crônicas, inclusive de úlcera, Calvino parece ter sido muito hospitaleiro. Um relato conta que ele era saudável o suficiente para gostar de jogar boliche. Acima e além de tudo isto, no entanto, o fato de ele ter conquistado a lealdade quase feroz de uma ampla variedade de tipos de personalidade, indica que era capaz de comunicar suas idéias de forma efetiva e dinâmica em seus relacionamentos pessoais.
Calvino recebia muitos visitantes que vinham das mais diversas regiões e passavam pouco tempo em Genebra, muito freqüentemente apenas para encontrarem-se com ele. John Foxe, o martirologista inglês, e o Bispo Coverdale são dois bons exemplos. Calvino estava também em constante contato com outros Reformadores, especialmente com Bucer, Bullinger e Melanchthon, com os quais sempre trocava idéias. Foi em conseqüência de seu relacionamento com Bullinger que ambos assinaram o Consensus Tigurinus de 1549, no qual fazem a declaração de que “presença real” de Cristo, na Ceia do Senhor, é efetivada pelo Espírito Santo no momento em que o crente recebe os elementos. Desta maneira, foi definida uma posição intermediária entre a “consubstanciação”, defendida por Lutero, e a interpretação puramente simbólica de Zwínglio.
Além de seus contatos com estudantes e com outros Reformadores, Calvino mantinha volumosa correspondência, com homens e mulheres de toda a Europa, desde reis e seus conselheiros, até pessoas de classes baixas que lhe escreviam pedindo auxílio ou conselho.
Talvez, estas suas cartas sejam o melhor retrato do “verdadeiro” Calvino. Estas cartas eram sempre práticas e muito diretas. Ele escreveu uma carta para confortar John Knox quando Majorie, sua esposa, morreu; escreveu uma convicta carta de repreensão para Louis du Tillet, um velho amigo que desertara da causa reformada, retornando à Igreja de Roma; escreveu também cartas de incentivo para os que enfrentavam perseguições e conflitos por causa da fé, como foi o caso de cinco estudantes de Lausanne que iam ser mortos na fogueira de Lyon; escreveu cartas, dando conselhos a protestantes que planejavam fundar uma congregação e mandou também uma carta a um ministro que lhe escrevera pedindo conselho sobre problemas particulares. Em todas essas cartas, pode-se ver suas muitas facetas: sua ternura, sua compaixão, sua raiva ocasional para com aqueles que se provavam indignos de confiança e, também, sua integridade e força intelectual. Quase não há dúvida de que estas cartas tenham sido muito importantes, não apenas no sentido de manifestar sua personalidade como também no sentido de divulgar suas idéias por toda a extensão do território europeu.
Não obstante falarmos das pregações e do magistério de Calvino, de seu relacionamento pessoal e de sua correspondência, sem dúvida sabemos que o meio mais eficaz de que se valeu para difundir suas idéias, foram seus escritos formais. Pode-se dizer que os outros meios de comunicação eram a fonte de onde brotavam seus escritos formais, pois em mais de uma ocasião foi como resultado de suas próprias experiências como pregador, professor ou em conseqüência de seus contatos pessoais que ele sentiu a necessidade de escrever. E, foram seus escritos que tiveram a maior circulação e o efeito mais duradouro, como se pode observar no fato de muitos deles estarem sendo republicados em diferentes países e em muitas línguas diferente ainda no século vinte e vinte um.
Sem dúvida que, dentre todos os seus escritos, as Institutas da Religião Cristã foi, e ainda é, a mais importante. Publicado originalmente em 1536, foi revisada e republicada sete vezes tanto em Latim como em Francês, partindo de uma pequena monografia de sete capítulos que ele mesmo escreveu, para se tornar uma obra de setenta e nove capítulos na edição de 1559. No início, Calvino procurou seguir a ordem do Credo Apóstólico, mais tarde, no entanto, achando isto insatisfatório, mudou a estrutura da obra, expandindo e ajustando seu pensamento mais completamente a cada nova edição. Quando se lê o trabalho da última edição em inglês, editada por J. T. McNeil e Ford Lewis Battles, na Biblioteca de Clássicos Cristãos, atento para as referências às diferentes edições, pode-se observar facilmente que Calvino, o estudante incansável, acrescentava a cada nova edição os conhecimentos exegéticos e teológicos que acumulara desde a edição anterior. Estudando constantemente, tanto a Bíblia como escritores como Bernard de Clairvaux e muitos dos diferentes pais da Igreja, Calvino acrescentava um número cada vez maior de referencias a eles, edição após edição.
Da maior importância neste processo de divulgação foi o fato de que, a partir de 1541, Calvino estava preparando Comentários sobre vários livros da Bíblia, em função de suas pregações e suas aulas. Rejeitando o método alegórico quádruplo dos comentaristas medievais, e evitando as “admoestações” do Comentário de Lutero sobre Gálatas, Calvino seguiu a técnica tipicamente humanista da exegese histórico-gramatical, apegando-se firmemente ao contexto histórico dos livros e procurando entender exatamente o que eles estavam querendo dizer. Seu método era um método verdadeiramente empírico. Na medida em que acumulava mais conhecimentos com estes estudos, Calvino foi capaz de utilizá-los nas revisões de sua “Institutas”. No decorrer de toda sua vida, escreveu Comentários sobre a maior parte dos livros da Bíblia, tendo evitado alguns dos textos mais difíceis, como o de Cantares de Salomão e o Livro das Revelações ou Apocalipse. Calvino parece ter evitado fazer afirmações claras sobre o que estes livros verdadeiramente significavam. O conjunto de seus Comentários foi finalmente editado em Genebra, no final da década de 1570 e no início da década de 1580, sendo amplamente disseminados.
Calvino era também um panfletário. Uma das primeiras edições de sua coleção de panfletos, de posse do autor deste artigo, forma um volume, in-fólio, de mais de mil páginas. Seus panfletos eram, não só numerosos, mas muito variados também em temas e objetivos. Um dos principais motivos que levavam Calvino a divulgar, em formato pequeno, o significado de algumas das doutrinas e práticas cristãs, era seu desejo de esclarecer o povo. Um de seus panfletos, “Forme dês Prières (=Forma de Orações), era, na verdade, um guia de culto para a Igreja de Genebra, mas teve considerável influência sobre a prática litúrgica das Igrejas Reformadas em Genebra, na França bem como na Escócia, Holanda e em outros países, onde suas idéias haviam sido aceitas. Talvez, o mais panfletário de todos os seus panfletos tenha sido sua explanação sobre o significado da Ceia do Senhor. Este panfleto foi parcialmente responsável pela assinatura do “Consensus Tigurinus”; Lutero afirmou que este teria evitado seu conflito com Zwínglio.
O motivo essencial de Calvino, para escrever panfletos, no entanto, parece ter sido a polêmica. Naturalmente que um de seus alvos principais era a Igreja Católica Romana. Foi em 1541 que ele escreveu sua carta ao cardeal Sadoleto, o qual instara com os genebreses para que retornassem à Igreja Romana. Nesta carta, Calvino mostra que Roma desertara do Cristianismo bíblico. Dois anos mais tarde, publicou seu artigo satírico sobre as relíquias e outro artigo constrangendo o Imperador Carlos V a parar de perseguir os protestantes. Depois das primeiras sessões do Concílio de Trento, Calvino escreveu um panfleto atacando suas decisões. Não podemos nos esquecer também, de que as Institutas, com sua carta dedicada a Francisco I da França, rogando tolerância para com os protestantes, era, em si mesma, um panfleto, ainda que um panfleto bastante volumoso.
Calvino não se limitou a controvérsias com os católicos romanos. Um dos seus primeiros panfletos, intitulado PSYCHOPANNICHIA, atacava a doutrina da “morte da alma” defendida por alguns anabatistas. Em um panfleto posterior, lançou alguns dardos sobre um grupo de anarquistas espirituais conhecidos como os Libertinos. Em outro escreveu uma crítica devastadora à astrologia, que era tão popular naquele dias quanto o é hoje e, em grande parte, pelo mesmo motivo: o declínio na fé cristã. Assim, mesmo imerso em questões de pregação e magistério, mesmo enquanto escrevia Comentários e revisava suas Institutas, Calvino encontrava tempo para abordar os problemas temporâneos enfrentados pelo movimento protestante. É de se perguntar como ele conseguia fazer tudo isto? Não surpreende que Calvino tenha morrido aos cinqüenta e cinco anos!
A maior parte de seus panfletos aparecia primeiro em Latim, pois eram endereçados à classe mais instruída; aos acadêmicos. Contudo, pouco tempo depois surgiam também em francês, traduzidos, às vezes, pelo próprio Calvino, e às vezes por algum dos editores de Genebra. Normalmente, depois de um panfleto surgir em francês era logo publicado também em língua vernácula. Uma das primeiras traduções foi a de seu panfleto contra o papa Paulo II, que surgiu em alemão em 1541. Em 1545, seu Catecismo foi publicado em Latim, Francês e Italiano, quase que simultaneamente. Em 1546, houve uma versão tcheca de um folheto, e a partir de 1548 seus panfletos começaram a surgir em Inglês, Espanhol, Holandês e mesmo em Grego. Desta maneira, tiveram um efeito bem amplo sobre o movimento da Reforma.
Os escritos de Calvino tinham uma grande gama de leitores porque eram publicados tanto em Latim como em várias outras línguas vernáculas. Era natural que, sendo em Latim a língua dos eruditos, acadêmicos e teólogos pudessem ler seus artigos logo que surgiam em Latim. Isto, no entanto, teria tido relativamente pequeno efeito sobre o povo comum. O importante é que havia então uma classe média letrada, que podia ler em sua própria língua, mesmo que fossem incapazes de fazê-lo em Latim. Foi a esta classe que Calvino fez seu maior apelo. Tendo vindo da classe média, possuindo vivência profissional, ele sabia falar àquelas pessoas tão bem quanto aos acadêmicos, ganhando sua atenção desde o início.
Um dos fatores importantes no sucesso de Calvino em propagar suas idéias, foram seu estilo e método de apresentação. Ele não estava interessado em fazer um nome para si mesmo ou em tornar-se uma figura literária proeminente. Sua primeira preocupação era a de ser capaz de fazer com que suas idéias chegassem até o leitor. Ele queria ser claro como cristal naquilo que tinha a dizer. Acreditava que a característica mais importante de um bom estilo era a clareza, e praticava aquilo que pregava. Como resultado, era muito bem compreendido tanto por aqueles que o ouviam como por aqueles que liam seus trabalhos. Mesmo hoje, seu estilo, quando comparado com o de muitos de nossos contemporâneos, é mais claro e mais direto. Sua clareza e precisão, sem dúvida, desempenharam um importante papel na difusão de seu pensamento.
Contudo, Calvino não deve sua influência apenas a seu estilo. Conforme destacou Pierre Chaunu, os movimentos de Reforma, na Igreja, passam por dois estágios. O primeiro é evangelístico, e o segundo sistemático. Lutero foi o evangelista da Reforma. Além do mais, ele era obviamente teutônico em sua abordagem, e conservador quase ao ponto de ser arcaico, seguindo o princípio de que só deveria ser mudado, na Igreja, aquilo que conflitasse com a Palavra de Deus. Calvino, por outro lado, educado como humanista e advogado, foi o sistematizador Par Excellence. Mais do que isto, sua insistência em que, no campo da teologia e da liturgia da Igreja, nada que não fosse ordenado pelas Escrituras deveria permanecer, era muito mais radical do que qualquer posição defendida por Lutero. Além do mais, Lutero permitia que as autoridades civis tivessem sobre a Igreja uma influência muito maior do que a que Calvino jamais lhes permitiu.
Foi assim que todo o enfoque e posicionamento de Calvino se adaptaram muito mais rapidamente à estrutura de pensamento dos elementos mais radicais do cenário da Europa Ocidental.
Como Lutero, Calvino também estava interessado primeiramente nos aspectos religiosos e teológicos da Reforma e, na maior parte dos pontos, Calvino se sentia de acordo com seu precursor alemão. Há, em seus trabalhos, freqüentes referências de apreciação às realizações de Lutero, e Calvino constantemente reiterava as doutrinas fundamentais pregadas pelo Reformador alemão sobre a autoridade exclusiva das Escrituras e sobre a justificação só pela fé. No entanto, em função de seu enfoque mais sistemático, pode-se mesmo dizer, do seu enfoque científico, Calvino não apenas tornou mais claro o ponto de vista de Lutero, como também desenvolveu outros aspectos da fé cristã que não haviam sido abordados por Lutero. Nesse sentido, foi além do reformador alemão, criando uma estrutura teológica mais ampla, estrutura que satisfazia a muitos, inclusive a alguns dos mais veementes defensores de Lutero, como Phillip Melanchthon. Esta foi uma das razões pelas quais o Calvinismo suplantou o Luteranismo em muitos países, como por exemplo, na França, Inglaterra, Escócia e Holanda.
Foi também por causa de seu enfoque teológico mais amplo e sistemático que Calvino exerceu uma considerável influência sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, de forma geral, sobre sua própria geração e sobre as gerações subseqüentes. Ele acreditava que a teologia, de tal forma, envolve todo o pensamento humano, que todo o pensamento pode estar sujeito ou submisso a Jesus Cristo. Desta maneira, observa-se o poderoso impacto que ele teve nas universidades, não apenas de uma maneira geral, mas muito concretamente no trabalho de homens como Pierre de la Rameé, Jerome Zanchius, Andew Melville, e de muitos outros. Estes homens procuraram aplicar a teoria Calvinista de Vida-e-Mundo a todas as áreas do pensamento, esforçando-se por apresentar suas interpretações das várias áreas do pensamento, com vistas sob dois aspectos: sub specie seternitatis e soli Deo Gloria.
Calvino, como declarado anteriormente, não escrevia apenas para os acadêmicos, nem seu trabalho era mero exercício teórico. Ele era um homem prático que acreditava que o pensamento precisa produzir ação. Em Genebra, lutou pela organização de uma cidade que manifestasse, em sua forma de vida, uma cultura que confessasse o Senhorio de Jesus Cristo em todas as suas atividades. Este princípio tornou-se o ponto predominante no pensamento de seus seguidores em outros países. O resultado disto foi que calvinistas da Inglaterra, Escócia, França, Holanda e América, vieram a ser considerados políticos radicais, pressionando constantemente para o estabelecimento de uma forma democrática de governo. Alguns chegavam ao extremo de afirmar que os magistrados subordinados, que constituíam os Estados Gerais ou o Parlamento, poderiam mesmo destronar um rei – e, em algumas ocasiões chegaram a fazê-lo. Por outro lado, foram os calvinistas que, na França, Inglaterra e na Holanda, se mostraram dispostos a tomar a iniciativa de aventuras comerciais fora do continente europeu, mostrando-se prontos a arriscar até mesmo suas próprias vidas na colonização de novos países. Eles é que estavam sempre prontos a enfrentar o trabalho árduo para atender ao chamado para o qual Deus os vocacionara, não importando o que fosse. Qualquer que tenha sido o erro cometido pelo sociólogo Max Weber, em sua teoria sobre a relação entre o Calvinismo e o surgimento do Capitalismo, este erro certamente não foi sua ênfase sobre a importância que a doutrina da vocação tem no pensamento Calvinista, uma doutrina cujos efeitos temos podido observar de país para país, até o momento presente.
Precisamos reconhecer também que, em função deste sentimento de vocação, a influência de Calvino não foi originalmente gerada por organização ou propaganda de massa. Sua influência foi espalhada através de indivíduos devotos que haviam sido imbuídos da visão de Calvino a respeito da soberania de Deus e de seu chamado para o trabalho de Deus, tendo respondido a este chamado em fé e em obediência. Acadêmicos como Zanchius, Ramée e Melville; cientistas como Ambroise Pare, Bernard Palissay e Francis Bacon; artistas como os mestres holandeses do final do século dezesseis, e muitos outros, todos desempenharam seu papel. Algumas vezes, a influência calvinista levou à organização de grupos como o exército huguenote de Coligny e Henrique de Navarra e o exército dos Lordes escoceses da Congregação de Jesus Cristo, mas, em última instância, o impacto de Calvino surgiu da convicção de indivíduos crentes que confessavam a fundamentação de suas idéias na autoridade suprema da Bíblia, a Palavra de Deus.
O impacto de Calvino não ficou limitado a seus próprios dias, mas continuou nos séculos subseqüentes, em diversas regiões do mundo, à medida que a Europa se expandia, quer por comércio, quer por conquista. Na última metade do século dezenove e início do século vinte, esta influência tendeu a desaparecer em face da modificação dos padrões de pensamento provocada pelo humanismo ateu e pelo materialismo. Em anos recentes, no entanto, o Calvinismo vem passando por um reavivamento de proporções consideráveis. Está começando, uma vez mais, a exercer influência no cenário mundial. Esta obra traz, de alguma forma, o testemunho deste ressurgimento.
Não deixe de ler SUÍÇA: TRIUNFO E DECLÍNIO, o próximo artigo desta série a ser postado.
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