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Domingo, Julho 02, 2006

Expiação - Sua Natureza

Uma concepção inadequada da enormidade terrível do pecado resulta, necessariamente, numa visão falha da Expiação. Na leitura da grande quantidade de livros que foram escritos a intervalos variados durante os últimos quatrocentos anos, somos golpeados pelo fato de que lado a lado com a atenuação da imensurável odiosidade do pecado, tem havido também um retalhamento, um rebaixamento das características mais essenciais compreendidas na natureza da obra redentora de Cristo. O mais superficialmente que o pecado seja considerado, menos aparecerá a necessidade de tarefa tão estupenda como aquela a qual o Filho de Deus assumiu e triunfantemente desempenhou. O pecado é um mal de magnitude infinita , pois é cometido contra uma Pessoa infinita , para com quem cada criatura encontra-se sob obrigações infinitas de render prazeirosa e incessante obediência. É por isso que o castigo de Deus ao pecado não redimido será eterno . Necessariamente assim, pois nada menos se adequará ao caso, nada menos satisfará a justiça Divina. E é por isso que Deus não poderia receber satisfação alguma para com a Sua lei quebrada, exceto se de alguém que possuísse infinitos méritos.
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A passagem em Romanos 3:23 define o pecado como “destituição da glória de Deus”, i.e., da Sua glória declarativa e manifesta. Pecado é a falha em render a Deus aquilo que é de direito à Sua alta honra, a saber, respeito e tributo constantes, perfeitos, implícitos. As bem-aventuranças essenciais de Deus não podem ser atacadas pela criatura: onde assim LHE aprouver, bastar-LHE-ia simplesmente balbuciar as palavras, e cada rebelde em todo o universo deixaria imediatamente de existir. Mas a Sua glória afirmativa pode sim, ser atacada pelos nossos pecados. O pecado desonra a Deus, e o homem caído é completamente incapaz de restaurar-LHE a honra, e todavia essa incapacidade para fazê-lo é criminosa e aumenta a sua culpa. Não somente o pecado desonra a Deus, mas também não pode ser perdoado por Ele nem o transgressor absolvido, até que cada exigência da lei seja cumprida. Isso, a criatura não pode fazer. Como mostramos no capítulo anterior, ninguém exceto um mediador que fosse tão Divino quanto humano, era competente para render plena satisfação a Deus. E isso foi o que Cristo fez: A Sua Expiação trouxe de volta à glória declarativa de Deus o benefício de honra e de louvor que LHE é devido.
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Mas a vida e a morte de Cristo são fatos históricos, que são, praticamente, universalmente admitidos, mas a “ palavra da cruz” (como escrita em I Coríntios 1:18), ou seja, a explicação Bíblica de Sua obra expiadora, é assunto puramente de revelação Divina, e deve ser recebida com humildade inconteste e dela depender com segurança pacífica, simplesmente porque nos é dada a conhecer pela autoridade de Deus. Raciocínios e argumentos, aqui, são inteiramente vãos, e especulações são profanas. Ademais, como proclamamos no capítulo inicial, todas tentativas de ilustrar , a partir de supostas analogias humanas, desonram a Deus e pervertem a Sua Verdade de modo grosseiro. A obra redentora de Cristo é única. Ela permanece só, em sua magnificência solitária. Não há nada em toda história que de alguma forma lhe seja semelhante. Quanto um pregador tenta “simplificar” o mistério das três Pessoas da Trindade através de alguma ilustração da “natureza”, ele somente demonstra a sua própria tolice, e a ninguém auxilia. Assim também, cada esforço para explicar a Expiação com o auxílio do que quer que seja, fora das Sagradas Escrituras, é somente voltar da luz para as trevas. Os mistérios Divinos não podem ser compreendidos por intermédio de qualquer coisa que se esteja no escopo dos nossos sentidos físicos.
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Com razão foi dito que “a exatidão dos termos esclarece os pensamentos”, a o que podemos acrescentar, A precisão, a exatidão do pensamento é essencial a uma correta visão de qualquer porção da Verdade, e visão correta da Verdade é honrosa a Deus. Portanto, nenhum esforço deve ser poupado na busca por alcançar a mais alta possível precisão de linguagem, quando aspirando expor as coisas de Deus. Muitas vezes um leitor somente obtém uma visão nublada de um assunto, porque o escritor confundiu os efeitos com a natureza daquilo com o que lidava em seus escritos. Por exemplo, certeza de salvação é um dos frutos da fé (tanto quanto um dom do Espírito), todavia tem sido considerado como um elemento essencial da própria fé. Em conseqüência, porque lhes faltou segurança, alguns verdadeiros Cristãos mergulharam no que Bunyan temia ser o Lamaçal de Desânimo, por imaginarem que não estavam salvos. Semelhantemente, muitos escritores versando sobre a Expiação têm descuidadamente misturado alguns dos seus principais efeitos e frutos, com a sua própria natureza.
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Um exemplo pertinente do que acabamos de dizer é visto na agora quase idéia corrente, de que a Expiação de Cristo significa “o colocar juntos, Deus e o pecador” ( N.T. o escritor utilizou um jogo de palavras, desmembrando o termo em Inglês “Atonement” — Expiação, em “At-one-ment”, que traduzido ao pé da letra significaria mais ou menos “em uma fábula” ) . Mas este não é de forma alguma o significado do termo, seja utilizado pelas Sagradas Escrituras ou empregado em obras teológicas seguras, confiáveis. A reconciliação é um dos muitos efeitos ou frutos da Expiação de Cristo, mas não se constitui parte da obra que ele perpetrou. Muitos outros têm falhado em distinguir entre a Expiação de Cristo e a Redenção, que é um dos seus frutos. É de vital importância distinguir entre o que Cristo fez e o que resultou a partir dali. Para compreender o que Ele fez, vamos agora tentar definir a natureza da Sua Expiação.
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1. FOI UMA OBRA FEDERAL
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Ao empregar o termo “federal”, queremos dizer que havia uma unidade oficial existindo entre o Mediador e aqueles por quem Ele mediou, ou, numa linguagem mais simples, que existe uma união legal entre Cristo e Seu povo. “Quando, no Velho Testamento, aos eleitos é feita referência como a parte com a qual Deus faz uma aliança, eles tão vistos como estando em Cristo, e sendo um com Ele. A aliança não é feita deles somente, e enquanto separados de Cristo. Isso nos é ensinado na carta aos Gálatas, 3:16, ‘ Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.' Os eleitos são aqui (como também em I Coríntios 12:12) chamados de ‘Cristo', por causa da união entre Cristo e os eleitos. E de maneira similar, quando de Cristo, conforme em Isaías 42:1-6 é dito ser a parte com a qual o Pai tem aliança, os eleitos devem ser enxergados como estando nELE. Tão unidos e um com Ele, que o Seu sofrimento expiador é visto como sendo o seu sofrimento expiador, ‘estou crucificado com Cristo' (Gálatas 2:20).” — (Wm. Shedd, 1889).
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“Cristo não é somente o Substituto, mas a Fiança do Seu povo. O Evangelho está alicerçado no fato de que Adão e Cristo são cabeças pactuais e representantes de suas respectivas famílias. Por conseguinte, são ambos denominados de “o primeiro homem” e “o Segundo homem” {conforme em I Coríntios 15:47}, como se não tivesse havido ninguém mais a não ser eles, pois os filhos de cada um eram inteiramente dependentes de seus cabeças. Em Adão todos eles morrem; em Cristo todos eles são vivificados {leia em I Coríntios 15:22}. O primeiro “todos” refere-se e inclui cada indivíduo da espécie humana, enquanto que o segundo “todos” é explicado pelo apóstolo com sendo “os que são de Cristo” (I Coríntios 15:23).” — (James Haldane, Doutrina da Expiação ).
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Foi como o cabeça dos Seus eleitos que Deus comprometeu-se, fez aliança com Cristo, de modo que, num sentido muito real, tal aliança foi também feita com eles. Isto é o que explica todas aquelas passagens que falam da unidade dos santos com Cristo, como se, estivessem “crucificados com Cristo” (Gálatas 2:20), “morrido com Ele” (Romanos 6:8), tivessem sido “sepultados com Ele” conforme simboliza o batismo escritural (veja em Romanos 6:8}, houvessem sido “ressuscitados com Ele” (como Colossenses 2:12), “elevados com Ele” (conforme Efésios 2:6), e tivessem sido feitos “assentarem-se nos lugares celestiais, em Cristo Jesus ” (como declarado em Efésios 2:6}. Então eles eram legalmente um com Ele, e Ele com eles, em tudo o quanto Ele fez para render satisfação completa a Deus. Neste ponto que é vitalmente importante, não podemos fazer melhor do que dar uma sinopse da última seção do capítulo dois da inestimável obra de H. Martin:
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Como podemos nós formular e estabelecer a relação subsistente entre Cristo e os Seus, como Redentor e redimidos, a menos que voltemos atrás, para a doutrina do Pacto? Alguma relação, é evidente, deve ser reconhecida como subsistindo entre Cristo e aqueles no lugar de quem Ele morre, do contrário nem de longe nos aproximamos da idéia de um sacrifício vicário. A possibilidade de real expiação absolutamente postula, e requer, uma conjuntura, uma combinação entre Aquele que expia e aqueles por quem a Sua expiação está disponível. Isto está além da necessidade de alguma prova. E como existe uma obrigatoriedade de alguma conjuntura ou relação, então na busca da conjunção ou relação que verdadeiramente subsiste, nossa busca não pode terminar satisfatoriamente até que tenhamos encontrado e reconhecido a unidade pactual. A mesma razão que demanda uma relação, permanece insatisfeita até que se encontre com esta relação.”
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Não satisfaz as necessidade do caso referir-se à união entre Cristo e Seu povo, a qual é efetivada na sua regeneração, pela agência do Espírito Santo e a instrumentalidade daquela fé, que é o Seu dom. Verdade, é indispensável antes que qualquer um possa desfrutar de quaisquer das bênçãos da compra efetuada por Cristo. Mas deve ter havido uma relação entre Cristo e o Seu povo antes que Ele os resgatasse. Tampouco são as necessidades do caso satisfeitas, ao referir-se à Encarnação. Verdade, o Redentor devia tomar sobre Si carne e sangue antes que Ele pudesse redimi-los, mas ainda assim deve haver um laço de união mais íntima do que aquele que Cristo tem, com os salvos e os não salvos. Ele apoderou-se da “semente de Abraão ” (conforme em Hebreus 2:16), não da “semente de Adão”! Nem seria suficiente dizer que a relação é aquela de fiança e de substituição, pois a pergunta ainda pende de resposta, O que adequou e tornou justo, que o Filho de Deus devesse sofrer por outros, o Santo ser feito pecado? É até este ponto que a investigação deve ser afunilada.
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Cristo foi a Fiança de Seu povo porque Ele era o seu Substituto. Ele agiu por eles porque Ele se colocou em seu lugar. A relação de um substituto justifica a Fiança; mas o que justificará a substituição? Eis aqui o eixo sobre o qual tudo gira. Nós concordamos de coração com o Dr. Martin, quando ele diz, “Não podemos obter satisfação alguma neste ponto, nenhuma resposta suficiente a esta questão, e portanto nenhuma conclusão satisfatória a toda a nossa linha de investigação, até que a doutrina da sempiterna unidade-pactual venha à tona. Aquela é a sublime relação. Aquela é a sublime e principal conjunção entre o Redentor e os redimidos, que sozinha suporta e responsabiliza-se por tudo o mais com respeito à relação que pode estabelecida como verdadeira, no que a eles se refere. ‘ Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos.' (Hebreus 2:11). Ele nos substituiu, porque Ele é um conosco — identificado conosco, e nós com Ele.”
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Promovido por infinito amor, Cristo, como o homem-Deus, aceitou livremente os temos da Aliança Eterna, que foi proposta a Ele, e voluntariamente assumiu todas as responsabilidades legais por Seu povo. Como seu Cabeça, Ele veio à terra, viveu, sofreu e morreu como seu Representante vicário. Ele obedeceu e sofreu como seu Substituto. Através da Sua obediência e dor, Ele os desencarregou de todas as suas obrigações. Seus sofrimentos dispensaram o castigo da lei, e Sua obediência mereceu bênçãos infinitas para eles. A passagem em Romanos 5:12-19 afirma de modo explícito que os eleitos de Deus são, legalmente, “feitos justos”, em precisamente o mesmo princípio pelo qual eles primeiro foram “feitos pecadores”. “Nossa união com Cristo é da mesma ordem, e envolve a mesma classe de efeitos, como a nossa união com Adão. Nós a chamamos uma união, tanto federal como vital . Outros podem chamá-la como lhes aprouver, mas não obstante permanecerá certo que trata-se de união de natureza tal, como para envolver uma identidade de relações legais e de obrigações e direitos recíprocos” (A. A. Hodge). “ Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” {Romanos 5:19} — “para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (II Coríntios 5:21).
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Mais de mil anos atrás, Agostinho observou que, “Tal é a inefável proximidade desta união transcendental, que ouvimos a voz dos membros sofrendo, quando eles sofreram em seu Cabeça , e clamaram através do Cabeça, na cruz, ‘Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?' (Mateus 27:46). E, de maneira similar, nós ouvimos a voz do Cabeça sofrendo, quando Ele sofreu em Seus membros, e clamou ao perseguidor no caminho de Damasco, ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?' (Atos 9:4).
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A relação federal de Cristo para com o Seu povo era uma relação real, na qual o Deus infalível considerou justo punir Cristo pelos pecados do Seu povo, e creditá-los com a Sua justiça, e satisfazer assim, completamente, todas as demandas da Sua lei sobre eles. Como resultado aquela união, Cristo foi em todas as coisas foi feito em tudo “semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:17), sendo “contado (reconhecido como) com os transgressores” (Isaías 53:12); e eles, por sua vez, são “membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos” (Efésios 5:30). Como conseqüência desta união federal, Cristo também é feito “espírito vivificante” (I Co. 15:45), de modo que, no tempo devido, cada um de Seu povo se torne um membro vivo e vital daquele corpo espiritual do qual Ele é o Cabeça (conforme Ef. 1:19-23, “E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.”)
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A relação entre Cristo e aqueles que se beneficiam da Sua Expiação não foi, portanto, algo vago, indefinido, casual, mas consistiu de uma unidade pactual real, identidade legal, união vital. A fiança assim pressupõe. A substituição explícita assim demanda. Imputação real procede di sso. O castigo que Cristo sofreu não poderia ter sido infligido de outra forma. Aqueles por quem a Satisfação foi prestada, por necessidade inevitável, compartilham dos seus benefícios e recebem o que foi por eles comprado. Somente isso satisfaz a objeção da injustiça de o Inocente sofrer pelo culpado, como também somente isso explica a transferência dos sofrimentos e dos méritos de Cristo, para os redimidos.
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2. FOI UMA OBRA SUBSTITUTIVA
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Os termos “substitutiva” e “vicária” são comumente usados de forma muito relaxada. Muitos que têm buscado ganhar uma reputação pela ortodoxia e a partir de então insinuarem-se na confiança do povo de Deus têm feito uso dos termos simples, vazios, todavia com não outra intenção senão de dizer que Cristo sofreu em favor de outros, para o benefício de outros. Mas isso é somente uma meia verdade, e portanto parente muito próxima de uma mentira. Sofrimento ou castigo vicário é mais do que sofrimento suportado pelo bem de outrem. Os sofrimentos ou martírios pelo bem de uma causa, de patriotas pelo seu país, de filantropos pelo bem da raça humana, não são “vicários”, pois eles não são substitutivos . Sofrimento vicário é o sofrimento suportado não somente em favor de outros, mas no lugar de outros, no lugar real de outros. Carrega, portanto, consigo, a isenção da parte no lugar da qual o sofrimento é padecido. O que um substituto faz pela pessoa cujo lugar ele preenche, ele absolve tal pessoa da necessidade dela mesma passar ou sofrer a mesma coisa! Assim,quando afirmamos os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, queremos dizer que Ele a Si mesmo Se colocou no lugar dos pecadores e satisfez a lei por eles, e que, de forma tal, que a lei não pode mais fazer nenhuma reivindicação, qualquer que seja sobre eles. Os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, identicamente do mesmo modo que a morte de animais no Antigo Testamento era em lugar da morte do transgressor que os oferecia em sacrifício.
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As Escrituras ensinam que Cristo era, num senso exato e completo, o Substituto do Seu povo, i.e. que por indicação Divina e de Sua livre vontade, Ele assumiu todas os seus débitos, tomou o seu lugar perante a lei, e obrigou-SE a fazer no lugar deles tudo o que a lei exigia, rendendo a ela aquela obediência da qual dependia todo o bem-estar deles, e sofrendo o castigo da lei, merecido pelos seus pecados. Cristo veio a ser o seu Patrono vicário, assumindo todas as suas obrigações e responsabilizando-se por satisfazer a justiça Divina em seu lugar. Tão real foi a Sua substituição em lugar deles, que o que Ele fez e o que Ele sofreu por eles evitou toda necessidade de eles cumprirem com as demandas da lei em suas próprias pessoas. Assim, a Satisfação prestada por Cristo foi muito mais que um expediente para “remover aqueles obstáculos” que impediam a Deus justificar os pecadores: era o que exigiu a Justiça, para perdoar os pecados de todos quantos por quem tal Satisfação foi feita. A Satisfação de Cristo foi infinitamente mais do que uma maneira de “abrir o caminho” por onde a graça de Deus pudesse fluir: era o que necessitavam todos pelos quais ela foi feita, para serem vestidos com toda a sua excelente eficácia.
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Ao tornar-Se o Substituto por Seu povo, ao colocar-Se sob as obrigações deles, ao engajar-Se para liberá-los de todas as suas responsabilidades, Cristo foi, necessariamente, “ nascido sob a lei ” (Gálatas 4:4), de forma a poder Ele guardar os seus estatutos, cumprir as suas exigências, e assim por intermédio dela, ser “engrandecido” e ser feito “glorioso” (como em Isaías 42:21). A Escritura ensina claramente que ao obediência de Cristo foi algo tão “vicário” como o Seu sofrimento, e que ele reconciliou os eleitos e Deus, tanto de um lado como do outro — por isso é que insistimos no uso do termos mais amplo, “a Satisfação de Cristo”, pois o termo “expiação”, no seu sentido estrito, cobre somente a expiação da nossa culpa através do Seu sofrimento vicário. A ativa obediência da lei por Cristo foi exigida como a condição meritória por intermédio da qual o favor Divino e a recompensa prometida da Aliança pudessem vir sobre todos aqueles dos quais Ele era a Garantia. Nós nunca devemos tentar separar a obediência ativa e os sofrimentos passivos de Cristo, nem ao contemplar Sua obra mediadora, ou ao considerar o efeito daquela obra na posição de aliança do Seu povo. A obediência vicária de Cristo é parte intrínseca daquela “justiça” a qual Ele perpetrou no nosso lugar, e a qual nos é imputada como base para a nossa justificação. Tudo o quanto Cristo fez na terra, ele assim o fez como Mediador . Ele agia em nosso lugar tão verdadeiramente quando Ele obedeceu a Deus como quando Ele agüentou a Sua ira. E é em referência a ambos aspectos conjuntamente , que Ele é nomeado “ o Senhor justiça nossa” (Jeremias 23:6).
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É preciso enfatizar que a “obediência” de Cristo não deve ser restrita a o que Ele fez antes da Cruz, nem devem os Seus “sofrimentos” serem limitados a o que Ele suportou durante a Crucificação e nos momentos que imediatamente a precederam. Não, Ele sofreu durante toda a Sua vida, e obedeceu durante toda a Sua morte. “Toda a vida terrena de Cristo, incluindo o Seu próprio nascimento, foi um esvaziar-SE contínuo, mesmo até a morte. Seu nascimento, e cada momento de Sua vida, na forma de servo, foi da natureza de sofrimentos santos. Cada experiência de dor durante todo o curso de Sua vida, e eminentemente na Sua morte na cruz, foi, de Sua parte, um ato meritório e voluntário de obediência. Ele viveu toda Sua vida terrena, desde o Seu nascimento e até a Sua morte, como o nosso Representante, obedecendo e sofrendo em nosso lugar, e pelo nosso benefício; e durante todo este percurso, todo o Seu sofrimento foi obediência, e toda a Sua obediência foi sofrimento. A justiça a qual Ele operou por Seu povo consistiu precisamente neste sofrimento e obediência. A justiça de Cristo, que é imputada distintamente a cada crente, como a base de sua justificação, consiste precisamente deste sofrimento e desta obediência. Sua vida terrena, como sofrimento cancela o castigo, e como obediência , satisfaz os preceitos e assegura a recompensa prometida da lei; mas o sofrimento e a obediência não estavam de fato separados, e são inseparáveis em princípio, e igualmente necessários para satisfazer a lei da aliança e assegurar a salvação dos eleitos” (A.A. Hodge)
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A lei, como um pacto, uma aliança de vida, estava acompanhada por duas sanções. Primeira, a promessa de “vida” ou de favor Divino e bem-estar eterno, condicionada à perfeita obediência: veja Lv. 18:5 (“ Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Senhor. ”); Mt. 19:17 (“ E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos .”; Rm 10:5 (“ Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas.”) , Gl 3:12 )“ Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.”). Segundo, o castigo de “morte” pendente na desobediência. Agora, o objetivo pelo qual Cristo Se encarnou foi “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8:4), e portanto é declarado que “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10:4). E isto somente foi possível por Ele cumprir todas as condições da lei. Tivesse Cristo não obedecido vicariamente a lei, tivesse Ele meramente sofrido o castigo da lei, devido pelos nossos pecados, então nós estaríamos destituídos de qualquer justiça positiva, e seríamos como Adão era antes de cair. Mas as Escrituras afirmam enfaticamente que Cristo salvou por Sua obediência tanto quanto pelos Seus sofrimentos: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” (Romanos 5:19) — a “obediência” de Cristo deve ser aqui interpretada na mesma forma natural e óbvia como a “desobediência” de Adão. Assim, nossa obrigação dupla para com Deus, como criaturas e como pecadores, foi satisfeita e liberada por Cristo.
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“Como nosso Representante, Ele sustentou na união de Sua personalidade divina a nossa natureza impessoal, ‘um corpo verdadeiro e uma alma sábia', de forma que Ele pudesse assim nascer vicariamente sob a lei , a fim de que através de Sua obediência puramente vicária, ele pudesse ‘ remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos' (Gálatas 4:4,5). Isso significa, necessariamente (a) que Cristo foi nascido sob a lei, à qual Ele não pertencia naturalmente, mas posição à qual Ele foi transferido por um ato de soberania divina; (b) que Ele foi colocado em tal lugar, não por Si mesmo, mas em nossa posição, em nosso lugar; (c) que Ele foi feito nascer sob a lei pelo propósito de assegurar-nos não somente a remissão dos pecados, mas também a adoção de filhos , através da qual nos tornamos ‘herdeiros de Deus por Cristo ' (Gálatas 4:7); tudo isso estando condicionado não ao sofrimento, mas à obediência. Tudo o que Cristo fez na terra, Ele assim o fez como nosso Mediador, e tudo o que Ele fez como Mediador, Ele assim o fez no lugar daqueles por quem Ele agiu como Mediador. Portanto Ele disse (em Mateus 3:15), ‘porque assim nos convém cumprir toda a justiça.' “ (A. A. Hodge).
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Na Epístola aos Romanos, 8:3 (o contexto deve ser cuidadosamente sopesado), lemos que “ o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne.” Aquilo que a lei era incapaz de fazer era justificar os ímpios . O motivo para isto era que a lei demanda obediência perfeita, e isso a carne, por causa do pecado, torna impossível ao pecador cumprir. Em vista disso, Deus enviou Seu próprio Filho, na semelhança de carne pecaminosa, e pelo pecado. Enviou-O ao lugar de réu que pertencia ao Seu povo, e pelo Seu executar o castigo nELE “condenou o pecado na carne”, e pela aceitação da Sua obediência vicária, a “justiça da lei” é cumprida em nós. A frase “a justiça da lei” é utilizada no Novo Testamento para expressar a totalidade daquilo que a lei demanda como a condição de favor. Em Adão, antes de cair, a justiça da lei era a perfeita obediência. No caso de todos os seus descendentes, é a perfeita obediência da lei mais o sofrer do seu castigo; daí a impossibilidade de nós alcançarmos uma justiça legal por intermédio da nossa própria e pessoal agência.
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Agora, a “justiça da lei” é colocada em antítese para com “a justiça da fé” (como em Romanos 10:5,6). É o mesmo que (veja o contexto) as tentativas fúteis do pecador para satisfazer as exigências da lei em sua própria pessoa, em contraste com a satisfação vicária de Cristo, da qual a fé se apropria e toma posse. “ aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” ( II Pedro 1:1). No mesmo efeito, nossa justiça vá é contrastada com a perfeita justiça de Deus em Cristo: veja em Romanos 3:20–26. A obediência, aquela obediência, a obediência de Cristo é, portanto, a essência da justiça. Portanto lemos que Ele “para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça,” (I Coríntios 1:30). E Paulo declara, portanto, o seu desejo de ser “achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé.” (Filipenses 3:9). O fato de Cristo sofrer o castigo da lei, exigiu o perdão dos nossos pecados; a obediência prestada por Cristo, exigiu que a Sua justiça seja imputada a nós e que estejamos eternamente estabelecidos no favor de Deus.
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Na passagem citada acima (Romanos 8:3), nos é dito que Deus enviou o Seu próprio Filho “ em semelhança da carne do pecado”. Esta expressão incomum precisa ser investigada cuidadosamente, a fim de não pecarmos pelo exagero, ou não a compreendermos por enunciado falho. Primeiro, ela afirma a realidade da humanidade de Cristo. Segundo, até que ponto aquela humanidade encontrava-se unida. A Divindade precisava ser de uma humanidade sem pecado: gerada pelo Espírito Santo, era pura e santa. Isto foi assegurado pelo fato de que embora Ele tomasse sobre Si a carne de Adão através da Virgem, Ele não encontrava-Se sob a aliança, sob o pacto de Adão. Terceiro, sua “semelhança” ou aparência era segundo a ordem de “carne do pecado”: entre Ele e os homens pecadores não havia nenhuma diferença perceptível , que pudesse ser notada: em cansaço e exaustão, aflição e sofrimento, Cristo era em todos aspectos “ semelhante a seus irmãos” (Hebreus 2:17). Mas o trabalho duro e a tristeza, o sofrimento, a fraqueza e a dor, não LHE sobrevieram como a conseqüência inevitável da Encarnação, senão resultaram da Sua vinda até aqui, como a Garantia do Seu povo.
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Cristo era pessoalmente isento de todas as conseqüências do pecado de Adão, mas oficialmente Ele estava sujeito a elas. Pessoalmente, Ele era uma pessoa Divina assumindo uma humanidade sem pecado, e tivesse Ele não vindo aqui como o Cabeça dos eleitos de Deus (considerados como criaturas caídas), Ele indubitavelmente teria aparecido numa humanidade tão gloriosa como aquela de Adão não caído. Mas, oficialmente Ele assumiu a aparência, a “semelhança da carne do pecado”, uma expressão referindo-se aos efeitos os quais o pecado era a causa: especialmente, sujeito a sofrimento e à mortalidade, e isso desde o momento do Seu nascimento. Ó, infinito rebaixamento de Si mesmo! Ó maravilha de condescendência! Ele sofreu em Seu corpo o peso do pecado imputado, um corpo sustentando as tristes marcas do pecado, pois “o Seu aspecto estava tão desfigurado que não era o de um homem, e a sua figura não era a dos filhos dos homens” (Isaías 52:14). Não houve nenhuma diferença perceptível entre a Sua humanidade e a nossa, não porque precisamente a mesma carne tivesse a Ele sido transmitida desde Adão, mas porque como O portador dos nossos pecados Ele assumiu voluntariamente o peso da culpa imputada, que carregava consigo a humilhação e a degradação, sofrimento e morte: tal foi oficialmente assumida, não pessoalmente herdada.
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Cristo veio na “semelhança da carne do pecado”, e “por causa do pecado” (Romanos 8:3), isto é, por conta do pecado: foi por isso que Deus O “enviou”: “pecado condenado na carne”: o pecado ainda é personificado , tal como escrito na Epístola aos Romanos 5:6, 7: veja também 5:21; 6:14, etc. — o potentado tendo seguros os homens em cativeiro. Deus “condenou o pecado” fala do pecado como uma pessoa julgada perante o mais elevado tribunal e corretamente, justamente condenado. Em conseqüência do julgamento de Deus, o pecado não tem mais nenhuma reivindicação sobre aqueles a quem ele havia tiranizado: eles estão libertos. “Condenou o pecado na carne” quer dizer condenado na humanidade de Cristo, como o Sacrifício vivo sem pecado — conforme Romanos 5:18, 21 — uma condenação livrando o seu povo da condenação: Romanos 8:1. Cristo foi “condenado”, visitado por sofrimento penal, porque Ele apresentou-Se perante Deus somente na aparência dos nossos pecados malditos. E isto, “ para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós ”, ou seja, como se nós , pessoalmente o tivéssemos feito.
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Muito corretamente apontou o Mr. J. Inglis, “O fato de que Deus enviou Seu Filho na semelhança de carne do pecado e pelo pecado, sugere que Ele adentrou à condição de Seu povo, que, com todas as suas maldades, é a conseqüência do pecado. Se O encontramos pobre e desprezado, faminto e com sede, sujeito ao trabalho árduo e à fadiga, homem de dores e familiarizado com a tristeza e o sofrimento, não isento do medo da morte nem isento da própria mortalidade, para dizer nada de tudo o mais que Ele suportou nas mãos de Satã e dos homens; tudo isso são indubitavelmente as conseqüências do pecado, e Ele somente poderia estar exposto a elas na condição de Ele representando os pecadores.” (Waymarks, Volume 10).
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Uma luz mais cheia brilha a partir dos quatro Evangelhos, quando percebemos que eles não são a biografia de um indivíduo privado, mas a história da Fiança, da Certeza do povo de Deus. Cristo foi o Cabeça Representante de uma companhia eleita: desde Belém até o Calvávio, Ele foi a sua Vítima vicária. O aparecimento do Filho de Deus na terra foi a conseqüência direta do pecado. A Encarnação e a Cruz são inseparáveis; ambas foram os meios para um fim — a vindicação da justiça Divina, a expiação do pecado, a prestação de cabal e meritória obediência à lei. Não podemos analisar o significado do Seu nascimento, feito abaixo dos anjos; a pobreza da Sua condição, Sua ocupação manual, ganhando Seu pão pelo suor do Seu rosto, em conformidade com a maldição sobre o Seu povo; Sua tentação por Satã; Suas privações, o suportar a sede e a fome e a execução pública; tudo isso, dizemos, não podem ser contemplados sem a firme convicção de que estavam todos incluídos na nossa culpa e relacionados com o nosso castigo, com a nossa punição.

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