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Sexta-feira, Junho 23, 2006

O Calvinismo Como uma Força Cultural

Calvino foi um patrono dos modernos direitos humanos. Em seu pensamento, ele antecipou a moderna forma republicana de governo. Contribuiu para a moderna compreensão da relação entre lei natural e lei positiva. Ao lado dos movimentos sociais e políticos de seu tempo, compreendeu plenamente que a origem do estado nacional moderno, o surgimento do comércio burguês internacional, o desenvolvimento da classe burguesa e a vasta expansão do mercado monetário exigiam uma nova avaliação da proibição de empréstimo de dinheiro a juro. Além disso, Calvino levantou-se contra os abusos do poder, em seu tempo, e debateu o problema do direito à revolta.

O impacto de Calvino e do Calvinismo sobre a moderna cultura ocidental está bem documentado. Reconhece-se que esta influência foi grande. Calvino e o Calvinismo ocuparam seu lugar entre as maiores forças que moldaram nossa moderna sociedade ocidental.

É importante descrever estas influências do ponto de vista histórico. Qual foi a influência do Calvinismo? Até onde, precisamente, se estendeu essa influência? Contudo, para avaliar o Calvinismo como uma força cultural, propriamente, é preciso descer a um nível mais profundo de questionamento. Que é que, no Calvinismo, determina a forma peculiar pela qual ele se relaciona com a cultura? Qual é o caráter distintivo que ele imprime à cultura? Nestes aspectos, em que difere ele de outros movimentos protestantes? Sem levantar questões como estas, dificilmente alguém tem condições de inquirir significativamente em que extensão ocorre sua influência.

Torna-se claro que a mais significativa maneira de alguém aproximar-se do Calvinismo, é ter em mente que qualquer movimento que alcançou importância histórica, terá uma correspondente influência cultural. Isto é um fato em relação ao Calvinismo. Contudo, é também verdade quanto ao Luteranismo, ao Anabatismo, ao Metodismo, ao Puritanismo e a outros movimentos. É verdade de qualquer movimento, independentemente da atitude que ele tenha para com a cultura. Mesmo a postura anti-secular de um segmento de Igrejas que se confessam cristãs, tem um tipo especial de influência cultural, ainda que seja uma influência negativa. O retraimento de cristãos em relação àquilo que é chamado de “envolvimento cultural” tem, em si mesmo, um impacto cultural. Mais importante do que o problema da extensão da influência do Calvinismo será o problema da qualidade dessa influência.

Ao tratar o Calvinismo como uma força cultural, portanto – por mais importante que essa força possa parecer – não temos em mente uma descrição desacompanhada da influência que ele exerceu sobre a nossa cultura ocidental. Ao invés disto, indagamos que é que, no Calvinismo, determinou o caráter desta influência. Por que o Calvinismo teve uma atitude positiva para com a cultura e foi capaz de fazer contribuições culturais construtivas? Porque, em verdade, esta atitude positiva pertence ao verdadeiro gênio do Calvinismo, tanto que o Calvinismo teve em mira não só a reforma na doutrina, na vida individual e na vida da Igreja, mas também a transformação de toda a cultura, em nome de Cristo.

Ao responder a estas indagações, podemos, por conveniência, organizar nossos pensamentos em torno de quatro pontos principais: 1. No Calvinismo não há dicotomia entre Cristianismo e Cultura; 2. Por causa de sua maneira penetrante de entender a doutrina da criação, a universalidade da revelação divina e o lugar da lei, é impossível ao Calvinismo – e observe-se a importância de manter-se intacta a doutrina bíblica da relação Criador-criatura – pensar em termos de uma simples e incondicional distinção entre as esferas de atividades divina e humana; 3. Toda a vida, inclusive a cultura, é teonômica, isto é, tem sentido somente quando está sujeita a Deus e à Sua lei; 4. O poder do Deus-criador-soberano abrange também o curso da história, de modo que se pode discernir a revelação de Deus também naquilo que pertence mais imediatamente à cultura, ou seja, á atividade formadora do homem.

Atitude Positiva do Calvinismo para com a Cultura

Calvino expressou sua gratidão a Deus, porque Deus, ao mesmo tempo em que trouxe à luz o Evangelho em sua pureza, trouxe à existência também o renascimento das humanidades. Foi Guilherme Budé que, ao tempo de Calvino, procurou introduzir na França um panorama da cultura humanística surgida na Renascença Italiana. Promoveu o gosto pelas artes liberais (bonae litterae) em contraposição aos estudos que preparavam o indivíduo para ganhar a vida (Teologia, Lei = Direito, Medicina). Calvino concordou resolutamente com Budé em que as artes liberais eram essenciais à formação do homem, ao desenvolvimento de sua humanidade. De fato, encontramos em Calvino acentuado gosto pelas artes liberais e interesse em instruir-se nelas, de modo que nada fica ele a dever aos humanistas seus contemporâneos. Não são necessárias muitas palavras, disse ele, para expressar quão cara nos é a aquisição das artes liberais.

Também para com a retórica e as ciências naturais, Calvino teve uma atitude positiva. A influência dos princípios da retórica sobre seu método teológico pode ser constatada. Na introdução de seu Comentário às Cartas aos Tessalonicenses, Calvino reconhece que deve sua cultura humanística a seu método de ensino (discendi rationem) ao bem conhecido humanista Maturin Cordier. Como a retórica, as ciências naturais são dons de Deus, criados por Ele para o uso da humanidade. A fonte última da verdadeira ciência da natureza não é outra senão o Espírito Santo. Contudo, Calvino foi inflexível oponente da pseudociência da astrologia, que gozava de grande prestígio em seu tempo, tanto quanto goza em nossos dias. O clima espiritual no qual Lutero se desenvolveu, foi o do misticismo do final da Idade Média. Diferentemente de Calvino e Melanchthon, Lutero permaneceu muito tempo incólume às influências do Renascimento da Cultura humanística de seu tempo. Em contrapartida, Calvino cedo dedicou-se aos estudos humanísticos. Como teste de sua competência, de sua erudição humanística, ele escreveu seu famoso comentário sobre o De Clementia, de Sêneca. Educado pelos humanistas e autorizados eruditos de seu tempo – Pierre de l’Etoile e Andréa Alciati -, bem versado na filosofia da cultura clássica, e ele mesmo reconhecido como um erudito humanista, Calvino revelou, através de toda a sua vida, domínio da cultura contemporânea e profundo interesse no seu desenvolvimento. Ele continuou a demonstrar empenho em relação à humanidade dos homens e em relação àquelas boas dádivas de Deus – que incluíam a arte e a música – e que eram capazes de contribuir para o seu desenvolvimento.

É um erro supor que o duradouro interesse de Calvino pelos estudos humanísticos e pelo desenvolvimento cultural do homem fosse um simples remanescente do tempo que precedeu sua conversão à fé evangélica. Sua preocupação para com os estudos humanísticos e para com aquilo que diz respeito ao que é humano, está muito inseparavelmente ligado ao seu modo global de pensar, para permitir uma tal interpretação. De fato, num sentido que precisa ser bem definido e cuidadosamente preservado de má compreensão, Calvino pode ser chamado de “humanista”. Através de toda a sua vida, ele teve um profundo compromisso para com aquilo que é humano.

De fato, Calvino criticou mordazmente àqueles cujo humanismo fazia supor que eles se tinham firmado contra a soberania de Deus, contra a Palavra de Deus, contra a depravação do homem e contra as doutrinas da graça. Aos vinte e sete anos, na famosa carta que serve de introdução à sua Instituio Religionis Christianae (Institutas da Religião Cristã), ele fala abertamente contra o humanismo que não leva em conta a doutrina evangélica. Mais do que contra um humanista cristão como Budé, Calvino ataca aqueles humanistas que fazem a apoteose do ser humano e pensam que a realização daquilo que é humano pode ser alcançada somente na presumida independência de Deus e de Sua revelação. Ele mesmo, como um humanista, rejeitou aquilo que era o coração da idéia de personalidade do Renascimento, a idéia de que o homem é a fonte criadora de seus próprios valores e, portanto, no fundo, incapaz de pecar. Se os estudos humanísticos eram caros a Calvino pelo fato de favorecerem o desenvolvimento das virtudes humanas, se as ciências devessem ser cultivadas como dons de Deus, os humanistas deviam opor-se àqueles que pensavam que as artes e as ciências podiam ser empregadas como se fossem suficientes em si mesmas. Era estranho à mente de Calvino o pensamento de que as artes e as ciências podiam estar livres da religião (non debare distrahi a religione scientia).

Ninguém deve supor que a atitude de Calvino para com aquilo que é humano e para com aquilo que pertence à realização humana não tem necessidade de correção. No entanto, sua atitude positiva para com esses valores é inerente ao seu pensamento e tem profundas implicações para aqueles que se consideram Calvinistas. Isto contribui para a compreensão do modo pelo qual o Calvinismo atua como uma força cultural.

Para Calvino, diferentemente do que ocorria com outros líderes da Reforma, não existe dicotomia básica entre o Evangelho e o mundo, entre o Evangelho e a cultura. Ao mesmo tempo, ele não aceitava simplesmente, sem crítica, as realizações do gênio humano. Sua atitude exigia que tais realizações fossem analisadas quanto às razões que as inspiravam, pois deviam estar sujeitas aos preceitos de Cristo.


O Divino e o Humano no Calvinismo

Calvino cria na absoluta soberania de Deus. Como os outros Reformadores, ele cria também que o crente, em seu coração, é imediatamente ligado ao Deus soberano, como Ele se revelou em sua Palavra. Como já mostramos (em outro lugar), isto não significa que a atividade soberana de Deus, para Calvino, se mantenha numa relação de indiferença ou, possivelmente, de antítese para com aquilo que é humano e para com aquilo que pertence ao campo das realizações culturais humanas. Calvino entendia de tal modo a atividade de Deus, que não deixava lugar a um tal dualismo. O Deus que opera soberanamente no coração do homem, é o mesmo Deus que se revelou como o Criador do homem e dos valores de sua cultura.

Aquele que tem um profundo domínio da revelação que Deus fez de si mesmo, como Criador, compreenderá que o divino e o humano não devem ser concebidos como se fossem extremos contrários de um espectro, de modo que exaltar a um, seria, de per se, rebaixar o outro. Deus não é honrado quando se envilece a Sua criação, nem a criação é exaltada quando se envilece a Deus. A criação é expressão da vontade de Deus como Criador. À criação, em seu estado incólume, Deus chamou boa. Ele se revelou como estando ativamente interessado nela. Para glorificar a Deus não é preciso denegrir a criação: É apenas necessário pôr em prática, em relação à natureza, aquilo que responde à vontade criadora de Deus para ela.

Aquele que tem profunda compreensão da revelação bíblica no que diz respeito à criação, compreenderá que o que está em discussão não é a mera ênfase sobre o que é divino ou o que é humano, mas se – quer seja... humano ou pertença à esfera da atividade humana -, tem sido levado a moldar-se à vontade de Deus, como está expressa em Sua lei. Ou seja, verá que o que está em discussão é se tais atividades respondem àquilo que Deus desejava para elas desde o começo.

É Claro que a doutrina reformada da imediata operação da graça de Deus através de Sua Palavra no coração humano levantou-se em oposição ao ponto de vista de que o humano é uma esfera semi-autônoma que antecede o divino e que, realizando obras pelos próprios poderes do indivíduo, serve como um preâmbulo necessário à operação da graça. Quando Lutero começou a expor sua doutrina da justificação só pela fé, o nominalista Guilherme de Occam (leia mais sobre ele no artigo A Navalha de Occam no Tópico TEXTOS FILOSÓFICOS), em cuja lógica ele tinha sido instruído por Trutvetter e Usingen – e a quem Lutero chamou seu professor (magister meus) -, já tinha criado um clima de pensamento incompatível com a idéia de que a natureza é o preâmbulo da graça. Occam rejeitou a idéia de que qualquer coisa fora do Evangelho pudesse servir para julgá-lo ou agir como uma plataforma adaptada à misericordiosa provisão de Deus e para a resposta de fé por parte do homem. Lutero orgulhava-se de pertencer à escola de Occam, a quem considerava o principal e o mais talentoso dos doutores escolásticos.

A posição nominalista pareceu ajustar-se, além disso, às suas doutrinas a respeito da graça. Os nominalistas ensinavam que Deus age diretamente, dirigindo-se ao homem com absoluta e soberana exigência, sem dar lugar ao exercício de poderes humanos naturais de juízo, discriminação ou escolha. Ensinavam que a graça divina não é concomitante, mesmo quando entendida como perfeição divina, com as obras humanas. Ensinavam que a graça divina opera imediatamente no coração do homem, indiferentemente ou, mesmo, em oposição à capacidade humana.

Não estou sugerindo que a compreensão de Lutero a respeito das doutrinas da graça tenha surgido ou, mesmo, tenha dependido deste ensino dos nominalistas. Sustento que o seu entendimento é fruto de sua leitura das Escrituras. A tradição occamista, contudo, forneceu-lhe base para a sua crítica contra o ponto de vista de que a natureza é o preâmbulo da graça. Depois de descobertas estas doutrinas, no entanto, os ensinos nominalistas contribuíram para influenciar seu desenvolvimento teológico e para determinar sua concepção a respeito de como o Evangelho se relaciona com a cultura.

É reconhecido que o ponto de vista de Lutero a respeito do que é chamado “dois reinos” é profundamente influenciado pelo nominalismo. Para a esfera da natureza, ensinava ele, o conceito aristotélico do conhecimento, amplamente aceito, é suficiente. Para a religião, contudo, só a revelação é autoridade. Nesta área, a razão humana tem de submeter-se inteiramente à Palavra de Deus. A inteligência natural e sua lógica, limitadas ao finito como são, são prejudiciais à teologia porque não conduzem à fé, mas afastam dela.

A maneira pela qual esta tradição nominalista fazia distinção entre o divino e o humano, tem, na verdade, um ponto de contato com o emprego verbal concreto nas Escrituras, pois elas falam, freqüentemente, da atividade de Deus e da atividade do homem de tal maneira, que os coloca em posição diametralmente oposta um contra o outro. É possível, por isso, adotar essa maneira de as Escrituras colocarem a questão, sem penetrar a verdade que está por trás dela. Isto, ao que parece, era o que ocorria com o modo como os nominalistas entendiam o ensino bíblico a respeito de Deus e do homem, pois pensavam eles em termos de confronto entre graça e natureza. Era inevitável que esta tradição (nominalista) influenciasse a maneira pela qual Lutero desenvolveu sua teologia e concebeu a relação entre Cristianismo e cultura.

Lutero, corretamente, afirma a doutrina evangélica da imediata operação da graça soberana de Deus, através da Palavra. No pensamento de Lutero, contudo, há uma marcante distinção ente a esfera íntima do divino, atividade espiritual, e a esfera exterior das práticas seculares. Na linha da posição nominalista, esta esfera exterior, em contraste com a esfera íntima, é considerada como formal e convencional. Pelo menos em relação ao campo espiritual, ela é colocada em posição de indiferença. A atividade cultural humana, que pertence a esta esfera externa, é aceitável, contanto que seus padrões não sejam aplicados à esfera espiritual. Não há, porém, nenhuma conexão íntima ente ela e este campo espiritual. A atividade espiritual influencia a cultural, para empregar uma metáfora, somente quando se agita e se derrama dentro dela. Em comparação com a atividade espiritual, a atividade cultural humana deve ser tolerada.

Dentro deste contexto, não causa surpresa o fato de Melanchthon – ao descobrir que na posição de Lutero não havia nenhum ponto íntimo de ligação no contato com a cultura e voltado para os fundamentos da teologia, em seu programa prático da reforma universitária -, inclinar-se mais e mais para uma posição não crítica de aceitação daquilo que vinha a ele a partir do meio secular. Acomodou sua posição mais e mais à posição de Aristóteles que, segundo dizia, tinha desenvolvido a única filosofia científica. Certo, com relação às reformas da doutrina da graça, em sua convicção pessoal, Melanchthon, não obstante, acomodou-se à cultura secular, de um modo que era impossível a Calvino.

No pensamento de Calvino, não encontramos um tal dualismo. Para ele, na verdade, não há esfera de atividade humana relativamente autônoma, que preceda a operação da graça de Deus. Além do mais, não há limite para a soberania divina, quando ela opera no coração humano. No pensamento de Calvino, contudo, estas posturas combinam com a profunda compreensão de doutrina bíblica da criação. Deus é o Criador soberano absoluto e sustentador de todas as coisas. Nada existe que Ele não tenha criado e que não esteja sujeito à Sua vontade criadora. Todas as coisas, inclusive as que parecem mais triviais, são reveladoras da Sua soberania. Além do mais, Sua vontade criadora soberana abrange aquilo que é humano e aquilo que pertence à esfera das realizações humanas, naturalmente as da história e do desenvolvimento cultural. Tudo está sujeito à Sua vontade como vem expressa na Sua lei.

Em Calvino, portanto, não encontramos uma simples e global distinção entre Deus e homem, entre aquilo que é divino e aquilo que é atividade humana, noções que equivalem a cálculo matemático. Na verdade, pode-se respeitar a plenitude da distinção bíblica ente o Criador e Sua criatura. No entanto, é um profundo discernimento desta verdadeira doutrina bíblica que leva o indivíduo a evitar o uso dos termos “Deus” e “homem”, em sentido global (em bloco), modo simples e absoluto contra o qual estamos fazendo advertência. Esta cilada pode ser evitada se, com Calvino, pensarmos dentro da criação, sob o horizonte da revelação de Deus, em termos da expressão da vontade de Deus Criador, em Sua lei.

Calvino compreendeu que tudo o que se conforma com a vontade de Deus, como está expressa na criação, tem a aprovação de Deus. Quando responde ao propósito criador de Deus, o homem responde àquilo que está de acordo com a sua natureza, àquilo que Deus, na criação, declarou bom. Por isso, Calvino pôde aceitar com entusiasmo o programa da ciência natural, de pôr às claras os segredos do universo de Deus. Deste modo, também pôde ele aceitar livremente as realizações do gênio humano, que contribuíam para a humanização do homem. Concedia que estas coisas não tinham sentido separadas da religião; porém, na verdade, eram plenas de sentido com ela. Eram preciosos dons de Deus concedidos (ao homem) pelo Espírito Santo.

Para dizer a verdade, a humanidade está depravada em seu coração por causa do pecado, e a cultura não se desenvolveu sem severas distorções. A depravação, contudo, é contrária à natureza, não é natural. Aquilo que não responde à vontade criadora de Deus, que não está verdadeiramente de acordo com Sua lei, é uma expressão da anti-naturalidade que entrou no mundo por causa do pecado. Esta deformação, contudo, não obstante ser grande, não é tal que tenha separado o mundo e sua cultura do propósito e plano de Deus. Nem é tal que o mundo não manifeste mais a glória de Deus. As boas dádivas de Deus são largamente distribuídas, sem qualquer favor especial, aos da família da fé. A verdade, que está presente pela influência do Espírito Santo, deve ser abraçada, portanto, onde quer que seja encontrada. A despeito da depravação do coração do homem, Deus tem, por Sua graça comum, conservado resíduos candentes daquilo que responde à Sua vontade criadora. Por isso, é possível entender que haja mesmo brilhantes realizações do espírito humano entre os que têm, em seus corações, pouco ou nenhum lugar para os ensinos da Palavra de Deus.

O ponto de vista de Calvino a respeito da relação entre Deus e o homem parece estar compendiado em sua famosa afirmação, feita no começo de sua Instituta, de que há uma correlação entre o conhecimento que o homem tem de Deus e o conhecimento que tem de si mesmo (Dei notitiam et nostri res esse coiunctas). Isto significa que o homem só se conhece à luz de Deus e de Sua revelação, com o corolário implícito de que, se se conhece verdadeiramente, conhece verdadeiramente também a Deus. Não é muito extrair desta correlação o pensamento de que o homem, estando verdadeiramente relacionado com Deus para piedade, estará verdadeiramente relacionado consigo mesmo, e estando relacionado consigo mesmo pela piedade, estará verdadeiramente relacionado com Deus.

Segundo meu modo de entender a questão, a idéia de Calvino a respeito da correlação entre o nosso conhecimento de Deus e o nosso conhecimento de nós mesmos abriu o caminho para ele se deparar com aquilo que, para ele, deve ter sido o maior problema, isto é, o problema da relação entre a educação humanística que ele recebeu, e pela qual continuava tendo grande respeito, e as verdades do Evangelho, que ele abraçou em sua conversão. Essa relação expressava um ponto de vista no qual o perigo de tomar “Deus” e “homem”, o “divino” e o “humano”, em bloco, já tinha sido superado. Seu ponto de vista permitia-lhe, de uma forma verdadeiramente compatível com o ensino das Escrituras, assegurar um lugar pleno à humanidade do homem e às realizações culturais, sem detrair um mínimo da honra e da glória de Deus.

Calvino considerou a humanidade do homem em sua profundidade. De fato, esse modo profundo de compreender o homem não se inspirou na idéia de humanidade universal, tal como a do Renascimento, onde se pensava que o homem fosse uma personalidade autônoma, a fonte criadora de seus próprios valores; ao invés disso, resultou da revelação de Deus no que se refere ao Seu propósito na criação, aos efeitos deformadores do pecado e à provisão de Deus para a redenção do homem e de seu mundo. Para Calvino, tornou-se possível relacionar a idéia de humanidade à antítese religiosa retratada na Escritura. O caminho foi aberto pela idéia de que o homem se torna humano em sua relação com Deus. O homem, em si mesmo, é verdadeiramente homem quando responde àquilo que constitui o modo de ser de sua natureza, àquilo para o que foi criado. Deste modo é possível constatar que o humanum é realizado não no isolamento autônomo do homem em relação a Deus, mas na sua relação com Ele. A autonomia humana pecaminosa, longe de ser o caminho para a auto-realização humana, é, em si mesma, uma distorção daquilo que é humano.

Contra esta posição, é claro que o que está em discussão não é uma ênfase simples, relativa ou a ausência de ênfase a respeito do homem e dos produtos da atividade humana. O ponto em questão é se naquilo que o homem faz e no modo como se concebe a si mesmo está de acordo com o que Deus planejou para ele desde o começo, em Sua soberana vontade criadora. Segue-se, deste fato, que qualquer idéia de homem ou de atividade humana, ou dos produtos dessa atividade, deve ser examinada quanto às suas raízes religiosas. Procura o homem expressar sua humanidade segundo a lei de Deus? Está ele pronto a reconhecer a inaturalidade ligada a tudo o que é humano e a toda realização humana, por causa do pecado? Está ele preparado para depender – em tudo o que se relaciona com ele mesmo e com suas atividades -, da graça redentora de Cristo e de seu poder restaurador?

A partir desta perspectiva, percebemos agora que podemos trazer à luz, de forma mais efetiva, quão humanístico é o pensamento de Calvino. Sua posição, no que se refere aos interesses da glória de Deus e do Evangelho de Jesus Cristo, não exige que ninguém negue ou mesmo, deprecie aquilo que é humano. Na realidade, a humanidade do homem pode ser exaltada sem que se avilte a honra de Deus. O interesse naquilo que é humanum e naquilo que a ele se refere só se torna humanismo no sentido pejorativo, quando defende o ponto de vista de que o centro de gravidade do homem, como se existisse, reside nele mesmo, numa presumida autonomia vis-à-vis com o seu Criador. Esta espécie de humanismo, como fizemos notar, surgiu durante a Renascença e floresceu no tempo do Iluminismo. Contra esta espécie de humanismo Calvino reagiu vigorosamente, visto que seus expoentes estavam tentando, por todos os meios à sua disposição, fazer abortar a causa da Reforma.


O Calvinismo e o Governo de Deus Através da Lei

Até aqui, verificamos que, para Calvino, a vontade soberana do Deus Criador não tem limites. Está presente em todas as coisas, mesmo naquelas que, aparentemente, são as mais insignificantes. Tudo revela Deus e expressa, de um modo ou de outro, Sua majestade e glória. Observamos, além disso, que esta vontade soberana de Deus não pode ser entendida se a separarmos da revelação que Ele faz de Si mesmo e da expressão de Sua vontade, na Sua lei, à qual o homem e toda a criação, na verdade, estão sujeitos. Corresponde ao pensamento de Calvino dizer que o homem se realiza como pessoa quando, em sua resposta a Deus, compartilha com Ele em Sua revelação. O próprio homem responde livremente à chamada de Deus, obedecendo à vontade soberana de Deus que, certamente, não o deixa encurralado, mas lhe serve de meio dentro do qual ele se realiza como homem.

Entendemos desta maneira, volto à minha terceira proposição: Para Calvino, toda a vida, inclusive aquilo que é chamado livremente “cultura”, é teônoma, isto é, tem a sua razão de ser enquanto sujeita a Deus e à Sua lei.

O que vem particularmente à luz, aqui, é o que Calvino pensa da lei. Se Deus, como Criador, está acima da lei (deus legibus solutus), sem que coisa alguma fora do Seu próprio Ser possa limitá-lo, o homem e todo o cosmo como ele estão sob a Lei, sujeitos a ela. Pois tudo aquilo que se refere à natureza da criação, em sua totalidade, está ligado pela lei de Deus: Separada destes laços, a existência da criação não tem sentido.

Assim, a imagem que nos vem à mente, quando consideramos o ponto de vista de Calvino a respeito da soberania divina, não é a de um tirano despótico, porém a de um grande arquiteto, termo com que Calvino designa a Deus freqüentemente. Quando falava da criação, Calvino podia referi-se facilmente ao seu aspecto arquitetônico, à sua arquitetura, como revelação da grandeza e da bondade de Deus. Para Calvino, a idéia da criação traz consigo a idéia de ordem, ordem em que tudo é construído com uma estrutura magnificente, uma expressão de beleza.

Entendendo desta maneira, é impossível ver, na idéia calvinista da soberania de Deus, sanção para qualquer espécie de soberania humana ilimitada. Mesmo que o homem possa ter sua autoridade sancionada por Deus, essa autoridade é limitada. A soberania humana é sempre restrita aos limites estabelecidos para ela.

Estes dois fatos, que integram totalmente o caráter do Deus soberano criador, como Ele se revela na Sua Palavra e na existência imensurável de toda a Sua criação, aparecem na idéia reformada da vocação.

A Lutero é atribuído o fato de ter provocado uma revolução de tipo copernicana na idéia de vocação, em relação ao que se pensava dela na Idade Média. Esse conceito tinha sido aplicado apenas a algumas áreas especiais, chamadas de “ordens santas”, para as quais era necessária uma consagração especial. Na verdade, a idéia corrente era de que só o monasticismo constituía verdadeira vocação. Do mesmo modo, a vida de contemplação espiritual era mais valorizada do que a vida ativa. Ao reconhecer que toda a vida é santa quando reflete o propósito de Deus, Lutero faz a idéia de vocação estender-se para abranger toda atividade humana legítima.

O pleno impacto da revolucionária concepção de Lutero só pode ser sentido, contudo, se se escapa da espécie de dualismo em que ele mesmo caiu, ao distinguir entre um campo espiritual, íntimo, e uma esfera de ordenanças externas. Calvino, como já afirmei, nunca participou de tal ponto de vista dualístico. Na verdade, como Lutero também fez, Calvino rejeitou a idéia de que a natureza é o preâmbulo da graça, sustentando que Deus opera imediatamente no coração humano, através da Sua Palavra. Calvino, porém, não foi atingido pelas influências nominalistas que afetaram o sistema de pensamento de Lutero. O ponto de vista de Calvino, como demonstrei na seção precedente, não envolve de modo algum qualquer depreciação da atividade cultural, nem das instituições humanas. Na Reforma Calvinista, a idéia de vocação podia assumir a mais pura expressão de sua significação universal.

Para Calvino, a vida do homem, em sua totalidade, é compreendida como uma resposta à chamada de Deus. O homem é um ser do pacto. Como Lutero bem disse, o homem tem uma lei certa segundo a qual ele deve viver e morrer (certa regula tum vivendi tum moriendi). Em todos os aspectos de sua vida, o indivíduo é confrontado com o Deus soberano, perante quem ele deve prestar conta de si mesmo.

Na verdade, a vocação ou chamada de Deus tem sentido universal. A idéia reformada da vocação, contudo, não atinge sua expressão plena, separada da idéia de que há vocações particulares. A Reforma recuperou a idéia da santidade de todas as atividades humanas legítimas. O que está em jogo, portanto, não é se alguém é objeto de uma vocação particular, mas se na esfera em que exerce sua atividade, ele realiza o seu trabalho à luz da vocação divina e ali serve a Deus de todo o seu coração.

Um dos aspectos principais do ponto de vista de Calvino a respeito da vocação estava no fato de ele entender que a grande diversidade de dons tinha sido dada aos indivíduos, de acordo com a soberana vontade do Espírito Santo de Deus. Assim como não é apenas um raio de sol que ilumina o mundo, mas todos os raios se combinam num conjunto para realizar a tarefa dele, do mesmo modo Deus distribui amplamente os Seus dons, com o fim de manter a humanidade em mútua interdependência. Entre os homens há uma diversidade de dons que possibilitam uma diversidade de funções. Aquele que tem um lugar particular e uma tarefa, pressupõe que tem uma vocação para ela. Ao assumir este lugar e suas obrigações, o indivíduo tem uma vocação definida (certa vocatio). A vocação que alguém tem, é uma resposta obediente à divina vocação.

Em conexão com isto, Calvino empregou outra figura, a do corpo. Estendeu esta figura à Igreja, à família e ao Estado. As vocações seculares pertencem ao Estado. Os membros do Estado bem como os da Igreja, com seus diversos dons, estão unidos num corpo com funções mutuamente dependentes. Assim, Calvino desenvolveu aquilo que tem sido chamado um conceito “orgânico” da Igreja, do Estado e da família, etc.

A idéia reformada da vocação, especialmente como ela foi desenvolvida por Calvino, conduz à idéia de que a santidade prende-se àquilo que é chamado de “atividades culturais” do homem. Esta atividade cultural do homem é considerada como sendo uma resposta à chamada divina, que envolve uma tarefa cultural divinamente determinada. Portanto, a atividade cultural do homem é teônoma ou só tem sentido como uma resposta a Deus e à Sua Lei que, por sua vez, estabelece os seus laços e determina o seu significado. Este passo, na verdade, foi anteriormente dado por Calvino.

Calvino vislumbrava uma tal esfera orgânica na família. A família é uma ordenança da criação fundada por Deus. É uma eterna e indestrutível instituição divina. Ao chefe da família, no sentido restrito da palavra, o marido, foram concedidos dons especiais do Espírito. Em virtude de tais dons, ele foi dotado de autoridade, autoridade que foi chamado a exercer na esfera particular em que foi colocado. Dentro da família há uma relação especial de super-ordenação e subordinação. De acordo com a disposição divina, o marido é o cabeça da esposa, mas o é de tal modo, porém, que ele deve cuidar dela como cuida do seu próprio corpo. Na verdade, ele deve amá-la como Cristo amou a Sua Igreja e Se entregou a Si mesmo por ela. Por seu lado, a esposa deve ser submissa ao marido, no Senhor, oferecendo-lhe o amor e a obediência a que ele tem direito como seu cabeça. Acima dos dois – marido e mulher –, no entanto, está o Cabeça de todas as coisas, Jesus Cristo. Ambos, marido e mulher, são limitados em sua autoridade e atividade. Suas vidas, como casados, alcançam sua realização em sua obediência à Lei de Deus, naquilo que diz respeito à esfera para a qual foram chamados.

O ponto de vista de estrutura orgânica, de Calvino, está presente também em sua maneira de conceber o Estado, no qual ele viu uma analogia com a família. Ele relacionou com o Estado, também, sua idéia de diversidade do gênero humano, quanto aos dons e esferas de atividades. O Estado também é análogo a um corpo, no qual os vários membros têm seu próprio lugar e função. No Estado, os indivíduos são reunidos uns aos outros numa unidade orgânica, com diferentes posições na vida e diferentes funções.

Acima do Estado está o governo. A autoridade deste, ensinou Calvino, não se deriva, antes de tudo, da vontade do povo; antes de tudo, ela é dada por Deus. A fonte divina da autoridade do magistrado está no fato de ter ele recebido dons peculiares do Espírito para governar. Dentro da esfera do Estado, portanto, há uma autoridade, há um centro de poder divinamente legitimado.

Calvino partilhou da antiga idéia de que o governo está acima da Lei, porque ele é a sua fonte (princeps legibus solutus). De fato, ele admitiu que o governador é a fonte da Lei Positiva, que obriga nos limites do seu território. Nesse sentido, Calvino falou do governador como a lei personificada (lex animata). Na verdade, em sua concepção geral, contudo, Calvino sustentou que a autoridade de um governador é limitada. Um governador deve, ele mesmo, submeter-se à Lei Positiva, que vige nos limites do seu território. Lei Positiva, além do mais, é apenas uma expressão da Lei, pois, além dela, há a Lei Natural, a Lei da Natureza, que Calvino associou estreitamente com a probidade. Cada Lei Positiva deve expressar o princípio da probidade. Se não for assim, será inútil.

Que significa para Calvino a Lei Natural? A resposta a esta questão não é simples. Como Lutero e Melanchthon, Calvino tinha viva apreciação pela Lei Romana largamente aceita, e interpretava os sistemas legais correntes. Ele compartilhou da distinção que o jurista romano Quintilhamo fez entre as leis dadas a cada um, pela natureza – isto é, o direito natural (iustus natura), e as leis que pertencem ao folk ou ao povo, em cujo contexto as leis recebem sua formal expressão judicial (iustum constitutione). A abertura de Calvino para com a Lei Romana neste ponto, envolvendo, como envolve, um acordo formal com a idéia de que há uma Lei Natural, está em consonância com a sua atitude, em geral, para com as realizações culturais humanas e, mais particularmente, está de acordo com a sua atitude para com o sistema de Lei Romana, no qual ele introduziu muito poucas correções. O fato de aceitar a Lei Natural não significa, contudo, que ele não a colocasse numa perspectiva que, naturalmente, pudesse mudar o seu significado. Sustentar um ponto de vista a respeito da Lei da Natureza, como Calvino fez, não significava entrar no campo dos Estóicos, com sua concepção de razão universal, ou num acordo substancial com a Lei Romana, em seu ponto de vista a respeito da origem e do sentido da Lei Natural.

Que Calvino pudesse aceitar a Lei Romana, de modo algum dependia de como ele interpretava seu lugar no plano providencial de Deus, ou envolvesse a necessidade de ele reinterpretá-la, fazendo suas distinções dentro do contexto de seu modo de entender a doutrina cristã. Aceitá-la era agradável à sua idéia de que Deus não tinha permitido ao mundo ir à ruína por causa do pecado, mas que o tinha preservado por meio de sua graça comum. A aceitação, por parte de Calvino, de alguma espécie de doutrina de Lei Natural reflete, também, sua interpretação do ensino da Escritura, no que se refere àquilo que entendem por natureza (= physcei) os que estão fora do âmbito da revelação especial de Deus e que, diferentemente dos judeus, não receberam os oráculos (= ta logia) de Deus. O fato de estes, não obstante, fazerem por natureza as coisas que estão escritas na Lei de Deus deve ser, segundo Calvino, atribuído às sensibilidades humanas distribuídas a todos os homens (= sensus communis), fato que reflete a vontade divina e que tem sido preservado do aniquilamento pela graça comum de Deus. Segue-se, deste fato, que Calvino não podia pensar na Lei da Natureza como um direito inerente à razão universal, entendida como separada da mensagem bíblica. A Lei da Natureza tinha de ser relacionada com a ordem da criação, através da qual, a despeito das devastações provocadas pelo pecado, Deus continua a revelar-se em toda parte e em todos os tempos.

Um governador, então – que na verdade, para Calvino, é a fonte das Leis Positivas inscritas nos códigos de seu território -, está sujeito à Lei da Natureza. Segundo Calvino, esta Lei da Natureza é o princípio e o objetivo de todas as Leis Positivas, e é a Lei que estabelece os seus limites. Um governador, portanto, está sujeito a uma Lei (da Natureza) cuja autoridade excede, em muito, à de quaisquer leis que ele mesmo possa gerar. Em última análise, ele está sujeito a Deus, que é a fonte final de toda lei e de toda autoridade.

De fato, o respeito que Calvino tinha para com o magistrado e para com os dons de governar, era enorme. O homem é obrigado a aproximar-se de um governador como de alguém dotado, pelo Espírito do próprio Deus, de extraordinários dons que o qualificam para governar. Contudo, esta autoridade humana, conquanto seja sancionada pela autoridade divina, é sempre restrita, sendo demarcada pelos limites próprios do ofício de governador.

O ponto de vista de Calvino a respeito da vocação, tanto da atividade na esfera do lar, do Estado, do magistério ou da Igreja, exibe sempre estas duas faces. Há, de um lado, a idéia de que tudo, na vida, é resposta à vocação universal de Deus, cuja vontade soberana abrange todas as coisas e cuja providência se estende a cada pormenor da existência humana. De outro lado, há a idéia paralela de que a resposta humana é canalizada por vocações específicas, de modo que cada um tem o seu lugar e desempenha suas funções dentro do corpo.

Caberia ao grande estadista e teólogo holandês Abraham Kuyper, unir as linhas do ensino reformado e desenvolver a idéia da “esfera soberana” ou, como ela tem sido chamada, “soberania nas esferas individuas da vida”, pois Deus, cuja soberania se estende sobre a totalidade da vida, tem ordenado várias esferas na sociedade, cada uma das quais dispõe de uma soberania dentro de sua própria órbita. Calvinho já tinha compreendido, contudo, que há uma diversidade de dons e vocações, e que cada uma tem de ser compreendida em relação com Deus e com Sua soberana vontade. Segundo Calvino, bem como segundo Kuyper, cada um pode servir de acordo com seus dons peculiares, suas capacidades especiais e em seu próprio lugar, e ser agraciado com o conhecimento de que foi incumbido de realizar uma particular vocação de Deus.

O ponto de vista de Calvino a respeito da diversidade de vocações, estabelecidas por Deus, torna imperativo reconstruir a difundida noção dos tempos modernos, concernente à natureza da cultura e da sociedade. Até aqui tenho empregado a palavra cultura em sentido mais amplo e indiscriminado, sem levar em conta a questão do uso comum do termo. Segundo este uso, cultura é o termo geral que denota a ordem trazida à existência pela agência humana. Tem-se como cultura tudo aquilo que não surge pronto, como parte integrante da natureza. Assim, ela inclui toda linguagem, todas as leis, todas as convenções sociais, etc.

Na maior parte das vezes, quando um contemporâneo discute um tópico tal como “Cristianismo e Cultura”, ele tem em mente o termo cultura interpretado deste modo. A cultura abrangendo todo engenho humano e seus produtos é posta em contraste com aquilo que pertence à esfera do divino. Introduz-se, deste modo, uma discussão de relação do Cristianismo – como sendo de origem divina – com aquilo que é produto da engenhosidade humana, no mais amplo sentido da palavra.

O ponto de vista de Calvino a respeito da Natureza e da Lei Natural sugere que esta maneira de ver precisa ser reconstruída. Seu ponto de vista não admite que toda lei e toda estrutura (que não é parte da natureza) sejam compreendidas como produtos do engenho humano. O próprio engenho humano (para Calvino), ao contrário, adquire sentido dentro da estrutura estabelecida pelas ordenações divinas, que a prerrogativa humana está longe de poder mudar.

Outra vez Calvino não admite que se considerem o divino e o humano em bloco. A atividade humana é plena de sentido só dentro dos limites estabelecidos pela vontade soberana de Deus, expressa em Sua Lei. A Lei de Deus constitui uma permanente estrtura para a atividade humana, fora da qual esta atividade perde o significado. A atividade cultural humana, na verdade a totalidade da cultura, é teônoma e só tem sentido em sua relação com Deus e Sua Lei.


O Calvinismo e a Atividade Cultural do Homem

Calvino viveu num tempo de fermentação e mudanças, numa época que ele mesmo descreveu em termos ou mais elogiosos. Foi um tempo de renovação do pensamento, de profundos transtornos sociais e de conflitos religiosos. Tanto em relação ao Renascimento quanto à Reforma havia não apenas uma vívida consciência de retorno àquilo que, durante longo tempo, tinha ficado obscurecido – um retorno às fontes (= ad fontes) -, mas também havia a consciência de que esse retorno era o março de um novo começo, a emergência de uma nova idade que seria diferente, em grau marcante, daquela que a precedia imediatamente.

No meio de uma tal fermentação, não surpreende o fato de ter surgido, também, um sentido de transformação histórica. Esta consciência dominou também a Calvino. Seu ponto de vista a respeita da Lei Natural não o impediu de ser flexível com respeito às mudanças que tinham lugar por toda parte, ao redor dele. Ele sabia que era impossível associar a vontade de Deus com a ordem existente, pois fazer isto significaria sancionar as forças do conservantismo e da reação. A investida característica do seu tempo, contra as idéias e costumes bem estabelecidos, não era simplesmente destrutiva e destituída de sentido. Contudo, é claro que Calvino não abandonou tudo às formas da história, como já nos mostrou a discussão a respeito da Lei. Quando ele abraçou a doutrina da Lei Natural, ela mesma estava num tal abandono. Ele não repudiou seu ponto de vista de mudança - de Deus ou de Sua Lei – de forma a ser conduzido derrotando a trilha da revolução. Ainda que fosse mais controlado do que Lutero, em sua atitude para com essas forças, Calvino desprezou aqueles que, à margem da Reforma, combatiam com fervor revolucionário aquilo que estava estabelecido.

Não obstante, é verdade que Calvino tinha uma visão aguçada para (compreender) o papel da história. Além do mais, ele foi um homem moderno no sentido de não considerar a história simplesmente como um movimento de imagem de eternidade. Sua recusa em limitar a vontade soberana do Deus criador não poderia obstruir a história. Para Calvino, o sentido da história reside nela mesma. A história e as mudanças históricas estão incluídas na esfera da atividade soberana de Deus e realizam os propósitos de Sua vontade.

Possuiria então, Calvino, um princípio bem elaborado de mudanças históricas, princípio que favorecia a proeminência que ele dava à história sem cair, por um lado, no conservadorismo e, por outro, sem cair numa posição revolucionária? Teria ele uma clara noção daquilo que constitui a cultura, de modo a poder ver com clareza como a história e a formação da cultura histórica têm seu lugar dentro da ordem do cosmo, como Deus o criou? Na verdade, ele estava plenamente ciente daquilo que tinha sido feito no passado para a construção de um ponto de vista cristão a respeito da história pois lera os Pais da Igreja, inclusive Agostinho, que foi o primeiro a desenvolver aquilo que poderia ser chamado uma filosofia cristã da história. De fato, ele mesmo desenvolveu um ponto de vista a respeito da história. Contudo, a resposta às questões acima deve ser negativa. Calvino não desenvolveu uma filosofia da história, no sentido técnico desta palavra.

É melhor dizer que Calvino possuía um sentido sumamente afinado de atitude que o cristão deve ter com respeito à mudança histórica, um sentido que foi desenvolvido por seu estudo da história, na sua instrução e, especialmente, na sua profunda compreensão do ensino bíblico.

É significativo a esse respeito que, antes de sua conversão à fé evangélica, Calvino já estava plenamente envolvido naquilo que foi uma das mais poderosas forças modernizantes de seu tempo: o Renascimento humanístico. Isto já tinha produzido poderoso impacto nos círculos católico-romanos. Dá testemunho disto o fato de o líder do humanismo francês, Budé, ser um católico romano e ter influenciado alguns dos mais chegados companheiros de Calvino. Calvino firma-se primeiro como um humanista. Só depois alcançou ele o desenvolvimento que o transformou no maior sistematizador da Reforma. Tendo já colocado seus pés no mundo moderno, o problema de Calvino não seria o de como entrar na modernidade, mas o de como relacionar-se, ele mesmo e a nova cultura, com as velhas verdades do Evangelho, verdades que tinham sido outra vez trazidas à luz pela Reforma, e de como interpretar o mundo moderno à luz dessas verdades.

Não se deve também esquecer que Calvino, no interesse de aplicar as verdades do Evangelho à vida, foi levado à arena da vida prática. Seus princípios não tiveram, a respeito dessas verdades, aquele ar de irrealismo que caracteriza os esquemas ideais que têm pouco ou nenhum contato com a vida real. Há em Calvino um saudável realismo. Tem sido sugerido que seus princípios tiveram efeito porque ele estava em contato com as situações reais da vida e estava em condições de mudar essas situações.

Vemos Calvino, por exemplo, tentando, tanto quanto possível, repor as Leis Canônicas em Genebra, juntamente com os princípios da Lei Romana. Vemo-lo em cooperação com Marot, elevando o nível de apreciação pela música no culto. Vemo-lo entrando no campo da educação, com a fundação da Academia de Genebra, e tentando desenvolver uma verdadeira concepção cristã da cultura. Encontramo-lo, através de sua intensa atividade literária, elevando a alturas inabituais, o nível da Língua francesa. Na introdução de suas Institutas da Religião Cristã, ele dirige ao rei de uma forma que lembra os antigos apologistas, pleiteando o bem-estar dos verdadeiros seguidores do Evangelho, mas afirmando, também, de uma forma que evidencia o mais profundo interesse pela situação política corrente, que os verdadeiros interesses do Estado só alcançam o progresso quando há verdadeira obediência a Cristo e às verdades de Sua Palavra. Na verdade, para Calvino, a Palavra de Deus não devia permanecer enclausurada no coração humano. Suas energias deviam irradiar-se por todo o mundo, em toda vida, incluindo o domínio da cultura.

No fundo, contudo, foi pelo fato de Calvino ter penetrado tão profundamente na concepção do mundo, que ele foi capaz de desenvolver um sentido próprio da história e da sua dinâmica. Foi por ter entendido, como Agostinho antes dele, o significado reprodutivo da doutrina bíblica da criação, que ele reconheceu a soberania e a providência de Deus sobre todas as coisas, de modo que coisa alguma escapa à vontade criadora de Deus. Isto tornou possível, para ele, ver que esta vontade se estende a toda história e àquilo que é central à história ou, seja, à atividade formadora do homem, que é o coração do desenvolvimento cultural.

Quem se coloca na posição de Calvino, não tem necessidade de conceber a atividade cultural humana como contrastada com a presumida esfera da atividade divina. A cultura pode ser concebida como um aspecto da atividade humana distinta da natureza, mas não como independente da Lei divina, do plano divino e da divina vocação. A atividade cultural humana pode ser concebida como uma resposta à chamada de Deus, do mesmo modo como o é toda a vida, e pode ser julgada quanto a se é ou não levada a efeito de acordo com a vontade do Deus criador. O que se exige é uma reconstrução da idéia de cultura, idéia concebida dentro do contexto da revelação divina, contexto dentro do qual a cultura se torna plena de sentido. A atividade cultural humana, levada a efeito em obediência à Lei de Deus, é uma expressão da Sua vontade. Está na linha do pensamento de Calvino dizer que aquilo que flui da cultura, tem um lugar no plano de Deus, enquanto se relaciona com o fim desta era e com a vida de um novo céu e de uma nova terra.


Não deixe de ler os próximos artigos desta série a serem postados em breve:
- A Propagação do Calvinismo no Século XVI e
- Suíça: Triunfo e Declínio


1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Gostaria que fosse desenvolvido um tema sobre a Doutrina da Graça Comum, dando ênfase ao posicionamento dos teólogos mais importantes ao longo da História Cristã mais antiga, até os dias de hoje.

10:35 AM  

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