Expiação - Sua Natureza III
Foi corretamente dito que, “A doutrina da Expiação é colocada em sua luz adequada somente quando considerada como a verdade central do Cristianismo, o grande tema das Escrituras. O principal objeto de Revelação foi desdobrar este método único de reconciliação através do qual os homens, uma vez alienados de Deus, pudessem ser restaurados à relação correta, e mesmo a uma relação melhor do que a sua antiga posição. Mas a doutrina é simplesmente revelada , ou em outras palavras, nos é ensinada somente pela autoridade Divina” (George Smeaton). Se for um fato que a grande Expiação é a luminária central no firmamento da verdade de Deus, é igualmente verdadeiro que a natureza da Expiação é o próprio coração deste assunto vital. Portanto cabe a nós dar-lhe nossa mais devota e cuidadosa consideração.
Na busca de expor a natureza da Satisfação que o Mediador rendeu a Deus em lugar do Seu povo, nós vimos, primeiro, que Sua obra foi uma obra federal : que Cristo entrou neste mundo não como um indivíduo privado, mas num caráter oficial, como o Cabeça pactual dos eleitos de Deus, como o seu Representante legal. Isso excepcionalmente aparece em Seu primeiro pronunciamento ministerial. Em Lucas 2:49 temos a primeira palavra pessoal , que as Escrituras registram como procedendo daqueles lábios nos quais a graça havia sido “derramada” (Salmo 45:2, “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre.”), a saber: “ Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? ”. Ali Ele expressou a Sua relação para com Deus , para com Aquele que O havia enviado: Ele havia vindo aqui para tratar dos negócios, para fazer a obra que o Pai O havia designado. Aquelas palavras foram por Ele pronunciadas enquanto um Garoto de doze anos. Um intervalo de dezoito anos se passou antes de ouvirmos um outro pronunciamento Seu, feito como nunca um homem o fez, a saber, “ Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” (Mateus 3:15). Aqui Ele expressou a Sua relação para com o Seu povo , para com aqueles no lugar de quem Ele havia sido enviado.
O Salvador havia agora saído da reclusão de Nazaré e Se apresentado para o batismo, nas mãos do Seu anunciador. João deve ser considerado como a expressão viva e o ponto culminante da lei e dos Profetas (Lucas 16:16, “ A lei e os profetas duraram até João...”) que tiveram por longos séculos testemunhado para a vinda do Messias, e os quais agora, pelo seu grande representante (Mateus 11:11, “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista...”), devia apresentar Cristo ao Seu ofício (João 1:31, “E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.”). Como Cristo reconheceu a eles (ao dirigir-se a João), também eles (nEle, seu representante) deviam confirmá-Lo como a verdade dos Profetas e a substância dos tipos da lei. A princípio João hesitou, e Cristo disse “Deixa por agora .” Em Grego, o termo “agora” é enfático: deixa em Meu presente estado de humilhação, como um ato apropriado ao Meu ofício como Substituto . O motivo apresentado foi: “porque assim Nos convém”, não “Me”, no sentido pessoal, mas “nós” — Cristo sendo um com aqueles a quem Ele havia vindo salvar! Eis a relação federal, vista desde o começo!
“Assim nos convém cumprir toda a justiça.” Aquelas palavras não devem ser limitadas ao ato do batismo. A linguagem é mais geral em seu escopo, ainda que particular em seus termos. A expressão “convém” significava, “Não é indigno do Filho de Deus descer tão baixo, pois a “justiça” assim o exige”. Sua linguagem intimidava, “É apropriado que eu apareça ‘em semelhança da carne do pecado' (Rm 8:3), identificando-Me com eles no ‘confessar dos seus pecados' (Marcos 1:5)”. Era conveniente que Ele devesse ser batizado naquele rio do qual se falava de morte (Jr 12:5) bem no início do Seu ministério público, pois isso simbolizava aquele “batismo” de sofrimento pelo qual Ele passaria (Lc12:50) e mostrasse Sua disposição para enfrentá-lo. Passar por sob as águas do Jordão era um símbolo adequado de todas aquelas ondas e vagas (Salmo 42:7) da ira de Deus, que cedo quebrariam sobre Ele. Era apropriado que ele devesse “executar toda justiça”, submeter-Se a tudo aquilo que a lei prenunciara e que os profetas predisseram, e assim concluir, completar todas as demandas de Deus sobre o Seu povo.
Segundo, vimos que a Satisfação rendida por Cristo para com Deus foi uma satisfação vicária . Agora como o Substituto de Seu povo, a lei exigia duas coisas de Cristo: primeiro, que Ele rendesse aquela obediência que era exigida deles, enquanto criaturas; segundo, que Ele devia sofrer aquele castigo que eles mereciam, enquanto pecadores. Assim, a obra mediadora que foi dada a Cristo para executar envolvia dois aspectos, os quais embora inseparavelmente conectados, todavia são claramente separáveis em pensamento, ou seja, uma obra de obediência distinta dos sofrimentos que Ele padeceu. Em toda Sua obediência Ele sofreu; em todos os Seus sofrimentos Ele obedeceu. Por conseguinte, é de primária importância reconhecer que durante todo o curso de Sua vida terrena Cristo sustentou uma relação dupla para com a lei: pessoalmente sem pecado, oficialmente sob a sua maldição. O próprio fato de Seu postar-se “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3) evidencia que o pecado havia sido transferido a Ele desde o momento que Ele foi concebido no útero da Virgem. Não obstante, Ele que “sofreu pecado” durante todos os Seus dias de carne, também foi O Executor de uma obra Divina.
A própria condição sem pecado de Cristo foi a base necessária para a Sua obra de tolerar o pecado (II Coríntios 5:21). Ele devia ser inocente para representar os culpados; Ele devia ser santo para tomar o lugar dos ímpios, do contrário Ele também necessitaria de um Salvador. Foi o Justo que sofreu pelo injusto (I Pedro 3:18). Assim a maravilhosa vida de Cristo é muito mais que um espetáculo a ser apreciado com admiração, e mais que um exemplo a ser seguido por Seu povo (I Pedro 2:21); ela deve ser considerada como a obra de um pela multidão . Única, gloriosa, perfeita, foi Sua formosa vida. “...porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (João 5:30), apresenta os princípio orientador que sempre O governou — compare em João 4:34 (”Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”). “Eu faço sempre o que lhe agrada.” (João 8:29). Sua vida foi uma vida de serviço constante a Deus: ininterrupta em duração, perfeita em grau, impecável em seu equilíbrio. Uma graça não excluiu ou prejudicou outra: tudo estava lá, tudo estava perfeitamente combinado. Tal vida, tal obediência, tal serviço, merecida recompensa , e é em verdade concedida a todos quantos Ele representou, a todos aqueles a cujo substituto Ele foi. Nós agora estamos prontos para considerar que:
3. FOI UMA OBRA PENAL
As Escrituras ensinam claramente que Deus é ambos, Santo e Justo, e que “justiça e juízo” (e não “amor e misericórdia”) são a base do “trono” de Deus (Salmo 89:14). Dessa forma existe na Essência Divina o que abomina o pecado por sua pecaminosidade intrínseca, tanto no que diz respeito à poluição como em seu aspecto de culpa. As perfeições de Deus são portanto mostradas tanto pela proibição como pela punição do pecado. Ele comprometeu-Se que “ a alma que pecar, essa morrerá.” (Ezequiel 18:4). Portanto, de forma que uma Satisfação completa seja rendida a Deus, o pecado deve ser punido, o castigo da lei deve ser aplicado. Consequentemente, como o Salvador de Sua Igreja, Cristo tinha de sofrer vicariamente a imposição da maldição da lei.
O que procuraremos mostrar agora é que os sofrimentos e a morte de Cristo foram uma satisfação à justiça Divina em favor dos pecados do Seu povo. No caso de alguma objeção quanto ao utilizarmos o termo “satisfação”, chamemos a atenção para o fato de que esta palavra é encontrada em nossas Bíblias , tendo sido usada pelos tradutores como o equivalente à palavra em Hebreu que é geralmente usada como “Expiação”: “ E não recebereis resgate ( satisfação) pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate (satisfação) por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote.” (Nm. 35:31,32).
Na busca de expor a natureza da Satisfação que o Mediador rendeu a Deus em lugar do Seu povo, nós vimos, primeiro, que Sua obra foi uma obra federal : que Cristo entrou neste mundo não como um indivíduo privado, mas num caráter oficial, como o Cabeça pactual dos eleitos de Deus, como o seu Representante legal. Isso excepcionalmente aparece em Seu primeiro pronunciamento ministerial. Em Lucas 2:49 temos a primeira palavra pessoal , que as Escrituras registram como procedendo daqueles lábios nos quais a graça havia sido “derramada” (Salmo 45:2, “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre.”), a saber: “ Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? ”. Ali Ele expressou a Sua relação para com Deus , para com Aquele que O havia enviado: Ele havia vindo aqui para tratar dos negócios, para fazer a obra que o Pai O havia designado. Aquelas palavras foram por Ele pronunciadas enquanto um Garoto de doze anos. Um intervalo de dezoito anos se passou antes de ouvirmos um outro pronunciamento Seu, feito como nunca um homem o fez, a saber, “ Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” (Mateus 3:15). Aqui Ele expressou a Sua relação para com o Seu povo , para com aqueles no lugar de quem Ele havia sido enviado.
O Salvador havia agora saído da reclusão de Nazaré e Se apresentado para o batismo, nas mãos do Seu anunciador. João deve ser considerado como a expressão viva e o ponto culminante da lei e dos Profetas (Lucas 16:16, “ A lei e os profetas duraram até João...”) que tiveram por longos séculos testemunhado para a vinda do Messias, e os quais agora, pelo seu grande representante (Mateus 11:11, “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista...”), devia apresentar Cristo ao Seu ofício (João 1:31, “E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.”). Como Cristo reconheceu a eles (ao dirigir-se a João), também eles (nEle, seu representante) deviam confirmá-Lo como a verdade dos Profetas e a substância dos tipos da lei. A princípio João hesitou, e Cristo disse “Deixa por agora .” Em Grego, o termo “agora” é enfático: deixa em Meu presente estado de humilhação, como um ato apropriado ao Meu ofício como Substituto . O motivo apresentado foi: “porque assim Nos convém”, não “Me”, no sentido pessoal, mas “nós” — Cristo sendo um com aqueles a quem Ele havia vindo salvar! Eis a relação federal, vista desde o começo!
“Assim nos convém cumprir toda a justiça.” Aquelas palavras não devem ser limitadas ao ato do batismo. A linguagem é mais geral em seu escopo, ainda que particular em seus termos. A expressão “convém” significava, “Não é indigno do Filho de Deus descer tão baixo, pois a “justiça” assim o exige”. Sua linguagem intimidava, “É apropriado que eu apareça ‘em semelhança da carne do pecado' (Rm 8:3), identificando-Me com eles no ‘confessar dos seus pecados' (Marcos 1:5)”. Era conveniente que Ele devesse ser batizado naquele rio do qual se falava de morte (Jr 12:5) bem no início do Seu ministério público, pois isso simbolizava aquele “batismo” de sofrimento pelo qual Ele passaria (Lc12:50) e mostrasse Sua disposição para enfrentá-lo. Passar por sob as águas do Jordão era um símbolo adequado de todas aquelas ondas e vagas (Salmo 42:7) da ira de Deus, que cedo quebrariam sobre Ele. Era apropriado que ele devesse “executar toda justiça”, submeter-Se a tudo aquilo que a lei prenunciara e que os profetas predisseram, e assim concluir, completar todas as demandas de Deus sobre o Seu povo.
Segundo, vimos que a Satisfação rendida por Cristo para com Deus foi uma satisfação vicária . Agora como o Substituto de Seu povo, a lei exigia duas coisas de Cristo: primeiro, que Ele rendesse aquela obediência que era exigida deles, enquanto criaturas; segundo, que Ele devia sofrer aquele castigo que eles mereciam, enquanto pecadores. Assim, a obra mediadora que foi dada a Cristo para executar envolvia dois aspectos, os quais embora inseparavelmente conectados, todavia são claramente separáveis em pensamento, ou seja, uma obra de obediência distinta dos sofrimentos que Ele padeceu. Em toda Sua obediência Ele sofreu; em todos os Seus sofrimentos Ele obedeceu. Por conseguinte, é de primária importância reconhecer que durante todo o curso de Sua vida terrena Cristo sustentou uma relação dupla para com a lei: pessoalmente sem pecado, oficialmente sob a sua maldição. O próprio fato de Seu postar-se “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3) evidencia que o pecado havia sido transferido a Ele desde o momento que Ele foi concebido no útero da Virgem. Não obstante, Ele que “sofreu pecado” durante todos os Seus dias de carne, também foi O Executor de uma obra Divina.
A própria condição sem pecado de Cristo foi a base necessária para a Sua obra de tolerar o pecado (II Coríntios 5:21). Ele devia ser inocente para representar os culpados; Ele devia ser santo para tomar o lugar dos ímpios, do contrário Ele também necessitaria de um Salvador. Foi o Justo que sofreu pelo injusto (I Pedro 3:18). Assim a maravilhosa vida de Cristo é muito mais que um espetáculo a ser apreciado com admiração, e mais que um exemplo a ser seguido por Seu povo (I Pedro 2:21); ela deve ser considerada como a obra de um pela multidão . Única, gloriosa, perfeita, foi Sua formosa vida. “...porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (João 5:30), apresenta os princípio orientador que sempre O governou — compare em João 4:34 (”Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”). “Eu faço sempre o que lhe agrada.” (João 8:29). Sua vida foi uma vida de serviço constante a Deus: ininterrupta em duração, perfeita em grau, impecável em seu equilíbrio. Uma graça não excluiu ou prejudicou outra: tudo estava lá, tudo estava perfeitamente combinado. Tal vida, tal obediência, tal serviço, merecida recompensa , e é em verdade concedida a todos quantos Ele representou, a todos aqueles a cujo substituto Ele foi. Nós agora estamos prontos para considerar que:
3. FOI UMA OBRA PENAL
As Escrituras ensinam claramente que Deus é ambos, Santo e Justo, e que “justiça e juízo” (e não “amor e misericórdia”) são a base do “trono” de Deus (Salmo 89:14). Dessa forma existe na Essência Divina o que abomina o pecado por sua pecaminosidade intrínseca, tanto no que diz respeito à poluição como em seu aspecto de culpa. As perfeições de Deus são portanto mostradas tanto pela proibição como pela punição do pecado. Ele comprometeu-Se que “ a alma que pecar, essa morrerá.” (Ezequiel 18:4). Portanto, de forma que uma Satisfação completa seja rendida a Deus, o pecado deve ser punido, o castigo da lei deve ser aplicado. Consequentemente, como o Salvador de Sua Igreja, Cristo tinha de sofrer vicariamente a imposição da maldição da lei.
O que procuraremos mostrar agora é que os sofrimentos e a morte de Cristo foram uma satisfação à justiça Divina em favor dos pecados do Seu povo. No caso de alguma objeção quanto ao utilizarmos o termo “satisfação”, chamemos a atenção para o fato de que esta palavra é encontrada em nossas Bíblias , tendo sido usada pelos tradutores como o equivalente à palavra em Hebreu que é geralmente usada como “Expiação”: “ E não recebereis resgate ( satisfação) pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate (satisfação) por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote.” (Nm. 35:31,32).
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A profunda humilhação à qual foi sujeito o Filho de Deus ao tomar sobre Si a forma de servo, e de ser feito “em semelhança da carne do pecado”, foi um castigo judicial imposto sobre Ele pelo Pai, todavia voluntariamente submetido por Ele próprio. O propósito particular de Sua humilhação, Sua obediência, Seus sofrimentos, os torna penais , pois eram para a satisfação das exigências da lei de Deus sobre o Seu povo. Ao ser feito “nascido sob a lei” (Gl 4:4), Cristo tornou-Se sujeito a tudo o que é imposto pela lei: “ Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz” (Rm 3:19), o que significa que a lei exige o cumprimento de seus termos. “Cristo em nosso lugar e espaço, através de ambos, Seus atos e Seu sofrimento, satisfez a justiça Divina , nos aspectos legislativo, punitivo e vindicativo, da forma mais perfeita, satisfazendo toda a justiça da lei, que de outra forma a lei exigia de nós para impunidade, e para termos o direito à vida eterna” (H. Witsius, 1693).
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito.” (I Pe. 3:18). A referência aqui não deve ser restrita ao que Cristo sofreu nas mãos de Deus enquanto encontrava-Se pregado na Cruz, nem a tudo por quanto Ele passou durante aquele dia e a noite precedente. Acautelemos-nos de limitar a Palavra de Deus! Não; a totalidade da sua humilhação está aqui incluída. A vida toda de Cristo foi vida de sofrimentos, portanto foi Ele apontado como “o Homem de dores” (Is. 53:3), e não simplesmente, “dor”. Desde o Seu nascimento e até a Sua morte, sofrimento e dor marcaram-No como sua legítima vítima. Enquanto ainda uma criança Ele foi levado ao exílio, para escapar da fúria daqueles que perseguiam Sua vida. Aquilo foi nada mais que o prenúncio de toda a Sua vida terrena. O cálice de angústia, posto em Seus lábios em Belém, nunca foi removido, até que Ele sorvesse seus sedimentos amargos no Calvário.
Cada variedade de sofrimento foi experimentada por Ele. Ele provou da pobreza em seu rigor mais severo. Nascido numa estrebaria, sem qualquer propriedade na terra, dependente da caridade de outros (Lucas 8:3, “... e muitas outras que o serviam com seus bens.”), frequentemente estando em pior situação do que as ordens inferiores da criação (Mateus 8:20, “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”). Ele sofreu censura de ser um glutão, um beberrão, um enganador, um blasfemo, um demônio. Portanto, sim O ouvimos gritar, “Afrontas me quebrantaram o coração” (Salmo 69:20). Ele experimentou tentação em toda a sua malignidade. O Príncipe das trevas O assaltou com toda sua esperteza e poder, fazendo com que as suas legiões infernais O atacassem, vindo contra Ele como “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge.” (Salmo 22:12,13). Acima de tudo, Ele sofreu a ira de Deus, de forma que Ele afirmou, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” (Mateus 26:38), “em agonia” (Lucas 22:44), e finalmente, “abandonado por Deus” (Mateus 27:46; Marcos 15:34).
Qual é, então, a explicação destes “sofrimentos” sem paralelo? Por que a mais perfeita obediência foi seguida pelo castigo mais terrível? Por que a santidade imaculada foi visitada por angústia inexprimível? Davi declarou, “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo...” (Salmo 37:25); por que, então, foi O Justo abandonado por Deus? Somente uma resposta é possível, somente uma resposta atende por completo a todos os fatos do caso; somente uma resposta esclarece o governo de Deus. Ao tomar o lugar dos pecadores violadores da lei, Cristo tornou-Se obrigado a liberá-los de todas as suas dívidas, e isso significou carregar os seus pecados, ser acusado com a culpa que era deles, sofrer a punição que era deles. Consequentemente, Deus tratou-O como o Representante do Seu povo criminoso, infligindo a Ele tudo o que mereciam os seus pecados. Como o Substituto portador dos pecados de Seu povo, Cristo foi justamente exposto a todas as terríveis conseqüências do desprazer manifesto de Deus.
Há muito, a pergunta já havia sido feita, “Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu?” (Jó 4:7), à qual podemos, sem a menor hesitação, responder, Ninguém. Deus nunca matou e nunca matará o inocente. Portanto, antes que a Sua ira punitiva pudesse cair sobre Cristo, os pecados de Seu povo deviam primeiro ser transferidos a Ele, e isto é precisamente o que a Bíblia afirma. Isso foi notavelmente prenunciado nos tempos antigos, no grande tipo que era o Dia da Expiação anual em Israel, “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode,” (Levítico 16:21). Assim também foi claramente profetizado, “Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos ... Ele levou sobre Si o pecado de muitos.” (Isaías 53:6, 12). Também é expressamente afirmado no Novo Testamento, “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Uma vez mais afirmaríamos que não há sequer um indício que Cristo suportou os pecados de Seu povo somente enquanto Ele encontrava-se pendurado na Cruz. Estamos cientes de que muitos assim o afirmam, mas em fazendo-o eles não somente se tornaram culpados de acrescentar à Palavra de Deus, mas também de contradizê-La diretamente.
Nós já chamamos a atenção que a expressão em Romanos 8:3, “em semelhança da carne do pecado”, claramente pressupõe a transferência dos pecados de Seu povo a Cristo, e que o que aconteceu imediatamente após o Seu nascimento foi em total cumprimento deste fato, e não pode ser entendido de outra forma. Que Ele foi circuncidado (Lucas 2:21) não somente provou que Ele havia sido feito “semelhante aos homens” (Filipenses 2:7), mas também evidenciou que Ele havia sido feito “em semelhança da carne do pecado.” Assim também o cerimonial de “purificação” de Sua mãe (cf Lucas 2:22) e sua apresentação de uma “oferta pelo pecado” (cf Levítico 12:2, 6), foi em perfeita observação do fato que, embora Sua humanidade fosse imaculada, ainda assim Ele havia adentrado neste mundo oficialmente culpado.
Nós pecamos enquanto crianças pequenas — “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Salmo 58:3) — e portanto enquanto criança, Cristo sofreu, sofreu não somente como o nosso Substituto, mas porque os nossos pecados haviam sido transferidos a Ele. Nós pecamos enquanto adolescentes, e em sua juventude Cristo sofreu, e sofreu nas mãos de Deus, como claramente testificam as Suas próprias palavras: “Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado” (Salmo 88:15). No início da nossa maturidade, nós pecamos, e Cristo sofreu no início da Sua maturidade. Referimo-nos uma vez mais à tentação que Ele sofreu de Satã. Em Hebreus 2:18 nos é dito que Ele, “sendo tentado, padeceu ”, e aquele mesmo sofrimento foi penal . Que o “padecer” de Cristo quando tentado por Satã foi determinado e decretado como uma punição de Deus, está provado pela afirmação de que “ENTÃO foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1).
Tendo o homem se permitido ser sujeitado por Satã, Deus, por uma sentença justa, entregou-o como escravo da tirania daquele; portando era necessário que Cristo, como o Substituto de Seu povo pecador, devesse ser exposto às tentações do Diabo, de forma que neste aspecto Ele pudesse satisfazer a justiça divina. Muito certamente Satã e seus agentes nunca poderiam haver assaltado a Cristo, não tivesse Ele sido (legalmente) acusado com a culpa pelos nossos crimes, que Deus justamente O expôs às injúrias deles (cf Atos 2:23). Os próprios eleitos, como pecadores, estavam sujeitos ao poder de Satã (cf Colossenses 1:13), e isso pela justa sentença do Juiz de toda a terra; portanto não eram eles somente “presas do poderoso”, mas também eram “ legalmente presos” (cf Isaías 49:24). Portanto, como Cristo aqui veio como a Certeza, em lugar deles, Ele, pela virtude da sentença de Deus, também Se tornou sujeito às bofetadas de Satã.
“A obediência passiva, ou dolorosa de Cristo, não deve ser confinada a o que Ele experimentou no jardim e na cruz. Este sofrimento foi a culminação, mas não a totalidade de Sua aflição expiadora. Tudo em Sua carreira humana e terrena foi doloroso pertence à Sua obediência passiva. É uma afirmação verdadeira de Jonathan Edwards, que o sangue vertido na circuncisão de Cristo foi realmente uma parte de sua expiação vicária, como o foi o sangue vertido de seu lado perfurado. E não somente Seu próprio sofrimento, mas também a Sua humilhação, foi expiatória” (W. Shedd). “A satisfação ou propiciação de Cristo consiste tanto em Seu sofrer o mal, como em Seu estar sujeito à humilhação . . . O que quer que seja a que Cristo estava sujeito, em se tratando do resultado judicial do pecado, tinha a natureza de satisfação pelo pecado. Mas não somente o próprio sofrimento, mas toda a humilhação e depressão do estado e circunstância de natureza humana abaixo do seu estado primitivo de honra e dignidade, tal como o Seu corpo permanecendo sob o domínio da morte, e corpo e alma estando separados, são frutos, resultados judiciais do pecado” (Jonathan Edwards, 1743).
Quando as Escrituras falam da Satisfação de Cristo, elas a relacionam com os Seus sofrimentos em geral, como em Isaías 53:4, “ Verdadeiramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si;” isto é, Ele sofreu todas as dores e agonias devidas a nós, pelo pecado. Deve ser o mais cuidadosamente notado que a declaração inspirada de que “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Isaías 53:6) vem antes de “Ele foi oprimido e afligido” e antes de “como um cordeiro foi levado ao matadouro”; já que foi no início de Seu ministério público, e não enquanto Ele encontrava-Se pendurado na Cruz que Deus moveu um dos Seus servos para clamar, “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” {João 1:29}. Cristo foi levado “ao matadouro” e até mesmo a aflição foi estendida sobre ele e a nossa iniqüidade foi exigida dEle, antes das três horas de escuridão. Então também este mesmo capítulo (Isaías 53) relaciona a nossa “cura” às pisaduras que Ele recebeu de homens, tão plenamente como outras passagens atribuem o nosso livramento da maldição da lei ao fato de haver Deus O visitado com tal maldição.
“Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo” (I Pedro 2:21). “Aqui, sofrer denota estar em aflição: pois aqui se entende todos aqueles demais sofrimentos, nos quais Cristo nos deixou um exemplo de paciência. Estes sofrimentos ele (Pedro) afirma serem por nós, isto é, passados tanto em nosso lugar, como em nosso favor. Pois este é o significado em geral da palavra huper , e tal é verdadeiramente o que Pedro quer dizer. Concluímos, destarte, que em 3:18 ele diz, ‘Cristo padeceu uma vez pelos pecados', em outras palavras, que Ele pudesse ser a propiciação pelos nossos pecados” (H. Witsius).
Quando os direitos soberanos de Deus são enfatizados, ali é geralmente levantada a objeção de que estamos de tal forma “reduzindo homem a uma mera máquina.” Muitos são aqueles que estão preparados para sustentar um sumário pela responsabilidade humana. Mas na realidade é de fato muito raro ouvirmos qualquer coisa sobre responsabilidade transferida . Todavia é neste ponto que se encontra uma das principais maravilhas e glórias do Evangelho. A responsabilidade do povo de Deus foi transferida para Cristo. Ele assumiu as suas dívidas, Ele Se fez imputável pelos seus débitos, responsável por cada demanda da lei contra eles. Não tivesse este sido o caso, como poderia Deus ter com justiça posto as iniqüidades de Seu povo sobre a cabeça do Seu Santo Filho? Ainda menos poderia Ele ter chamado pela espada da Justiça para golpeá-Lo. Foi porque Cristo foi “feito pecado” por nós, que Ele também foi “feito maldição” por nós: esta última não poderia ser sem a anterior. Como este é um ponto de vital importância, nós devemos amplificá-lo um pouco mais.
Hebreus 7:22 declara que Cristo “De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador”: Ele foi o Responsável pelo Seu povo, como Judá o foi por Benjamin. “Eu serei fiador por ele, da minha mão o requererás; se eu não o trouxer, e não o puser perante a tua face, serei réu de crime para contigo para sempre” (Gênesis 43:9). Ou, como Paulo o foi por Onésimo, “E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta . Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei” (Filemon 1:18, 19). Exatamente assim Cristo Se responsabilizou perante Seu Pai, por nós: cobra de Mim o que quer que seja que eles Te devem, e Eu satisfarei. “Um fiador, cujo nome é colocado num contrato, não somente é obrigado a quitar o débito, mas ele faz de tal o seu próprio débito também, tanto quanto é o débito do principal, de modo que ele possa ser processado e acusado pelo débito. Assim Cristo, quando Ele uma vez Se fez um Fiador, Ele também colocou-Se no lugar pelos pecadores, de modo que aquilo que a lei apresentasse contra eles, fosse apresentado contra Ele” (T. Goodwin, 1680).
Cristo devia tomar sobre Si a culpa pelas nossas transgressões antes que Ele pudesse tomar o nosso castigo sobre Si, e então satisfazer a justiça divina em nosso lugar. Que Ele assim o fez , é demonstrado por Suas próprias palavras. É realmente extraordinário descobrirmos como Cristo realmente possuiu os nossos pecados como sendo Seus . Primeiro, no Salmo 40. Que se trata de um Salmo Messiânico, sabemos da citação sobre o mesmo em Hebreus 10. Que ele contém as próprias palavras de Cristo, é claramente evidente dos versículos 7 a 11 (“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração. Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade”). Ele é ainda o Orador no versículo 12, onde Ele declarou, “Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniqüidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração.” Que prova esta é, de que os pecados de Seu povo haviam sido transferidos a Ele! Segundo, no Salmo 69, um outro grande Salmo Messiânico. Aqui também nós O encontramos dizendo, “Tu, ó Deus, bem conheces a minha estultice; e os meus pecados não te são encobertos.” (versículo 5). Quão inequivocamente estas palavras mostram que os nossos pecados foram computados a Ele! Tais pecados não eram Seus por perpetração, mas sim por imputação.
“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre [a] o madeiro” (I Pedro 2:24). “ ‘Nossos pecados' aqui são as nossas obrigações para castigo por conta das nossas violações da lei Divina, e as conseqüências necessárias daquelas obrigações; em outras palavras, culpa no sentido de vinculada ao castigo, e o castigo em si mesmo” (J. Brown). Aqueles pecados Cristo “levou”, suportou como um fardo pesado. O significado principal do verbo Grego é “carregar acima”, a alusão sendo feita ao animal típico que era carregado até o altar, o qual era sempre erigido num lugar elevado. A margem dá a tradução mais preferida — “ ao madeiro”: a preposição é a mesma como no versículo seguinte, “tendes voltado ao Pastor.” O motivo por que a Cruz aqui é chamada de “o madeiro”, veremos mais adiante.
Havia obrigatoriamente a necessidade de Cristo tomar sobre Si a culpa das nossas transgressões, de modo que a justiça Divina O punisse, pois “ bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade” (Romanos 2:2). Quem quer que seja punido por Deus deve ser culpado de pecado. Portanto nós lemos, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” (II Coríntios 5:21). Cada palavra aqui requer um parágrafo em separado. A crase na abertura do versículo [nota do tradutor: o autor utiliza-se da Bíblia na versão King James, “For he hath made him [to be] sin for us, who knew no sin”, e na frase em questão refere-se à preposição “for”, na abertura do versículo] determina o terreno no qual encontra-se a mensagem da reconciliação (versículos 19, 20): o versículo 19 declara que Deus não imputa ao Seu povo os seus pecados; o versículo 21 nos conta o por que: porque eles foram imputados a Cristo. Aqui a Expiação é rastreada de volta à sua fonte. “Deus estava em Cristo reconciliando”: Ele fez Cristo ser pecado — quando? Na aliança eterna: Ele era pessoalmente sem pecado, foi Deus quem assim O adjudicou! “Aquele que não conheceu pecado” é a forma negativa de dizer que a Sua obediência era perfeita. A lei não tinha nenhuma falta contra Ele, seja de comissão ou de omissão. Não obstante, “Ele [Deus] O fez [constituiu legalmente a Cristo] ser pecado por nós,” não em mera aparência, mas em terrível realidade, e isto, desde o momento de Sua encarnação.
Ao sentar-se no banco do réu de Seu povo, Cristo tornou-se responsável para com a justiça de Deus no lugar deles: o que quer que eles devessem, devia ser exigido do seu Fiador: ele devia quitar os débitos deles, sofrer o castigo completo das suas iniqüidades, receber o salário do pecado, em lugar deles. Cristo agora tornou-Se exposto a tudo o que a santidade de Deus devia infligir sobre o pecado. Lemos, portanto, que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13). “A cruz era maldita, não somente na opinião dos homens, mas através do decreto da lei Divina. Portanto, quando Cristo foi levantado sobre a cruz, Ele Se fez odioso para com a maldição” (Calvino).
A própria forma da morte que Deus designou para o Seu Filho nos revela a natureza penal da mesma. A Cruz não foi nenhum mero “acidente”, como se não fizesse diferença a forma que tivesse a Sua morte. Razões fundamentais tornaram conveniente e necessário que o Fiador devesse ter uma morte que fosse amaldiçoada de Deus ; portanto as freqüentes referências no Novo Testamento à “cruz” e ao “madeiro” — cf João 12:32, 33. No Calvário, a maldição terrível de Deus para com o pecado foi revelada publicamente, da qual a cruz não era a causa, mas o símbolo: cf. João 3:14. Sob a lei Mosaica (à qual o apóstolo se refere em Gálatas 3:13), pendurado num madeiro era uma morte reservada para grandes criminosos. Portanto a força da palavra “madeiro” em I Pedro 2:24. Cristo pendurado no madeiro foi o testemunho público da maldição de Deus sobre Ele. “A causa da maldição não era o fato de ser pendurado no madeiro, mas o pecado com o qual Ele foi acusado; e aquele modo de castigo demonstrava que Ele era o objeto do santo desprazer de Deus; não realmente porque Ele encontrava-se pendurado no madeiro, mas porque Ele era o portador dos pecados, e o castigo das ofensas pelas quais aquele castigo ignominioso foi designado foi então infligido. A sabedoria Divina apontou que Aquele que carregava o pecado do mundo devesse ser exposto como uma maldição, pois o desprazer Divino era ali demonstrado da forma mais horrível” (G. Smeaton).
Quanto a por que esta forma e método de morte foi selecionado por Deus dentre todas outras possibilidades — envenenamento, apedrejamento, decapitação, etc. — Gênesis 3 nos provê com a resposta: “Como o pecado mortal que difundiu a maldição sobre a raça humana estava relacionado com a ‘árvore' proibida, Deus sabiamente ordenou que o último Adão devesse expiar o pecado ao ser suspenso em um madeiro: e Ele apontou na lei (Deuteronômio 21:22,23) tal símbolo da maldição que relembrava a todos homens da origem da maldição Divina no mundo. Ele não removeria a maldição de qualquer outra forma” (G. Smeaton). Entre os Romanos, morte por crucificação era humilhação mais baixa possível. Era o mais degradante dos castigos, infligidos somente em escravos e o mais inferior dos povos, e se homens livres fossem a qualquer tempo sujeitos à crucificação por grandes crimes, tals como roubo, alta traição, ou sublevação, a sentença não poderia ser executada até que eles tivessem sido listados como escravos, e isso, pela máxima humilhação. Sua liberdade lhes era tirada por intermédio de os entregar a chibatadas e açoites, como foi feito com Cristo. Assim a maldição da lei de Deus foi executada sobre o Cabeça e o Substituto de Seu povo. “Pregar a Cristo crucificado” (I Coríntios 1:23) é proclamar e expor o Seu haver sido “feito pecado por nós” (II Coríntios 5:21).
Porque Cristo foi “feito pecado” e “feito uma maldição” por Seu povo, a ira da santidade de Deus inflamou contra Ele e a espada da Sua justiça O feriu. “Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos. Fere ao pastor” (Zacarias 13:7), e cf. Mateus 26:31. Deus infligiu castigo a Cristo como se Ele tivesse sido o ofensor pessoalmente. “Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma Se puser por expiação do pecado” (Isaías 53:10). Como todos os sofrimentos dos homens, sejam infligidos imediatamente por Deus ou mediatamente por Satã ou homens (cf. Jeremias 2:15–17), surgem dos deméritos do pecado; assim também todos os sofrimentos de Cristo, de homens, de Satã, de Deus, surgiram dos deméritos dos pecados de Seu povo, imputados ao seu Substituto.
O castigo que Deus assinalou a Cristo era o próprio castigo que era devido ao Seu povo. Que Ele foi amaldiçoado de Deus é visto pelo fato de haver Ele sido pendurado no madeiro. Que Ele recebeu as pagas pelos pecados foi evidenciado por Deus O haver desamparado. Que ele foi contado com transgressores foi demonstrado pelo fato de haver Ele morrido ladeado por dois ladrões. Verdade, Ele não sofreu eternamente, pois a eternidade do nosso castigo era somente uma circunstância advinda da nossa incapacidade de sofrer todo o peso da ira de Deus numa breve sessão, e portanto a brevidade da duração dos sofrimentos de Cristo não é uma objeção válida contra a identidade do castigo que Ele recebeu. Além disso, a infinita dignidade de Sua pessoa mais do que compensou a lei. “Ao olho esclarecido, é encontrada na cruz uma outra inscrição, ao lado daquela que Pilatos ordenou fosse escrita: “A Vítima da culpa. Os Salários do pecado” (J. Brown).
A profunda humilhação à qual foi sujeito o Filho de Deus ao tomar sobre Si a forma de servo, e de ser feito “em semelhança da carne do pecado”, foi um castigo judicial imposto sobre Ele pelo Pai, todavia voluntariamente submetido por Ele próprio. O propósito particular de Sua humilhação, Sua obediência, Seus sofrimentos, os torna penais , pois eram para a satisfação das exigências da lei de Deus sobre o Seu povo. Ao ser feito “nascido sob a lei” (Gl 4:4), Cristo tornou-Se sujeito a tudo o que é imposto pela lei: “ Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz” (Rm 3:19), o que significa que a lei exige o cumprimento de seus termos. “Cristo em nosso lugar e espaço, através de ambos, Seus atos e Seu sofrimento, satisfez a justiça Divina , nos aspectos legislativo, punitivo e vindicativo, da forma mais perfeita, satisfazendo toda a justiça da lei, que de outra forma a lei exigia de nós para impunidade, e para termos o direito à vida eterna” (H. Witsius, 1693).
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito.” (I Pe. 3:18). A referência aqui não deve ser restrita ao que Cristo sofreu nas mãos de Deus enquanto encontrava-Se pregado na Cruz, nem a tudo por quanto Ele passou durante aquele dia e a noite precedente. Acautelemos-nos de limitar a Palavra de Deus! Não; a totalidade da sua humilhação está aqui incluída. A vida toda de Cristo foi vida de sofrimentos, portanto foi Ele apontado como “o Homem de dores” (Is. 53:3), e não simplesmente, “dor”. Desde o Seu nascimento e até a Sua morte, sofrimento e dor marcaram-No como sua legítima vítima. Enquanto ainda uma criança Ele foi levado ao exílio, para escapar da fúria daqueles que perseguiam Sua vida. Aquilo foi nada mais que o prenúncio de toda a Sua vida terrena. O cálice de angústia, posto em Seus lábios em Belém, nunca foi removido, até que Ele sorvesse seus sedimentos amargos no Calvário.
Cada variedade de sofrimento foi experimentada por Ele. Ele provou da pobreza em seu rigor mais severo. Nascido numa estrebaria, sem qualquer propriedade na terra, dependente da caridade de outros (Lucas 8:3, “... e muitas outras que o serviam com seus bens.”), frequentemente estando em pior situação do que as ordens inferiores da criação (Mateus 8:20, “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”). Ele sofreu censura de ser um glutão, um beberrão, um enganador, um blasfemo, um demônio. Portanto, sim O ouvimos gritar, “Afrontas me quebrantaram o coração” (Salmo 69:20). Ele experimentou tentação em toda a sua malignidade. O Príncipe das trevas O assaltou com toda sua esperteza e poder, fazendo com que as suas legiões infernais O atacassem, vindo contra Ele como “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge.” (Salmo 22:12,13). Acima de tudo, Ele sofreu a ira de Deus, de forma que Ele afirmou, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” (Mateus 26:38), “em agonia” (Lucas 22:44), e finalmente, “abandonado por Deus” (Mateus 27:46; Marcos 15:34).
Qual é, então, a explicação destes “sofrimentos” sem paralelo? Por que a mais perfeita obediência foi seguida pelo castigo mais terrível? Por que a santidade imaculada foi visitada por angústia inexprimível? Davi declarou, “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo...” (Salmo 37:25); por que, então, foi O Justo abandonado por Deus? Somente uma resposta é possível, somente uma resposta atende por completo a todos os fatos do caso; somente uma resposta esclarece o governo de Deus. Ao tomar o lugar dos pecadores violadores da lei, Cristo tornou-Se obrigado a liberá-los de todas as suas dívidas, e isso significou carregar os seus pecados, ser acusado com a culpa que era deles, sofrer a punição que era deles. Consequentemente, Deus tratou-O como o Representante do Seu povo criminoso, infligindo a Ele tudo o que mereciam os seus pecados. Como o Substituto portador dos pecados de Seu povo, Cristo foi justamente exposto a todas as terríveis conseqüências do desprazer manifesto de Deus.
Há muito, a pergunta já havia sido feita, “Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu?” (Jó 4:7), à qual podemos, sem a menor hesitação, responder, Ninguém. Deus nunca matou e nunca matará o inocente. Portanto, antes que a Sua ira punitiva pudesse cair sobre Cristo, os pecados de Seu povo deviam primeiro ser transferidos a Ele, e isto é precisamente o que a Bíblia afirma. Isso foi notavelmente prenunciado nos tempos antigos, no grande tipo que era o Dia da Expiação anual em Israel, “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode,” (Levítico 16:21). Assim também foi claramente profetizado, “Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos ... Ele levou sobre Si o pecado de muitos.” (Isaías 53:6, 12). Também é expressamente afirmado no Novo Testamento, “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Uma vez mais afirmaríamos que não há sequer um indício que Cristo suportou os pecados de Seu povo somente enquanto Ele encontrava-se pendurado na Cruz. Estamos cientes de que muitos assim o afirmam, mas em fazendo-o eles não somente se tornaram culpados de acrescentar à Palavra de Deus, mas também de contradizê-La diretamente.
Nós já chamamos a atenção que a expressão em Romanos 8:3, “em semelhança da carne do pecado”, claramente pressupõe a transferência dos pecados de Seu povo a Cristo, e que o que aconteceu imediatamente após o Seu nascimento foi em total cumprimento deste fato, e não pode ser entendido de outra forma. Que Ele foi circuncidado (Lucas 2:21) não somente provou que Ele havia sido feito “semelhante aos homens” (Filipenses 2:7), mas também evidenciou que Ele havia sido feito “em semelhança da carne do pecado.” Assim também o cerimonial de “purificação” de Sua mãe (cf Lucas 2:22) e sua apresentação de uma “oferta pelo pecado” (cf Levítico 12:2, 6), foi em perfeita observação do fato que, embora Sua humanidade fosse imaculada, ainda assim Ele havia adentrado neste mundo oficialmente culpado.
Nós pecamos enquanto crianças pequenas — “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Salmo 58:3) — e portanto enquanto criança, Cristo sofreu, sofreu não somente como o nosso Substituto, mas porque os nossos pecados haviam sido transferidos a Ele. Nós pecamos enquanto adolescentes, e em sua juventude Cristo sofreu, e sofreu nas mãos de Deus, como claramente testificam as Suas próprias palavras: “Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado” (Salmo 88:15). No início da nossa maturidade, nós pecamos, e Cristo sofreu no início da Sua maturidade. Referimo-nos uma vez mais à tentação que Ele sofreu de Satã. Em Hebreus 2:18 nos é dito que Ele, “sendo tentado, padeceu ”, e aquele mesmo sofrimento foi penal . Que o “padecer” de Cristo quando tentado por Satã foi determinado e decretado como uma punição de Deus, está provado pela afirmação de que “ENTÃO foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1).
Tendo o homem se permitido ser sujeitado por Satã, Deus, por uma sentença justa, entregou-o como escravo da tirania daquele; portando era necessário que Cristo, como o Substituto de Seu povo pecador, devesse ser exposto às tentações do Diabo, de forma que neste aspecto Ele pudesse satisfazer a justiça divina. Muito certamente Satã e seus agentes nunca poderiam haver assaltado a Cristo, não tivesse Ele sido (legalmente) acusado com a culpa pelos nossos crimes, que Deus justamente O expôs às injúrias deles (cf Atos 2:23). Os próprios eleitos, como pecadores, estavam sujeitos ao poder de Satã (cf Colossenses 1:13), e isso pela justa sentença do Juiz de toda a terra; portanto não eram eles somente “presas do poderoso”, mas também eram “ legalmente presos” (cf Isaías 49:24). Portanto, como Cristo aqui veio como a Certeza, em lugar deles, Ele, pela virtude da sentença de Deus, também Se tornou sujeito às bofetadas de Satã.
“A obediência passiva, ou dolorosa de Cristo, não deve ser confinada a o que Ele experimentou no jardim e na cruz. Este sofrimento foi a culminação, mas não a totalidade de Sua aflição expiadora. Tudo em Sua carreira humana e terrena foi doloroso pertence à Sua obediência passiva. É uma afirmação verdadeira de Jonathan Edwards, que o sangue vertido na circuncisão de Cristo foi realmente uma parte de sua expiação vicária, como o foi o sangue vertido de seu lado perfurado. E não somente Seu próprio sofrimento, mas também a Sua humilhação, foi expiatória” (W. Shedd). “A satisfação ou propiciação de Cristo consiste tanto em Seu sofrer o mal, como em Seu estar sujeito à humilhação . . . O que quer que seja a que Cristo estava sujeito, em se tratando do resultado judicial do pecado, tinha a natureza de satisfação pelo pecado. Mas não somente o próprio sofrimento, mas toda a humilhação e depressão do estado e circunstância de natureza humana abaixo do seu estado primitivo de honra e dignidade, tal como o Seu corpo permanecendo sob o domínio da morte, e corpo e alma estando separados, são frutos, resultados judiciais do pecado” (Jonathan Edwards, 1743).
Quando as Escrituras falam da Satisfação de Cristo, elas a relacionam com os Seus sofrimentos em geral, como em Isaías 53:4, “ Verdadeiramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si;” isto é, Ele sofreu todas as dores e agonias devidas a nós, pelo pecado. Deve ser o mais cuidadosamente notado que a declaração inspirada de que “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Isaías 53:6) vem antes de “Ele foi oprimido e afligido” e antes de “como um cordeiro foi levado ao matadouro”; já que foi no início de Seu ministério público, e não enquanto Ele encontrava-Se pendurado na Cruz que Deus moveu um dos Seus servos para clamar, “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” {João 1:29}. Cristo foi levado “ao matadouro” e até mesmo a aflição foi estendida sobre ele e a nossa iniqüidade foi exigida dEle, antes das três horas de escuridão. Então também este mesmo capítulo (Isaías 53) relaciona a nossa “cura” às pisaduras que Ele recebeu de homens, tão plenamente como outras passagens atribuem o nosso livramento da maldição da lei ao fato de haver Deus O visitado com tal maldição.
“Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo” (I Pedro 2:21). “Aqui, sofrer denota estar em aflição: pois aqui se entende todos aqueles demais sofrimentos, nos quais Cristo nos deixou um exemplo de paciência. Estes sofrimentos ele (Pedro) afirma serem por nós, isto é, passados tanto em nosso lugar, como em nosso favor. Pois este é o significado em geral da palavra huper , e tal é verdadeiramente o que Pedro quer dizer. Concluímos, destarte, que em 3:18 ele diz, ‘Cristo padeceu uma vez pelos pecados', em outras palavras, que Ele pudesse ser a propiciação pelos nossos pecados” (H. Witsius).
Quando os direitos soberanos de Deus são enfatizados, ali é geralmente levantada a objeção de que estamos de tal forma “reduzindo homem a uma mera máquina.” Muitos são aqueles que estão preparados para sustentar um sumário pela responsabilidade humana. Mas na realidade é de fato muito raro ouvirmos qualquer coisa sobre responsabilidade transferida . Todavia é neste ponto que se encontra uma das principais maravilhas e glórias do Evangelho. A responsabilidade do povo de Deus foi transferida para Cristo. Ele assumiu as suas dívidas, Ele Se fez imputável pelos seus débitos, responsável por cada demanda da lei contra eles. Não tivesse este sido o caso, como poderia Deus ter com justiça posto as iniqüidades de Seu povo sobre a cabeça do Seu Santo Filho? Ainda menos poderia Ele ter chamado pela espada da Justiça para golpeá-Lo. Foi porque Cristo foi “feito pecado” por nós, que Ele também foi “feito maldição” por nós: esta última não poderia ser sem a anterior. Como este é um ponto de vital importância, nós devemos amplificá-lo um pouco mais.
Hebreus 7:22 declara que Cristo “De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador”: Ele foi o Responsável pelo Seu povo, como Judá o foi por Benjamin. “Eu serei fiador por ele, da minha mão o requererás; se eu não o trouxer, e não o puser perante a tua face, serei réu de crime para contigo para sempre” (Gênesis 43:9). Ou, como Paulo o foi por Onésimo, “E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta . Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei” (Filemon 1:18, 19). Exatamente assim Cristo Se responsabilizou perante Seu Pai, por nós: cobra de Mim o que quer que seja que eles Te devem, e Eu satisfarei. “Um fiador, cujo nome é colocado num contrato, não somente é obrigado a quitar o débito, mas ele faz de tal o seu próprio débito também, tanto quanto é o débito do principal, de modo que ele possa ser processado e acusado pelo débito. Assim Cristo, quando Ele uma vez Se fez um Fiador, Ele também colocou-Se no lugar pelos pecadores, de modo que aquilo que a lei apresentasse contra eles, fosse apresentado contra Ele” (T. Goodwin, 1680).
Cristo devia tomar sobre Si a culpa pelas nossas transgressões antes que Ele pudesse tomar o nosso castigo sobre Si, e então satisfazer a justiça divina em nosso lugar. Que Ele assim o fez , é demonstrado por Suas próprias palavras. É realmente extraordinário descobrirmos como Cristo realmente possuiu os nossos pecados como sendo Seus . Primeiro, no Salmo 40. Que se trata de um Salmo Messiânico, sabemos da citação sobre o mesmo em Hebreus 10. Que ele contém as próprias palavras de Cristo, é claramente evidente dos versículos 7 a 11 (“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração. Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade”). Ele é ainda o Orador no versículo 12, onde Ele declarou, “Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniqüidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração.” Que prova esta é, de que os pecados de Seu povo haviam sido transferidos a Ele! Segundo, no Salmo 69, um outro grande Salmo Messiânico. Aqui também nós O encontramos dizendo, “Tu, ó Deus, bem conheces a minha estultice; e os meus pecados não te são encobertos.” (versículo 5). Quão inequivocamente estas palavras mostram que os nossos pecados foram computados a Ele! Tais pecados não eram Seus por perpetração, mas sim por imputação.
“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre [a] o madeiro” (I Pedro 2:24). “ ‘Nossos pecados' aqui são as nossas obrigações para castigo por conta das nossas violações da lei Divina, e as conseqüências necessárias daquelas obrigações; em outras palavras, culpa no sentido de vinculada ao castigo, e o castigo em si mesmo” (J. Brown). Aqueles pecados Cristo “levou”, suportou como um fardo pesado. O significado principal do verbo Grego é “carregar acima”, a alusão sendo feita ao animal típico que era carregado até o altar, o qual era sempre erigido num lugar elevado. A margem dá a tradução mais preferida — “ ao madeiro”: a preposição é a mesma como no versículo seguinte, “tendes voltado ao Pastor.” O motivo por que a Cruz aqui é chamada de “o madeiro”, veremos mais adiante.
Havia obrigatoriamente a necessidade de Cristo tomar sobre Si a culpa das nossas transgressões, de modo que a justiça Divina O punisse, pois “ bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade” (Romanos 2:2). Quem quer que seja punido por Deus deve ser culpado de pecado. Portanto nós lemos, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” (II Coríntios 5:21). Cada palavra aqui requer um parágrafo em separado. A crase na abertura do versículo [nota do tradutor: o autor utiliza-se da Bíblia na versão King James, “For he hath made him [to be] sin for us, who knew no sin”, e na frase em questão refere-se à preposição “for”, na abertura do versículo] determina o terreno no qual encontra-se a mensagem da reconciliação (versículos 19, 20): o versículo 19 declara que Deus não imputa ao Seu povo os seus pecados; o versículo 21 nos conta o por que: porque eles foram imputados a Cristo. Aqui a Expiação é rastreada de volta à sua fonte. “Deus estava em Cristo reconciliando”: Ele fez Cristo ser pecado — quando? Na aliança eterna: Ele era pessoalmente sem pecado, foi Deus quem assim O adjudicou! “Aquele que não conheceu pecado” é a forma negativa de dizer que a Sua obediência era perfeita. A lei não tinha nenhuma falta contra Ele, seja de comissão ou de omissão. Não obstante, “Ele [Deus] O fez [constituiu legalmente a Cristo] ser pecado por nós,” não em mera aparência, mas em terrível realidade, e isto, desde o momento de Sua encarnação.
Ao sentar-se no banco do réu de Seu povo, Cristo tornou-se responsável para com a justiça de Deus no lugar deles: o que quer que eles devessem, devia ser exigido do seu Fiador: ele devia quitar os débitos deles, sofrer o castigo completo das suas iniqüidades, receber o salário do pecado, em lugar deles. Cristo agora tornou-Se exposto a tudo o que a santidade de Deus devia infligir sobre o pecado. Lemos, portanto, que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13). “A cruz era maldita, não somente na opinião dos homens, mas através do decreto da lei Divina. Portanto, quando Cristo foi levantado sobre a cruz, Ele Se fez odioso para com a maldição” (Calvino).
A própria forma da morte que Deus designou para o Seu Filho nos revela a natureza penal da mesma. A Cruz não foi nenhum mero “acidente”, como se não fizesse diferença a forma que tivesse a Sua morte. Razões fundamentais tornaram conveniente e necessário que o Fiador devesse ter uma morte que fosse amaldiçoada de Deus ; portanto as freqüentes referências no Novo Testamento à “cruz” e ao “madeiro” — cf João 12:32, 33. No Calvário, a maldição terrível de Deus para com o pecado foi revelada publicamente, da qual a cruz não era a causa, mas o símbolo: cf. João 3:14. Sob a lei Mosaica (à qual o apóstolo se refere em Gálatas 3:13), pendurado num madeiro era uma morte reservada para grandes criminosos. Portanto a força da palavra “madeiro” em I Pedro 2:24. Cristo pendurado no madeiro foi o testemunho público da maldição de Deus sobre Ele. “A causa da maldição não era o fato de ser pendurado no madeiro, mas o pecado com o qual Ele foi acusado; e aquele modo de castigo demonstrava que Ele era o objeto do santo desprazer de Deus; não realmente porque Ele encontrava-se pendurado no madeiro, mas porque Ele era o portador dos pecados, e o castigo das ofensas pelas quais aquele castigo ignominioso foi designado foi então infligido. A sabedoria Divina apontou que Aquele que carregava o pecado do mundo devesse ser exposto como uma maldição, pois o desprazer Divino era ali demonstrado da forma mais horrível” (G. Smeaton).
Quanto a por que esta forma e método de morte foi selecionado por Deus dentre todas outras possibilidades — envenenamento, apedrejamento, decapitação, etc. — Gênesis 3 nos provê com a resposta: “Como o pecado mortal que difundiu a maldição sobre a raça humana estava relacionado com a ‘árvore' proibida, Deus sabiamente ordenou que o último Adão devesse expiar o pecado ao ser suspenso em um madeiro: e Ele apontou na lei (Deuteronômio 21:22,23) tal símbolo da maldição que relembrava a todos homens da origem da maldição Divina no mundo. Ele não removeria a maldição de qualquer outra forma” (G. Smeaton). Entre os Romanos, morte por crucificação era humilhação mais baixa possível. Era o mais degradante dos castigos, infligidos somente em escravos e o mais inferior dos povos, e se homens livres fossem a qualquer tempo sujeitos à crucificação por grandes crimes, tals como roubo, alta traição, ou sublevação, a sentença não poderia ser executada até que eles tivessem sido listados como escravos, e isso, pela máxima humilhação. Sua liberdade lhes era tirada por intermédio de os entregar a chibatadas e açoites, como foi feito com Cristo. Assim a maldição da lei de Deus foi executada sobre o Cabeça e o Substituto de Seu povo. “Pregar a Cristo crucificado” (I Coríntios 1:23) é proclamar e expor o Seu haver sido “feito pecado por nós” (II Coríntios 5:21).
Porque Cristo foi “feito pecado” e “feito uma maldição” por Seu povo, a ira da santidade de Deus inflamou contra Ele e a espada da Sua justiça O feriu. “Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos. Fere ao pastor” (Zacarias 13:7), e cf. Mateus 26:31. Deus infligiu castigo a Cristo como se Ele tivesse sido o ofensor pessoalmente. “Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma Se puser por expiação do pecado” (Isaías 53:10). Como todos os sofrimentos dos homens, sejam infligidos imediatamente por Deus ou mediatamente por Satã ou homens (cf. Jeremias 2:15–17), surgem dos deméritos do pecado; assim também todos os sofrimentos de Cristo, de homens, de Satã, de Deus, surgiram dos deméritos dos pecados de Seu povo, imputados ao seu Substituto.
O castigo que Deus assinalou a Cristo era o próprio castigo que era devido ao Seu povo. Que Ele foi amaldiçoado de Deus é visto pelo fato de haver Ele sido pendurado no madeiro. Que Ele recebeu as pagas pelos pecados foi evidenciado por Deus O haver desamparado. Que ele foi contado com transgressores foi demonstrado pelo fato de haver Ele morrido ladeado por dois ladrões. Verdade, Ele não sofreu eternamente, pois a eternidade do nosso castigo era somente uma circunstância advinda da nossa incapacidade de sofrer todo o peso da ira de Deus numa breve sessão, e portanto a brevidade da duração dos sofrimentos de Cristo não é uma objeção válida contra a identidade do castigo que Ele recebeu. Além disso, a infinita dignidade de Sua pessoa mais do que compensou a lei. “Ao olho esclarecido, é encontrada na cruz uma outra inscrição, ao lado daquela que Pilatos ordenou fosse escrita: “A Vítima da culpa. Os Salários do pecado” (J. Brown).
A. W. Pink
Eli Daniel da Silva (tradução).
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