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Sábado, Setembro 08, 2007
Quinta-feira, Setembro 21, 2006
As Parábolas de Oséias - Introdução
Profetizou na mesma época de Isaías e de Amós. O quarteto conhecido como "os profetas do século VIII" - Amós, Oséias, Isaías e Miquéias - se compunha de homens de Deus poderosos, cuja contribuição às profecias do AT, em conjunto, jamais seria suficientemente exaltada. Esses quatro profetas-evangelistas foram o "Desafio imortal de Deus ao pecado, à imoralidade, à idolatria e ao paganismo. Transmitiram a mensagem divina e imortal de advertência, de denúncia e de condenação. Com essa palavra severa, anunciaram a promessa divina de esperança, de salvação e de vitória".
Há traços inegáveis da influência de Oséias sobre Isaías, Jeremias e Ezequiel, e "talvez ele seja o único profeta do Reino do Norte cujas sentenças nos chegaram em plenitude literária", diz Ellicot, "incorporando na própria linguagem características do dialeto do norte da Palestina". Oséias é o primeiro da lista dos profetas menores em virtude da "extensão, veemência e patriotismo de suas profecias, bem como de semelhança com as profecias dos grandes profetas"
A importante influência desse profeta menor pode ser vista no modo em que os profetas posteriores expressam, com suas sanções inspiradas, as profecias de Oséias (Is 5.13;9.12,13; 11.12,13; Sf 1.3; Jr 4.3), e também pelas muitas referências do NT ao seu ministério (Mt 2.15; 9.13; Lc 23.30; 1Co 15.4,55; 1Pe 2.10; Ap 6.16).
Os dias em que Oséias viveu careciam de voz forte e compassiva de alguém que não se recusasse a ressaltar a mensagem divina de juízo e calamidades vindouras, uma voz que não se escusasse de anunciar que essas mesmas calamidades redundariam em condenação irreversível. ( The Boblical expositor ) comenta: "Durante todo o seu ministério, ele vagou em meio à anarquia, á revolta, ao derramamento de sangue, às contendas, aos comportamentos imorais, aos lares desfeitos, ao ódio entre classes, aos tribunais corruptos, às extravagâncias, às bebedeiras, à escravidão e à superficialidade religiosa.
A idolatria a incúria e a ímpia satisfação própria, juntas, formavam um fardo intolerável. Os sacerdotes falharam e nivelaram-se aos bandidos e agitadores. A adoração era forma, profissional e sem sentido. Era uma situação patética. Como Deus poderia voltar para esse povo o seu olhar de misericórdia?
Como um profeta espiritual poderia esperar ter alguma associação com um povo ímpio como esse? Reis, sacerdotes e príncipes estavam todos contra ele. Não contava com a ajuda da própria família. O pecado, o egoísmo, a avareza e o paganismo zombavam dele o tempo todo. A sua tarefa era inútil"
Deus, porém prepara a quem chama. Com o "Ide" sempre há o "Estarei convosco". Assim, lá foi Oséias, como mensageiro ungido de Deus a um povo pecador, com uma mensagem de misericórdia e de juízo.
No fundo, essa alma estranhamente poética, profundamente espiritual e por demais sensível, com "centelhas brilhando dos seus olhos cheios de lágrimas", era um evangelista cuja forma de pregação era pessoal e persuasiva. Ele clamava por decisões, ao lembrar ao povo de que seu pecado hediondo exigia arrependimento e confissão. Que sentimento neste apelo: "Volta, ó Israel, para o Senhor teu Deus" (14.1).
Oséias parece "um homem mais das emoções do que da lógica, um poeta,mais que um pregador", em seus apelos, cuja tônica é o amor, violentado amor. A leitura do seu livro revela a riqueza de recursos pelos quais realçava seus apelos. Certo escritor, referindo-se à rápida transição de Oséias de uma forma de elocução para outra, disse: "A linguagem do profeta assemelha-se a uma grinalda de diversas flores; imagens entretecidas umas nas outras, símiles seguidos de outros símiles, metáforas ao lado de metáforas".
A PARÁBOLA DA ESPOSA INFIEL (Os 1-3 ) - Não perca no próximo Artigo.
Quinta-feira, Setembro 14, 2006
Acreditar ou não no Deus da Bíblia -Pascal
Blaise Pascal nasceu em Clermont, no dia 19 de junho de 1623. Filho de Etienne Pascal e Antoinette Begon, ficou órfão de mãe aos três anos de idade. Suas extraordinárias qualidades de inteligência, reveladas desde os primeiros anos da infância, tornaram-se todo o orgulho do pai de Pascal, que quis encarregar-se pessoalmente de sua educação.
O jovem Pascal manifestou, desde logo, um pendor excepcional pelas matemáticas, a tal ponto que, segundo sua irmã Gilberte, chegou a descobrir os fundamentos da geometria euclidiana. Aos dezesseis anos de idade, escreveu um tratado de tal profundeza que se dizia não ter sido escrito outro, depois de Arquimedes, que se lhe pudesse comparar. Esse tratado despertou o entusiasmo de Descartes. Enquanto isso, continuava Pascal os seus estudos do latim e do grego, nos quais seu pai o havia iniciado, e, nos intervalos, dedicava-se também à lógica, à física, à filosofia. Aos dezoito anos de idade, inventou uma máquina de calcular.
Aos vinte e três, já era senhor de imenso cabedal científico, tendo descoberto várias leis sobre a densidade do ar, o equilíbrio dos líquidos, o triângulo aritmético, o cálculo das probabilidades, a prensa hidráulica, etc
Numa reviravolta incrível, Pascal tornou-se profundamente religioso, renunciou a todos os seus conhecimentos e, passando a viver solitariamente, internado na abadia de Port-Royal, dedicou-se exclusivamente à defesa do cristianismo.
Toda a vida de Pascal é tida como um grande exemplo de sofrimento resignado e de piedade. Morreu com trinta e nove anos, no dia 19 de agosto de 1662.
O QUE É MAIS VANTAJOSO: ACREDITAR OU NÃO ACREDITAR NO DEUS DA BÍBLIA?
Nossa alma está lançada no corpo, no qual acha número, tempo, dimensões. Raciocina sobre isso e lhe dá o nome de natureza, necessidade, sem poder acreditar em outra coisa.
A unidade agregada ao infinito em nada o aumenta, do mesmo modo que um pé a uma medida infinita. O finito se aniquila em presença do infinito e se torna um simples zero. Assim o nosso espírito diante de Deus; assim a nossa justiça diante da justiça divina. Não há tão grande desproporção entre a nossa justiça e a de Deus como entre a unidade e o infinito (4)
É preciso que a justiça de Deus seja enorme como a sua misericórdia: ora, a justiça para com os réprobos é menos enorme e deve aliviar menos do que a misericórdia para com os eleitos.
Sabemos que há um infinito e ignoramos a sua natureza, assim como sabemos que é falso que os números sejam finitos; é, pois, verdade que há um infinito em número, mas não sabemos o que ele é. É falso que seja par, é falso que seja ímpar; porque, acrescentando-lhe a unidade, ele não muda de natureza: no entanto, é um número, e todo número é par ou é ímpar; isso é verdadeiro para todos os números finitos.
Pode-se, pois, saber que existe um Deus sem saber o que ele é. Conhecemos, pois, a existência e a natureza do finito, porque somos finitos e extensos como ele.
Conhecemos a existência do infinito e ignoramos sua natureza, porque ele tem extensão como nós, mas não tem limites como nós. Não conhecemos, porém, nem a existência nem a natureza de Deus, porque ele não tem extensão nem limites.
Mas, pela fé, conhecemos sua existência; pela glória, conheceremos sua natureza.
Ora, já mostrei que não se pode conhecer bem a existência de uma coisa sem conhecer a sua natureza. Falemos, agora, segundo as luzes naturais.
Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, de vez que, não tendo nem partes nem limites, nenhuma relação possui conosco: somos, pois, incapazes de conhecer não só o que ele é, como também se ele é. Assim sendo, quem ousará empreender resolver essa questão? Não somos nós, que nenhuma relação temos com ele.
Quem, pois, censurará os cristãos por não poderem dar satisfação de sua crença, eles que professam uma religião de que não podem dar satisfação? Expondo-a ao mundo, eles declaram que isso é uma tolice, stultitiam. No entanto, vós vos lastimais porque eles não a provam! Se a provassem, faltariam à sua palavra; é por não terem provas que não lhes falta o senso. Sim; mas, embora isso escuse os que assim a oferecem e os livre da censura de produzi-la sem razão, não escusa os que a recebem.
Examinemos, pois, esse ponto, e digamos: Deus é, ou não é. Mas, para que lado penderemos? A razão nada pode determinar ai. Há um caos infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se cara ou coroa. Que apostareis?
Pela razão, não podeis fazer nem uma nem outra coisa; pela razão, não podeis defender nem uma nem outra coisa. Não acuseis, pois, de falsidade os que fizeram uma escolha, pois nada sabeis disso. “Não: mas, eu os acusarei de terem feito, não essa escolha, mas uma escolha; porque, embora o que prefere coroa e o outro estejam igualmente em falta, ambos estão em falta: o justo é não apostar”.
Sim, mas é preciso apostar: isso não é voluntário; sois obrigados a isso; (e apostar que Deus é, é apostar que ele não é). Que tomareis, pois? Vejamos, já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa: tendes duas coisas que perder, o verdadeiro e o bem, e duas coisas que empenhar, vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem duas coisas que evitar, o erro e a miséria.
Vossa razão não é mais atingida, desde que é preciso necessariamente escolher, escolhendo um dentre os dois. Eis um ponto liquidado; mas, vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda, preferindo coroa, que é Deus. Estimemos as duas hipóteses: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis. Apostai, pois, que ele é, sem hesitar. Isso é admirável: sim, é preciso apostar, mas, talvez eu aposte demais.
— Vejamos. Uma vez que é tal a incerteza do ganho e da perda, se só tivésseis que apostar duas vidas por uma, ainda poderíeis apostar. Mas, se devessem ser ganhas três, seria preciso jogar (desde que tendes necessidade de jogar) e seríeis imprudente quando, forçado a jogar, não arriscásseis vossa vida para ganhar três num jogo em que é tamanha a incerteza da perda e do ganho. Há, porém, uma eternidade de vida e de felicidade; e, assim sendo, quando houvesse uma infinidade de probabilidades, das quais somente uma fosse por vós, ainda teríeis razão em apostar um para ter dois, e agiríeis mal, quando obrigado a jogar, se recusásseis jogar uma vida contra três num jogo em que, numa infinidade de probabilidades, há uma por vós, havendo uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar. Mas, há aqui uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar, uma probabilidade de ganho contra uma porção finita de probabilidades de perda, e o que jogais é finito.
Jogo é jogo: sempre onde há o infinito e onde não há infinidade de probabilidades de perda contra a de ganho, não há que hesitar, é preciso dar tudo; e, assim, quando se é forçado a jogar, é preciso renunciar à razão, para conservar a vida e não arriscá-la pelo ganho infinito tão prestes a chegar quanto a perda do nada.
Por conseguinte, de nada serve dizer que é incerto ganhar-se e que é certo arriscarse, e que a infinita distância entre a certeza do que se expõe e a incerteza do que se deve ganhar iguala o bem finito, que certamente se expõe, ao infinito incerto. Não é assim: todo jogador arrisca com certeza para ganhar incertamente o finito, sem pecar contra a razão.
Não há infinidade de distância entre essa certeza do que se expõe e a incerteza do ganho; isso é falso. Há, na verdade, infinidade entre a certeza de ganhar e a certeza de perder. Mas, a incerteza de ganhar é proporcional à certeza do que se arrisca, segundo a proporção das probabilidades de ganho e de perda; de onde se conclui que, havendo tantas probabilidades de um lado como do outro, a aposta deve ser igual; e, então, a certeza do que se expõe é igual à incerteza do ganho; bem longe está de ser infinitamente distante. E, assim, a nossa proposição é de uma força infinita, quando há o finito que arriscar num jogo em que há tantas probabilidades de ganho como de perda, e o infinito que ganhar. Isso é demonstrativo; e, se os homens são capazes de algumas verdades, essa é uma delas.
Eu o declaro e o confesso. Mas, não haverá ainda um meio de ver o segredo do jogo?
— Sim, a Escritura, e o resto, etc.
Sim; mas, tenho as mãos atadas e a boca muda; forçam-me a apostar, e não estou em liberdade; não me soltam, e sou feito de tal maneira que não posso crer. Que quereis, pois, que eu faça?
É verdade. Mas, conhecei ao menos a vossa impotência para crer, já que a razão a isso vos conduz, e que todavia não o podeis; trabalhai, pois, não para vos convencerdes pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição das vossas paixões. Quereis chegar à fé, mas ignorais o caminho; quereis curar-vos da infidelidade, mas pedis os remédios:
Aprendei com os que estiveram atados como vós e que apostam agora todo o seu bem; são pessoas que se curaram do mal de que desejais curar-vos.
A Principal Dificuldade do Naturalismo - Lewis
I. A. RICHARDS, Principles of Literary Criticism, chap. 25 II.
No caso de admitirmos o naturalismo como verdadeiro, toda coisa ou evento finito deve ser (em princípio) explicável em termos do Sistema Total. Digo "explicável em princípio" porque é certo que não podemos exigir dos naturalistas, em qualquer dado momento, a descoberta de uma explicação minuciosa de cada fenômeno. Muitas coisas só serão evidentemente explicadas quando as ciências atingirem um nível mais adiantado. Mas se devemos aceitar o naturalismo, temos então o direito de exigir que cada coisa se apresente de forma que possamos ver, de modo genérico, como ela pode ser explicada em termos do Sistema Total. Se existisse, porém, algo de um determinado tipo que nos permitisse perceber antecipadamente a impossibilidade de aplicar-lhe essa espécie de explanação, o naturalismo se desfaria de imediato.
Sempre que as necessidades intelectuais nos forçarem a conceder a alguma coisa qualquer grau de independência do Sistema Total, se houver algo que praticamente demonstre possuir livre-arbítrio, mostrando ser mais do que uma expressão do caráter da natureza como um todo teremos então abandonado o naturalismo. Pois por esse nome indicamos a doutrina de que apenas a natureza todo o sistema interligado existe. E se isso fosse verdade, toda coisa e evento seriam, se soubéssemos o suficiente, explicáveis sem resíduos como um produto necessário do sistema. Sendo o conjunto do sistema o que é, ele seria uma contradição em si mesmo, se você não estivesse lendo este livro no momento; e, ao inverso, o único motivo porque você o está lendo deveria ser que todo sistema, em tal lugar e hora, estivesse determinado a seguir esse curso,
Foi feita recentemente uma ameaça contra o naturalismo sobre a qual não baseio qualquer argumento, mas que será interessante notar. Os cientistas do passado acreditavam que as menores partículas de matéria se moviam segundo leis rígidas. Em outras palavras, os movimentos de cada partícula estavam "interligados" com o sistema total da natureza.
Alguns cientistas modernos parecem julgar se é que os compreendo que isso não acontece. Segundo eles, a unidade individual de matéria (seria ousado continuar a chamá-la de "partícula") se move de modo indeterminado ou casual; movendo-se, de fato, "de si" ou "por si mesma". A regularidade que observamos nos movimentos dos menores corpos visíveis é explicada pelo fato de cada um deles conter milhões de unidades e que a lei das proporções nivela então as idiossincrasias do comportamento da unidade individual. O movimento de uma unidade é impossível de calcular, assim como seria o resultado de jogar uma moeda para o alto; a maioria dos movimentos de um bilhão de unidades pode, entretanto, ser prevista, da mesma forma que, se jogasse uma moeda para o alto um bilhão de vezes, você poderia prever um número praticamente igual de caras ou coroas.
E preciso notar agora que se esta teoria for verdadeira, admitimos na realidade algo além da natureza. Se os movimentos das unidades individuais forem eventos "independentes"; que não se interligam a todos os outros, eles não farão parte da natureza. Seria de fato demasiado chocante para nós descrevê-los como supranaturais. Julgo que devemos chamá-los de subnaturais. Mas toda a nossa confiança de que a natureza não tem portas, e nenhuma realidade fora dela para a qual abrir a porta, teria desaparecido. Existe aparentemente algo fora dela, o subnatural. Na verdade, é deste subnatural que todos os eventos e "corpos", por assim dizer, servem de alimento para ela. E assim, se ela possui uma porta traseira abrindo para o subnatural, é praticamente certo que exista uma porta dianteira abrindo para o supranatural e ela pode ser alimentada com os eventos também através desta porta.
Mencionei esta teoria porque ela coloca sob uma luz bastante viva certos conceitos que teremos de usar mais tarde. Não estou, porém, assumindo a sua verdade. Os que tiveram como eu uma educação filosófica e não científica acham quase impossível acreditar que os cientistas realmente estejam dizendo aquilo que parecem dizer. Não posso deixar de pensar que eles estejam afirmando apenas que os movimentos das unidades individuais são para nós permanentemente incalculáveis, e não que sejam de si mesmos ocasionais e descontrolados. Mesmo que estejam indicando esta última hipótese, o leigo não pode ter qualquer garantia de que um novo avanço científico não venha abolir amanhã toda esta teoria de uma subnatureza desgovernada, pois a glória da ciência é o progresso. Passo então agora, deliberadamente, para outro assunto.
É certo que tudo que sabemos, além de nossas sensações imediatas, é inferido dessas sensações. Não quero dizer que devemos começar como crianças, considerando nossas sensações como "evidência" e a seguir argüindo conscientemente quanto à existência do espaço, matéria e outras pessoas. Quero dizer que depois de termos idade suficiente para entender a questão, nossa confiança na existência de qualquer outra coisa (por exemplo, o sistema solar ou a armada espanhola) é desafiada, nosso argumento defensivo terá então de tomar a forma de inferências baseadas em nossas sensações imediatas. Colocada em sua forma mais geral, a inferência seria: "Desde que me são apresentados cores, sons, formas, prazeres e dores que não posso prever nem controlar perfeitamente, e desde que quanto mais investigo essas coisas tanto mais regular parece o seu comportamento, deve haver portanto algo além de mim mesmo e pertencente a um sistema". Dentro desta inferência generalizada, toda espécie de seqüências dedutivas especiais nos leva a conclusões mais detalhadas. Inferimos a evolução a partir dos fósseis; a existência de nosso próprio cérebro com base no que encontramos no crânio de outras criaturas como nós, na sala de dissecação.
Todo conhecimento possível depende então da validade do raciocínio. Se o sentimento de certeza que expressamos com as palavras deve ser, portanto, e desde que representa uma percepção real de como as coisas fora de nossa mente "devem" ser na verdade, isso é ótimo. Mas se esta certeza não passa de um sentimento em nossa própria mente e não uma percepção genuína das realidades além dela, se representar simplesmente a maneira como nossa mente trabalha não podemos ter então conhecimento. A não ser que o raciocínio humano seja válido, ciência alguma pode ser verdadeira.
Segue-se assim que nenhuma consideração do universo pode ser verídica a não ser que a mesma permita que nossos conceitos sejam realmente uma espécie de percepção. Uma teoria que explicasse tudo mais no universo inteiro, mas que tornasse impossível crer que nosso pensamento fosse válido, seria absolutamente inócua. Pois essa mesma teoria teria sido alcançada através do raciocínio, e se este fosse inválido ela seria então destruída. Destruiria as suas próprias credenciais. Tratar-se-ia de um argumento provando que argumento algum é sólido, uma prova de que não existem provas, o que é tolice.
O materialismo estrito refuta então a si mesmo pela razão dada há muito tempo pelo Professor Haldane: "Se meus processos mentais forem determinados inteiramente pelos movimentos dos átomos em meu cérebro, não tenho razão para supor que minhas crenças sejam verdadeiras... e dessa forma não tenho razão para supor que meu cérebro seja composto de átomos". (Possible Worlds, pág. 209.)
O naturalismo por sua vez, mesmo que não seja puramente materialista, parece, em minha opinião, envolver a mesma dificuldade, embora de maneira menos óbvia. Ele põe em dúvida nossos processos de raciocínio ou pelo menos reduz sua credibilidade a um nível tão inferior que não mais pode suportar o próprio naturalismo.
A maneira mais fácil de demonstrar isto é notar os dois sentidos do termo porque. Podemos dizer: "Vovô está doente hoje porque comeu camarão ontem". Também podemos dizer: "Vovô deve estar doente hoje porque não se levantou ainda (e sabemos que ele se levanta sempre cedo quando está bem)." Na primeira sentença porque indica a relação entre Causa e Efeito: o ato de comer fez com que adoecesse. Na segunda, ele indica a relação que os lógicos chamam de Antecedente e Conseqüente. O fato de o velho levantar-se tarde não foi a causa de sua doença, mas a razão por que acreditamos que esteja doente. Existe uma diferença semelhante entre "Ele gritou porque foi ferido" (Causa e Efeito) e "Deve ter ficado ferido porque gritou" (Antecedente e Conseqüente). Temos bastante familiaridade com o Antecedente e Conseqüente porque no raciocínio matemático: "A = C porque, como já provamos, ambos são iguais a B."
Um deles indica uma associação dinâmica entre eventos ou "estados de coisas"; o outro, uma relação lógica entre crenças ou afirmações.
Uma linha de pensamento não tem qualquer valor como instrumento para encontrar a verdade a não ser que cada passo esteja ligado com o acontecido antes, na relação Antecedente-Conseqüente. Se nosso B não seguir-se logicamente ao nosso A, pensamos em vão. Se o que pensamos no final de nosso raciocínio deva ser verdade, a resposta correta para a pergunta: "Por que está pensando isso?" deve começar com o Antecedente-Conseqüente porque.
Por outro lado, todo acontecimento na natureza deve estar ligado às ocorrências anteriores na relação de Causa e Efeito. Mas nossos atos de pensar são eventos. Portanto, a verdadeira resposta para "Por que está pensando isso?" deve começar com o porquê de Causa-Efeito.
A não ser que nossa conclusão seja o conseqüente lógico de um antecedente, ela será inútil, e só poderia ser verdadeira por casualidade. Se não for o efeito de uma causa, não poderá absolutamente ocorrer. Parece, portanto, como se esses dois sistemas de conexão devam aplicar-se simultaneamente a uma mesma série de atos mentais, para que uma linha de pensamento tenha valor.
Os dois sistemas são, porém, lamentavelmente distintos. Ser causado não é ser provado. As aspirações, os preconceitos e as ilusões da loucura, são todos causados, mas não têm fundamento. Ser causado na verdade difere tanto de ser provado, que nos debates nos comportamos como se eles se excluíssem mutuamente. A simples existência de causas para uma crença é popularmente tratada como se desse lugar à suposição de ser infundada, e a maneira mais comum de pôr em dúvida as opiniões de alguém é explicá-las de modo causal: "Você diz isso porque (Causa e Efeito) é um capitalista, ou um hipocondríaco, ou apenas um homem, ou só uma mulher". A implicação está em que se as causas representam plenamente uma crença, então, desde que elas operam inevitavelmente, a crença teria de surgir quer tivesse ou não fundamento. Não necessitamos, ao que parece, considerar as bases de algo que pode ser perfeitamente explicado sem elas.
Mas mesmo que existam fundamentos, o que eles têm exatamente a ver com a ocorrência real da crença como um evento psicológico? Se é um evento deve ser causado. Deve representar na verdade um simples elo num encadeamento causal que se estende de volta até o princípio e avança até o fim dos tempos. Como poderia algo tão trivial como a falta de bases lógicas impedir a ocorrência da crença ou como a existência de bases poderia promovê-la?
Uma única resposta parece ser possível. Devemos dizer que assim como uma das maneiras em que um evento mental causa um subseqüente evento mental é Associação (quando penso em salsa sempre me lembro de minha primeira escola), outro modo em que pode causá-lo é simplesmente sendo uma base para o mesmo. Pois assim, ser uma causa e ser uma prova iriam coincidir.
Isto, porém, na condição em que está, é claramente falso. Sabemos por experiência que um pensamento não causa necessariamente todos, ou mesmo qualquer, dos pensamentos que logicamente representam para ele um Conseqüente em relação a um Antecedente. Estaríamos em dificuldade se jamais pudéssemos pensar "Isto é vidro" sem extrair disso todas as inferências possíveis. É impossível extrai-las todas, e quase sempre não deduzimos nada. Devemos, portanto, emendar a lei por nós sugerida. Um pensamento pode causar outro não pelo fato de ser, mas por ser visto como sendo uma base para ele.
Se você suspeita da metáfora sensorial em visto, pode substitui-la por aprender, compreender ou simplesmente saber. A diferença é pequena, pois todas essas palavras nos lembram do que significa realmente o ato de pensar.
Os atos de pensar são sem dúvida eventos; mas de um tipo muito especial. Eles "tratam" de algo além de si mesmos e podem ser verdadeiros ou falsos. Os eventos em geral não "tratam" de nada e não podem ser verdadeiros ou falsos. (Dizer que "esses acontecimentos ou fatos são falsos", significa naturalmente que o relato de alguém a respeito deles é falso.) Portanto, os atos de inferência podem e devem ser considerados de duas formas. De um lado são eventos subjetivos, itens na história psicológica de alguém. Por outro lado, percepções ou conhecimentos de algo além de si mesmos, com o que, do primeiro ponto de vista, é a transição psicológica da idéia A para a idéia B, num dado momento em uma determinada mente, do ponto de vista do pensador é a percepção de uma dedução (se A, então B). Quando adotamos o ponto de vista psicológico, podemos usar o verbo no passado. "B seguiu-se a A em meus pensamentos." Mas quando afirmamos a dedução, sempre usamos o presente "B segue-se a A". Se alguma vez ele "seguir-se a" no sentido lógico, isso acontecerá sempre. E não podemos rejeitar o segundo ponto de vista como uma ilusão subjetiva sem duvidar de todo conhecimento humano. Pois nada podemos conhecer, além de nossas próprias sensações no momento, a não ser que o ato dedutivo seja a verdadeira percepção que alega ser.
Ele só pode ser isso, entretanto, em determinados termos. Um ato de conhecimento deve ser determinado, em certo sentido, unicamente com base naquilo que é conhecido. Devemos saber que é assim somente porque é assim. É isso que conhecer significa. Você pode chamar isto de Causa e Efeito porque, é chamar "sendo conhecido" um modo na relação de causa se quiser. Mas é um modo único. O ato de conhecer tem, sem dúvida, várias condições, sem as quais não pode ocorrer: atenção, e os estados de vontade e aptidão que isto pressupõe. Mas o seu caráter positivo deve ser determinado pela verdade que conhece. Se fosse totalmente explicável por outras fontes deixaria de ser conhecimento, da mesma forma que o ruído em meus ouvidos (para usar o paralelo sensorial) deixa de ser o que chamamos de "ouvir" quando explicado por outras causas além de um bom som no mundo exterior tal como, por exemplo o tinnitus produzido por um forte resfriado. Se o que parece ser um ato de conhecimento for parcialmente explicável através de outras fontes, então o conhecimento (assim chamado adequadamente) nele é apenas o que elas deixam para consideração futura, justamente o que exige para sua explicação a coisa conhecida, assim como o ato real de ouvir é aquilo que resta depois de você ter descontado o tinnitus. Qualquer coisa que professe explicar plenamente nosso raciocínio sem introduzir um ato de conhecimento, determinada assim unicamente por aquilo que é conhecido, trata-se na verdade de uma teoria no sentido de que não existe raciocínio.
Mas isto, segundo me parece, é o que o naturalismo tende a fazer. Ele oferece o que professa ser uma descrição completa de nosso comportamento mental; mas este relato, ao ser examinado, não deixa lugar para os atos de conhecimento ou percepção de que depende todo o mérito de nossos pensamentos, como um meio de chegar à verdade.
Todos concordam que a razão, e até mesmo o senso, e a própria vida só surgiram mais tarde na natureza. Se não existe nada senão esta, a razão deve ter então passado a existir mediante um processo histórico. Como é lógico, para o naturalista, este processo não se destinava a produzir um comportamento mental que levasse à descoberta da verdade. Não houve um Planejador. De fato, até que surgissem os pensadores, não havia nem verdade nem falsidade. O tipo de comportamento mental a que damos hoje o nome de pensamento racional ou dedução deve ter, portanto, "evoluído" pela seleção natural, pela eliminação gradual dos tipos menos aptos para sobreviver.
Outrora, então, nossos pensamentos não eram racionais. Isto é, todos os nossos pensamentos antigamente eram, como são ainda muitos deles, simples eventos subjetivos e não apreensões da verdade objetiva. Aqueles cuja causa era exterior (como as nossas dores) não passavam de uma reação aos estímulos. A seleção natural só podia operar eliminando as respostas biologicamente prejudiciais e multiplicando as tendentes à sobrevivência. Não se concebe porém que qualquer aperfeiçoamento das respostas pudesse jamais transformá-las em atos de percepção, ou sequer remotamente se dispusessem a fazê-lo.
A relação entre resposta e estímulo difere completamente daquela que existe entre o conhecimento e a verdade conhecida. Nossa visão física é uma resposta muito mais útil à luz do que a dos organismos mais simples que possuem apenas um foco fotosensível. Mas nem aperfeiçoamento nem quaisquer outros que possamos supor poderiam fazer com que ficasse um centímetro sequer mais perto de tornar-se um conhecimento da luz. Trata-se, admitidamente, de algo sem o que não poderíamos ter tido esse conhecimento, mas este é alcançado mediante experiências e deduções extraídas das mesmas, e não pelo refinamento da resposta. Não são os homens com vista especialmente boa que têm conhecimento a respeito da luz, mas os que estudaram as ciências pertinentes.
Da mesma forma, nossas reações psicológicas ao ambiente em que vivemos nossas curiosidades, aversões, prazeres, expectativas poderiam ser melhoradas indefinidamente (do ponto de vista biológico) sem tornar-se nada mais que respostas. Tal aperfeiçoamento das respostas não-racionais, longe de corresponder à conversão das mesmas em deduções válidas, poderia ser concebido como um método diferente para garantir a sobrevivência , uma alternativa para o raciocínio. Um condicionamento que nos levasse a jamais sentir prazer exceto naquilo que é útil, nem aversão, salvo pelo perigo, e que os graus em ambos os sentidos fossem estranhamente proporcionais ao grau de real utilidade ou perigo no objeto, poderia servir-nos tão bem quanto o raciocínio ou, em algumas ocasiões, melhor do que ele.
Ao lado da seleção natural encontramos porém a experiência. Esta era originalmente individual, mas foi transmitida pela tradição e instrução. Poderia ser dito que isto, no curso dos séculos, teve o poder de conjurar o comportamento mental que chamamos de raciocínio em outras palavras, a prática da inferência a partir de um comportamento mental que originalmente não era racional. Experiências repetidas da descoberta do fogo (ou restos de fogo) onde observar a fumaça iria condicionar o homem a esperar descobrir fogo sempre que visse fumaça. Esta expectativa, expressa na forma "Se há fumaça então há fogo", se transforma naquilo que chamamos de inferência. Todas as nossas inferências terão surgido dessa forma?
Entretanto, se isso aconteceu, todas elas são inválidas. Um processo assim sem dúvida produzirá expectativa. Treinará os indivíduos a esperarem fogo quando virem fumaça, do mesmo modo que os treinou a esperar que todos os cisnes sejam brancos (até verem um negro) ou que a água sempre ferveria aos 212°F =qual é o corresponde em graus Celsius? = (até que alguém resolveu fazer um piquenique numa montanha). Tais expectativas não são deduções e não necessitam ser verdadeiras. A suposição de que as coisas associadas no passado sempre estarão associadas no futuro não é o princípio diretor do comportamento racional e sim do animal. O raciocínio entra exatamente no ponto em que você tira a dedução: "Desde que sempre estiverem associadas, então provavelmente devem estar ligadas" e continua a partir desse ponto a fim de tentar descobrir a ligação.
Quando tiver descoberto o que é a fumaça, poderá então substituir a simples expectativa do fogo por uma inferência legítima. Até que aconteça isto, a razão reconhece a expectativa como simples expectativa. Quando isto não precisa ser feito, a saber, quando a inferência depende de um axioma, não apelamos absolutamente para a experiência passada. Minha fé em que as coisas iguais a uma mesma coisa são iguais entre si não se baseia em absoluto no fato de que jamais as surpreendi comportando-se de outra maneira. Vejo que "deve" ser assim. O fato de as pessoas chamarem hoje os axiomas de tautologias me parece irrelevante, pois através dessas "tautologias" é que avançamos do conhecimento menor para o maior. Dar-lhes esse nome é outro modo de dizer que são completa e absolutamente conhecidos. Observar detalhadamente que A encerra B (uma vez que tenha visto isso) envolve a admissão de que a asserção de A e a asserção de B encontram-se fundamentalmente na mesma asserção. O grau em que qualquer proporção verdadeira é uma tautologia depende do grau de sua percepção com respeito à mesma. 9 x 7 = 63 é uma tautologia para o matemático, mas não para a criança que aprende a tabuada nem para o calculista primitivo que chegou a esse total talvez somando sete noves. Se a natureza consistir de um sistema inteiramente interligado, então toda declaração verdadeira sobre a mesma (p.e., o verão de 1959 foi muito quente) seria uma tautologia para uma inteligência que pudesse apreender esse sistema em sua totalidade. "Deus é amor" pode ser uma tautologia para os serafins, mas não para os homens.
Alguém pode dizer porém: "Mas é incontestável que de fato chegamos às verdades através de deduções". Concordo. Tanto o naturalista como eu admitimos isso. Não poderíamos discutir nada a não ser que concordemos. A diferença que estou apresentando é que ele dá, enquanto eu não dou, uma história da evolução da razão que não coincide com as reivindicações feitas por ele e por mim com respeito à inferência da maneira como realmente a praticamos. A história dele é, e de acordo com a natureza do caso só pode ser, um relato, em termos de Causa e Efeito, de como as pessoas vieram a pensar como fazem. Isto naturalmente deixa no ar a pergunta de como poderiam estar justificadas em pensar assim. Isto coloca sobre ele a tarefa embaraçosa de tentar mostrar como o produto evolutivo que descreveu poderia ser também um poder de "verificar" verdades.
Mas, a tentativa é absurda em si mesma. Podemos ver isto melhor se considerarmos a forma mais humilde e mais desesperadora em que poderia ser feita. O naturalista talvez dissesse: "Bem, talvez não possamos ver exatamente ainda não como a seleção natural transformaria o comportamento mental sub-racional em inferências que alcancem a verdade. Mas temos certeza de que foi isto de fato que aconteceu, pois a seleção natural tende a preservar e aumentar o comportamento útil. Descobrimos também que nossos hábitos dedutivos são na verdade úteis, e sendo úteis devem alcançar a verdade".
Veja, porém, o que estamos fazendo. A própria inferência está sendo julgada. Isto é, o naturalista descreveu aquilo que julgávamos ser nossas deduções, o que sugere não serem percepções reais de forma alguma. Tanto nós como ele queremos ser tranqüilizados. E essa afirmação revela ser mais uma inferência (se é útil então é verdadeiro) como se esta inferência não estivesse sob a mesma suspeita que as demais, uma vez que aceitemos sua representação evolutiva. Se o valor de nosso raciocínio está sendo posto em dúvida, não se pode estabelecê-lo através da razão. Se, como disse acima, uma prova de que não existem provas é tolice, também o é a prova de que existem provas. A razão é nosso ponto de partida. Não pode haver questão seja de atacá-la ou defendê-la. Se ao tratá-la como um simples fenômeno você se coloca fora dela, não existem então meios de entrar novamente, exceto ao assumirmos uma verdade sem que ela seja provada.
Resta ainda uma posição mais humilde. Você pode, se quiser, desistir de qualquer direito sobre a verdade, dizendo simplesmente: "Nossa maneira de pensar é útil" sem acrescentar, nem mesmo baixinho, "e portanto verdadeira". Ela nos capacita a endireitar um osso, construir uma ponte e fazer um foguete espacial. E isso basta. As velhas e elevadas pretensões à razão devem ser postas de lado. Trata-se de um comportamento desenvolvido inteiramente como um auxílio à prática. Esse o motivo pelo qual, quando fazemos uso dele simplesmente na prática, nos damos perfeitamente bem; mas quando partimos para a especulação e tentamos obter uma visão geral da "realidade" acabamos por nos envolver nas disputas infindáveis, inúteis e provavelmente apenas verbais do filósofo. Seremos mais humildes daqui por diante. Adeus a tudo isso. Nada mais de teologia, de ontologia, de metafísica.
Mas, então, igualmente, nada mais de naturalismo; desde que este, com certeza, não passa de um dos principais espécimes dessa violenta especulação, descoberta a partir da prática e ultrapassando a experiência, que está sendo agora condenada. A natureza não é um objeto que possa ser apresentado seja aos sentidos ou à imaginação. Ela só pode ser alcançada pelas mais remotas inferências. Ou nem sequer alcançada, mas apenas abordada. E a esperada, a suposta unificação em um único sistema interligado de todas as coisas inferidas de nossos experimentos científicos. E, além disso, o naturalista, não satisfeito com essa afirmação, vai para a asserção negativa radical: "Não existe nada exceto isto" uma afirmativa com certeza tão distante da prática, experiência e qualquer verificação concebível como jamais foi feita desde que os homens começaram a fazer uso da razão especulativamente. Entretanto, no presente ponto de vista, o primeiro passo para tal uso foi um abuso, uma perversão de uma faculdade simplesmente prática, e a fonte de todas as quimeras.
Nesses termos a posição teísta deve ser uma quimera quase tão absurda quanto a do naturalista. (Quase, mas não igual, pois ela se abstém da suprema audácia de uma negativa completa.) Mas o teísta não precisa admitir esses termos e não o faz. Ele não está preso à idéia de que a razão é um desenvolvimento comparativamente recente modelado por um processo de seleção que só pode selecionar os que forem biologicamente úteis. Para ele a razão , a razão de Deus, é mais velha que a natureza e dela deriva a ordem da mesma, que é a única coisa que nos capacita a conhecê-la. Para ele, a mente humana no ato do conhecimento é iluminada pela razão divina, sendo assim liberta, na medida necessária, do imenso vínculo da causalidade não-racional; livre deste para ser determinado pela verdade conhecida. E os processos preliminares dentro da natureza, que levaram a esta liberação, se houve algum, foram designados para tanto.
Chamar o ato do conhecimento o ato, não o de lembrar que algo foi assim no passado, mas de "ver" que deve ser sempre assim e em qualquer mundo possível chamar este ato de "supranatural", é violentar nosso uso lingüístico comum. Naturalmente não significamos com isso que seja fantasmagórico, ou sensacional, ou mesmo (em qualquer sentido religioso) "espiritual". Queremos dizer apenas que "não se ajusta"; que tal ato, para ser o que alega ser e se não for, toda nossa linha de pensamento será suspeita não pode consistir simplesmente da manifestação num dado lugar e tempo desse sistema de eventos total e quase sempre descuidado que designamos como "natureza". É preciso que se desligue suficientemente desse mecanismo encadeado universal para ser determinado por aquilo que conhece.
É importante, neste ponto, certificar-se de que no caso de ocorrerem fantasias vagamente espaciais (e em muitas mentes elas certamente ocorrerão), estas não devem ser do tipo errado. É melhor que não consideremos nossos atos racionais como algo "acima", "por trás", ou "além" da natureza. Mas, pelo contrário, "deste lado da natureza" se tiver de pensar em termos espaciais, faça com que as imagens fiquem entre nós e ela. A idéia que fazemos da natureza é sempre alcançada por meio de inferências. O raciocínio é dado antes da natureza e é dele que depende nosso conceito da mesma. Nossos atos dedutivos antecedem nossa imagem da natureza, quase como o telefone antecede a voz amiga que ouvimos através dele. Quando tentamos enquadrar esses atos na idéia da natureza, fracassamos. O item que colocamos no quadro com o rótulo "Razão" sempre acaba sendo de algum modo diferente da razão que possuímos e exercemos enquanto o colocamos nele.
A descrição do pensamento como um fenômeno evolutivo sempre faz uma exceção tácita a favor do conceito que temos no momento. Pois um deles, como qualquer outro feito especial, só pode revelar, em determinados momentos e determinadas consciências, o funcionamento geral e em sua maior parte não-racional, de todo o sistema interligado. O outro, nosso ato presente, afirma e deve afirmar, ser um ato de percepção, um conhecimento suficientemente livre da causalidade não-racional para ser determinado (positivamente) apenas pela verdade que conhece.
Mas o pensamento imaginário que colocamos no quadro depende, pois toda nossa idéia sobre a natureza é condicional dos pensamentos que estamos na verdade tendo e não vice-versa. Esta é a realidade principal, sobre a qual repousa a atribuição de realidade a qualquer outra coisa. Se não se ajustar à natureza, nada podemos fazer. Não iremos com certeza, por causa disso, desistir dela. Se agirmos assim, estaríamos desistindo da natureza.
C. S. Lewis
Quarta-feira, Setembro 13, 2006
Eris - Obras da Carne
ERIS
Contendas – porfias- rixas – luta – dissenção – disputas – outras traduções (Rm 1.29; 1Co 1.11; 2Co 12.20).
Pode-se dizer que ECHTHRA e ERIS têm uma ligação muito grande uma com a outra. ECHTHRA, inimizade, é um estado e atitude da mente para com outras pessoas; e ERIS, dissenção, é o resultado na vida real desse estado mental.
ERIS aparece três vezes em Eclesiástico como uma das coisas que dilaceram a vida: “Uma luta repentina acende o fogo, uma discussão precipitada derrama sangue” (Ecle 28.11). Furor, inveja, perturbação, agitação, medo da morte, ressentimento, lutas (Ecl. 40.5) são os males da vida humana bem como a morte, o sangue, a luta e a espada, miséria, fome, tribulação, calamidade (Ecle 40.9).
No grego secular, ERIS é uma palavra vívida. Em Homero e Hesíodo, Contenda é uma deusa repugnante. Contenta, aquela que chama à batalha as hostes, diz Homero (ilíada 20.48); ele coloca juntos a Contenda e o Tumulto e t tétrica Morte (Ilíada 18.535). Hesíodo conta como a mortífera Noite tornou-se mãe de Nêmesis para afetar os homens mortais, e, depois, do Engano e da Amizade, da Velhice odiosa e da Contenda de coração endurecido (Hesíodo: Theogonia 225). Para os gregos, ERIS, a deusa da Contenda, era uma das forças mais malignas da vida, produtora da violência e da morte.
ERIS aparece na ciência grega primitiva como uma das forças fundamentais, essenciais e indestrutíveis do universo. Todas as coisas, disse Heráclito a respeito dos processos naturais da natureza e do mundo, acontecem mediante a luta e a necessidade (Frag 215). E Aristóteles escreve a respeito dos pontos de vista de Heráclito: “Heráclito repreende o autor daquela linha: ‘Oxalá a contenda fosse destruída de entre os deuses e os homens’, porque não haveria escala musical a não ser que existissem as notas agudas e baixas, nem serer vivos sem a fêmea e o macho, que são opostos entre si” (Aristóteles: Ética e Êudemo 1235 a 25).
A ação e a interação entre os opostos é da própria essência da natureza, e, se fosse cessar, e se um só elemento se tornasse irresistivelmente dominante, o universo chegaria ao fim. Empédocles tinha o mesmo conceito do universo.
Simplício declara da seguinte maneira seus pontos de vista: Empédocles considera que os elementos materiais são quatro: o fogo, o ar, a água e a terra, sendo todos eles eternos, mas mutáveis quanto ao volume e à raridade, através da mistura e da separação; mas seus princípios elementares verdadeiros, que trazem pra estes elementos o movimento, são: o Amor e a Luta. Os elementos estão continuamente sujeitos a uma mudança alternada, misturados pelo Amor em certo momento, separados pela Luta em nada, misturados pelo Amor em certo momento, separados pela Luta em outro momento” (Empédocles: Frag. 426; Simplício: Fis 25,21). Logo, poder dizer-se que para os pensadores gregos a luta estava embutida na estrutura do universo. E talvez seja por isso que no grego secular, pelo menos nos escritores mais antigos, ERIS não é totalmente uma palavra má, mas pode descrever o impacto entre uma mente e outra, de onde freqüentemente surge o conhecimento verdadeiro, bem como a rivalidade nas coisas honrosas que contribui para a excelência.
Mas no próprio NT, ERIS, contenda, é sempre uma coisa má. No pensamento de Paulo, há duas coisas significativas no que diz respeito a ERIS.
1. ERIS é um dos males que caracterizavam o mundo pagão (Rm 1.29). O mundo pagão é um mundo dividido; é um mundo de relacionamentos pessoais quebrados e interrompidos, e é somente no cristianismo que pode haver comunhão e união na vida. Ao cristão é proibido viver em orgias e bebedices, em impudicías e dissoluções, em contendas e ciúmes (Rm 13.13). Estas são as coisas que o homem deve deixar para trás quando se torna cristão.
2. Mas o fato realmente relevante no tocante ao uso que Paulo faz da palavra ERIS é que quatro das suas seis ocorrências têm conexão com a vida na Igreja. Três delas se acham na cartas a Corinto (ICo 1.11; 3.3; 2Co 12.20). É ERIS que divide a igreja de Corinto em facções e partidos que alegam ser de Cefas, de Apolo, de Paulo e de Cristo.
É ERIS que dividiu a igreja, e que trouxe inimizade onde deveria haver amor. Na carta aos Filipenses, Paulo escreve que aqueles que pregam em concorrência maligna contra sua pessoa, e cuja pregação direge-se à sua desmoralização mais do que à glorificação de Cristo, estão pregando com ERIS (Fl 1.15).
Aqui estamos chegando perto do significado de ERIS. Eris invade a igreja e torna-se característica da igreja, quando os líderes e os membros têm em conceito mais alto as pessoas, os partidos, os lemas e as questões pessoais do que o conceito que têm de Jesus Cristo. Aqui está a nossa advertência.
Sempre que Jesus é destituído do lugar central de uma igreja, todos os relacionamentos pessoais desandam. Quando um homem começa a pregar, não para glorificar a Cristo, mas para exaltar seu próprio conceito pessoal e particular sobre Jesus Cristo, ou seja: quando um homem prega uma teologia um lugar de um evangelho, quando um homem começa a argumentar a fim de demolir seu oponente ao invés de ganha-lo, então entra a ERIS.
Nenhum pecado invade a igreja mais comumente que ERIS; nenhum pecado destrói mais a fraternidade cristã; mas ERIS nem sequer consegue penetrar na Igreja, se Cristo for soberano ali.
W. Barcley
Quarta-feira, Setembro 06, 2006
Contra a Indiferença dos Ateus - Blaise Pascal
Blaise Pascal nasceu em Clermont, no dia 19 de junho de 1623. Filho de Etienne Pascal e Antoinette Begon, ficou órfão de mãe aos três anos de idade. Suas extraordinárias qualidades de inteligência, reveladas desde os primeiros anos da infância, tornaram-se todo o orgulho do pai de Pascal, que quis encarregar-se pessoalmente de sua educação.
O jovem Pascal manifestou, desde logo, um pendor excepcional pelas matemáticas, a tal ponto que, segundo sua irmã Gilberte, chegou a descobrir os fundamentos da geometria euclidiana. Aos dezesseis anos de idade, escreveu um tratado de tal profundeza que se dizia não ter sido escrito outro, depois de Arquimedes, que se lhe pudesse comparar. Esse tratado despertou o entusiasmo de Descartes. Enquanto isso, continuava Pascal os seus estudos do latim e do grego, nos quais seu pai o havia iniciado, e, nos intervalos, dedicava-se também à lógica, à física, à filosofia. Aos dezoito anos de idade, inventou uma máquina de calcular.
Aos vinte e três, já era senhor de imenso cabedal científico, tendo descoberto várias leis sobre a densidade do ar, o equilíbrio dos líquidos, o triângulo aritmético, o cálculo das probabilidades, a prensa hidráulica, etc
Numa reviravolta incrível, Pascal tornou-se profundamente religioso, renunciou a todos os seus conhecimentos e, passando a viver solitariamente, internado na abadia de Port-Royal, dedicou-se exclusivamente à defesa do cristianismo.
Toda a vida de Pascal é tida como um grande exemplo de sofrimento resignado e de piedade. Morreu com trinta e nove anos, no dia 19 de agosto de 1662.
CONTRA A INDIFERENÇA DOS ATEUS
Saibam, ao menos, que religião combatem, antes de combatê-la. Se essa religião se gabasse de ter uma visão clara de Deus e de possuí-lo com clareza e sem véu, seria combatê-la dizer que não se vê nada, no mundo, que a mostre com tal evidência. Mas, como afirma, ao contrário, que os homens se acham nas trevas e afastados de Deus, que se oculta ao seu conhecimento, sendo mesmo esse Deus absconditus o nome com que se apresenta nas Escrituras, em suma, se trabalha igualmente para estabelecer duas coisas: que Deus estabeleceu na Igreja marcas sensíveis para ser reconhecido pelos que o procurarem sinceramente, e que, no entanto, as cobriu de tal forma que só será percebido pelos que o procurarem de todo o coração, que proveito podem eles tirar, quando, na negligência em que fazem profissão de estar procurando a verdade, exclamam não haver nada que a mostre, de vez que essa obscuridade em que se encontram e que objetam à Igreja não faz senão estabelecer uma das coisas que ela sustenta, sem tocar na outra, estabelecendo assim a sua doutrina, em lugar de arrumá-la?
Para combatê-la, ser-lhes-ia preciso exclamar que fizeram todos os esforços em procurá-la por toda parte, mesmo naquilo que a Igreja propõe com o fim de nela se instruírem, mas sem nenhuma satisfação. Se falassem do destino, combateriam, na verdade, uma das suas pretensões. Espero mostrar aqui, porém, que não há ninguém capaz de falar razoavelmente do destino. Ouso mesmo dizer que jamais alguém o fez. Sabe-se muito bem de que maneira agem os que têm esse intuito. Acreditam ter feito grandes esforços para instruir-se, por terem empregado algumas horas na leitura de um dos livros sagrados e por terem interrogado algum eclesiástico sobre as verdades da fé. Gabam-se, depois, de terem investigado em vão nos livros e entre os homens. Mas, na verdade, não posso deixar de lhes dizer o que freqüentemente tenho dito: que essa negligência é inadmissível. Não se trata, no caso, do irrefletido interesse de um estranho, para assim proceder: trata-se de nós próprios e do nosso todo.
A imortalidade da alma é uma coisa que nos preocupa tanto, que tão profundamente nos toca, que é preciso ter perdido todo sentimento para permanecer indiferente diante dela. Todos os nossos pensamentos e ações devem tomar caminhos tão diferentes, conforme se esperem ou não os bens eternos, que é impossível fazer uma pesquisa sensata e criteriosa sem ter em vista esse ponto que deve ser o nosso último objeto.
Assim, o nosso primeiro interesse, o nosso primeiro dever, é esclarecer bem o assunto, do qual depende toda a nossa conduta. Eis porque, dentre os que não estão persuadidos disso, eu estabeleço uma extrema diferença entre os que trabalham com todas as suas forças para instruir-se a respeito e os que vivem sem se dar a esse trabalho e sem pensar nisso.
Só posso ter compaixão dos que gemem sinceramente nessa dúvida, dos que a
observam como a última das desgraças e dos que, sem nada poupar para sair dela, fazem de tal pesquisa as suas principais e mais sérias ocupações.
Mas, quanto aos que passam a vida sem pensar nesse último fim da existência, de
forma que, por essa única razão, não descobrem em si próprios as luzes que os persuadam, deixando de procurá-las em outra parte e de examinar a fundo se essa opinião é daquelas que o povo recebe com uma simplicidade crédula ou daquelas que, embora obscuras por natureza, possuem, contudo, um fundamento bastante sólido e inabalável, eu os considero de maneira bem diferente.
Tal negligência numa questão em que se trata da própria pessoa, da própria eternidade, do próprio todo, não me irrita mais do que enternece: assombra-me e espanta-me, sendo para mim uma monstruosidade. Não o afirmo pelo zelo piedoso de uma devoção espiritual. Entendo, ao contrário, que se deve ter esse sentimento por um princípio de interesse humano e por um interesse de amor próprio; é preciso não ver nisso, apenas, o que vêem as pessoas menos esclarecidas.
É preciso ter a alma muito elevada para compreender que não há aí satisfação verdadeira e sólida; que todos os nossos prazeres não passam de vaidade; que os nossos males são infinitos; que, finalmente, a morte que nos ameaça a cada instante deve colocar-nos infalivelmente, dentro de poucos anos, na terrível necessidade de sermos eternos, ou aniquilados, ou infelizes.
Nada mais real nem mais terrível do que isso. Por mais corajosos que desejemos ser, é esse o fim que espera mesmo a mais bela vida do mundo. Que se reflita sobre isso e se diga, depois, se não é indubitável que o único bem da vida presente é a esperança de uma vida futura; que só somos felizes na medida em que dela nos aproximamos; e que, não havendo mais infelicidades para os que têm uma inteira certeza da eternidade, também não há felicidade para os que não possuem luz alguma.
É, por conseguinte, um grande mal permanecer nessa dúvida, sendo ao menos um
dever indispensável investigar quando ela existe, porque aquele que duvida e não investiga se torna, então, não só infeliz, mas também injusto. Com efeito, se com isso se mostra tranqüilo e satisfeito, se disso faz profissão e se por isso se sente orgulhoso, fazendo disso o motivo de sua alegria e de sua vaidade, não tenho termos para qualificar tão extravagante criatura.
Onde se foram buscar tais sentimentos? Que motivo de alegria existe quando só se esperam misérias sem remédio? Que motivo de orgulho pode haver nas obscuridades impenetráveis e como admitir que tal raciocínio seja o de um homem razoável? “Não sei quem me pôs no mundo nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo e sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto.
Vejo-me encerrado nestes medonhos espaços do universo e me sinto ligado a um canto da vasta extensão, sem saber por que fui colocado aqui e não em outra parte, nem porque o pouco tempo que me é dado para viver me foi conferido neste período de preferência a outro de toda a eternidade que me precedeu e de toda a que me segue.
“Só vejo o infinito em toda parte, encerrando-me como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante que não volta”. “Tudo o que sei é que devo morrer breve. O que, porém, mais ignoro é essa morte que não posso evitar”. “Assim como não sei de onde venho, também não sei para onde vou Sei, apenas,
que, ao sair deste mundo, cairei para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irritado, sem saber em qual dessas duas situações deverei ficar eternamente. Eis a minha condição, cheia de miséria, de fraqueza, de obscuridade. Concluo, de tudo isso, que devo passar todos os dias da minha vida sem pensar em descobrir o que me deve acontecer.
Talvez pudesse encontrar algum esclarecimento nas minhas dúvidas, mas não quero dar-me a esse trabalho, nem dar um passo nesse sentido. Tratando com desprezo os que com isso se preocupam, quero experimentar esse grande acontecimento sem previdência e sem temor, deixando-me passivamente conduzir à morte, na incerteza da eternidade da minha condição futura”.
Quem desejaria ter como amigo um homem que assim falasse? Quem o escolheria para lhe comunicar as suas intimidades? Quem recorreria a ele em suas aflições? Finalmente, a que utilidade, na vida, se poderia destiná-lo? Na verdade, é glorioso, para a religião, ter como inimigos homens tão insensatos, pois a sua oposição lhe é tão pouco perigosa que serve, ao contrário, para o estabelecimento de suas principais verdades.
Com efeito; a fé cristã não visa, principalmente, senão a estabelecer estas duas coisas: a corrupção da natureza e a redenção de Jesus Cristo. Ora, se eles não servem para mostrar a verdade da redenção pela santidade dos seus costumes, servem ao menos, admiravelmente, para mostrar a corrupção da natureza com sentimentos tão desnaturados.
Nada é tão importante para o homem como a sua condição, e nada lhe é tão temível como a eternidade. Por conseguinte, se se acham homens indiferentes à perda do próprio ser e ao perigo, de uma eternidade de miséria, isso não é natural. Procedem de modo inteiramente diverso em relação a todas as outras coisas: temem até as mais insignificantes, e as prevêem, e as sentem. O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade pelas maiores.
É um encantamento incompreensível e um adormecimento sobrenatural, marcando uma força todo-poderosa que os causa.
É preciso haver um estranho abalo na natureza do homem para que possa vangloriar-se de se achar nesse estado em que parece incrível que uma só pessoa possa estar. No entanto, a experiência me faz ver tão grande número delas que seria de nos surpreendermos, se não soubéssemos que quase todas fingem ser assim e que na realidade não o são.
São pessoas que ouviram dizer que as belas maneiras do mundo consistem em fazer-se de louco É o que chamam ter sacudido o jugo e o que experimentam imitar. Mas, não seria difícil explicar-lhes quanto se arriscam quando dessa forma procuram a estima. Não é esse o meio de granjeá-la, mesmo quando se trata de pessoas que julgam sensatamente as coisas e que sabem que o único caminho para triunfar é aparentar honestidade, fidelidade, critério e capacidade de bem servir o amigo, de vez que os homens só gostam, naturalmente, do que lhes possa ser útil.
Com efeito, que vantagem temos em ouvir um homem dizer que sacudiu o jugo, que não crê na existência de um Deus que vele sobre suas ações, que se considera como único senhor de sua conduta e que não pensa em prestar contas senão a si próprio? Pensarão, por isso, que nos levarão a depositar-lhes mais confiança e a esperar seus consolos, conselhos e socorros em todas as necessidades da vida? Pretenderão alegrar-nos dizendo-nos que estão convencidos de que a nossa alma não passa de um pouco de vento e de fumaça, e isso num tom orgulhoso e satisfeito? Será coisa que se diga com alegria? Não será, ao contrário, uma coisa que deva ser dita com tristeza, como sendo a mais triste do mundo? Se pensassem nisso seriamente, veriam que isso é tão mal apanhado, tão contrário ao bom senso, tão oposto à honestidade e tão afastado em tudo dessa boa aparência que mostram, que seriam antes capazes de regenerar do que de corromper os que tivessem alguma inclinação para segui-los. E, com efeito, fazei-os prestar contas dos seus sentimentos e das razões que possuem para duvidar da religião: dirão coisas tão frívolas e tão baixas que vos persuadirão do contrário. Foi o que muito a propósito lhes disse um dia alguém:
“Se continuardes a discorrer dessa maneira, na verdade me convertereis”. E tinha
razão: de fato, quem não teria horror de se ver com sentimentos em que se têm como companheiros pessoas tão desprezíveis?
Eis porque os que não fazem senão fingir esses sentimentos seriam bem desgraçados em contrariar seu natural para tornar-se os mais impertinentes dos homens. Se se desgostam, no fundo do coração, por não terem mais luz, não o dissimulem, pois tal declaração não será vergonhosa. Só há vergonha em não possuí-la. Nada acusa tanto uma extrema fraqueza de espírito como não conhecer qual é a desgraça de um homem sem Deus; nada marca tanto uma disposição má de sentimentos como não desejar a verdade das promessas eternas; nada é mais covarde do que mostrar valentia contra Deus. Deixem, pois, essas impiedades para os que são de índole bastante má para serem verdadeiramente capazes disso; sejam ao menos homens de bem, se não puderem ser cristãos; e reconheçam, finalmente, que só há duas espécies de pessoas que podem ser chamadas de razoáveis: ou os que servem Deus de todo o coração porque o conhecem, ou os que o procuram de todo o coração porque não o conhecem.
Mas, quanto aos que vivem sem conhecê-lo e sem procurá-lo, estes se julgam tão
pouco dignos do seu próprio cuidado que não são dignos do cuidado dos outros, sendo preciso ter toda a caridade da religião que eles desprezam para não os desprezar até abandoná-los em sua loucura. Mas, como essa religião nos obriga a observá-los sempre, enquanto estiverem nesta vida, como capazes da graça que pode esclarecê-los, e a acreditar que podem em pouco tempo tornar-se mais cheios de fé do que nós o somos, podendo nós, ao contrário, cair na cegueira em que eles se acham, é preciso fazer por eles o que desejaríamos que se fizesse por nós se estivéssemos em seu lugar, e chamá-los a ter piedade de si próprios e a dar ao menos alguns passos para tentar descobrir luzes.
Dediquem a esta leitura algumas das horas que tão inutilmente empregam fora: se alguma aversão experimentarem, talvez reconheçam ainda assim alguma coisa ou, pelo menos, não perderão muito. Quanto aos que nisso usarem de toda a sinceridade e mostrarem um verdadeiro desejo de descobrir a verdade, espero que se satisfarão e ficarão convencidos das provas de uma religião tão divina por mim coligidas aqui.
Segunda-feira, Setembro 04, 2006
ECHTHRA - As Obras da Carne
Inimizades, ódio... hostil ou hostilidade (Rm 8.7; Ef2.14,16) – inimiza de tradicional entre famílias (Ef 2.16) – inimizade mútua(Ef 2.16) – elementos conflitantes (Ef 2.14).
Não é necessário gastar muito tempo discutindo o significado de ECHTHRA; ECHTHROS – é a palavra grega normal par um inimigo, e ECHTHRA, para inimizade.
No próprio NT, ocorre somente em duas outras passagens. Em Rm 8.7 Paulo escreve que a mente que se fixa na carne é hostil a Deus, ou, conforme diz NEB:”o ponto de vista da natureza inferior é inimizade contra Deus”. Em Ef 2.14, 16 é usada para a parede divisória de hostilidade que faz separação entre o judeus e o gentio que ambos se tornem um só em Cristo.
No mundo antigo havia três tipos de inimizade, e estas continuam sendo reproduzidas na vida humana.
1. Havia a inimizade entre uma classe e outra dentro da mesma cidade do mesmo país. Platão disse que em cada cidade havia uma guerra civil entre os que possuem e os que não possuem. Pode haver em qualquer comunidade uma guerra de classes que as pessoas de disposição maligna podem facilmente fomentar visando atingir seus propósitos pessoais maldosos.
2. Havia a inimizade entre os gregos e os bárbaros. Esta, disse Platão, era uma guerra que não conhecia fim; e Isócrates implorava que Homero nunca fosse omitido do currículo educacional do jovem grego, porque Homero demonstra a separação eterna entre o grego e o bárbaro. Para os gregos havia num sentido literal uma diferença entre os gregos e os bárbaros. “Havia”, escreve T. R. Glover, “alguma diferença natural entre os gregos e os bárbaros. Não se podia ir contra a natureza, e a natureza planejara dois tipos distintos de homens – o grego e o não-grego – e a diferença era fundamental” (T. R. Glover: Springs os Hellas, pág 32.)
Deve ser notado quão essencialmente arrogante era esta distinção grega. Como, perguntava insistentemente Ctésias, o historiador antigo, homens que só sabiam latir chegariam a governar o mundo? Ora, este teste do idioma grego relegava nações altamente civilizadas, tais como o Egito, a Fenícia, a Pérsia, a Lídia tão próspera, à categoria de bárbaras.
Aristóteles pensava que o próprio clima do mundo mantinha esta diferença. Aqueles que habitavam no norte, nos países frios, tinham bastante coragem e ânimo, mas pouca perícia e inteligência; aqueles que habitavam no sul, na Ásia Menor, conforme o nome que agora damos à região, tinham bastante perícia, inteligência e cultura, mas pouco ânimo e coragem. Somente os gregos viviam num clima projetado pela Natureza para produzir o caráter perfeitamente equilibrado e harmonizado (Aristóteles: Política 7.7.2).
Para os gregos, estes “bárbaros” eram por natureza escravos, e era perfeitamente correto para um grego superior reduzi-los à escravidão, comprá-los e vendê-los. Esta atitude para com o não-grego ressaltava-se vividamente num adjetivo que Plutarco aplica a Heródoto, o historiador antigo. Heródoto tinha uma curiosidade insaciável, e poderíamos dizer que era de alcance mundial. Para ele, grandes façanhas permaneciam grandes façanhas, quer realizadas por um grego ou não. Era, conforme, J.L Myres escreve a respeito dele em The Oxford Classical Dictionary: “isento do preconceito e intolerância raciais”. E o resultado é que Plutarco rotula-o com a palavra PHILOBARBAROS, amigo dos bárbaros, como se a palavra fosse uma condenação (Plutarco: Del Mal. Her. 857 A.)
È de relevância que dois lugares onde ocorre a palavra ECHTHRA (Ef 2.14.16) referem-se a relacionamento no mundo antigo entre judeus e gentios. Havia realmente uma parede de hostilidade, uma inimizade tradicional antiga, entre judeus e gentios. Era uma ojeriza que existia em ambas as partes. Os romanos podiam falar de religião judaica como sendo superstição bárbara (Cícero: Pro Flacco 28 ), e do povo judaica como o mais vil dos povos ( Tácito: Histórias 5.8 ). Na mesma passagem, Tácito diz a respeito de judeus que têm uma lealdade inabalável uns aos outros, mas um ódio hostil a todos os demais homens. Diodoro Sículo repete o ditado de que os judeus supõem que todos os povos sejam inimigos (31.1.1.3). Apião declarou que os judeus juraram pelo Deus do céu da terra e do mar que nunca demonstrariam boa vontade a qualquer homem de outra nação, e especialmente que nunca fariam isso com os gregos (Josefo: Contra Apião 1.34; 2.10).
Por outro lado, os judeus consideravam os gentios impuros. Casar-se com um gentio era o mesmo que ter morrido. Nos seus momentos mais amargos, os judeus podiam considerar os gentios como animais imundos, odiados por Deus, e destinados a serem combustível para o fogo do inferno. O anti-semitismo não é nenhum fenômeno novo, e a exclusividade judaica faz parte da essência do judaísmo.
A cortina de ferro do preconceito racial e da amargura interracial não é coisa nova. O espírito que produz os motins raciais e a segregação das cores é tão antigo quanto a civilização – e desde o seu início é condenado pela ética e fé cristãs.
3. Há a inimizade entre um homem e outro. Nesta caso, é mais simples definir ECHTHRA em termos de seu antônimo: ECHTHRA é o antônimo exato de AGAPE, amor, a suprema atitude cristã, é a atitude mental que nunca permitirá sentir amargura para com homem algum, e que nunca buscará outra coisa senão o sumo bem das outros, independentemente de qual seja a atitude dos outros para com ela.
ECHTHRA é a atitude da mente e do coração que coloca as barreiras e que tira a espada, AGAPE é a atitude do coração e da mente que alarga o círculo, que estende a mão da amizade e que abre os braços do amor. A primeira é uma obra da carne; a outra é fruto do Espírito.
W. Barclay
Sexta-feira, Setembro 01, 2006
Crianças Choronas - J. Freeman
Quando considero minhas cruzes, tribulações e tentações; me envergonho quase até a morte, pensando na sua insignificância em comparação com os sofrimentos de meu bendito Salvador Cristo Jesus ".
Chorões, chorões. Eles estão por toda parte. Foram vistos em restaurantes. Nos bares. Foram vistos choramingando nos bancos da igreja. Foram reconhecidos nos hospitais e instituições educacionais.
Também já foram descobertos no campo missionário...
Todos eles compartilham de um denominador comum - sentem fortemente que foram maltratados pela vida. Não lhes perguntem como vão passando a não ser que esteja preparado para ouvir uma suculenta “história de guerra”, completa com o último mexerico. Eles encherão seus ouvidos durante horas se lhes permitir. De olhos arregalados, eles dramatizam os detalhes em tom sentimental. Você irá sentir-se tentado a conceder-lhes o Oscar pela performance.
Em 1Co 11.18-19, Paulo disse que existem ás vezes partidos e divisões na igreja local, de modo que os membros sinceros podem ser reconhecidos facilmente. Motivados pelo amor, como Cabeça da igreja, Jesus Cristo permite que surjam crises numa assembléia local de crentes. Depois de algum tempo os chorões profissionais começam a reagir contra o pastor e finalmente reclamam da “injustiça” dos regulamentos da igreja. Eles acabam eventualmente influenciando um certo número de covardes piegas, a fim de que se queixem também.
Eles não compreendem que Deus se reserva o direito de testar o coração de seu povo. Ele fez uso de outros seres humanos, eventos incontroláveis, circunstâncias inesperadas, a espada da Palavra e a convicção do Espírito Santo para revelar quão bem aplicaram o que ouviram.
Isso me faz lembrar de dois chorões ressentidos que ficaram descontentes por ter recebido pagamento igual por trabalho desigual. Vamos fazer uma pausa e ler esta história clássica, decifrando alguns dos temas subjacentes:
1 - Porque o Reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.
2 - E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha.
3 - E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça.
4 - E disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram.
5 - Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo.
6 - E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia?
7 - Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha e recebereis o que for justo.
8 - E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário, começando pelos derradeiros até aos primeiros.
9 - E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um;
10 - vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas, do mesmo modo, receberam um dinheiro cada um.
11 - E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família,
12 - dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. (Mt 20.1-12)
Neste ponto da narrativa, quais são as suas impressões dos pobres homens que começaram a trabalhar às seis da manhã? Sente pena deles? Acha que têm justa causa para reclamar do proprietário? Deveriam formar um sindicato e recusar-se a trabalhar até que padrões eqüitativos fossem estabelecidos para os trabalhadores? Você acha que estão fazendo tempestade em copo d’água? Os direitos deles são importantes?
Antes de fazermos perguntas demais, vamos descobrir qual foi a resposta do dono das terras nessa situação difícil. Ele está se dirigindo ao maior queixoso dos que chegaram primeiro. Preparado?
13 - Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não ajustaste tu comigo um dinheiro?
14 - Toma o que é teu e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.
15 - Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?
Se abordamos este caso do ponto da lógica da “justiça”, facilmente poderíamos ser levados a sentir pena dos homens que trabalharam o dia inteiro. Afinal de contas, não era “justo” que tivessem de fazer a maior parte do trabalho.
Além disso, o proprietário não foi sensível ao fato deles terem trabalhado durante a parte mais quente do dia. Os outros homens trabalharam apenas uma hora na fresca da tarde e mesmo assim receberam a mesma paga. Mas o mais difícil de compreender é que o dono pareceu comprazer-se deliberadamente em pagar os que chegaram em último em primeiro lugar e o grupo que trabalhara mais e durante mais tempo por último. Não parece “justo”, parece?
Embora isso seja difícil de entender pelo lado humano, vamos mudar de óculos e observar a cena toda do ponto de vista da justiça de Deus.
Esta parábola fala do reino dos céus, onde a graça e a justiça de Deus são os fatores dominantes e os ideais humanos da ética situcionista e a lógica da “justiça” são totalmente estranhos.
O ponto crucial aqui é que Deus, descrito como o dono da vinha nesta parábola, tem o direito de fazer o que quiser e quando quiser. Ele pode ser generoso com a sua misericórdia se assim desejar, mesmo que alguns seres humanos passem a vida inteira reclamando da sua benevolência. Ele tem o direito de expor a atitude em que o trabalho para ele é realizado. Ele irá exercer seu direito de desafiar os chorões ressentidos com circunstâncias “injustas”, esperando que deixem de reclamar e comecem a crescer. Ele classifica todo o trabalho no seu reino como estando no mesmo nível.
Em outras palavras, quando todos os crentes estiverem diante de Jesus, cada um receberá o mesmo salário: GRAÇA. Não importa que um indivíduo tivesse sido missionário que sofreu grandes tribulações durante 50 anos numa terra remota, ou outro tenha vivido perversamente a vida toda e depois se convertesse no leito da morte.
Cada pessoa vai estar no céu por graça - não poderia estar de outra forma, por esforço próprio mesmo que tentasse.
Quando Jesus diz, “Tome a sua cruz e siga-me, mesmo que não entenda nada”, nossa tendência é responder, “Está bem, mas o que ganharei em troca?” Quando a vida nos maltrata, nos inclinamos a choramingar e nutrir uma atitude maldosa contra Deus.
No geral seguimos a Jesus com base no que recebemos como benefício. Não foi essa a principal acusação de Satanás contra Jó Jesus, porém deseja que o sirvamos sem contar os resultados. Aprenderemos, como os trabalhadores a experimentar a alegria de trabalhar para Ele em nossa vinha particular, confiando em que nos recompensará com base na sua justiça.
Quando nos comportamos como o primeiro grupo de trabalhadores descontentes, no geral é porque Deus está interferindo em nosso território previamente intocado. Ele aguarda pacientemente a hora oportuna e depois nos desafia com um teste completamente novo depois de nos suprir com o seu poder. Se rejeitamos a sua provisão, nos tornaremos chorões ressentidos, despertando simpatia nos observadores de cabeça oca. Mas Deus vê através da cortina de fumaça e continua a sondar até que aceitemos o seu plano, em doce rendição.
Foi com grande interesse que li recentemente como Victor Frankl, o famoso psiquiatra judeu e pai da lagoterapia, sofreu durante três anos terríveis em Auschwitz e outras prisões nazistas. Durante esse período ele observou muitas pessoas culparem o ambiente em que viviam, perderem toda esperança e cometer suicídio; enquanto outras permaneceram fortes e na verdade progrediram sob as mesmas condições. Suas reminiscências sobre o campo de prisioneiros foram as seguintes.
“A vida num campo de concentração abria a alma humana e expunha suas profundezas. É de surpreender que nessas profundezas encontrássemos novamente apenas qualidades humanas que em sua própria natureza era um combinação de bem e mal? A divisão entre o bem e o mal, que existe em todo ser humano, vai até os níveis mais profundos e se torna aparente mesmo no fundo do abismo que é exposto pelo campo de concentração.”
Frankl sentiu que toda tentativa de restaurar a força interior do indivíduo no campo tinha primeiro que ser bem sucedida em mostrar a ele ou ela alguns objetivos futuros. Ele gosta de citar as palavras de Nietzsche neste ponto, “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase todo como” - Leia cuidadosamente enquanto Frankl continua a descrever as atitudes que o mantiveram sadio num ambiente supremamente “injusto”.
“Uma vez revelado para nós o sentido do sofrimento, recusamos minimizar ou aliviar as torturas do campo, ignorando-as ou abrigando falsas ilusões e mantendo um otimismo artificial. O sofrimento se tornara uma tarefa para a qual não queríamos virar as costas. Havíamos compreendido suas oportunidades ocultas de realizações, as oportunidade que levaram o poeta Rilke a escrever, "Wie viel ist aufzuleiden!" ( Quanto sofrimento é preciso para vencer! )Rilke falou de "vencer o sofrimento" como outro falariam de "vencer o trabalho". Havia muito sofrimento para ser vencido por nós. Assim sendo, era preciso enfrentar todo esse sofrimento, tentando manter os momentos de fraquezas e lágrimas furtivas num mínimo. Não havia, no entanto, necessidade de envergonhar-se das lágrimas, porque elas davam testemunho de que o homem tinha a maior das coragens, a coragem de sofrer. Bem poucos compreendiam isso.
Frakl observou muito bem que como seres humanos raramente desfrutamos o luxo de escolher as circunstâncias, mas podemos sempre escolher nossas atitudes apesar das circunstâncias. E posso acrescentar que nossa atitude em relação a Deus é SEMPRE a questão final em toda mágoa.
Sabina Wurmbrade também passou pela experiências de um campo de prisioneiros na Romênia. Veja a sua atitude nem episódio de seu livro, The Pastor’s Wife (A esposa do Pastor).
“Na manhã seguinte um guarda veio e mandou que arrumasse minhas coisas. No mesmo dia fui mandada de volta às colônias de trabalho forçado. Desta vez foi para uma fazendo estadual de criação de suínos, onde 50 mulheres cuidavam de centenas de porcos. Os anos anteriores haviam sido duros, mas esse foi o pior de todos. A comida era apenas suficiente para não morrermos de inanição. Nos arrastávamos para fora da cama às cinco da manhã ainda usando os trapos sujos da véspera e saímos para o frio e a escuridão, a fim de alimentar os porcos. Os chiqueiros estavam sempre cheios de imundície líquida – a única substância que nunca congelava. Um cheiro terrível, nauseabundo pairava por sobre o lugar e penetrava em todos os cantos de nossas choupanas. Ele pairava ao redor do corpo e do cabelo. A próprio sopa aguada que tomávamos com colheres de madeira tinha aquele sabor. Nós estávamos em melhor posição que o filho pródigo: enchíamos o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam.
As coisas perderam o sentido. A morte me olhava de frente. O mundo inteiro era feito de lágrimas e desespero como nunca antes e um grito explodiu em meu coração: “Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34).
A limpeza dos chiqueiros era tão impossível como tentar limpar o mundo. Todos os dias começávamos tudo de novo, famintas e meio mortas, levando em carrinhos de mão as montanhas de imundície. Eu sabia não haver esperança para mim nem par o mundo e queria apenas morrer.
Numa condição psicológica desse tipo, eu não deveria talvez ter sobrevivido muito tempo. Mas felizmente não durou muitas semanas. Estou convencida de que o Senhor ouviu minhas orações e me libertou segundo o seu plano. Eu tive apenas de aprender uma grande lição, beber a taça até o seu amargo fim; e agora me sinto grata por ter passado por essa escola difícil, que lhe ensina o amor supremo, o amor para com Deus, mesmo quando Ele não lhe dá nada senão sofrimento”
Sabina aprendeu uma lição valiosa enquanto suportava essa terrível provação. Ela aprendeu a amor e confiar em Deus mesmo em meio ao sofrimento. Ela o serviu, gozando de paz, embora não compreendesse as “razões” de seu ambiente.
Nós não precisamos ser porém colocados num campo de concentração para aprender esse mesmo princípio. A vida oferece muitas situações de sala de aula que nos ajudam a aprender a servir a Deus sem levar em contas os benefícios visíveis: o coro da igreja (“Raquel sempre canta o solo” ); o emprego ( “Herb foi promovido primeiro que eu”), o hospital ( “Ninguém veio me visitar” ); ou o lar (“Minha família não aprecia o que faço por ela”).
Tenho uma teoria favorita: Acredito que quanto mais nos achegamos ao centro administrativo de qualquer partido político, empreendimento comercial, trabalho da igreja ou sistema familiar, tanto mais oportunidades temos para desilusão pessoal. Essa declaração parece razoável? Ele é na verdade penosamente correta.
Como pastor, observei novos membros passarem a freqüentar minha congregação e expressarem grande entusiasmo com relação à música, a mensagem, as pessoas, e a atmosfera geral da igreja. Depois da participar durante alguns meses, eles decidem envolver-se em algum ministério da igreja. Invariavelmente me procuram algumas semanas mais tarde com um olhar confuso, dizendo: Pastor, quanto entrei nesta igreja pensei que fosse a melhor coisa do mundo. Mas depois de começar a trabalhar nela, descobri que está cheia de defeitos”. Graças a Deus! Eles enfrentam agora uma oportunidade prática de aplicar os princípios bíblicos e crescer na graça e no conhecimento de Jesus Cristo!
Sempre me entristece encontrar ex-empregados descontentes de várias empresas ou... Alguns são levados pelo desejo de destruir as pessoas que tinham antes autoridade sobre eles, em desespero silencioso, se apegam tenazmente a um espírito ressentido.
Uma coisa já notei, no entanto, é que cada um possui uma fixação de “justiça”. Eles perderam de vista um Deus grande e maravilhoso, concentrando-se na maneira como foram maltratados e como vão agora vingar-se. A oração fervorosa, a conquista de almas e o estudo bíblico pessoal ficam religados a um segundo plano devido a preocupação com a “injustiça” com que foram tratados.
Não me apresso em fazer um julgamento, porém, porque já estive exatamente onde eles estiveram. A cada oportunidade, lembro de que preciso orar por eles e manter meu próprio orçamento de queixas equilibrado.
J. Freeman
Quinta-feira, Agosto 31, 2006
O Naturalista e o Supranaturalista - Lewis
ROLAND QUIZ, GiantLand, chap. 32
Faço uso da palavra Milagre para indicar uma intervenção na natureza mediante poder sobrenatural. A não ser que exista, em adição à natureza, algo mais que possamos chamar de sobrenatural, não pode haver milagres. Alguns acreditam que não existe nada além da natureza. Chamo essas pessoas de Naturalistas. Outros julgam que além da natureza existe algo mais; eu os chamo de Supranaturalistas(1). Nossa primeira pergunta, portanto, é quem está certo: os naturalistas ou os supranaturalistas; sendo esta a nossa primeira dificuldade.
Antes de o naturalista e o supranaturalista começarem a discutir sua diferença de opinião, é preciso que concordem numa definição sobre a natureza e supranatureza. Infelizmente, porém, é quase impossível obter tal definição. Pelo fato de o naturalista pensar que nada senão a natureza existe, para ele a palavra natureza representa praticamente "tudo" ou "o que quer que exista". E se é isso que compreendemos por natureza, então naturalmente nada mais existe. A questão real entre ele e o supranaturalista nos escapou. Alguns filósofos definiram a natureza como "o que percebemos com nossos cinco sentidos". Mas isto também não satisfaz, uma vez que não percebemos nossas próprias emoções desse modo, sendo elas todavia ocorrências "naturais". A fim de evitar este impasse e descobrir o motivo da discussão entre o naturalista e o supranaturalista, devemos abordar nosso problema de modo mais indireto.
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(1) Esta definição não seria dada por muitos teólogos. O fato de adotá-la não é que a julgue superior à deles, mas exatamente porque sendo imperfeita e "popular", ela me capacita para tratar mais facilmente aquelas perguntas que "o leitor comum" tem com toda probabilidade em mente ao ler algo sobre Milagres.
Vou começar considerando as seguintes sentenças:
(1) estes são seus dentes naturais ou uma dentadura?
(2) O cão em seu estado natural acha-se coberto de pulgas.
(3) Gosto de ficar longe de terras cultivadas e estradas pavimentadas e aproximar-me da natureza.
(4) Seja natural. Por que mostrar-se tão afetado?
(5) Pode ter sido errado beijá-la, mas foi muito natural.
Uma linha comum de significado em todas essas frases pode ser facilmente descoberta. Os dentes naturais são os que crescem na boca; não temos de desenhá-los, adaptá-los nem fabricá-los. O estado natural do cão é aquele em que se encontra se ninguém usar água e sabão para evitá-lo. O campo onde a natureza reina suprema é aquele em que o solo, o clima e a vegetação produzem seu resultado sem a ajuda do homem e sem ser por ele limitados. O comportamento natural é o que as pessoas manifestam se não se esforçarem para alterá-lo. O beijo natural é aquele que será dado quando considerações morais ou de cautela não interferirem. Em todos os exemplos a natureza significa o que ocorre "de si mesmo" ou "por si mesmo": aquilo que você não precisa esforçar-se para obter; o que você obterá se não tomar medidas para evitá-lo. Natureza (Physis) em grego, é uma palavra ligada com o verbo grego "crescer"; natura, em latim, com o verbo "nascer". O que é natural é aquilo que brota, surge ou chega, ou continua, por si mesmo: aquilo que é dado, o que já se acha ali; o que é espontâneo, não intencional, não solicitado.
O que o naturalista acredita é que o Fato final, aquilo que você não pode ultrapassar, é um vasto processo no espaço e no tempo que continua por si mesmo. No interior de todo esse sistema, cada evento particular (tal como você estar sentado lendo este livro) acontece porque um outro evento aconteceu no final das contas, porque o Evento Total está ocorrendo. Cada elemento individual (tal como esta página) é aquilo que é porque outras coisas são o que são; e assim, eventualmente, porque o sistema inteiro é o que é. Todas as coisas e acontecimentos estão de tal forma interligados que nenhum deles pode alegar a mínima independência do "conjunto". Nenhum deles existe "por si só" ou "funciona sozinho", exceto no sentido de exibir em algum ponto e tempo especial, aquela existência geral "própria" ou "comportamento próprio" que pertence à "Natureza" (o grande acontecimento total interligado) como um todo.
Dessa forma, o naturalista completo não acredita no livre-arbítrio: pois isto significaria que os seres humanos têm poder para agir independentemente, o poder de realizar algo mais ou algo diverso do que estava envolvido na série total de acontecimentos. O naturalista nega exatamente esse poder individual de dar origem a acontecimentos. A espontaneidade, originalidade, e ação "próprias" são um privilégio reservado para o "conjunto" que ele chama de natureza.
O supranaturalista concorda com o naturalista em que deve haver algo que existe "por si só"; algum Fato básico cuja existência seria absurdo tentar explicar, em vista do mesmo ser a base ou ponto de partida de todas as explicações. Mas ele não identifica este Fato com o "conjunto". Em sua opinião as coisas pertencem a duas classes. Na primeira encontramos coisas ou (mais provavelmente) Uma Coisa que é básica e original, que existe de si mesma. Na segunda encontramos coisas que simplesmente derivam dessa Uma Coisa. A Coisa Básica provocou a existência de todas as demais. Ela existe por si própria; as outras existem porque ela existe. Deixarão de existir se ela deixar de manter sua existência; serão alteradas se ela as alterar.
A diferença entre os dois pontos de vista pode ser expressa dizendo que o naturalismo nos dá uma imagem democrática, e o supranaturalismo uma imagem monárquica da realidade. O naturalista julga que o privilégio de ser independente reside na massa total de coisas, do mesmo modo que na democracia, a soberania reside na massa total de povo. O supranaturalista pensa que este privilégio pertence a algumas coisas ou (mais provavelmente) a Uma Coisa e não a outras como na verdadeira monarquia, o rei é soberano mas não o povo. E do mesmo modo que na democracia todos os cidadãos são iguais, para o naturalista uma coisa ou acontecimento é tão bom quanto o outro, no sentido de que todos são igualmente dependentes do sistema total de coisas. Cada um deles é na verdade apenas o modo como o caráter do sistema total se manifesta num ponto particular no tempo e espaço. O supranaturalista, por sua vez, acredita que a coisa original ou autoexistente acha-se num nível diferente e mais importante do que todas as outras.
Pode ocorrer neste ponto a suspeita de que o supranaturalismo surgiu primeiramente do enquadramento do universo na estrutura das sociedades monárquicas. Com igual razão, porém, pode ser suspeitado que o naturalismo o enquadra na estrutura das democracias modernas. As duas suspeitas então se cancelam e não têm valor algum na decisão de qual seja a melhor teoria, qual delas é provavelmente mais verdadeira. Elas nos fazem lembrar, entretanto, que supranaturalismo é a filosofia característica de uma idade monárquica e o naturalismo da democrática, no sentido de que o supranaturalismo, mesmo sendo falso, teria sido aceito pela grande massa de povo não-pensante de há quatrocentos anos. Da mesma forma que o naturalismo, mesmo sendo falso, será aceito pela grande massa de povo não-pensante hoje.
Todos terão visto que a Coisa Autoexistente, ou a pequena classe de coisas auto-existentes em que os supranaturalistas acreditam, é o que chamamos de Deus ou deuses. Proponho daqui por diante neste livro tratar apenas daquela forma de supranaturalismo que acredita num só Deus. Isso se deve em parte ao fato de o politeísmo não ser provavelmente um assunto interessante para a maioria dos meus leitores e em parte porque os que acreditavam em diversos deuses muito raramente consideravam os mesmos como criadores do universo e autoexistentes. Os deuses da Grécia não eram realmente sobrenaturais no sentido estrito que estou atribuindo à palavra. Eles eram produto do sistema total de coisas e inclusos nele. Isto introduz uma distinção importante.
A diferença entre naturalismo e supranaturalismo não é exatamente a mesma que existe entre crença em um Deus e incredulidade. O naturalismo, sem deixar de ser ele mesmo, poderia admitir uma certa espécie de Deus. O grande evento interligado a que se deu o nome de natureza, poderia produzir em um certo estágio uma grande consciência cósmica, um "Deus" residente, surgido de todo o processo como surge a mente humana (segundo os naturalistas) dos organismos humanos. Um naturalista não faria objeção a esse tipo de Deus, pela seguinte razão: um Deus assim não ficaria fora da natureza nem do sistema total, não existiria "por si mesmo". Continuaria sendo "o conjunto" que era o Fato básico e um tal Deus seria simplesmente uma das coisas (embora pudesse ser a mais interessante) contidas no Fato básico. O que o naturalismo não pode aceitar é a idéia de um Deus que se coloca fora da natureza e que fez a natureza.
Estamos agora em posição de estabelecer a diferença entre o naturalista e o supranaturalista a despeito do fato de que eles não têm o mesmo conceito da palavra natureza. O primeiro acredita que um vasto processo existe "por si só" no espaço e no tempo, e que nada mais existe, o que chamamos de coisas e acontecimentos particulares sendo apenas as partes em que analisamos o grande processo ou as formas que ele toma em dados momentos e pontos no espaço. Esta realidade única e total é por ele chamada de natureza.
O supranaturalista acredita que existe uma Coisa independente que produziu a estrutura do espaço e do tempo e a seqüência de acontecimentos sistematicamente ligados que os enche. Esta estrutura e este recheio ele chama de natureza. Ela pode ser ou não a única realidade que a Coisa Principal, única, tenha produzido. Podem existir outros sistemas adicionais a que chamamos natureza.
Nesse sentido pode haver várias "Naturezas". Este conceito deve ser mantido completamente separado do que é comumente denominado "pluralidade de mundos" i. e., sistemas solares diferentes ou galáxias diferentes, "universo-ilha" existindo em partes amplamente distantes de um único espaço e tempo. Essas, embora remotas, seriam partes da mesma natureza como o nosso próprio sol; elas estariam interligadas por se acharem relacionadas umas às outras, sendo essas relações espaciais e temporais, assim como causais. Este entrelaçamento recíproco dentro de um sistema é justamente o que faz dele o que chamamos uma natureza. Outras naturezas poderiam não ser absolutamente espaço-temporais; ou se algumas o fossem, seu espaço e tempo não teriam qualquer relação espacial ou temporal com os nossos. Esta descontinuidade, esta falha de interligação é que justificaria o fato de afirmarmos tratar-se de naturezas diferentes. Isto não significa que não houvesse absolutamente qualquer relação entre elas, pois estariam associadas pela sua derivação comum de uma fonte única e sobrenatural.
Neste aspecto elas seriam como novelas diferentes escritas por um mesmo autor; os acontecimentos em uma história não têm relação com os de outra exceto terem sido inventados pela mesma mente. A fim de descobrir a relação entre elas você precisa reportar-se à mente do autor; não existe ligação em nada que o Sr. Pickwick diz no "Pickwick Papers" com o que a Sra. Gamp ouve em "Martin Chuzzlewit". Da mesma forma não haveria uma ligação normal entre um acontecimento numa natureza com outro em outra. Por "relação normal" entende-se aquela que ocorre em vista do caráter dos dois sistemas. Temos de incluir a qualificação "normal" porque não sabemos antecipadamente se Deus não poderia fazer duas naturezas entrarem em contato parcial num dado ponto: isto é, Ele poderia permitir que eventos selecionados em uma produzissem resultados na outra. Haveria então, em determinados pontos, uma interligação parcial; mas isto não transformaria as duas naturezas em uma única, pois a reciprocidade total que faz uma natureza continuaria ausente, e as interligações anômalas não surgiriam daquilo que cada sistema era de si mesmo, mas do ato divino que os estava unindo. Se tal coisa ocorresse, cada uma das duas naturezas seria "sobrenatural" em relação à outra. Mas o lato de seu contato seria sobrenatural num sentido mais absoluto, não por ultrapassar esta ou aquela natureza, mas toda e qualquer natureza. Seria uma espécie de Milagre. O outro tipo seria "interferência" divina, não pelo fato de juntar as duas naturezas, mas simples interferência.
Tudo isto é puramente especulativo no momento. De forma alguma se deduz do supranaturalismo que milagres de qualquer espécie ocorram realmente. Deus (a coisa primária) pode jamais ter interferido no sistema natural por ele criado. Se criou mais do que um sistema natural, pode ser que nunca venha a provocar qualquer colisão entre eles.
Esta é, porém, uma questão a ser considerada mais tarde. Se decidirmos que a natureza não é a única coisa que existe, não podemos então dizer antecipadamente se ela está ou não a salvo de milagres. Existem coisas fora dela, não sabemos ainda se estas podem entrar. Os portões talvez estejam fechados, ou talvez não. Mas se o naturalismo estiver correto, sabemos então antecipadamente que os milagres são impossíveis: nada pode penetrar na natureza vindo de fora porque não há nada que possa entrar, desde que a natureza é tudo. Sem dúvida, os acontecimentos que em nossa ignorância poderíamos tomar erroneamente como milagres talvez ocorram; mas, na realidade (justamente como os eventos mais comuns), eles não passaram de um resultado inevitável do caráter de todo o sistema.
Nossa primeira escolha, portanto, deve ficar entre o naturalismo e o supranaturalismo.
C. S. Lewis
Terça-feira, Agosto 29, 2006
Makrothumia - Os Frutos do Espírito
A Paciência Divina e Humana
Mackrothumia, o substantivo, makrothumos, o adjetivo e makrothumein, o verbo, são expressoss na ARC E ARA pela idéia de LONGANIMIDADE e PACIÊNCIA.
São palavras muito expressivas. Em inglês fala-se de pessoas com paciência curta, e em português, de “de pouca paciência”. Não se usa uma frase que deveria ser o antônimo: a pessoa tem “paciência longa”. Mas temos a palavra longanimidade, porque makros significa grande ou longo, e thumos quer dizer ânimo ou disposição. Temos a palavra magnanimidade, que significa grandeza de coração. Na Vulgata makrothumia, é traduzida bem literalmente pela palavra longanimitas, e as primeiras edições da Bíblia Católica Romana de Rheims (em inglês) procuram introduzir na língua inglesa a palavra longanimity em 2 Pe 3.15 e Cl 1.11; a palavra longanimidade existe em português como expressão perfeita da idéia neste grupo de vocábulos gregos.
Makrothumia expressa uma certa atitude para com as pessoas e eventos. Expressa a atitude para com as pessoas de nunca perder a paciência, por poucos e razoáveis que elas sejam, e de nunca perder a esperança com relação a elas, por menos agradáveis e dóceis que sejam. Expressa a atitude para com os eventos de nunca admitir derrota e de nunca perder a esperança e fé, por mais obscura que seja a situação., por mais incompreensíveis que os eventos se mostrem, ou por mais severa que seja a correção divina.
É uma qualidade da qual os comentaristas do NT têm dado muitas definições excelentes, Trench diz que ela descreve: “a mente que suporta por muito tempo, antes de dar lugar a ação da ira”. T. K. Abbott diz que “makrothumia é o auto-controle que não se apressa em retribuir o mal sofrido”. Plummer diz que é “a tolerância (ou longanimidade) que suporta as injúrias e as ações malignas sem ser provocada à ira ou vingança”. Moffatt a descreve como “a tenacidade com que a fé vai suportando”.
No Testamento de José (2.7) temos a frase “A makrothumia é um grande remédio”. Há um ditado de Menandro que Plutarco cita: “Uma vez que você é mero homem, nunca peça aos deuses um vida sem problemas, mas peça makrothumia” Poderíamos muito bem traduzir makrothumia como “o poder de levar as coisas até o fim”.
Makrothumia não é uma palavra do grego clássico, mas entrou no vocabulário cristão como uma história grandiosa, porque é uma das grandes palavras do AT grego. No AT, movimenta-se em três esferas.
a) Significa paciência com os eventos – O uso mais iluminador da palavra neste sentido é 1Mc 8.4 – Ali o escritor atribui a grandeza de Roma à sua política e à sua paciência, à sua makrothumia, e, conforme diz R.C Trench, essa makrothumia foi expressada pela determinação de Roma de que “nunca faria a paz em condições de derrota”. Os romanos tinham a perseverança que podia perder uma batalha, e até mesmo perder uma campanha mas que nunca admitiria a derrota numa guerra. Diz-se que o teste de um exército pe de como ele luta quando os soldados estão famintos e cansados. Makrothumia é o espírito que não reconhecerá nem admitirá a derrota
b) Significa a – paciência com as pessoas. Significa o espírito que nunca perde a paciência com as pessoas, nem a esperança para com elas; que nunca se tornará em amargura ou concordará em ser definitivamente repelido. Neste espírito e qualidade o AT vê a origem das coisas mais importantes da vida.
1) É a base do PERDÃO. É o espírito que leva o homem a adiar a sua ira (Pv 19.11), e recusar-se a ficar irado é meio-caminho andado para o perdão.
2) É a base da HUMILDADE. O paciente de espírito é melhor do que o orgulhoso de espírito (Ec 7.8). Makrothumia impede o homem de colocar-se no centro do quadro e de fazer dos seus sentimentos o padrão para tudo
3) É obviamente o alicerce da COMUNHÃO. O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta (Pv 15.18). O homem que sempre está com o dedo no gatilho da sua ira destrói a amizade e a comunhão; o homem cujo gênio está sob controle solidifica a comunhão, e não deixa surgir a contenda.
4) É a base de todos os BONS RELACIONAMENTOS pessoais. Conforme Moffatt traduz Pv 25.15: “O homem irado é apaziguado pela longanimidade”. Makrothumia sempre suaviza e nunca exarceba. Recusa-se a permitir uma falha entre os relacionamentos pessoais, e faz um grende esforço para saná-la, quando ela surge.
5) É a base de toda a SABEDORIA VERDADEIRA. “O longânimo é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura (Pv 14.29). O ditado judaico diz: “O homem irritadiço não pode ensinar”, e, da mesma forma, ele também não pode aprender. A primeira necessidade da aprendizagem é a paciência.
6) É a base de ALEGRIA PERPÉTUA. Conforme diz Bem Siraque: “A paixão do ímpio não será justificada, porque o ímpeto de sua cólera é a sua ruína. O paciente resistirá até o momento oportuno, mas depois a alegria brotará para ele” (Ecli 1.22,23). O homem impetuoso destrói a sua própria felicidade e também a dos outros; o homem de gênio sereno traz a felicidade para si mesmo e para todos como os quais entre em contato.
7) É a base de TODO PODER LEGÍTIMO. “Melhor o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade” (Pv 16.32). O homem que pode dominar a si mesmo é o homem que pode governar aos outros.
C) Mas o fato mais sublime no tocante a esta palavra é que descreve o caráter do próprio Deus.
Há uma descrição de Deus que percorre o AT como um refrão. Deus passou diante de Moisés e proclamou: “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e LONGÂNIMO, e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34. 6). Disse Neemias: “Porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-se, e grande em bondade” (Ne 9.17). Repetidas vezes nos Salmos achamos o grande refrão de regozijo: “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno” (Sal 103.8; 86.15; 145.8). Foi exatamente isso que Jonas não percebeu e teve que aprender (Jn 4.2). Nesta longanimidade e demora em irar-se por parte de Deus, vemos certas verdades a respeito da atitude de Deus para com o pecador..
1) A makrothumia de Deus é a ESPERANÇA DO PECADOR. Porque Deus é misericordioso, compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade, Joel conclama as pessoas a rasgarem o seu coração, e não as suas vestes, e a se converterem a Deus (Jl 2.13). Sem a paciência de Deus, não poderia haver lugar para o arrependimento.
2) A makrothumia de Deus é a ADVERTÊNCIA AO PECADOR. O pecador não ousa pensar que, se nada aconteceu, ele escapou das conseqüências do seu pecado. “Não digas: ‘pequei, o que me aconteceu?’, porque o Senhor é paciente. Ele não te soltará de modo algum” (Ecli. 5.4 – LXX ). É realmente na Sua longanimidade que Deus visita os pecados dos pais nos filhos até a terceira geração (Nm 14.18). Porque Deus é paciente, ele tem a última palavra.
3) A makrothumia de Deus pode ser a CONDENAÇÃO do pecador. Em 2 Mc 6.14 há o pensamento terrível de que Deus é paciente com os homens, e deixa-os agirem por conta própria até que cheguem a medida máxima de seus pecados – então vem o julgamento. O homem pode usar a longanimidade de Deus para sua própria destruição.
Agora, voltemo-nos para o uso e o significado de makrothumia no NT. Aqui, move-se nos mesmas três esferas de significado do AT.
a) Makrothumia fala da paciência de Deus.
1) Em 2 Pe a paciência de Deus é apresentada no seu sentido mais amplo. “Tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor ( 2Pe 3.15). É questão debatível se “o Senhor” é Jesus ou Deus, mais o significado do dito não é realmente afetado. O pano de fundo no qual 2 Pedro foi escrito é a decepção e desilusão por causa da demorada Segunda vinda de Jesus Cristo. E o argumento do escritor é que esta demora não é insensibilidade; é paciência. É oportunidade para os homens se arrependerem e crerem no evangelho, para transformarem sua pecaminosidade em santidade, e tornarem sua imprudência em preparação. Por trás disto há o pensamento de que Deus teria sido justo se explodisse o mundo ao ponto de não existir mais, e de que, se fosse humano, teria agido assim há muito tempo; mas na Sua paciência. Ele espera dando aos homens a oportunidade para aceitarem a salvação
Em Paulo temos exatamente o mesmo pensamento, e de modo ainda mais pessoal. Em 1Tm 1.12-16 – Paulo conta como blasfemava, perseguia e insultava a Cristo, sendo o principal dos pecadores. Mas nele Jesus demonstrou Sua perfeita longanimidade. Com paciência, Jesus operou até que Paulo, o perseguidor, se tornasse no Paulo pronto a ser o apóstolo.
A paciência de Deus aguarda, ao passo que a impaciência do homem já há muito tempo teria agido em ira destruidora.
2) Mas a paciência de Deus é mais do que o simples aguardar; ela está chamando os homens a se arrependerem. Deus é longânimo, não querendo que ninguém pareça, senão que todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9). Os homens nunca devem abusar da bondade e longanimidade de Deus, porque essa bondade não visa ser uma oportunidade pra o pecado, mas sim, um convite para o arrependimento (Rm 2.4). Deus não apenas aguarda os homens até que retornem ao lar; em Jesus Cristo veio busca-los e salvá-los ; e ainda agora os convence com a atuação soberana do seu Espírito Santo.
3) Assim como no pensamento do AT, a paciência de Deus pode ser usada pelos homens para a sua própria destruição. A longanimidade de Deus com Israel pode ser entendida a luz da decisão de deixar a nação obstinada seguir seu próprio caminho atpe que forçosamente acontecesse a sua rejeição final (Rm 9.22).
Deus espera com paciência; busca com paciência; e esta espera pretendem contribuir para a salvação do homem, mas o homem em sua teimosia a transforma em uma pior condenação.
b) O NT fala da makrothumia em relação ao próximo.
1) Makrothumia é a insígnia e o emblema da vida cristã. O cristão deve andar com toda humildade e mansidão e longanimidade, suportando a seu próximo em amor (Ef 4.2). O cristão deve revestir-se, como uma roupa, de ternos afetos de misericórida, de bondade , de humildade, de mansidão, de longanimidade, e deve suportar com amor o seu próximo (Cl 3.12). A longanimidade e a bondade são a marca da vida cristã (2Co 6.6). O amor cristão deve ser longânimo, paciente e benigno ( 1Co 13.4). Por mais indesejáveis que os homens sejam, o cristão deve ser longânimo para com eles (1Ts 5.14). O homem do mundo pode perder sua calma, paciência e fé nos homens; o cristão nunca deve agir assim.
2) Não é sem motivo que makrothumia ocupa um lugar de destaque entre as virtude cristãs nas Epístolas Pastorais. O amor perseverante do mestre cristão é contrastado com a estultícia dos falsos mestres (2Tm 3.10). O jovem missionário é instruído no sentido de nunca falhar na longanimidade (2Tm 4.2). E ali, sem dúvida, a palavra combina seus dois significados, porque o mestre e o pregador nunca devem perder sua esperança, por mais que os homens pareçam não corresponder, e nunca devem desesperar-se, por mais hostis que sejam as circunstâncias, Nenhum homem pode pregar ou ensinar sem makrothumia.
c) Makrothumia descreve a resposta do cristão às circusntâncias e aos eventos. Paulo ora para que os Colossenses tenham perseverança e longanimidade com alegria. O cristão aguarda, não como quem espera a noite, mas como quem espera a manhã. Esta paciência incansável faz parte da vida cristã (2Co 6.6). Devido ao fato de Abraão ter perseverado com paciência, recebeu a promessa , e esta longanimidade opera igualmente a favor do cristão que tem a mesma fé (Hb 6.12-15).
Talvez a lição mais difícil de ser aprendida seja a de esperar; como esperar quando parece que nada está acontecendo, e quando todas as circunstâncias mostram motivos para o desânimo. Tiago insiste que o cristão deve ser como os profetas que repetidas vezes tinham de aguardar a atuação de Deus; deve ser como o agricultor que lança a semente e depois, no decurso dos meses lentos, espera a chegada da ceifa (Tg 5.7-10). É bem possível que esta seja a tarefa mais difícil para uma era que fez da velocidade em deus.
De certa forma, makrothumia é a maior virtude. Não está revestida de romance e fascinação; não tem a emoção da ação repentina numa aventura; mas é a virtude do próprio Deus. Deus na Sua makrothumia tolera os pecados, recusa e rebeldia dos homens. Deus na Sua makrothumia recusa-se a abandonar Sua esperança no mundo que Ele criou e que tão frequentemente vira as costas ao seu Criador. O homem na sua vida terrena deve reproduzir a paciência incansável de Deus para com as pessoas, e a paciência que não perde a coragem com os eventos.
FARMAKEIA - AS OBRAS DA CARNE
FARMAKEIA
FARMAKEIA
Feitiçaria; magia – A palavra farmakeia seguiu um processo de degeneração no significado. Farmakos é uma droga,e farmakeia é o uso de drogas. Há três etapas no significado da palavra.
1. Farmakeia é usada como uma palavra médica sem o menor mau sentido. Platão fala dos diferentes tipos de tratamento médico; a cauterização, a incisão, o uso de drogas, a privação dos alimentos (Platão: Protágoras 354 A). Dá sua própria opinião de que as doenças não-perigosas nunca devem ser complicadas ainda mais pelo uso de drogas(Platão: Timeu 89 B). A esta altura farmakeia é simplesmente uma palavra médica para uso medicinal das drogas.
2. A palavra passa, então, a denotar o abuso das drogas, ou seja: o uso de drogas para envenenar e não para curar. Assim, lemos acerca da lei a respeito do envenenamento (Platão: Leis 933 B ), e Demóstenes acusa um homem mau de envenenamento e de todos tipos de vilezas (Demóstenes 40.57). Este é o começo do mau sentido da palavra.
3. Por fim, a palavra assume o significado da feitiçaria e bruxaria. É usada, por exemplo, repetidas vezes para os feiticeiros e mágicos egípcios que competiam com Moisés quando Faraó não queira deixar Israel ir (Ex 7.11, 22; 8.18; Sab 7.12; 18.13); a magia, bruxaria e feitiçaria são pecados por causa dos quais Isaías prediz a destruição da Babilônia pela ira de Deus (Is 47.9, 12). A palavra completou um círculo inteiro. A partir do significado de uma droga que cura, veio a significar um envolvimento vicioso e maligno na bruxaria e feitiçaria.
O cristianismo desenvolveu-se numa era um que o uso da feitiçaria e das artes mágicas era generalizado, e freqüentemente com intenções criminosas. Sabemos pouca coisa, ou nada, no tocante á feitiçaria, bruxaria e magia nos primeiros séculos da literatura grega. Plínio tem uma história que diz que a magia foi introduzida na Grécia por certo persa chamado Óstenes nos tempos das guerra persas (Plínio: História Natural 30.1). A primeira referência à feitiçaria criminosa acha-se nos discursos de Demóstenes. No discurso contra Aristogeiton refere-se a Teoria de Lemnos, “a feiticeira imunda”, que foi devidamente executada por causa dos seus maus caminhos.
Em Roma, já nos dias das Doze Tábuas, achamos um regulamento que proíbe a danificação das colheitas alheias mediante a feitiçaria (Sêneca: Questões Naturais 14.7) Mas foi perto do fim do Império que a magia se generalizou em Roma. J. R. Mozley escreve: “É impossível negar que neste período, tentativas eram feitas no sentido de lesar inimigos e obter vantagens particulares por meios sobrenaturais, de tal maneira que a magia era exibida como prática realmente malévola, senão também maléfica” ( Artigo sobre Superstitio, em W. Smith: Dictionary of Greek and Roman Antiquities ). Não são poucas as inscrições em túmulos para homenagear as pessoas cuja morte, segundo se declarava, tinha sido provocada pela magia.
Uma delas diz: “Eunia Fructuosa jaz aqui. Morreu de modo imerecido. Paralisada por sortilégios, ficou deitada por longo tempo, de modo que seu espírito foi torturado violentamente até sair dela, antes devolvido a natureza. Os fantasmas ou os deuses celestiais serão os vingadores deste crime”. ( C.I.L. 2756).
Podemos dar uma rápida olhada em algumas destas práticas mágicas que decerto constavam entre aquelas que Paulo proibia. O nome da pessoa a ser lesada era escrita numa tábua com sinais e palavras sinistros. Uma imagem de cera da pessoa era feita e depois derretida lentamente, ou destruída de outra maneira (Virgílio: Éclogas 8.80; Horácio: Sátiras 1.8, 32).
Eram feitas tiras de chumbo como nome da pessoa atacada inscrita nelas, e com uma oração de maldição dedicada aos espíritos do mundo do além. A tira de chumbo passava, então, a ser introduzida num túmulo de modo que as espíritos do mundo do além a vissem e agissem à altura da maldição ale escrita. Ossos eram enterrados debaixo da casa de algum homem para planejar a sua morte, conforme Tácito conta que foi feito no caso do assassinato de Germânico( Tácito: Anais 2.69; Horácio: Sátiras 2.8.22).
Poções de amor eram comuns; a astrologia grassava numa tentativa de se ver o futuro; havia eternas recitas mágicas para fabricar ouro a partir de metais menos valiosos. Galeano, o médico, condena a estultícia daqueles que acrescentam feitiçarias e encantações ao uso das ervas e das drogas. Na é esta, diz ele, a prática da medicina (Galeano: De simpl. 6)
O mau olhado era universalmente temido (Alcifrão: Cartas 1.15; Plínio: História Natural 7.16; Plutarco: Simpósio 7) Ele era especialmente fatal para as crianças. Era possível guardar-se contra ele cuspindo-se nas dobras do casaco (Teócrito. Idílios 6.39; Plínio; História Natural 7.16). Era possível guardar-se contra ele por meio do uso de talismãs. Por estranho que pareça, o talismã consistia num modelo pequeno de falo pendurado no pescoço (turpicula res, Varro o chama: Varro: Língua latina 7.37). O mesmo amuleto estranho de proteção também era visto nos jardins e nas lareiras (Plínio: História Natural 19.50).
O mundo antigo estava repleto de práticas mágicas. Em Atos 19.19 lemos a respeito dos peritos nas ciências mágicas em Éfeso que queimaram os seus livros quando foram convertidos pela demonstrações que Paulo fez do poder do nome de Jesus. Quanto tempo isto durou, e quão sério problema era até mesmo na Igreja Cristã pode ser percebido no vigésimo quarto cânon do Concílio de Ancira em 314 – 315 d.C., onde foi estipulado que “os que praticam a divinação, e seguem os costumes dos pagãos, ou levam os homens para as suas casas para a invenção de feitiçarias, ou para purificações” devem passar por “cinco anos de penitência de acordo com os graus estabelecidos”. Deve ter sido extraordinariamente difícil desarraigar de um mundo superticioso as práticas que se tinham tornado parte integrante da vida cotidiana. E, na realidade, algumas práticas não foram tanto eliminadas quanto cristianizadas, porque achamos cristãos usando pendurados no pescoço, não os amuletos antigos, mas textos cristãos, e até mesmo pequenas cópias em miniatura de partes do NT, fabricadas com este propósito em vista, segundo parece.
Talvez seja esta a melhor oportunidade para notar um fato sinistro a respeito das obras da carne. Sem exceção, cada uma delas é uma perversão de alguma coisas que é boa em si mesma. A imoralidade, a impureza, a libertinagem ou lascívia são perverões do instinto sexual que, por si só, é uma coisa bela e faz parte do amor. A idolatria é uma perversão da adoração, e foi iniciada como uma ajuda à adoração. A feitiçaria é uma perversão do uso das drogas terapêuticas na medicina. As invejas, os ciúmes e as contendas são perversões da nobre ambição e desejo de ser bem-sucedido que pode ser um incentivo à grandeza. A inimizade e a ira são uma perversão da justa indignação sem a qual a paixão pela bondade não pode existir. As dissenções e as facções são uma perversão da dedicação aos princípios que pode produzir o mártir. As bebedices e as glutonarias são perversão da alegria do convívio social e das coisas que os homens podem desfrutar de modo satisfatório e legítimo. Em lugar nenhum há uma melhor ilustração do poder do mal ao lançar mão da beleza e torce-la até torna-la em feldade e ao tomar as coisas mais nobre e fazer delas uma avenida para o pecado. O terror do poder para pecar acha-se exatamente na sua capacidade de tomar a matéria-prima da bondade em potencial e transformá-la em matéria do mal.
W. Barclay
Segunda-feira, Agosto 07, 2006
Qual é o fim principal do homem?
É importante ampliar para enxergarmos melhor questão tão importante:
1. Qual é o sentido da palavra “fim” nesta pergunta?
A palavra significa alvo, propósito, intenção. Nota-se que a palavra “fim” é qualidicad apela palavra “principal”. Vê-se, pois que o homem terá outros propósitos nesta vida, mas seu propósito mais importante deverá ser glorificar a Deus. Isso está de conformidade com o propósito para o qual o homem foi feito. É quando estamos alienados de Deus que temos em vista a finalidade ou o propósito errado.
2. Qual é o sentido da palavra “glorificar” nesta pergunta?
Calvino nos diz que a “glória de Deus é quando sabemos o que Ele é”. Em seu sentido bíblico, é estar lutando para salientar uma coisa divina. Nós o glorificamos quando não buscamos nossa própria glória, e sim buscamos a ele primeiro em todas as coisas.
3. Como podemos glorificar a Deus?
Agostinho disse: “Tu nos criaste para ti mesmo, ó Deus, e nosso coração está desassossegado até encontrar repouso em ti”. Glorificamos a Deus Crendo nEle, confessando-O diante dos homens, louvando-O, defendendo sua verdade, mostrando os frutos do Espírito em nossa vida, adorando-O.
4. Qual é a regra de que nos devemos lembrar com respeito a glorificar a Deus?
Devemos nos lembrar que todo cristão é chamado por Deus a uma vida de serviço. Glorificamos a Deus quando usamos para ele as capacidades que ele nos deu, embora devamos nos lembrar que nosso serviço deve vir do coração e não ser feito simplesmente como obrigação.
5. Por que a expressão “glorificá-lo” está colocada antes de “gozá-lo” na resposta?
Está colocada antes porque é preciso primeiro glorifica-lo para depois goza-lo. Se o gozar de sua companhia viesse primeiro, você correria o risco de supor que Deus existe para o homem em lugar de os homens para Deus. Se uma pessoa desse ênfase a gozar da companhia de Deus mais do que a glorificar Deus, haveria o perigo de um tipo de religião simplesmente emocional. A Bíblia diz: “Na tua presença há plenitude de alegria...” (Sl 16.11). Mas alegria vinda de Deus vem de estar num relacionamento certo com Deus, o relacionamento sendo colocado dentro dos limites bíblicos.
6. Qual é um bom versículo da Bíblia para decorar para nos lembrarmos da lição encontrada na pergunta número 1?
“Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo...” (Sl 42.1,2ª). Isso nos recorda o relacionamento que é certo para o cristão, olhar para ele. É aí que encontramos nossa capacidade de glorifica-lO e sentir a alegria resultante.
A Primeira Preocupação do Homem.
É fato lamentável que o cristão comum, que promete ser leal aos Padrões de Westminster, é um cristão que muitas vezes não vive esses padrões nas ocupações diárias da vida. É bom crer – é bom ter um credo no qual crer. Mas muito mal pode resultar de se crer num credo e não vivê-lo no dia-a-dia. De uma existência desse tipo chegamos a um nível baixo de vida espiritual, e o crente professo torna-se frio, formal, sem nenhum poder espiritual em sua vida.
Devemos sempre reconhecer que a primeira lição do nosso catecismo a ser aprendida é que nossa preocupação primária é estar a serviço do Deus Soberano. Nosso Breve Catecismo de Westminster não começa com a salvação do homem. Não começa com as promessas de Deus para nós. Começa colocando-nos no relacionamento certo com nosso Deus Soberano. James Benjamin Green nos diz que a resposta à primeira pergunta do catecismo afirma duas coisas: “O dever do homem: ‘glorificar Deus’. O destino do homem: ‘gozá-lo’.”
É lamentável que embora tenhamos herdado os princípios de nossos pais, no fato que o Credo deles ainda é nosso Credo, tantas vezes falhamos em não herdar o desejo de praticar seu modo de vida. Muitas pessoas irão tentar se justificar aqui, dizendo que vivemos numa época diferente, que as tentações e a velocidade da vida de hoje nos distraem das coisas espirituais. Mas quaisquer que sejam as desculpas que apresentemos, o catecismo nos instrui já de início que nosso dever é glorificar a Deus; será esse nosso propósito principal na vida. Todos nós precisamos observar as palavras válidas de J. C. Ryle com respeito ao nosso viver cristão: “Onde será que estão a negação do eu, o remir do tempo, a ausência de luxo e gratificação própria, o afastamento inconfundível das coisas do mundo, a aparência de estar sempre ocupado com os negócios do Mestre, a coerência de visão, o alto tom de conversão, a paciência, a humildade que distinguiam tantos dos nossos antecessores...?”
Que Deus possa ajudar a cada um de nós a fazer uma pausa neste exato momento, ler novamente a primeira pergunta e a resposta de nosso Breve Catecismo e orar a Deus para que de hoje em diante, a cada dia, vivamos para sua glória. Não é difícil conhecermos as características de uma vida assim. Os frutos do Espírito de Gálatas 5 são bastantes claros.
L. T. Van Horn
Domingo, Agosto 06, 2006
ASELGEIA
ASELGEIA
Lascívia, libertinagem, desonestidade, sensualidade, ansiedade pelo prazer carnal, impureza...
Lightfoot vê um clímax do mal nas três palavras com que a lista das obras da carne começa. PORNEIA indica o pecado dentro de uma área específica da vida, a área das relações sexuais; AKATHARSIA indica uma contaminação geral da pessoa inteira, maculando todas as esferas da vida; ASELGEIA indica um amor ao pecado tão desenfreado e tão audaz que o homem deixou de importar-se com aquilo que Deus ou os homens pensam a respeito das suas ações. Um homem, diz ele, pode ser akathartos, impuro, sujo, e esconder o seu pecado, porque a opinião e a decência pública ainda têm algum domínio sobre ele; mas o homem não se torna aselges (o adjetivo) até que choque a decência pública. Conforme Lighfoot entende, a essência de ASELGEIA é que chegou a uma etapa do pecado que não faz o mínimo esforço para ocultar ou mascarar o seu pecado; é o pecado que perdeu toda a vergonha. Passemos, portanto, ao exame da palavra.
Não aparece de modo algum nos livros canônicos do AT grego. Nos livros apócrifos ocorre duas vezes. Em Sab 14.26 a perversão sexual, a desordem dentro do casamento, o adultério e a devassidão (aselgeia) estão vinculados e ali a conexão é com o pecado sexual. Em Mac 2.26 é usada de modo mais geral para todos os atos audazes de impiedade.
No NT ocorre em Rm 13.13, onde está escrito que o cristão não pode viver em orgias e bebedices, nem em impudicícias e dissoluções, nem em contendas e ciúmes. Ali, as palavras aparecem em pares, e ESELGEIA está no par que tem a ver com o pecado sexual. Em 2Co 2.21 ocorre em trio “impureza, prostituição e lascívia”, e ali, também, a referência diz respeito ao excesso sexual. Em Ef 4.19 há uma referência mais ampla, porque ali se diz que a dissolução é ávida por praticar todos os tipos de impureza. No NT parece mesmo estar ligada com o excesso sexual.
Quando nos voltamos à palavra nos escritores clássicos, seu alcance é muito mais amplo. Platão a usa para a pura insolência da iniqüidade do homem mau, e da insolência arrogante de Filipe da Macedônia (Contra Meidias 21; Primeiro Filípico 4). Os prórpios gregos a definiam como “violência audaz e ofensiva”. Basílio define-a como “uma disposição da alma que não possui nem pode suportar a dor da disciplina (Basílio: Reg. Brev, Int 67). É definida com o significado da “disposição de entregar-se a qualquer prazer”.
Há certos usos da palavra que dão vividamente a sua qualidade. Plutarco a usa a respeito de Alcebíades, que na sua libertinagem desenfreada desconsiderava totalmente a decência e a opinião pública (Plutarco: Alcebíades 8). Josefo a usa duas vezes de modo muito revelador. Usa-a a respeito de Jezebel (Antiguidades dos Judeus 8.13.1). Usa-a a respeito de um ato infame de um soldado romano no recinto do Templo. O soldado em serviço durante certas festividades do Templo satisfaz publicamente suas necessidades fisiológicas, ofendendo desavergonhadamente o lugar santo (Antiguidades dos Judeus 20.5.3). Talvez o modo de Demóstenes empregar a palavra - aselgos – o advérbio, seja mais revelador de todos. Fala de um homem que estava vivendo aselgos, e diz acerca dele que era o tipo de homem para cuja convivência nenhum homem levaria a filha em hipótese alguma (Demóstenes: Contra Boeto 2.5.7).
Aqui, pois, temos o significado de ASELGEIA – denota o pecado tão aberto e atrevido que deixa de ter a mínima consideração por aquilo que alguém possa pensar, sentir ou dizer. Podemos, portanto, distinguir três características de ASELGEIA.
1. É a ação libertina e indisciplinada. É a ação do homem que está à mercê das suas paixões, impulsos e emoções, e em quem a voz calda da razão foi silenciada pelas tempestades da obstinação.
2. Não respeita a pessoa nem os direitos dos outros, quem quer que seja. É violenta, insolente, abusiva, audaz. Qualquer consideração e simpatia pelos sentimentos dos outros deixou de existir.
3. É completamente indiferente à opinião e à decência públicas. É bem possível que um homem comece a fazer uma coisa erra em segredo; no iníco, seu único alvo e desejo talvez seja ocultá-la aos olhos dos homens. Pode amar a coisa errada, e pode até ser dominado por ela, mas mesmo assim, ainda tem vergonha dela. Mas lhe é perfeitamente possível chegar a uma etapa em que faz aberta e atrevidamente aquilo que fazia secretamente e às ocultas. Pode chegar a uma etapa do pecado em que perdeu de tal maneira a vergonha que já não se importa com aquilo que os outros vêem, nem com o que dizem, nem com o que pensam. O que há de terrível na ASELGEIA é que é o ato de uma personalidade que já perdeu aquilo que deveria ser sua melhor defesa – seu respeito-próprio, e seu senso de vergonha.
W. Barclay
Sábado, Agosto 05, 2006
A Escravidão da Vontade - Parte 6
Consideremos as virtudes de Nicodemos (Jo 3.1,2). Ele confessa que Cristo era idôneo e que viera da parte de Deus. Faz alusão aos milagres realizados por Cristo e procura-O a fim de ouvir algo de sua própria boca. Porém, ao ouvir falar sobre o novo nascimento (Jô 3.3-8), porventura Nicodemos admite que era isso o que ele vinha buscando? Não! Ele ficou atônito e confuso, repelindo a idéia, a princípio, como uma impossibilidade (Jô 3.9). Porventura os maiores filósofos chegaram a mencionar o novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar por aquelas realidades pertencentes à salvação antes da chegada do evangelho. Ora, quando admitem isso, estão admitindo que o seu “livre-arbítrio” é ignorante e incapaz! Por certo, aqueles que ensinam o “livre-arbítrio” estão loucos; porém não se calarão nem darão glórias a Deus.
Argumento 14 – O “Livre-arbítrio” não tem utilidade, pois a salvação vem somente por meio de Cristo.
Torna-se claro, em João 14.6, onde se lê que Jesus Cristo é o “caminho, e a verdade, e a vida”, que a salvação só pode ser encontrada em sua pessoa. Sendo essa a verdade, tudo quanto está fora de Cristo só pode ser trevas, falsidade e morte. Qual necessidade haveria da vinda de Cristo a este mundo, se os homens, naturalmente, pudessem compreender o caminho de Deus, entender a verdade de Deus e compartilhar da vida de Deus?
Também lemos em João 3.27 que “o homem não pode receber cousa alguma se do alto não lhe for concedida”. Isso refere-se especialmente a capacidade da pessoa cumprir a vontade de Deus. Somente aquilo que vem do alto pode ajudar um homem a cumprir a vontade do Senhor. Mas o “livre-arbítrio” não vem do alto, o que significa que o “livre-arbítrio” é inútil.
Em João 3.31, diz ainda o mesmo apóstolo: “...quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos”. Ora, por certo o “livre-arbítrio” nada tem a ver com as realidades celestiais; cogita somente das coisas terrenas. O Senhor Jesus afirma, em João 8.23: “Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou”. Se essa afirmativa de Jesus quisesse dizer apenas que os corpos dos seus ouvintes eram terrenos, tal declaração seria desnecessária, pois eles já sabiam disso. O que Jesus quis dizer é que aos seus ouvintes faltava, de modo absoluto, qualquer poder espiritual, e que este só poderia ser recebido de Deus.
Argumento 15 – O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não podem salva-lo.
Na passagem de João 6.44, Jesus Cristo diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. Isso não deixa qualquer espaço para o “livre-arbítrio”. E o Senhor Jesus passou a explicar com alguém é trazido pelo Pai: “Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (v.45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do evangelho é ouvida em vão, a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações.
De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo. Entretanto, quando o Pai mostra aos homens quão maravilhoso é seu Filho, àquelas a quem tem dado entendimento espiritual, eles são atraídos a Cristo. Essas pessoas já são “ovelhas” e conhecem a voz do pastor!
Argumento 16 – A incredulidade universal prova que o “livre-arbítrio” é falso.
Em João 16.8, Jesus afirma que o Espírito Santo viria “para convencer o mundo do pecado...” E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no fato que os homens “não crêem em mim”. Ora, esse pecado de incredulidade não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens, sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa lhes ser revelada pelo Espírito Santo. Portanto, tudo quanto existe no homem incluindo o “livre-arbítrio”, está condenado aos olhos de Deus, contribuindo apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não a revelar. A totalidade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de Satanás, do pecado, da morte e da ira divina. Somente Cristo pode resgatar os homens do reino de Satanás. Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão somente pela graça de Deus.
Argumento 17 – O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do “livre-arbítrio”.
Por alguma razão, Erasmo, você ignorou os meus argumentos baseados em Romanos 7 e em Gálatas 5. Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força da “carne” é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são dotadas do Espírito de Deus, não somente falham em fazer o que é direito, como até mesmo lutam contra isso. Portanto, que possibilidade há de que aqueles que são distituídos do novo nascimento venham a praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8.7: “...o pendor da carne é inimizade contra Deus”. Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de derrubar por terra esse argumento.
Argumento 18 – Saber que a salvação não depende do “livre-arbítrio” pode ser muito reconfortante.
Confesso que eu não gostaria de possuir “livre-arbítrio” ainda que o mesmo me fosse concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os quais teria de lutar. Porém, mesmo que não houvesse inimigos a combater, eu jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de haver agradado a Deus, ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso provar isso mediante a minha própria dolorosa experiência de muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas. Ele será fiel à sua promessa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas de conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que o meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do “livre-arbítrio”, ninguém poderá ser salvo. Mas, por meio da “livre-graça”, muitos serão salvos. E não somente isso, mas também alegro-me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por cauda daquilo que eu faço, mas por causa de sua graça. Se trabalho muito pouco ou errado demais, graciosamente Ele me perdoará e me fará melhorar. Essa é a glória de todo cristão.
Quarta-feira, Agosto 02, 2006
AKATHARSIA - Obras da Carne.
Este é o segundo Artigo - O primeiro foi PORNEIA.
Impureza - Falta de pureza nas intenções - Pensamentos impuros...
Akatharsia é uma palavra que começou no mundo físico, entrou par o mundo ritual e cerimonial, e terminou no mundo moral.
1. Akatharsia com o sentido de sujeira física e material. Nos papiros, por exemplo, num contrato a respeito da transferência da propriedade de uma casa, o inquilino que está de saída compromete-se a deixar a casa limpa de toda e qualquer akatharsia. A casa deve ser deixada limpa e livre de sujeira. Em estreita conexão comisto, está o uso médico da palavra. É usada a respeito da matéria impra que se reúne ao redor de uma chaga ou ferida (Hipócrates: Fract. 31). Platão usa-a no tocante às impurezas que se acumulam no corpo, para os quais o baço serve como tipo de absorvente (Platão: Tmeu 72 C). Akatharsia, portanto, é a sujeira ou a imundícia no sentido físico do termo.
2. Akatharsia no AT grego denota a impureza ritual e cerimonial mais freqüentemente do que qualquer outra coisa. Há cerca de vinte ocorrências da palavra em Levíticos, e todas elas se referem a ssemelhante impureza. É usada, por exemplo, da impureza dos animais imundos (Lv 20.25). É usada no estado de uma mulher em período menstrual (Lv 18.19). Aqui surge algo significativo. É verdade que aqui a referência diz respeito aos tabus que tornam uma pessoa ou criatura cerimonialmente impura. Mas o que há de essencial nesta impureza cerimonial é que quando uma pessoa está em tal condição, , não pode aproximar-se de Deus. Em semelhante condição, a pessoa não pode entrar no Templo nem pode compartilhar da adoração do povo. Procurar fazer isto é incorrer na ira de Deus (Lv 22.3). No sentido ritual, portanto, akatharsia é aquilo que torna impossível à pessoa entrar na presença de Deus e causa, assim, a sua exclusão.
3. Finalmente, akatharsia entra no mundo moral. É usada para a volúpia de uma mulher lassa e imoral (Os 2.10); é usada para a impureza moral que destrói uma nação (Mq 2.10). Há um exemplo excelente em Provérbios, onde se diz a respeito do tolo: "Regozija-se em todas as coisas que Deus odeia, e é arruinado em razão da impureza de sua alma" (Pv 6.16).
Não é comum nos escritores clássicos, mas Demóstenes usa-a acerca da vileza intolerável de um homem que perjurou atrevidamente para lesar um amigo, e que finge com hipocrisia ainda ser amigo dele (Demóstenes: Contra Meidias 119). Aqui akatharsia representa uma depravação moral que dá nojo à pessoa que a presencia.
Portanto, em AKATHARSIA há três idéias:
a) É a qualidade daquilo que é maculado e sujo. Há um tipo de mente que é poluída em si mesma e que polui tudo quanto passa por ela. Pode reduzir a ação mais nobre a um motivo vil, e pode macular as coisas mais puras com uma zombaria obcena.
b) Nesta impureza há uma certa qualidade repulsiva. Desperta nojo e ajeriza em qualquer pessoa decente que olha para ela. Há um tipo de pessoa que às vezes pensa que está sendo muito habilidosa quando, na realidade, está meramente trazendo uma arrepio interior de nojo às mentes daqueles que a escutam e que têm contato com ela.
c) Nesta palavra permanece a idéia daquilo que separa o homem de Deus. Antes de entrar no mundo moral, AKATHARSIA, conforme temos visto, descrevia a impureza ritual e cerimonial que excluía o homem da presença de Deus. No mundo moral, a mesma idéia continua ligada a palavra: "Bem-aventurado os limpos de coração, porque verão a Deus" (Mt 5.8). O pecador qu se arrepende nunca sentirá que Deus está muito longe, mas o pecador que se gloria na sua impureza erigiu uma barreira entre si mesmo e Deus.
Domingo, Julho 30, 2006
O Senhor dos Anéis - Generosidade.
O próprio Bilbo afirmava a todos - menos a alguns poucos amigos íntimos - que, de sua parte, ganhara o Anel de Gollum num concurso de enigmas. O concurso realmente aconteceu, mas ele havia colocado suas mãos no Anel antes de se encontrar com Gollum. Ao dizer que ganhara o Anel, Bilbo desejava aliviar sua consciência do peso de tê-lo roubado, pois, do ponto de vista de Gollum, foi exatemente isso que aconteceu. Em toda a história do Anel, ninguém o deu voluntariamente a outra pessoa.
Nesse momento, uma curiosa inversão é encontrada nas tradições das festas de aniversário dos hobbits. Em vez de os presentes serem dados àquele que estava fazendo aniversário, eram dados pelo aniversariante a todos aqueles que compareciam à festa. Muitos desses presentes eram simplesmente "mathoms" reciclados que haviam circulado por todo o Condado, mas esta tradição invertida abre caminho para uma transação única que começa a quebrar o ciclo de destruição criado pelo Anel.
Quando se preparava para deixar o Condado, Bilbo abandona a maior parte de seus pertences, levando com ele apenas algumas ninharias. Ele sempre foi generoso com seu dinheiro e tem "muitos" admiradores devotados entre os hobbits de famílias pobres e sem importância (pág 21) - Nessa ocasião, ele convida todo aquele que vive nas redondezas ( e alguns que vivem mais longe) e entrega-lhes presentes extraordinários, muito além do costumeiro. Além disso, ele se livra da maior parte dos bens de sua casa, com notas endereçadas a vários membros da comunidade, algunas com brincadeiras ou finalidades especiais, mas a maioria endereçada a hobbits verdadeiramente necessitados. Parte desse fulgor de generosidade tem o objetivo de permitir que Bilbo deixe o Condado sem o peso de muitos pertences, mas o motivo principal é que isso serve para motivá-lo a entregar algo que ele não pode mais reter: o Anel.
No fim das contas, a entrega de presentes não ajuda realmente, mas, com a ajuda de Gandalf, Bilbo é finalmente capaz de entregar o anel a Frodo e livrar-se dele de uma vez por todas. Este é um feito extraordinário. Com essa simples atitude ele não apenas rompe o ciclo de assassinatos e mentiras que cerca o Anel, mas abre um precedente que, por fim, permitirá que o Anel seja destruído. Num âmbito mais pessoal, isso permite que ele deixa para trás o seu amado Condado não apenas desimpedido, mas verdadeiramente livre.
Frodo, por sua vez, recebe o Anel abertamente e, embora cresça em sua mente algo semelhante àquilo que se desenvolveu na cabeça de Bilbo, ele não tem que lidar com qualquer culpa referente à maneira pela qual o conseguiu. Isso não ajudará Frodo a se livrar do Anel, tal como o plano de Bilbo de dar todas as suas coisas o ajudou nesse aspecto. Porém, sem essa inocência e essa liberdade iniciais, é pouco provável que Frodo pudesse ter ido muito longe. Uma consciência culpada atormenta a alma, conforme Sméagol descobriu ao lidar com o assassinato de seu amigo. Surgem dúvidas sobre a capacidade de alguém fazer alguma coisa certa ou pura e o desespero assola com maior insistência ainda. O que Bilbo oferece é a liberdade em relação a esse sentimento, ao mesmo tempo que está colocando sobre seu herdeiro um fardo quase insuportável.
Generosidade não está ligada a abdicação de suas posses. Aqueles que possuem poucas coisas em termos de riqueza material também podem ser generosos, quer seja através de suas opiniões ou de informações que dão aos outros. Quando o velho Ham Gangi, pai de Sem Gangi, conta histórias na pequena hospedaria Ramo de Hera, ele informa a todos os presentes que "o Sr. Bilbo é um hobbit muito cavalheiro e gentil, como eu sempre disse" (pág 22). Quando surge o assunto do acidente de barco dos pais de Frodo, ele reage ao rumor com uma contenda, dizendo: "Não tem sentido ficar falando sobre empurrar e puxar. Os barcos são muito traiçoeiros até para aqueles que se sentam quietinhos sem procurar problemas" (pág 23). Generosidade desse tipo é uma espetacular defesa contra a fofoca. É, além disso, um sinal de caráter fidedigno.
Por outro lado, não é necessário a presença de um anel maligno para que as virtudes sejam corrompidas. Os famosos Sacola-bolseiro, primos de Bilbo e os primeiros na linha de sucessão para herdar suas posses antes de Frodo ser adotado, crêem ardentemente que eles merecem o Bolsão, embora não tenham participado de sua construção. Nesses aspectos, os hobbits são bastante humanos (se é que posso usar o termo). Eles não são puros, sem pecados, ou vítimas inocentes de um mal muito grande para eles, mas um povo decaído, muito semelhante a nós mesmos, que precisam optar se serão generosos e bondosos ou mesquinhos e malvados.
Quando pudermos doar de nossa abundância, livremente e sem acharmos que temos direito a eles, então poderemos estar livres de todas as nossas posses e elas não terão nenhum controle sobre nós. A generosidade nem sempre parece ser uma grande virtude, mas freqëntemente é uma das mais difíceis. Como Jesus disse: "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus" (Mt 19.24).
"Isso é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível" (Mt 19.26).
M. Eddy Smith
Sábado, Julho 29, 2006
A Escravidão da Vontade - Martinho Lutero - Parte 5
Os argumentos usados por paulo são tão claros que é de admirar que alguém possa compreendê-los mal. Diz ele: "... todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; NÃO HÁ QUEM FAÇA O BEM, NÃO HÁ NEM UM SEQUER..." Estou admirado do fato de que certas pessoas afirmam: "Algumas pessoas não se extraviaram, não se fizeram inúteis, não são más e nem pecadoras. Há alguma coisa no homem que o inclina para o bem". Ora, Paulo não fez essas declarações em apenas algumas passagens isoladas. Algumas vezes ele as fez em termos positivos, em outras vezes, em termos negativos, usando palavras diretas ou utilizando contrastes. O sentido literal de suas palavras, todo o contexto e o escopo inteiro de seu argumento afunila-se neste pensamento: à parte da fé em Cristo nada existe senão pecado e condenação. Meus oponentes estão derrotados, ainda que não queiram se render!!Porém, não está ao meu alcance convencê-los disso. Deixo isso à operação do Espírito Santo.
Argumento 10 - O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o "livre-arbítrio" nada pode fazer de natureza espiritual.
No trecho de Romanos 8.5, Paulo divide a humanidade em duas categorias - aqueles que são "carne" (ou da natureza pecaminosa) e aqueles que são do "ESpírito (ver também João 3.6). Isso só pode significar que aqueles que não têm o Espírito estão na carne e continuam presos à uma natureza pecaminosa. Paulo insiste que "...se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle" (Rm 8.9). Isso significa, obviamente, que aqueles que estão sem o Espírito pertencem a SAtanás. O "livre-arbítrio" não os tem benificiado muito! Paul afirma que "... os que estão na carne não podem agradar a Deus" (Rm 8.8). Ele diz que "... o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8.7). É impossível que tais poessoas possam fazer qualquer esforço, por conta própria, para agradar a Deus.
Um homem de nome Orígenes sugeriu que cada pessoa tem uma "alma" dotada de capacidade de voltar-se para a "carne" ou para o "Espírito". Mas isso é apenas produto da imaginação. Ele sonhou com tal idéia! Ele não tinha qualquer prova pra o que afirmava. Na verdade, não há posição intermediária. Tudo que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são hostis a Deus. Trata-se do mesmo ensinamento ministrado por Cristo, em Mateus 7.18, de que uma árvore~má não pode produzir bom fruto. E também está em harmonia co ma dupla declaração de Paulo - "O justo viverá por fé" (Rm 1.17), e "tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm 14.23). Aqueles que não têm fé não estão justificados; e aqueles que não estão justificados são pecadores, nos quais qualquer suposto "livre-arbítrio" só pode produzir o mal. Portanto, o "livre-arbítrio" nada é senão um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal "liberdade", enfim, NÃO É LIBERDADE ALGUMA.
Argumento 11 - Aquele que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo.
Em Romanos 10.20, Paulo cita Isaías 65.1: "Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui achado daqueles que não me buscavam; a um povo que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui". Paulo reconhecia, pos sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furiosa cólera contra ela. Diz Paulo, em Romanos 9.30,31, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, forqam salvos pela misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do "livre-arbítrio" do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuitamente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender.
Argumento 12 - A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente mnediante a fé.
Voltemos-nos agora para João, que também escreveu com eloqüência contra o "livre-arbítrio". Diz ele, em João 1.5: "A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. E, em João 1.10,11: "Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam". Por "mundo", João dá a entender a humanidade inteira. Visto que o "livre-arbítrio" seria uma das mais excelentes faculdades do homem, deve ser incluído em qualquer coisa que João diz acerca do "mundo". Por conseguinte, de acordo com esses textos, o "livre-arbítrio" não reconhece a luz da verdade, mas antes, odeia a Cristo e ao seu povo. Muitas outras passagens, como João 7.7; 8.23; 14.7; 15.19; e 1Jo 2.16; 5.19, proclamam que o "mundo" (o que inclui, especialmente, o "livre-arbítrio) está debaixo do controle de Satanás.
O "mundo" inclui tudo quanto não foi separado para Deus por meio do Espírito Santo. Ora, se tivesse havido alguém neste mundo que, por meio de seu"livre arbítrio", não tivesse odiado a Cristo, então João teria alterado o que escreveu. Entretanto, ele não o fez. Torna-se evidante, portanto que o "livre-arbítrio" é tão culpado quanto o "mundo". Em João 1.12,13, o mesmo apóstolo prossegue: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". As palavras "não nasceram do sangue" - significam que é inútil alguém depender de sua origem familiar ou do local do seu nascimento. As palavras "nem da vontade da carne" apontam para a insensatez de se depender das obas de lei. E as palavras "nem da vontade do homem" mostram que nehum esforço humano pode conseguir tornar alguém aceitável a Deus.
Segunda-feira, Julho 24, 2006
Suíça: Triunfo e Declínio
Tentar descrever a influência de Calvino e do Calvinismo em qualquer país específico é uma tarefa complexa, que se torna ainda mais difícil por causa da necessária brevidade com que cada autor de uma obra tal como esta tem de abordar sua respectiva área geográfica. A Suíça apresenta alguns problemas peculiares de interpretação, pois a Suíça gerou o movimento que estamos descrevendo: Começaremos com o trabalho de Calvino na cidade de Genebra, porém dedicaremos a maior parte deste artigo a uma discussão sobre sua influência na Suíça no século dezesseis: seus contatos com Bullinger em Zurique (o Consensus Tigurinus); a Segunda Confissão Helvética; e a continuação doe seu pensamento através de Beza, seu sucessor em Genebra, que morreu em 1605. Faremos uma rápida revisão da Suíça do século dezessete ao examinarmos a teologia de Wollebius e dos autores da Fórmula Consensual Helvética (1675). Um fecho natural de nossa discussão sobre o Calvinismo na Suíça, é a ascensão de J. A. Turretin, em Genebra, e a vitória do Racionalismo francês sobre o Calvinismo naquela Universidade.
Na Suíça, a Reforma teve seu começo em Zurique, com Ulrich Zuínglio (1484-1531), cuja morte precedeu inclusive a primeira edição das Institutas de Calvino. Mais especificamente, a Reforma em Genebra foi iniciada por Guillaume Farel (1489-1565). Farel visitou Genebra pela primeira vez em 1532, e em 1533 celebrou ali o primeiro culto protestante, num jardim, na Sexta-feira Santa. A disseminação do Evangelho em Genebra trouxe alguns frutos violentos: em maio de 1533 irrompeu uma revolta na qual um cônego foi morto. O bispo de Genebra tinha prendido os líderes da revolta, mas os magistrados da cidade alegaram que a corte episcopal não tinha jurisdição em caso de assassinato. Vendo que não seria capaz de julgar os assassinos, o bispo deixou Genebra e nunca mais retornou. Mais tarde, os criminosos foram executados.
Genebra estava em aliança com as cidades de Friburgo e Berna. Friburgo, uma cidade fortemente católica, tinha protestado contra a presença de Farel em Genebra, mas Farel tinha a aprovação da cidade de Berna. Após várias disputas e tumultos, foi descoberto que um tabelião episcopal tinha documentos assinados pelo bispo; esses documentos autorizariam a indicação de um governante militar de Friburgo para a cidade. Enfurecida com isso, Genebra recusou-se a manter a aliança com Friburgo, ficando Berna como a única protetora da cidade.
Entretanto, o bispo, em luta, não abriu mão de seu poder na cidade. Juntamente com Carlos III de Sabóia, ele reuniu tropas e atacou a cidade. Esse ataque fracassou. Vários outros ataques forma desferidos, e todos sem sucesso. Os magistrados escreveram para Roma, protestando contra as ações de seu bispo, relatando sua ausência e declarando vacante o cargo de bispo; contudo, Roma preferiu ignorar a carta. Os magistrados fundaram sua própria casa-da-moeda em 1535, proclamando dessa forma sua independência da hierarquia romana.
Carlos III, da Sabóia, não estava disposto a perder Genebra; ele formou uma tropa de quinhentos mercenários e cercou a cidade no fim de 1535. Genebra apelou para Berna, pedindo ajuda; porém ao não recebê-la voltou-se para Francisco I da França. Foi enviada (da parte de Francisco I) uma pequena força de cavalaria, mas depois de tentarem atravessar os Alpes durante o inverno e de serem atacados pelas tropas de Sabóia, somente sete homens e seu comandante conseguiram alcançar Genebra. A oferta (de Francisco I), de dar proteção a Genebra sob o governo francês, foi votada e rejeitada pela cidade.
Esta tentativa vã da França levou Berna à ação. Reunindo uma força de seis mil homens, ela libertou Genebra das tropas da Sabóia, em fevereiro de 1536. Como resultado da pregação e das disputas de Farel, os cidadãos da cidade recém-libertada votaram, no mês de maio, por viver “segundo o evangelho”.
Embora Genebra fosse agora legalmente uma cidade protestante, ela só o era nominalmente, segundo testemunho de Calvino. Ao se despedir do Conselho de Pastores, ele declarou:
“Quando cheguei a esta igreja, não havia praticamente nada. Eles estavam pregando e isso é tudo. Eles eram bons em procurar ídolos e queimá-los, mas não havia outra Reforma. Tudo estava em alvoroço”.
Certamente, por ocasião da morte de Calvino, a cidade de Genebra não mais podia ser descrita nos mesmo termos que Calvino utilizou para descrevê-la quando de sua chegada. Quais foram alguns dos efeitos da estada de Calvino nesta cidade protestante?
Em seus esforços para reformar a Igreja de Genebra, Calvino estabeleceu quatro ofícios: o de pastores, de mestre (doutores), de anciãos e de diáconos. O pastor deveria pregar a Palavra de Deus, admoestar e exortar, bem como administrar os sacramentos. O mestre deveria “ensinar doutrina sólida aos fiéis” e “prepara os jovens para o ministério e para o governo civil”. As obrigações dos anciãos eram a de “vigiar a vida de cada homem, admoestar amavelmente aqueles a quem vissem levando uma vida desordeira e, quando necessário, levá-los à Assembléia, a qual estaria encarregada de aplicar a disciplina fraternal”. Os diáconos deveriam cuidar dos pobres e doentes, e pôr um fim à mendicância.
A Igreja de Genebra era constituída pelo “Venerável Conselho dos Pastores” e pelo Consistório. O Conselho de Pastores tinha funções estritamente eclesiásticas, especialmente a educação e exame de candidatos à ordenação. O Consistório, ou Presbitério, não era restrito a pastores, mas também possuía membros leigos que, na verdade, eram a maioria no Consistório. A obrigação do Consistório era manter a disciplina eclesiástica dentro da cidade; sua corte era o poder controlador na Igreja. Entretanto, a corte do Consistório não tinha o direito de punição civil.
Ao reformar dessa forma a Igreja, Calvino estava também induzindo uma mudança na sociedade de Genebra. Seu método de reformar a cidade era pelo uso da disciplina eclesiástica. O objetivo da disciplina de Calvino era proteger a Igreja como corpo de crentes, proteger o cristão individualmente dentro da Igreja, e também levar os transgressores ao arrependimento. A maneira de aplicar a disciplina consistia, primeiramente, em admoestar particularmente o transgressor, procedimento seguido pela admoestação perante testemunhas e, finalmente, caso a admoestação falhasse, aplicava-se a excomunhão. A grave condenação à excomunhão somente era aplicada para as faltas mais sérias. É importante lembrar que, como um dos objetivos da disciplina era levar o transgressor ao arrependimento, era necessário que a comunidade tivesse cuidado em sua maneira de agir com os punidos.
A Igreja também era protegida pelo fato de os próprios pastores não estarem isentos da disciplina. Calvino queria que eles também fossem sujeitos à jurisdição civil, pois eles deveriam ser os melhores exemplos para o povo.
Não se devia levar em conta o quão importante fosse o cidadão, pois as leis de Genebra deveriam ser honradas por todos e eram rigorosamente aplicadas. Quanto a essas leis de moralidade, Calvino não era inovador, pois quase todas as cidades da Idade Média tinham em seus livros leis acerca de diversas extravagâncias. Em várias cidades suíças as leis não foram formal ou estruturalmente alteradas, mas antes certas leis passaram a ser “ignoradas” e outras leis foram acrescentadas. O que se tornou novo foi a imposição dessas leis. O propósito de Calvino, de manter a disciplina dentro da cidade, era assegurar uma ajuda para a regeneração moral. Não havia separação em sua mente entre cristianismo e moralidade; uma cidade cristã não podia tolerar pecados tais como, por exemplo, a prostituição escancarada. Como o próprio Calvino observou, ao chegar em Genebra, os pastores pregavam a doutrina evangélica, mas nenhuma reforma de vida tinha acontecido. As duas coisas devem andar juntas.
As posições de Calvino sobre o governo e a relação entre a Igreja e o Estado eram novas e radicais. Philip Hughes expressa resumidamente o pensamento de Calvino:
“Na verdade, toda a estrutura da sociedade, conforme concebia na mente de Calvino, estava baseada na distinção entre Igreja e Estado como dois poderes separados e cujas esferas de autoridade estavam claramente definidas: a primeira brandindo a espada do Espírito na fiel proclamação da Palavra de Deus, e o segundo brandindo a espada secular na manutenção de um governo bom e justo e na punição de transgressores das leis estatutárias; e ambos estão sujeitos à autoridade suprema do Deus Onipotente”.
Conforme já vimos, “brandir a espada do Espírito” incluía, entre outras coisas, o poder da excomunhão. Este poder, nas mãos dos pastores, conforme Calvino o via, era uma volta a uma das marcas distintivas da Igreja dos três primeiros séculos. Esta volta, entretanto, não estava absolutamente alinhada com as estruturas existentes na sociedade, e era realmente estranha ao conceito que os magistrados tinham acerca de si próprios e de suas obrigações. É fácil imaginar que seguir corajosamente este plano, nas relações Igreja/Estado, implicaria numa dura caminhada para Calvino; e assim foi.
Qualquer idéia de que Calvino ou a Igreja de Genebra controlava o governo civil não é correta. Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade. Bem como a freqüência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.
Conforme mencionado acima, o conceito de Calvino sobre as relações Igreja/Estado era novo e, inclusive, diferia das estruturas estabelecidas na Suíça de fala alemã. Por exemplo, Zwínglio e Bullinger negavam que a Igreja tivesse o direito de excomunhão. Para Bullinger, a excomunhão era um julgamento temporal e, como tal, aplicá-la era um direito inerente do magistrado. Em Zurique, a Igreja era governada da seguinte forma: dentro do cantão havia primeiramente oito e depois nove capítulos, cada um era liderado por um diácono (deão). Duas vezes por ano os pastores se encontrariam em um Sínodo, o que foi primeiramente sugerido por Zwínglio em 1528 e, finalmente, aprovado em outubro de 1532. O poder do Sínodo era estritamente limitado a assuntos de doutrina e à moralidade do clero; oito membros do pequeno Conselho dos Pais da Cidade também estavam presentes. Foi também estabelecido um comitê de examinadores, que incluía dois membros do pequeno Conselho, dois pastores e dois leitores do Carolino, a escola de teologia; o propósito do comitê era examinar candidatos ao pastorado. Caso fosse aprovado pelo comitê, o candidato seria inspecionado pelo Conselho e faria um juramento de submissão aos magistrados. Então, o candidato seria apresentado à congregação da Igreja, depois de ter sido recomendado pelo governo cristão. Perguntar-se-ia à congregação da Igreja se havia qualquer objeção ao candidato, e então ela ficaria incumbida de ajudar o pastor na realização de suas obrigações.
Zwínglio e Bullinger não podiam concordar com a idéia de Calvino de que deveria haver uma separação entre Governo Civil e Governo da Igreja. Farel, que concordava com Calvino, não teve sucesso em introduzir as novas idéias no Governo de Neuchâtel. Infelizmente, mesmo durante o período de vida de Calvino, os dois poderes separados de Genebra não eram tão separados de fato como o eram em teoria.
Um dos frutos do ministério de Calvino, em Genebra, foi a atividade missionária que ali se originou, e o cuidado pelos necessitados que chegavam a Genebra. Pelos registros daquela época está claro que Genebra tornou-se mais famoso refúgio para o qual fugiram os refugiados religiosos. Estamos informados também de que Genebra enviou um contingente de missionários bem treinados, especialmente para a França ma, também, para luares tão distantes quanto o Brasil. Estamos de posse, ainda, dos registros desses missionários, que formam martirizados pela sua fé. Novamente o Professor Hughes sumariza muito bem ao dizer:
“Aqui temos uma prova irrefutável da falsidade da conclusão tão comum de que o Calvinismo seja incompatível com o Evangelho e condena à morte qualquer esforço missionário”.
O Consensus Tigurinus
Ao considerarmos a influência de Calvino e do Calvinismo na Suíça, o Consensus Tigurinus – ou Consensus de Zurique – não apenas nos fornece um ponto de partida adequado como, também, elucida o contexto teológico da Suíça neste período crítico. Na Suíça de fala alemã, desenvolveu-se uma doutrina amadurecida acerca dos sacramentos, especialmente o da Ceia do Senhor, que é abordado no Consensus. Zwínglio considerou muito e, freqüentemente, debateu acerca da natureza dos elementos da Ceia do Senhor; tanto ele quanto Lutero rejeitaram a idéia católico-romana da transubstanciação, que afirma que o pão e o vinho se tornam, de fato, o corpo e sangue de Cristo de modo tal que ocorre um milagre e, então, Cristo é sacrificado no altar. Calvino diz: “Mas a questão e a seguinte: Qual é a natureza dessa comunicação?” – esta é uma questão que necessita ser investigada se quisermos entender a interpretação das palavras de Cristo: “Isto é meu corpo”.
Zwínglio e Lutero não puderam concordar entre si quanto a este assunto. Em 1529, eles tiveram uma discussão em Marburgo, e concordaram sobre quatorze pontos principais de teologia, mas não puderam adotar uma posição idêntica nesse assunto. A posição de Lutero era a de que o pão e o vinho eram o corpo e o sangue de Cristo; não uma transubstanciação dos elementos, porém antes uma consubstanciação. Consubstanciação era a posição de que o corpo e o sangue de Cristo estão “em, com e sob” o pão e o vinho. A posição de Zwínglio, por outro lado, era de que o pão e vinho não são naturalmente unidos com o corpo e o sangue de Cristo; o corpo e o sangue de Cristo não estão nem incluídos localmente nos elementos, nem sensivelmente presentes, mas são símbolos através dos quais nós temos comunhão no corpo de sangue de Cristo.
Zuínglio e Lutero, efetivamente, nunca resolveram essa dificuldade. Mais tarde, outra complicação surgiu por causa das posições de Calvino sobre a Ceia do Senhor, posições que não eram idênticas nem à compreensão de Lutero, nem à Zuínglio. Calvino estava esperançoso de poder alcançar um acordo entre os protestantes, pelo menos entre os protestantes da Suíça. O Consensus Tigurinus teve sucesso em unir a Suíça com relação à doutrina da Ceia do Senhor.
Antes de começarmos a examinar o pensamento de Bullinger e de Calvino, em relação à Ceia do Senhor, investigaremos as circunstâncias históricas em torno do Consensus. Em 1544/1545, Lutero atacou a concepção zwingliana de Ceia do Senhor com sua obra “Kurzes Bekenntnis der Diener der Kirche zu Zürich... insbesondere über das Nachtmahl...” (A Verdadeira Confissão dos Pastores de Zurique... em Relação à Ceia do Senhor...). Conforme mencionado anteriormente, a posição de Calvino não concordava nem com Lutero nem com Bullinger, que seguiu de perto o seu predecessor. Entretanto, Calvino conseguiu entrar em discussão com Bullinger acerca de suas respectivas posições sobre a Ceia. Bullinger lhe ofereceu uma cópia de sua obra “De Sacramentis”, escrita em 1546, quando Calvino estava em Zurique no início de 1547. Conforme veremos, Calvino não concordava completamente com a concepção de Bullinger e lhe apresentou um esboço de sua posição em vinte e quatro proposições o qual foi enviado a Zurique em junho de 1548. Bullinger fez certas anotações a este texto e então o enviou de volta a Calvino, que o revisou em janeiro de 1549. Calvino então considerou o projeto importante e bastante para viajar com Farel a Zurique, em maio de 1549, onde se chegou a um consenso entre Calvino e Bullinger em poucas horas. Este acordo resultou no Consensus Tigurinus. Para nos ajudar a entender a importância desse documento esboçaremos brevemente as convicções de Bullinger e de Calvino a respeito da Ceia do Senhor.
Bullinger, assim como Zwínglio, rejeitou a idéia luterana de consubstanciação. Além de rejeitar a idéia de que o sacramento possa ser um meio direto de graça, Bullinger considerou o princípio fundamental da Ceia do Senhor como sendo uma ilustração religiosa e um estímulo à fé; o conteúdo inteiro do sacramento consiste na relembrança de Cristo. Para o crente, a presença real de Cristo está na Ceia, mas o incrédulo recebe somente pão e vinho. É pelo Espírito Santo que se torna possível aos crentes serem participantes de Cristo.
Observando as formulações de Calvino a respeito da Ceia do Senhor, lembramos que a posição de Calvino está em algum lugar entre as de Lutero e Zwínglio. Sua posição não satisfaz aos extremistas de nenhum dos lados. Calvino foi primeiramente influenciado por Lutero, talvez mais fortemente do que por Zwínglio, por essa razão as perspectivas de um acordo com os Reformadores de Zurique não eram muito grandes.
Mesmo assim, está claro, pelos escritos de Calvino, que ele rejeitou a idéia luterana de consubstanciação. Entretanto, embora rejeitando essa idéia, ele concordava com os luteranos em que o corpo de Cristo é dado na Ceia do Senhor. Cristo está presente no sacramento.
Como isso pode acontecer? Calvino também afirmou muito claramente que o corpo de Cristo permanece no céu e retém suas propriedades humanas. A resposta a essa questão é encontrada na ação do Espírito Santo em relação à Ceia; Cristo não vem a nós do céu, mas o poder do Espírito nos eleva a Ele nos céus. Então, nós tomamos parte de Cristo na Ceia de um modo espiritual e celestial. Há uma presença real de Cristo na Ceia do Senhor, mas é um modo celestial de presença.
Calvino, rapidamente, salienta que essa presença de Cristo não é recebida por um incrédulo. Não é porque não são oferecidos ao incrédulo o corpo e o sangue e Cristo, pois ele é oferecido a bons e a maus, mas o verdadeiro recebimento é possível unicamente pela fé, sendo o próprio recebedor o obstáculo que o impede de desfrutar do dom. A participação do incrédulo não significa que ele o receba para seu próprio prejuízo, conforme alguns luteranos afirmam.
Que é que se pode concluir de uma análise do conteúdo do Consensus Tigurinus? Somos nós capazes de determinar se a compreensão de Calvino, a respeito do sacramento da Ceia do Senhor se tornou normativa em toda a Suíça? Têm sido tiradas duas conclusões com relação ao Consensus: ou ele foi um triunfo para a doutrina de Calvino, ou houve um genuíno dar e receber entre Bullinger e Calvino, no acordo de ambos. Não é correto dizer que não houve influência bullingeriana no Consensus, embora também esteja claro que é a compreensão de Calvino, a respeito da Ceia do Senhor, que é apresentada no Consensus Tigurinus. O Consensus afirma que há, no sacramento, uma verdadeira união de vida com Cristo, e que os elementos não são “vazios”. Eles são meios da graça e transmitem os benefícios da redenção.
Após a redação do Consensus Tigurinus, o Calvinismo começou a crescer em força na Suíça: na cidade de Zurique, onde Bullinger ainda era o antistes ou pastor principal, o Calvinismo de certa forma substituiu o zwinglianismo como corrente teológica dominante. O primeiro reformador da cidade de St. Gallen, Vadian (Joachim Vom Watt, 1484-1551), foi influenciado pessoalmente por Zuínglio e, já em 1536, tinha ouvido acerca de Calvino. Vadian considerara importante para Calvino estar unido com os teólogos de Zurique em relação à natureza da Ceia do Senhor, e Calvino percebeu nele um discernimento aguçado ao desejar essa união. Calvino o tinha em alta consideração e dedicou a Vadian sua obra “De Scandalis”. Conforme indicam as cartas de Calvino daquela época, ele foi profundamente tocado ela morte de Vadian. Outro Reformador de St. Gallen, Johan Kessler (1502-1574), tinha um espírito humilde e desejava sinceramente uma visita de Calvino. Embora até onde saibamos esse encontro nunca tenha ocorrido, Kessler foi um defensor fiel de Calvino por toda a sua vida. Basiléia, entretanto, estava sob a liderança eclesiástica de Simon Sulzer, que tinha tendências luteranas; por essa razão, a cidade de Basiléia não foi muito receptiva a Calvino e à sua teologia até o próximo antistes.
Na Suíça, após a atenção ter sido concentrada, por alguns anos, na natureza da Ceia do Senhor, embora não tivesse desaparecido totalmente, esse assunto passou a ter uma importância secundária devido ao surgimento de uma nova questão controvertida, ou seja, a doutrina da predestinação. Beza levantou a questão dessa doutrina como ponto importante de discussão, ao afirmar que Deus primeiramente decretou que algumas pessoas seriam salvas por Sua misericórdia, e que outras seriam entregues à desgraça e, após esse decreto, bem como em subordinação a ele, Deus criou o homem. Esta doutrina tornou-se conhecida como supralapsarianismo. Especialmente em Zurique, o assunto da predestinação e suas implicações tornou-se matéria de conflitos agudos. Theodore Bibliander (1504-1562), professor de Velho Testamento naquela universidade, ensinava que havia uma diferença entre a predestinação e a presciência de Deus, e tentava enfatizar acima de tudo a universalidade do amor. Peter Martyr Vermigli (1500-1562), que havia há pouco sido chamado de Estrasburgo para Zurique, indignou-se com essa doutrina. Ele propôs uma predestinação dupla, uma eleição tanto para a perdição como para a felicidade eterna e, por essa razão, criticou ferrenhamente a Bibliander. Mesmo que Bullinger, geralmente, só queria enfatizar a eleição para a salvação, a faculdade teológica de Zurique acabou concordando com Vermigli e demitiu Bibliander em 8 de fevereiro de 1560.
Enquanto em Zurique se armava o conflito sobre a predestinação, Berna e Genebra disputavam acerca de outra questão. A discordância agora não era nem sobre o sacramento da Ceia do Senhor nem sobra a predestinação; nessas frentes havia uma relativa paz. A área de conflito centrava-se na disputa acerca da natureza das relações Igreja/Estado, que eram interpretadas diferentemente pelos principais teólogos de ambas as cidades. Wolfgang Musculus (1497-1563), professor de grego e de teologia em Berna, desde 1549, liderava o partido de Berna, que estava convencido de ser correto unir o Estado e a Igreja, com a Igreja subordinada ao governo e os servidores da Igreja como empregados do governo. Em suas lutas por um governo cristão, ele considerava ser sua obrigação lutar contra qualquer separação entre Igreja e Estado, quer isso implicasse em lutar contra Roma ou contra Genebra. O conceito de ius reformandi era uma das partes mais importantes do pensamento de Musculus; ius reformandi era o direito de reformar e renovar o caráter e a organização da Igreja. Este direito pertencia aos magistrados, e colocava a autoridade dos magistrados no centro de seu sistema. A posição de Calvino não concordava com essas conclusões. Calvino via os direitos da Igreja como pertencendo inerentemente à igreja. A Igreja, e só ela, é responsável pela Igreja. Ao continuarmos nossa análise sobre a Suíça, perceberemos alguns resultados do conflito ideológico nas relações Igreja/Estado.
Conforme o Calvinismo se fortalecia na Suíça, também estava se propagando em outras partes da Europa, como outros artigos desta série o demonstram. É importante, para a história Suíça, a disseminação do Calvinismo para o Norte, na Alemanha, especialmente na área ao redor da cidade de Heidelberg. A crise que se desenvolveu quando o Calvinismo encontrou o Luteranismo em solo alemão, forneceu a base para a confissão suíça conhecida como a Segunda Confissão Helvética.
A Segunda Confissão Helvética
Em 1562, Bullinger tinha composto, em latim, uma confissão pessoal de fé que, pelo menos naquela época, pretendia ser para seu uso particular. Em 1564, ele a aperfeiçoou e lhe acrescentou seu testamento, esperando morrer vítima da peste que já tinha levado sua esposa e ainda estava avassalando Zurique. Entretanto, ele sobreviveu à peste e, em dezembro de 1565, recebeu uma solicitação de Frederico III do Palatinado, pedindo ajuda de Zurique e de Genebra sob a forma de uma confissão que testificasse de sua ortodoxia. Devido à sua teologia reformada suíça, ele estava sendo ameaçado de exclusão, pelos luteranos, dos negócios políticos. Bullinger estava ansioso por responder, mas pediu o auxílio de Beza, então principal teólogo de Genebra, para revisar esse testamento pessoal de fé antes de mandá-lo para Heidelberg como uma confissão da Igreja suíça. Beza concordou e veio à Zurique; entretanto, foram feitas poucas alterações e a declaração foi enviada a Frederico III. Essa confissão de fé veio a ser chamada de Segunda Confissão Helvética. Aparentemente, ela se prestou ao propósito desejado por Frederico III, pois ele não foi censurado. Sua piedade pessoal foi reconhecida por todos e o Calvinismo estava seguro na Alemanha, pelo menos por algum tempo.
É difícil superestimar a importância da Segunda Confissão Helvética. Todas as Igrejas da Suíça, incluindo as de Basiléia e Genebra, concordaram com ela. Este não foi um feito desprezível, se considerarmos a diversidade da teologia reformada que era evidente na Suíça, até essa época. Essa unanimidade capacitou as Igrejas suíças a terem uma norma comum para instrução, uma doutrina que foi extensivamente utilizada por séculos, e colaborou para a unidade na pregação e na educação teológica. A Confissão é o maior credo da Reforma no continente europeu e, à exceção do Catecismo de Heidelberg, foi um dos símbolos da Reforma mais largamente adotados, sendo aprovado na Hungria em 1567, na França e na Polônia em 1571, e na Escócia em 1578, tendo sido também bem recebido na Holanda e na Inglaterra. Quanto a seu mérito teológico, é de primeira qualidade.
A Segunda Confissão Helvética pretende demonstrar a unidade de seu ensino com a da Bíblia bem como com o da Igreja primitiva. No que tange à teologia, em geral, a Confissão trata das doutrinas das Escrituras (Caps. 24-28), e Família e o Governo (caps. 29, 31), bem como dos Sacramentos (caps. 19), ela ensina que (1) eles são ritos santos, tendo Deus por seu autor e Cristo como o grande propósito representado por eles. (2) havia Sacramentos tanto sob a antiga economia como sob a nova; e (3) no que toca à substância, os Sacramentos, sob ambas as dispensações, são equivalentes. O Batismo, então, substitui a circuncisão, e a Ceia do Senhor substitui os Sacrifícios do Velho Testamento. Também é importante observar que esta é a primeira Confissão protestante que exclui os apócrifos do texto das Escrituras (cap. 1). A Confissão reconhece a existência de causas secundárias que atuam sob a providência de Deus (cap.6), eliminando assim a acusação de fatalismo que, freqüentemente, é lançada contra o Calvinismo.
Beza contribuiu para a edição da Segunda Confissão Helvética, como principal teólogo de Genebra. Após a morte de Calvino, em 17 de maio de 1564, Beza foi rapidamente convocado para suceder seu querido amigo. Pelo fato de a morte de Calvino ter fechado uma era na história de Genebra, somos capazes de observar as mudanças naquela cidade após 1564.
Genebra depois de Calvino
Parece-nos que houve várias mudanças que se seguiram à morte de Calvino. Estas mudanças não foram apenas eclesiásticas, mas também políticas. Por algum tempo, após a morte de Calvino, Genebra estava à procura de segurança política. O principal fator desagregador que irrompeu foi o cerco da cidade pelo Duque de Sabóia. Em 1567, esta ocupação dos distritos adjacentes desempenhou um papel importante nas atividades políticas de Genebra, por cerca de vinte anos.
As tensões eram grandes em Genebra mas, felizmente para seu futuro, foi negociado um mode de vivre com o Duque de Sabóia, Emmanuel-Philibert. Este acordo deveria durar vinte e três anos. Em 1579, um tratado feito com a França, Berna e o cantão de Soleure, também ajudou a assegurar a Genebra seus direitos como cidade soberana, apesar de sua fraqueza. Isso foi muito bom para Genebra, pois Emmanuel-Philibert morreu pouco depois, e Charles-Emmanuel, o próximo duque, não tinha muita disposição para permitir que Genebra tivesse seu status de soberania.
Em 1584, foi firmado um outro tratado entre Berna, Zurique e Genebra, e este tratado também ajudou a manter a segurança de Genebra. Charles-Emmanuel respondeu, alguns meses depois, com um embargo de grãos destinados a Genebra; entretanto, após ter recebido pequena ajuda dos cantões de língua alemã, a cidade declarou guerra à Sabóia , em 1589. Após quatro anos de luta, eles fizeram as pazes com a Sabóia, contudo, nada significativo foi resolvido, exceto que Genebra manteria sua independência. Em 1602, a Sabóia empreendeu mais uma vã tentativa de escalar os muros de Genebra e, finalmente, em 1603, Genebra conseguiu obter uma trégua permanente, passando a ter sua soberania e independência relativamente asseguradas.
Dentro da cidade também houve mudanças. O afluxo de refugiados continuou após a época de Calvino, o que se configura uma situação difícil para qualquer cidade; mesmo assim, Genebra, como algumas outras cidades, conseguiu integrar, com sucesso, os seus refugiados. Como ocorria em várias outras cidades européias daquela época, havia um forte movimento em direção à oligarquia; os magistrados começaram a usar uniformes dos anos de 1570 e, nos anos 1580, receberam o título de “Excelência” e outros. Entretanto, esse desenvolvimento do governo “pouco ou nada devia ao entrincheiramento do calvinismo”. Após a morte de Calvino, o governo começou a ter mais controle sobre a Igreja de Genebra. Até então, a Igreja tinha conservado considerável independência em relação ao Estado, diferentemente de outras igrejas na Suíça.
Foi realmente após a morte de Calvino que os ministros da cidade demonstraram maior atividade. Eles mantiveram sua vigilância fiel sobre o povo e viam-se a si mesmos como “a rocha da ortodoxia”. A moralidade da comunidade era observada e os ministros pediam, constantemente, uma nova legislação nessa área. A codificação, em lei, dos pensamentos de Calvino acerca da moralidade foi efetuada principalmente após a sua morte; em 1576, as famosas Ordenanças Eclesiásticas foram revisadas, estabelecendo-se uma regra e ordem escrita para a vida.
Houve também revisão na Academia de Genebra, que foi fundada durante o período de vida de Calvino. Em 1565, foi instituída uma cadeira de Direito, ainda que esta medida fosse contrária ao desejo dos pastores, e a Academia teve de ser fechada por um curto período durante o embargo imposto pela Sabóia contra Genebra. Entretanto, a mudança mais importante na Academia de Genebra foi seu desenvolvimento sob a liderança de Beza, tornando-se ela o mais famoso centro de ensino protestante da Europa.
Ao analisarmos os diversos aspectos da situação em Genebra, após Calvino, é imperativo investigar mais detalhadamente a vida e o pensamento de Theodore Beza, o amigo e sucessor de Calvino. Beza tentou seguir a Calvino, e de várias formas ele realmente seguiu suas diretrizes e exemplo como moderador do Conselho de Pastores. Dentro dos limites da própria cidade, a atividade política de Beza era mais modesta que a de Calvino. Para seu crédito, Beza seguiu o exemplo de Calvino ao evitar que um pastor tivesse o controle do Conselho de Pastores: ele estabeleceu que deveria haver um novo moderador eleito a cada ano. Beza aposentou-se parcialmente em 1580, e isto determinou o fim de uma época distinta da história de Genebra, embora ele não se tivesse afastado totalmente da vida pública até sua morte, ocorrida em 1605.
Hoje em dia se afirma que houve o alvorecer de uma nova era teológica com Beza. Ele é acusado de transformar o Calvinismo em um Escolasticismo reformado. Este Escolasticismo reformado é considerado como um abandono de Calvino e de sua teologia, não apenas de uma ou de algumas doutrinas; tem sido dito que “todo o programa teológico de Beza mostra uma dissidência séria do de Calvino”. É indubitavelmente verdadeiro que Beza não seguiu a Calvino em todos os pontos doutrinários, como é bem exemplificado em sua proposta a respeito do supralapsarianismo. Mesmo assim, de forma alguma pode ser provada a tese de que havia uma diferença radical nas doutrinas básicas dos dois teólogos. O escopo e propósitos deste artigo não permitirão uma defesa extensa da unidade de pensamento entre Calvino e Beza; devemos nos contentar aqui com o fato de que a hábil defesa dessa questão apresentada por William Cunningham em 1800, ainda permanece inabalável. Até agora a defesa de Cunningham foi totalmente ignorada pelos proponentes da teoria de desunidade entre os dois teólogos.
Relações Entre Igreja e Estado na Suíça
Tendo examinado a Genebra pós-calvinista, verificaremos agora os efeitos de Calvino e do Calvinismo nas diversas cidades da Suíça, notando primeiramente o desenvolvimento das relações entre Igreja e Estado. No princípio dos anos 1600, surgiram duas noções similares, porém distintas sobre as relações Igreja/Estado. Na área suíça de fala francesa (Genebra, Neuchâtel, Laussane) havia uma forma de governo eclesiástico definida e claramente presbiteriana. As áreas de fala alemã (Basiléia, Berna, Zurique), embora mantendo basicamente a mesma doutrina calvinista, continuaram na tradição zwingliana de governo eclesiástico submetido ao controle do Estado.
Já examinamos suficientemente o de Genebra; lá observamos uma gradual usurpação dos direitos da Igreja pelo governo. Em Neuchâtel, onde Guillaume Farel era o Reformador, surgiu uma situação peculiar a respeito das relações entre a Igreja e o Estado. O povo daquela região foi conquistado para a Reforma, mas o governo não o foi. Esta situação não era normal e resultou numa Igreja que agia independentemente do Estado. Por essa razão, a Igreja de Neuchâtel era governada unicamente por um Conselho de Pastores, capitaneada por Farel.
A Influência da Teologia de Calvino
É difícil negar o domínio da teologia de Calvino sobre a Suíça no final do século XVI e no começo do século XVII. Calvino tinha representantes de sua teologia nas universidades de toas as principais cidades.
Johann Jakob Grynäus (1540-1607) tornou-se professor de teologia na Universidade de Basiléia em 1575. Anteriormente, ele tivera tendências luteranas por causa da influência de Simon Sulzer (1508-1585), pastor titular de Basiléia, e por causa de seu próprio estudo em Tübingen. Mesmo assim, quando assumiu o professorado, ele era totalmente calvinista em seus ensinos e foi um firme defensor da Segunda Confissão Helvética. Dessa forma, ele mudou a tendência da liderança em Basiléia, rompendo com a influência luterana. Seu genro, Amandus Polanus Polansdorf (1561-1610), que também era um calvinista estrito, mantendo a idéia de uma expiação especial, estudou com Beza em Genebra, recebeu seu doutorado em Basiléia e, em 1596, tornou-se professor de Velho Testamento nesse local.
Talvez um dos teólogos mais importantes desse período tenha sido Johannes Wolleb (Wollebius, 1586-1629) de Basiléia. Ele aceitou a cadeira de Velho Testamento em Basiléia, bem como, sendo o antistes, escreveu seu Compendium Theologiae Christianae em 1626. Bromiley avalia a importância do Compendium, dele dizendo: “Como uma clara e concisa afirmação da ortodoxia da Reforma, no início do século XVII, ele dificilmente poderia ser superado”. O Compendium foi extensivamente utilizado no século XVII e bem cedo foi traduzido para o inglês e holandês.
Theodore Zwinger (1597-1654) sucedeu a Wollebius como antistes de Basiléia. Dividido entre seguir a carreira de medicina ou a de teologia, ele ingressou no ministério após uma doença que o levou às portas da morte. Como decidido seguidor de Calvino, ele debateu em Heidelberg a respeito da eleição incondicional. Foi durante seu mandato como antistes que Basiléia, finalmente, aceitou a Segunda Confissão Helvética e implementou o uso de pão ao invés de hóstias na Ceia do Senhor.
Em Berna o Calvinismo se fortalecia cada vez mais. Surgiu uma disputa entre Samuel Huber (1545-1624) e Abraham Musculus (Müslin, m. 1591), o filho de Wofgang, disputa que culminou num debate em abril de 1588. Huber ensinava a universalidade da graça, isto é, todas as pessoas são predestinadas à bem-aventurança. Aqueles que se perdem, rejeitam sua salvação por sua própria culpa. Ele também sustentava a concepção luterana da Ceia do Senhor. Musculus afirmava que cada cristão é absolutamente predestinado para crer, pela graça de Deus. Ele conquistou uma vitória completa na cidade e Huber foi expulso de Berna. Deixando a Suíça para viver na Alemanha, Huber, mais tarde, tornou-se luterano. O triunfo de Musculus sobre Huber pode ser marcado como o triunfo do Calvinismo em Berna, especialmente porque Musculus tinha assinado um papel reafirmando o ensino de Beza sobre a predestinação. Mais tarde, Hermann Dürrholz (Lignaridus), professor de teologia em Berna a partir de 1598, proporia um Calvinismo estrito durante os trinta anos em que lecionou.
Genebra entristeceu-se em 13 de outubro de 1605, quando, ali, Theodore Beza descansou de seus labores. O sucessor de Beza, Giovanni Diodati (1576-1649), já tinha sido instrutor de hebraico na Academia e seguiu a tradição teológica de Calvino e de Beza. Em 1607, ele fez uma tradução da Bíblia na língua italiana. Quando Diodati assumiu a reitoria, em 1618, Theodore Trochin (m. 1657), genro de Beza, assumiu seu lugar no ensino da teologia. Tronchin sucedera a Diodati no ensino de hebraico e línguas orientais, quando Diodati primeiramente assumiu a cadeira de teologia. Em 1644, Diodati igualmente fez uma tradução francesa da Bíblia com notas, que alcançou uma grande circulação naquela época.
Zurique sempre permaneceu aberta ao pensamento de Zwínglio, embora, conforme mencionado anteriormente, o Calvinismo tenha se tornando a teologia dominante na cidade. Em 1575, Rudolph Gwalther (1519-1585) sucedeu a Bullinger como antistes. Aparentemente, seus pais eram muito pobres e ele fora elevado ao cargo pelo próprio Bullinger. Em 1541, ele casou-se com Regula Zwingli, a filha de Ulrich. Vários sermões seus foram publicados e ele foi responsável pela impressão de várias obras de seu sogro. Pouco depois de sua morte, Johann Rudolph Stumph (1550-1592) veio a ser o antistes de Zurique. Embora o mandato de Stumph tenha sido breve, ele foi de importância especial para a disseminação do Calvinismo na Suíça. Sob sua liderança houve uma mudança na direção teológica de Zurique; apegou-se ele enfaticamente à expiação limitada. Antes dessa época, somente Peter Martyr tinha sustentado a posição de uma expiação limitada. Durante a controvérsia de Huber em Berna, Stumph tomara uma posição fortemente contrária à de Huber em favor do Calvinismo mais avançado. Johann Wilhelm Stucki (1542-1609) tornou-se o professor de Velho Testamento em 1571. Stucki tinha aprendido o caldeu e o siríaco com um rabino em Pádua e era um ardente defensor do ensino de Beza sobre a predestinação, Markus Bäumier (1555-1611) veio a ser o professor de teologia da universidade em 1607, e continuou a tradição de Zurique em disputar com os luteranos, conforme é exemplificado por sua contenda com Jakob Andreae a respeito da Ceia do Senhor. Após 1613, o antistes de Zurique era Johann Jakob Breitinger (1575-1645), que liderou a delegação suíça no Sínodo de Dort. Em 1618-1619 aconteceu, na cidade de Dordrecht, o importante Sínodo, do qual os teólogos da Suíça participaram. À exceção dos países baixos, os decretos do Sínodo foram uma expressão obrigatória de fé para os membros de Igrejas na França huguenote e na Suíça somente. Isto é importante para a história da Suíça por causa da posição que a Suíça tomou com relação à teologia proposta na escola de Saumer, na França. Em 1647, Zurique proibiu seus estudantes de ingressarem na academia de Saumer, e, em 1666, Berna a seguiu.
Zurique e Berna proibiram a freqüência às aulas lá porque os teólogos daquela escola não estavam em concordância com o Sínodo de Dort, embora afirmassem, ao mesmo tempo, que eram calvinistas. O problema de encontrar uma solução acerca da teologia de Saumer foi confrontado em parte por Johann Heinrich Heidegger (1633-1698), de Zurique, Lukas Gernler (1625-1675) de Basiléia, e por Francis Turretin (1623-1687) de Genebra, que compuseram a Formula Consensus Helvética, ou Fórmula Consensual Helvética, em 1675, como uma resposta para e contra a teologia de Saumer.
A Fórmula Consensual Helvética
A Fórmula Consensual Helvética é o último credo da Suíça calvinista. Foi escrita cerca de 111 anos após a morte de Calvino. Sua autoridade era limitada à Suíça e cessou de ter autoridade ali em 1722 – menos de meio século depois. Seu valor, entretanto, foi visto especialmente na América no século XIX; A.A. Hodge a denominou “a mais científica e completa de todas as confissões da Reforma. Sua eminente autoria e o fato de ela representar, distintivamente, a escola mais completamente consistente dos antigos calvinistas lhe confere uma importância clássica”.
Conforme mencionado anteriormente, esta Confissão foi escrita em resposta à teologia proposta na Academia de Saumer, que foi fundada por Du Plessis Mornay, em 1604. Para nosso estudo, são importantes os professores Josue de La Place (Placeus, 1596-1655), Louis Cappel (Capellus, 1585-1658), e Moyse Amyraut (Moïse Amyraldus, 1596-1664). Eles se afastaram dos ensinos de Dort sobre a inspiração verbal do Velho Testamento, predestinação particular e a imputação do pecado de Adão. A escola deixou de existir em 1685, quando Luís XVI revogou o Edito de Nantes.
Louis Cappel afirmava que a vocalização do texto hebraico tinha acontecido após ter-se completado o Talmude Babilônico, e também criticou a integridade literária do Texto Massorético do Velho Testamento. Amyraut desenvolveu a doutrina do universalismus hyotheticus (universalismo hipotético ou condicional). Essa doutrina, embora contrária ao arminianismo, parecia-se com a do luteranismo que, semelhantemente, ensinava uma expiação universal e uma eleição limitada. Amyraut também distinguia entre a necessidade física e a moral, uma idéia que reapareceria um século mais tarde na América. Placeus propunha a doutrina da imputação mediata, ou seja, que a base para a condenação da humanidade é a natureza corrompida herdada de Adão, e não o pecado de Adão.
Tendo esboçado este contexto do Consensus, podemos investigar o seu conteúdo. Em vinte e seis artigos, a Fórmula Consensual Helvética ensinava que as consoantes e as vogais do texto hebraico, do Velho Testamento, e o grego do Novo Testamento são inspirados por Deus (caps. 1-2); que o amyraldismo está em conflito com as Escrituras (caps. 4-6); que há um pacto de obras entre Deus e Adão (caps. 7-9); que o pecado de Adão é passado à sua posteridade por imputação imediata (caps. 10-12); que a chamada externa de Deus é eficaz no eleito (caps. 17-20); que o homem é incapaz de crer no Evangelho por si só (caps. 21-22); e que assim como há um pacto de obras entre Deus e Adão, assim também há um pacto de graça entre Deus e o eleito (caps. 23-25). O artigo vigésimo-sexto proíbe o ensino de novas doutrinas. O autor de Genebra, Turretin, foi um calvinista importante na época do fim do século XVII. Ele merece um tratamento mais completo do que o que pode ser oferecido no espaço deste artigo, mas temos de abordar aqui uma crítica recente de sua teologia.
Francis Turretin tornou-se professor em Genebra em 1648; seu pai, Benedict Turretin, foi pastor e professor antes dele. Um ano após a morte do jovem Turretin, foi publicada sua obra de três volumes Institutio Theologiae Elencticae, e, em 1702, foi publicada sua obra Opera, de quatro volumes. Turretin seguiu a teologia de Calvino e deveria ser classificado como um calvinista de primeira linha.
Assim como há uma acusação contra Beza, a de iniciador do Escolasticismo Reformado, da mesma forma Francis Turretin é acusado de ensinar um desvio ainda mais radical de Calvino. Alguns autores afirmaram, por exemplo, que na doutrina das Escrituras Calvino e Turretin sustentam posições que são opostas entre si. Esse dificilmente é o caso, pois esses homens defendem doutrinas semelhantes sobre as Escrituras e implementaram, basicamente, os mesmos argumentos para demonstrar sua convicção. Assim como Calvino, Turretin argumentou que a inerrância da Bíblia é resultado de sua origem divina e de sua autoridade, e que os cristãos são convencidos de que a Bíblia é a Palavra de Deus pela ação do Espírito Santo, bem como por seus sinais internos e externos. Embora seja necessário desenvolver-se mais trabalho nessa área, deveria ser enfatizada a continuidade teológica entre Calvino e Turretin através de uma mudança cultural e de clima teológico.
De varas maneiras, a morte de Francis Turretin e a posse de seu filho, Jean-Alfonse Turretin (1671-1737), na primeira cadeira de história eclesiástica de Genebra, em 1697, e de teologia, e 1705, caracterizou o fim de uma época na história da Igreja da Suíça. O jovem Turretin não concordava com o ensino de seu pai e não continuou na tradição calvinista. Na verdade, ele é conhecido como “o libertador da Igreja de Calvino da tirania do Escolasticismo calvinista”. Assim como Genebra era o lugar de residência de Calvino, pois recebeu sua direção e cuidado, assim Genebra testemunhou o sepultamento de sua teologia naquela cidade, ao vê-la substituída pela teologia e espírito caracteristicamente racionalista do Iluminismo.
A Suíça foi a terra natal do Calvinismo. O próprio Calvino é um de seus filhos, e ela também pode reivindicar ser a pátria dos grandes teólogos Beza, Bullinger, Wollebius, Heidegger e Turretin. O Calvinismo provocou grande impacto tanto na vida social como na vida religiosa da Suíça, durante os séculos XVI e XVII, e é da Suíça que provêm alguns dos mais importantes credos da Reforma. Foi em solo suíço que aconteceram muitos dos grandes debates acerca da Ceia do Senhor e de outras doutrinas fundamentais do Cristianismo reformado.
Certamente, pois, a história do Calvinismo na Suíça é um capítulo importante para uma compreensão adequada da influência de Calvino na Europa e na América.
O próximo artigo desta série é: A IDADE DE OURO DO CALVINISMO NA FRANÇA: 1533-1633
Sábado, Julho 22, 2006
Expiação - Sua Natureza IV
Apontamos nos artigos anteriores que o aspecto particular da Satisfação de Cristo que agora se encontra perante nós constitui o próprio coração desse assunto importante. Como o coração físico é para o corpo humano, assim é a natureza da Expiação para o todo deste maravilhoso tema. Quando o coração de um homem se torna seriamente afetado, o todo de sua constituição sofre. De forma semelhante, quando erramos em nossas vistas do caráter preciso dos sofrimentos e da obediência de Cristo, o todo do nosso sistema da verdade sofre danos em exata proporção. O teste ácido dos pontos de vista de um teólogo e da capacidade de um pregador de expor o Evangelho, é a sua ortodoxia neste ponto em particular. Por conseguinte, porque esta parte da Verdade é de tão vital importância, nós buscamos reverentemente examiná-la minuciosamente em sete partes, e apresentar aos nossos leitores, com certa profundidade, os resultados da nossa investigação.
Primeiro, mostramos que a obra de Cristo foi federal em seu caráter: isto é, Cristo tornou-Se legalmente um de Seu povo. Ele veio aqui não para estranhos, para Seus “irmãos” (cf. Hebreus 2:12(. Ele veio aqui não para alcançar um povo para Si, mas para assegurar um povo já Seu (cf. Efésios 1:4; Mateus 1:21}. O lugar que nós ocupávamos era “sob a lei”. Nós fomos colocados sob a lei na criação, e perfeita obediência tornou-se a condição do nosso bem-estar. Através da nossa queda em Adão nós nos tornamos incapazes de obedecer às demandas da lei e sujeitos à sua penalidade impossível de ser relaxada. A lei permaneceu sobre nós, portanto, como um capataz inexorável, demandando o impossível, e como o órgão de imutável justiça, insistindo na nossa morte. Para ser, portanto, o nosso Salvador, o Filho de Deus foi “nascido sob a lei” {Gálatas 4:4}: Ele foi, por intermédio da ordenação de Deus, transferido àquela posição. Assim, o lugar que Ele tomou foi o nosso lugar sob a lei. Ao tomar aquele lugar Ele necessariamente assumiu todas as nossas responsabilidades: obediência como uma condição de vida, sofrimento como uma conseqüência penal da desobediência.
Segundo, mostramos que a obra de Cristo foi vicária em seu caráter. A substituição foi assim definida: “Um ‘substituto' é alguém que faz ou que sofre a mesma coisa que a pessoa ou pessoas a quem ele substitui deveriam ter feito ou sofrido”. As Escrituras nos ensinam claramente que a obediência de Cristo foi tão vicária quanto o foi o Seu sofrimento, e que Ele nos reconciliou com o Pai através tanto de uma como de outra. É por esta razão que escolhemos o termo “Satisfação” em preferência ao termo mais popular, “Expiação”. “A palavra ‘Expiação' significa somente a expiação da nossa culpa através dos sofrimentos vicários de Cristo, mas nada expressa concernente à relação a qual a Sua obediência sustenta para a nossa salvação, como aquela condição meritória sobre a qual o favor Divino e a recompensa prometida foram suspensos pela aliança. Por outro lado, a palavra ‘Satisfação' expressa exatamente tudo o que Cristo fez como nosso Substituto, em nosso lugar e em nosso benefício, com o objetivo de satisfazer em nosso lugar as demandas federais da lei, e de assegurar-nos as recompensas condicionadas ao seu completo cumprimento. Sua obra toda foi da natureza de uma satisfação” (A. A. Hodge).
Terceiro, mostramos que a obra de Cristo foi penal em sem caráter. Isto segue de necessidade inevitável. Ao tornar-Se um com Seu povo criminoso, Cristo adentrou à posição deles na lei perante Deus. Ao agir como o Substituto de Seu povo, Cristo devia receber aquilo que lhes era devido por Deus. Porque os pecados de Sua Igreja foram transferidos a Cristo, Ele devia receber o salário deles. Porque Ele tomou o nosso lugar na lei, a maldição da lei devia recair sobre Ele. Porque Ele foi “feito pecado” por nós, a espada da justiça Divina devia feri-LO. Como a Bíblia nos declara em I Coríntios 15:3, o Deus-homem não somente morreu “por nós”, mas “Cristo morreu pelos nossos pecados ”, o que somente foi possível pelos nossos pecados haverem sido federalmente colocados sobre Ele. Porque os nossos pecados Lhe foram imputados, a ira de Deus recaiu sobre Ele, e Ele foi visitado com tudo aquilo que os nossos pecados mereciam. Agora estamos prontos a mostrar que —
4. FOI UMA OBRA SACRIFICIAL
Das muitas passagens que apresentam este aspecto da redenção de Cristo, podemos citar os seguintes, “ Quando a sua alma se puser por expiação do pecado” {Isaías 53:10}. “Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” {I Coríntios 5:7}. “Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” {Efésios 5:2}. “Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios . . . porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo” {Hebreus 7:27}. “Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” {Hebreus 9:14}.
Antes de tentarmos definir o caráter do sacrifício de Cristo, lembremos-nos primeiro que Ele próprio apresentou um sacrifício a Deus através de um acordo pactual . Como nos é dito em Romanos 3:25, “ Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue”. Deus somente pode ser agradado com aquilo o que Ele tenha apontado. A Aliança Eterna fornece a chave para muitos versículos na Bíblia. Por exemplo, quando Cristo estava já para ir à Cruz, Ele disse, “Agora é glorificado o Filho do homem” {João 13:31}. Mas como podia ser? Não era mais a Sua degradação? Não, pois a Trindade eterna havia designado ao Deus homem a obra da mediação, e aquilo era uma alta honra. Assim o Filho do homem o viu. É nossa glória também, reverenciarmos perante a vontade de Deus e manter os Seus desígnios.
Segundo, embora Cristo ofereceu Ele próprio um sacrifício em conformidade com o desígnio Divino, foi também por Seu próprio livre consentimento . Como em toda a nossa obediência há dois ingredientes principais para a verdadeira e correta constituição da mesma, a matéria da própria obediência, e o princípio ou fonte dela em nós; em outras palavras, o ato e a vontade por trás dele — esta última a qual Deus aceita em nós, muitas vezes sem {cf. II Co. 8:12} e sempre mais do que a ação exterior — assim na obediência de Cristo, que é ambos, o padrão e a medida da nossa, há estas duas partes eminentes, que a completam — a própria obediência, Sua prontidão de vontade para com a mesma. Primeiro, Cristo estava disposto desde a eternidade. Isto está claro a partir da Aliança, pois isto é um acordo mútuo entre duas partes. Também está necessariamente implícito no fato de Ele ser feito “um Fiador” {Hebreus 7:22}, um responsabilizar-se de Sua parte: um fiador empenha sua palavra, através do “apertar as mãos” como a frase se encontra no original: Provérbios 22:26. Novamente; sua prontidão desde a eternidade até a hora da Sua encarnação é evidente em Provérbios 8:30 , que mostra em que ou quem Ele se deleitava em todo o tempo.
Novamente, Sua prontidão é vista nestas palavras, “ [Ele] humilhou-Se a Si mesmo” {Filipenses 2:8} ativamente, e não “Ele foi humilhado”, de forma passiva. Clara e abençoadamente isto também nos é trazido em Hebreus 10:5-7. Ali encontramos Sua dedicação de Si mesmo para com a Sua grande obra, “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade.” Eis a coisa extraordinária: aprouve aqui ao Espírito Santo tornar conhecidas a nós (como o grande Secretário da Aliança), as próprias palavras que o Filho usou ao afastar-Se da presença do Pai para vir à terra. Ao que podemos acrescentar — fato maravilhoso, que faz o coração bater mais forte — também aprouve ao Espírito Santo revelar-nos as primeiras palavras pronunciadas pelo Pai quando Seu Filho retornou a Ele, “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita” {Salmo 110:1}.
O ponto com que estamos lidando agora é tão precioso que imaginaríamos estendermos-nos nele. Não houve nenhuma coação sobre Cristo: tudo o que Ele fez foi feito livremente e com satisfação. Desde o princípio dos Seus dias na carne, Ele disse, “ Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” {Salmo 22:10}, e isso, por Sua perfeita escolha. Assim também, ao aproximar-Se do fim Ele pode dizer, “O Senhor Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde; não me retirei para trás. As minhas costas ofereci aos que me feriam, e a minha face aos que me arrancavam os cabelos; não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam” {Isaías 50:5,6}. Sim, Cristo “ Se entregou a si mesmo” {Gálatas 2:20} por nós.
Terceiro, como foi designação do Pai, e a vontade do Deus homem consentiu que Ele próprio oferecesse um sacrifício, assim também foi pela agência do Espírito . “ Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus? {Hebreus 9:14}. O desempenho de todo o Seu ofício Messiânico foi pela capacitação do Espírito Santo. O próprio nome, “Cristo”, significa “O ungido ”, e Lhe foi dado por causa da unção peculiar do Espírito, conferida a Ele, unção que era única em natureza e grau. No início do Seu ministério público, Ele declarou, “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu” {Isaías 61:1}. Ele era “cheio do Espírito Santo” {Lucas 4:1}, e o mesmo Espírito que o conduziu ao deserto {cf Mateus 4:1} também O conduziu como uma Vítima disposta, à Cruz. Nós agora resumiremos as várias características do sacrifício de Cristo:
A. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Resgatador
“Há três formas genéricas de concepção sob as quais a obra operada por Cristo para a salvação dos homens é apresentada. Estas são (a) a de uma oferta expiatória pelo pecado; (b) a da redenção da vida e da liberdade dos cativos através do pagamento de um resgate em seu lugar, e (c) a satisfação da lei pelo cumprimento vicário de suas exigências. Estas diferentes concepções são formuladas para tanto limitar e para suplementar uma à outra numa maneira estritamente análoga à combinação das diferentes percepções do mesmo objeto pelos diferentes sentidos físicos. O sentido da visão, embora quando educado em conexão com as percepções coexistentes e mutuamente limitantes e limitantes dos órgãos do tato e da audição, é inigualável quanto à extensão e precisão da sua informação, todavia, se deixada a cargo de si mesma, nunca teria se desenvolvido além da vaga percepção de uma criança quanto a uma superfície assombreada de forma variada, sem qualquer sentido de relação no espaço.
“Todo o nosso conhecimento do mundo material, considerado como um objeto de sentido, provém da educação das nossas mentes no uso dos sentidos físicos em combinação , e os hábitos, costumes de julgamento e dedução a algo que são assim criados. Os homens aprendem a interpretar as impressões que lhes são feitas através de seus olhos, por intermédio de outras impressões que lhes são feitas com relação ao mesmo objeto, através dos sentidos do tato e da audição, e vice-versa. De forma similar o nosso conhecimento da verdadeira natureza da obra de Cristo e seu efeito e influência sobre nós resulta de todas as várias formas nas quais as Escrituras a apresentam em combinação , cada uma delas ao mesmo tempo limitando, modificando e suplementando todas as demais.
“Deve ser notado, ademais, que as Escrituras não apresentam estas diferentes concepções como diferentes lados de uma mesma casa para serem tomados em sucessão, mas habitualmente as apresentam em combinação, como luzes e sombras mixadas juntas na mesma pintura ao produzir a mesma expressão inteligível. Assim, nas mesmas sentenças é dito, que somos redimidos não por outra coisa, ‘ Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado' {I Pe 1:19}. ‘Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós' {Gálatas 3:13}. Isto é, Ele nos redimiu não no sentido de fazer um pagamento pecuniário em quitação por todos os nossos débitos, mas através de Seu sofrimento vicário, como os sacrifícios sangrentos do ritual Mosaico, do castigo devido pelos nossos pecados.”
“O fato aqui observado, que as mesmas sentenças inspiradas representam a Cristo no mesmo exemplo, na mesma ilustração e nas mesmas relações tais como um ‘resgate' e como uma ‘oferta pelo pecado', e como tendo feito sofrer ‘a maldição da lei' por nós, é merecedor de um cuidadoso estudo. O ensinamento da Escritura não é que Cristo seja um sacrifício, e um resgate, e alguém que tome sobre si a maldição da lei, mas que Ele é aquela espécie particular de sacrifício a qual é um resgate; que a Sua redenção é daquela natureza que é efetuada por Seu suportar a maldição da lei em nosso lugar, e que Ele nos redime ao oferecer-Se a Si mesmo como um sacrifício sangrento a Deus. Assim, o ensinamento do Espírito Santo é tão preciso quanto qualquer teoria eclesiástica da Expiação. Cristo nos salva através de ser Ele um sacrifício. Ele é especificamente uma oferta pelos pecados, no sentido Judeu. Ainda mais especificamente, pelo Seu ofertar-Se como resgate por nós, e o Seu suportar a maldição da lei em nosso lugar, e o objetivo e efeitos deste pagamento de resgate, Seu sacrifício e Seu suportar a maldição, é que Ele nos redime da maldição da lei. Não se trata de qualquer tipo de sacrifício, mas de um sacrifício pagador do resgate, sacrifício sofredor da maldição. Não se trata de qualquer tipo de redenção, mas de uma redenção sacrificial” (A. A. Hodge).
Claro está que o sacrifício de Cristo foi um sacrifício resgatador , primeiro em Mateus 20:28, “ Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” Esta declaração extraordinária chama por nossa atenção mais cuidadosa. Cristo veio aqui não para ser servido como o Senhor de tudo, mas para dar a Sua vida, não somente através e na morte, mas durante todo o curso do Seu serviço terreno. A palavra “dar” enfatiza o fato de que Ele agiu voluntariamente, sem compulsão de qualquer espécie. A razão para Ele dizer que veio para dar a Sua “vida” ou “alma” aparece da linguagem sacrificial de Levítico 17:11, “Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas.” A vida do sacrifício típico representava a vida daquele que o ofertava: a sentença de morte executada no primeiro era no que havia incorrido o segundo. Esta era a idéia fundamental de todos os sacrifícios no Velho Testamento.
Cristo aqui veio para dar a Sua vida como “um resgate”. Este termo necessariamente tem a conotação de que os muitos por quem o resgate foi pago eram cativos , em escravidão, os escravos do pecado {cf. Tito 3:3}, e como tais, ofensivos para o santo desprazer de Deus. Há uma distinção importante entre “resgate” e “redenção”: o primeiro é o preço pago para assegurar o segundo. Na Bíblia, a primeira menção de um “resgate” encontra-se em Êxodo 21:30 {“ Se lhe for imposto resgate, então dará por resgate da sua vida tudo quanto lhe for imposto”}, onde um alto preço era exigido para a libertação de alguém que, através da culpa, merecia a morte, cf. Êxodo 30:12, etc. O resgate de Cristo foi pago para satisfazer a justiça de Deus: uma vida por uma vida; o resgate sendo uma imposição penal. Cristo deu Sua vida como um “resgate por muitos”: a preposição Grega é “e”, a qual, exceto em poucos casos onde significa “contra”, é sempre utilizada num sentido substitutivo . Sua vida não foi “dada” de qualquer forma indefinida, vaga, pelo bem de outros, mas foi um “quid pro quo” {N.T.: compensação, contrapartida, algo em troca de outro} específico, morrendo exatamente no lugar de Seu povo. O “muitos” está em contraste com a Uma vida.
“... a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu próprio sangue ” {Atos 20:28}. A idéia proeminente de “resgate” é aquela de pagamento, de substituição vicária, de uma coisa se colocando no lugar de outra. Não há figura que possa tão completamente carregar esta idéia como a de alguém pagando uma compra com dinheiro. A própria idéia de compra necessariamente envolve a idéia da substituição. Eu vou a uma livraria e pergunto o preço de um livro. É um real. Eu coloco o dinheiro no balcão, e tenho de imediato a liberdade de pegar o livro. É meu. De acordo com qual princípio? O da substituição. Eu substituo o dinheiro pelo livro, eu troco o dinheiro pelo livro. Foi desta forma que Cristo comprou o Seu povo. Aos santos em Corinto Paulo escreveu, “... que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço” {I Coríntios 6:19, 20}.
“ Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados . . . Mas com o precioso sangue de Cristo” {I Pedro 1:18, 19}. Os pecadores são os prisioneiros da justiça Divina. Verdade, eles são os cativos do Diabo, mas quem os entregou a ele? O Senhor: Satã nada mais senão o executor da Sua justa sentença. E a sua salvação não é uma simples libertação sem compensação. Nem é a salvação dos pecadores culpados um ato isolado de poder, efetuado pela interposição de um braço armado cheio de poder para assegurar a sua fuga. Favor gratuito e todo o poder supremo estão ambos relacionados com o fato, mas ainda há mais: existe um preço que foi pago, um resgate depositado, equivalente sob cada ângulo à redenção pela qual foi oferecido; e aquele preço foi a satisfação de Cristo.
B. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Sacerdotal
Isto tem sido negado pelos Socinianos, e é triste ver aqueles que crêem na Divindade de Cristo adotarem este raciocínio de negação da natureza sacerdotal da oblação do nosso Salvador. Através de uma má compreensão do texto em Hebreus 8:4, eles insistem que Cristo somente adentrou ao Seu ofício sacerdotal após, como conseqüência da Sua ascenção. Que Cristo foi Sumo Sacerdote e agiu como tal enquanto Ele se encontrava na terra está abundantemente claro em Hebreus 2:17, pois Ele fez a propiciação pelos pecados de Seu povo na Cruz! É verdade que outros além de sacerdotes ofereceram sacrifícios a Deus nos tempos do Antigo Testamento, mas o Novo Testamento apresenta a Cristo não somente como Sacerdote, mas como o grande “ sumo Sacerdote” de Seu povo, e se o caráter, o propósito e o âmbito daquele ofício for interpretado (como deve ser) à luz dos tipos inspirados, então não há espaço deixado para dúvidas quanto ao significado do anti-tipo. O sumo sacerdote de Israel representava o povo perante Deus. Tirado de entre os homens, ele era ordenado para agir em favor dos homens naqueles assuntos os quais estavam relacionados para com Deus , de modo que ele pudesse trazer perante Deus ambos, ofertas e sacrifícios {cf. Hebreus 5:1}. Como a característica principal do profeta era aquela de alguém qualificado e autorizado a falar de Deus aos homens, a característica principal do sacerdote é aquela de alguém qualificado e autorizado para tratar de assuntos de homens, com Deus. O sumo sacerdote era aquele em quem culminava todo a casta sacerdotal, e ele, especialmente ele, agia em todos aspectos como o representante literal de toda a nação santa (nação separada). Primeiro, ele portava os nomes de cada tribo gravados nas pedras em seus ombros, e no peitoral sobre o seu coração {cf. Êxodo 28:9-29}. Segundo, ele fazia expiação em favor de todo o povo, confessando todos os seus pecados sobre a cabeça do bode expiatório {cf. Levítico 16:15-21}. Terceiro, se ele pecasse, tal pecado era considerado como o pecado de todo o povo {cf. Levítico 4:3}. Sua função principal era oferecer sacrifícios sangrentos em propiciação e interceder pelo povo. O cumprimento antitípico disto nos é mostrado na Epístola aos Hebreus, onde Cristo é chamado de Sacerdote por seis vezes, e de Sumo Sacerdote por doze vezes. Vamos então, muito rapidamente, apontar os vários detalhes disto.
Primeiro, em Hebreus 2:17,18 nos é dito que Cristo Se encarnou “ para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote,” etc. Segundo, em Hebreus 5:4-6 aprendemos que Cristo foi escolhido por Deus para este ofício . Terceiro, as passagens em 5:7; 8:3; 9:11-15, 25-28; 10:12-19, etc., mostram que Cristo literalmente desempenhou as funções de um sacerdote, oferecendo a Deus um sacrifício por todo o Seu povo, o qual, através da aceitação de Deus de tal sacrifício, pôs fim às ofertas típicas. Prova conclusiva disto foi fornecida por Deus, no rasgar do véu do templo, deste modo colocando de lado todo o sistema do sacerdócio Levítico. O sacrifício sacerdotal de Cristo havia agora substituído os deles.
Que Cristo foi sumo Sacerdote na terra também está claro na passagem em Hebreus 4:14: “ Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus...”. Aarão era sumo sacerdote quando ele adentrou ao santo dos santos, todavia ele era também um sumo sacerdote antes , ou ele não poderia de forma alguma ter entrado lá. Para Cristo ser um sacerdote, Ele devia ter um sacrifício, pois a própria natureza do ofício sacerdotal o exigia. Toda a atividade do sumo sacerdote, como sacerdote, consistia em oferecer sacrifício, com o desempenho de todas aquelas coisas que necessariamente o precediam e o sucediam. Agora, Cristo era ambos, Sacerdote e Sacrifício. Ele ofereceu-Se a Si mesmo a Deus. O que poderia ser mais claro do que a passagem em Efésios 5:2, “Cristo . . . Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave”? Ele tinha a ver com Deus, enquanto na relação e respeito de um “sacrifício”. Em sua pessoa dual, Ele era Sacerdote; em Sua natureza humana, Ele era o sacrifício ofertado. No termo “carne” — “condenou o pecado na carne” {Romanos 8:3} — o Espírito Santo refere-se a toda a humanidade de Cristo, e foi o “sacrifício” pelo pecado, através do qual o pecado foi “condenado”.
“Porque todo o sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; por isso era necessário que este também tivesse alguma coisa que oferecer” {Hebreus 8:3}. E o que era que Ele “ofereceu” ? Seu “próprio sangue” {Hebreus 9:12}, Seu “corpo” {cf. Hebreus 10:10}, Sua “alma” ou “vida” {cf. Isaías 53:10}, “a Si mesmo” {Hebreus 9:14}. No sacrifício de Cristo também havia um “altar”, a saber, Sua Divindade: “. . . o altar que santifica a oferta” {Mateus 23:19}. A Divindade de Cristo não somente sustentou e fortaleceu Sua natureza humana em sendo nisto um sacrifício, mas também proporcionou mérito e eficácia ao Seu sacrifício. Como aquele um sacrifício foi proveitoso por todos os pecados de todo o povo de Deus, senão pelo fato de que Aquele que o ofereceu a Si próprio era Deus, tanto quanto homem! Cristo permanece em Seu ofício de Sacerdócio {cf. Hebreus 8:1}, não somente para oferecer sacrifício novo {c.f Hebreus 10:12}, mas para interceder {cf. Hebreus 7:25}.
C. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Propiciatório
Pela queda de Adão uma triste ruptura foi criada entre Deus e o homem. O pecado irritou grandemente o santo Deus contra Suas criaturas rebeldes, e além disso, houve uma inimizade mútua compelida entre eles. De um lado, nós lemos de Deus, “ odeias a todos os que praticam a maldade” {Salmo 5:5}, “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo , e ele mesmo pelejou contra eles” {Isaías 63:10}. Do homem, lemos, “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus ” {Romanos 8:7}; “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou” {Colossenses 1:21}. Agora, Cristo aqui veio para efetuar a reconciliação entre estas duas partes alienadas, para trazer Deus e homens juntos novamente em amizade e amor. Através do verter o Seu sangue, Cristo aplacou a justa ira de Deus. Através do Seu sacrifício, Ele pacificou as exigências da justiça Divina. Alguns têm perguntado, Como podiam os eleitos serem “por natureza filhos da ira” {Efésios 2:3}, vendo que Deus sempre os amara {Jeremias 31:3}? Na linguagem de John Owen nós respondemos, “Ele nos amou, considerando do livre propósito da Sua vontade de enviar a Cristo para nos redimir e oferecer satisfação pelos nossos pecados; Ele estava irado conosco, considerando a Sua lei que foi violada, e sua Justiça provocada pelo pecado.”
As passagens principais no Novo Testamento que apresentam este aspecto particular do sacrifício de Cristo são as seguintes, “ Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça” {Rm 3:25}. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus [não pela obra do Espírito Santo em nós, nem por nós baixarmos as armas do nosso arsenal, mas] pela morte de seu Filho ” {Rm 5:10}. Nós somos “reconciliados” através de Cristo desviar de nós a cólera de Deus e proporcionar a nossa aceitação em Seu legal favor. “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo” {II Co 5:18}. “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz” {Cl. 1:20}. “Para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” {Hb 2:17}. “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados” {I Jo 2:1,2}.
Já, as passagens acima são melhor compreendidas à luz dos tipos do Velho Testamento. Lá nós lemos, “ E disse Moisés a Arão: Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles ; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga. E tomou-o Arão, como Moisés tinha falado . . . e fez expiação pelo povo . . . e cessou a praga.” {Números 16:46-48}. Novamente, lemos, “o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos . . . Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei. . . .” {Jó 42:7 – 9}. O que poderia ser mais claro? A ira de Deus foi apaziguada por sangue vertido! Resta ainda a ser apontado, que a palavra em Hebreu para “expiação” e a palavra em Grego para “propiciação” são uma e a mesma.
D. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Expiatório
Toda a humilhação e todo o sofrimento de Cristo, desde o Seu nascimento e até a Cruz, foram investidos de um caráter sacerdotal e sacrificial, como constituindo Sua oferta única de Si mesmo como um sacrifício, propiciatório de Deus e expiatório pelos pecados de Seu povo; todavia a ênfase das Escrituras mostra que a oblação de Cristo, de Si mesmo como vítima foi principalmente manifesta e concentrada no derramar de Sua alma até a morte. A fé é direcionada à Cruz, não como apresentando meramente o final e o clímax histórico, mas a consumação indispensável de tudo o quanto precedeu, pois a herança do pecado não é somente o sofrimento, mas sim a morte .
O termo “propiciação” define o vínculo que o sacrifício de Cristo teve para com Deus : tal sacrifício O aplacou. O termo “expiação” refere-se ao vínculo que o sacrifício de Cristo teve para com os homens : tal sacrifício removeu os pecados de Seu povo.
“ Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados” {Mateus 26:28}. O termo “remissão” é um termo judicial, e significa a anulação da culpa, a remoção de todos os motivos de punição. “Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” {Hebreus 9:26}. Cristo de tal maneira “removeu” todo o pecado de Seu povo, de modo que eles agora estejam perfeita e finalmente absolvidos na alta corte de Deus, de forma que nenhuma acusação possa jamais ser intentada contra eles {cf. Romanos 8:33}. O tipo no Velho Testamento foi gloriosa e abençoadamente cumprido, “Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos ; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor ” {Levítico 16:30}. Desta forma os filhos crentes de Deus podem dizer, “...e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” {I João 1:7}.
Este foi uma das principais finalidades da Satisfação de Cristo para com os santos: tomar sobre Si os pecados de Seu povo, e de tal forma expiá-los que dos tais fosse o fim. Aqueles que não estão protegidos pelo precioso sangue de Cristo tem a dizer, “Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto” {Salmo 90:8}. Mas aqueles que, por intermédio da soberana graça, foram levados a confiar no Cordeiro, podem exclamar, “Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” {Salmo 103:12}. A nossa culpa foi anulada por completo. Fomos completamente libertos de um castigo merecido. Não há nenhuma acusação sequer, listada na corte de Deus contra nós. Prova disso é que, “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” {Hebreus 10:12}. Portanto, “Cristo . . . aparecerá segunda vez, sem pecado , aos que o esperam para salvação” {Hebreus 9:28. Aleluia! !
A. W. P
Traduzido por: Eli Daniel da Silva
Segunda-feira, Julho 17, 2006
Escravidão da Vontade - M. Lutero.
Aqules que pregam o "livre-arbítrio" afirmam que se não há "livre-arbítrio" então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa.
O que dirão os defensores do "livre-arbítrio" a respeito da palavra "gratuitamente", em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são "justificados gratuitamente por sua graça". Como interpretam "por sua graça"? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou o seu "livre-arbítrio", e tentou tornar-se justa, enquanto que a outra não o fez. Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pouco através de seu "livre-arbítrio" para obterem a salvação. Afirmam que o "livre-arbítrio" tem apenas um pouco de merecimento - não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o "livre-arbítrio" torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igualmente que se as pessoas não tentam encontrá-LO, cabe exclusivamente a elas a culpa, se não recebem a graça divina.
Portanto, sem importar se esse "livre-arbítrio" tem grande ou pequeno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do "livre-arbítrio". Todavia, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados "gratuitamente". Aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" possui apenas um pequeno mérito erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o "livre-arbítrio" tem mérito suficiente para obter o favor de Deus. Portanto, em quase coisa alguma diferem um do outro.
Na verdade esses defensores da idéia do "livre-arbítrio" nos dão um perfeito exemplo do que significa "saltar da frigideira para dentro do fogo". Quando eles dizem que o "livre-arbítrio" tem apenas um pequeno mérito, eles pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o "livre-arbítrio" envolve um grande mérito (Os chamados Pelagianos) conferem um elevado preço a graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, podendo ser obtida por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas idéias usando apenas uma palavra - "gratuitamente" (Rm 3.24). Mas adiante, em Romanos 11.6, ele assevera que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: "E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem se importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do "livre-arbítrio", estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteiramente da graça divina.
Passarei agora a considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2,3: "Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça". Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto em questão é que essa justiça não lhe outorgou salvação. Ninguém discorda que as obras más não saõ aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino, entretanto, é que nem mesmo as boas obras nos tornam aceitáveis diante de Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5, Paulo contrasta a perssoa "que trabalha" com aquela que "não trablha". A justificação, que equivale a aceitação diante de Deus, não é atribuída "àquele que trabalha", mas àquele que "não trabalha" mas crê no Senhor. Não há posição intermediária.
Argumento 08 - Um punhado de refutações.
Preciso mencionar, de passgem, mais alguns argumentos contra o "livre-arbítrio". Mas me referi a eles apenas de modo breve, embora cada um despes, per si, pudesse destruir completamente a idéia do "livre-arbítrio".
Por exemplo, a fonte da graça mediante a qual somos salvos é o propósito eterno de Deus. Isso sem dúvida ainda anula a sugestão de que Deus é gracioso para conosco por causa de alguma coisa que possamos fazer.
Um outro argumento alecerça-se sobre o fato que Deus prometeu a salvação por meio da graça (a Abraão), antes mesmo do Senhor haver dado a lei. Paulo argumenta, em Romanos 4.13-15 e Gálatas 3.15-21, que se somos salvos mediante a observância da lei, através do "livre-arbítrio", isso significaria que a promessa da salvação pela graça foi cancelada. E a fé, igualmente, perderia seu valor.
Paulo também nos diz que a lei pode apenas revelar o pecado, sendo incapaz de removê-lo. Visto queu o "livre-arbítrio" só pode operar com base na observância da lei, não pode haver retidão aceitável diante de Deus obtida pelo "livre-arbítrio"
Um último lugar, estamos todos debaixo da condenação divina, em face da pecaminosa desobediência de Adão.Estamos todos sujetito a essa condenação, desde nosso nascimento, incluindo aqueles que são possuidores do "livre-arbítrio" - se pessoas assim existem! De que outra forma então poderia o "livre-arbítrio" nos ajudar, senão a pecar e a merecer a condenação?
Eu poderia ter deixado de lado esses argumentos, apresentando tão somente um comentário geral sobre os escritos de Paulo. Todavia, quis demonstrar quão ignorantes mentalmente são meus oponentes, por deixarem de perceber com clareza essas simples questões. Deixo que meditem sozinhos a respeito desses argumentos.
Quinta-feira, Julho 13, 2006
A Escravidão da Vontade - Argumentos 4 e 5 M. Lutero.
O Argumento a favor do "livre-arbítrio" é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: "Se nada podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?" A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: "...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz - à morte, ao inferno e à ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusivamente através de Jesus Cristo, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o "livre-arbítrio" podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o "livre-arbítrio precisam da luz da lei para mostar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gálatas 3.19: "Qual, pois, a razão de ser da lei?" Entretanto, a resposta de Paulo á sua pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência da "livre-arbítrio". Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo. Portanto,as palavras de Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o "livre-arbítrio" seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7:"...pois não teria conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás". Isso significa que o "livre-arbítrio" nem mesmo reconhece o que o pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo?
Argumento 05 - A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o "livre-arbítrio" é falso.
No trecho de Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: "Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos (e sobre todos) os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé..." Essas palavras são quais raios contra a iséia do "livre-arbítrio". Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem mediante a observância da lei. O "livre-arbítrio" só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra claramente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Sem importar o quanto possamos imaginar um suposto "livre-arbítrio", como capaz de praticar boas obras ou de tronar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza inteiramente diferente. É impossível que o "livre-arbítrio" consiga resistir a assaltos de versículos como esses.
Esses versículos desfecham ainda outro raio contra o "livre-arbítrio". Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos(Rm 3.22). Ninguém pode negar o suposto poder do "livre-arbítrio" é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o "livre-arbítrio", se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus.
O trecho de Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz que todos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante o próprio "livre-arbítrio". Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos aceitáveis diante de Deus através do "livre-arbítrio", então Paulo seria mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência ensina-nos que coisa alguma em nós agrada a Deus. Pergunte àqueles que defendem o "livre-arbítrio" se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E isto que Paulo claramente afirma
Até mesmo aqueles que acreditam no "livre-arbítrio" precisam concordar comigo que não podem glorificar a Deus a Deus, contando apenas com seus próprios recursos. A despeito do seu "livre-arbítrio", eles têm dúvida se podem agradar a Deus.Assim, eu provo, com base no testemunnho da própria consciência deles, que o "livre-arbítrio" não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o "livre-arbírtio" é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer idéia de "livre-arbítrio".
O Senhor dos Anéis - Simplicidade.
Todavia, ninguém menos que o venerável Gandalf, o Cinzento, um mago de certo renome, escolheu um hobbit, o senhor Bilbo Bolseiro, como principal ladrão de um grupo de anões que tentava reclamar a casa de um ancestral do poderio de um terrível dragão. Sua escolha parecia o cúmulo da tolice para um anão, mas, no final, eles descobriram que a esperteza, a desenvoltura e a liderança podem, às vezes, ser encontadas nos lugares mais improváveis. A verdade é que, possivelmente, eles não teriam sido bem-sucedidos em sua aventura não fosse a assistência daquele ladrão.
Aparentemente Gandalf tinha alguma idéia do potencial de Bilbo, mas é bem possível que ele não imaginasse as conseqüências de sua escolha. O fato de que Bilbo encontraria o Um Anel, perdido por gerações, além de desempenhar um papel importante no maior conflito da Terceira Era da Terra-média era algo que certamente estava ausente dos mais grandiosos sonhos de qualquer sábio, além de isso não ter sido predito em nenhuma das antigas profecias. Aquilo que parecia pouco mais do que um louco capricho, uma curiosa nota de rodapé nos anáis da história, tornou-se a semente de algo que abalaria a torre Barad-dûr, a antigo fortaleza de Sauron, O Senhor do Escuro.
Nada na longa e agitada história do Condado sugeriria que seus habitantes pudessem ser capazes de lidar com tal poder. Séculos de paz haviam deixado os hobbits muito pacíficos. Ainda assim, porém, eles não haviam perdido a força com a qual foram criados. "Há uma semente de coragem escondida (bem no funda, é verdade) no coração do hobbit mais gordo e mais tímido, aguardando algum perigo definitivo e desesperador que a faça germinar". (pág 144).
É da natureza das sementes permanecerem dormentes pelo período que for necessário. Depois de despertarem, elas precisam de tempo e cuidado para crescer. Pessoas simples podem ter uma profunda falta de visão e serem provincianas, mas o custo de obeter sabedoria e perspectiva normalmente é o flagelo. Como Frodo diz, analisando a sua partida:
"Gostaria de salvar o Condado, se pudesse - embora tenha havido ocasiões em que pensei não ter palavras para descrever a estupidez e idiotice dos habitantes daqui, e senti que o bom para eles seria um terremoto ou uma invasão de dragões. Mas não sinto assim agora. Sinto que enquanto o Condado permanecer a salvo e tranqüilo atrás de mim, a minha andança será mais suportável: saberei que em algum lugar existe um chão seguro, mesmo que meus pés não possam pisá-los de novo" (pag 64).
Um exemplo da impressionante simplicidade dos hobbits vem da festa de aniversário que abre o romance. Estão ali os Justa-correia, os Corneteiros e os Pés-soberbo, além de todos os outros clãs reunidos - nem tanto para honrar Bilbo, mas para tirar vantagem da oportunidade de festejar de graça - aprecindo os fogos de artifício espetaculares e suportanto o inevitável Discurso. Eles não entendem e nem querem entender qual foi o papel que Bilbo desempenhou em derrotar o dragão ou em trazer paz aos Anões, aos Elfos das matas e ao Homem do Lago. Poucos no Condado até mesmo acreditam nesses contos; na melhor das hipóteses, eles acham Bilbo excêntrico e , na pior, totalmente louco. É difícil ter paciência com pessoas assim.
A força não é criada pela adversidade - é simplesmente despertado por ela. Os Hobbits são defendidos por muitos povos mais desenvolvidos que não acreditam que a simplicidade seja um sinal de fraqueza. Como diz Aragorn, no Conselho de Elrond: "Se as pessoas estão livres do medo e da preocupação, é porque são simples, e devemos mantê-las assim em segredo". (pág. 258) - Mas essa proteção não diminui a possibilidade de que os atos heróicos, em sua maioria, possam ser realizados - ou pelo menos tentados - pelas mesmas pessoas simples que são por eles protegidas.
Antes do final de tudo, os hobbits passarão por sua calamidade e todos terão a chance de aprender de que matéria eles são feitos, pois sabedoria e perspectiva são muito mais importantes do que segurança. Mas isso é para depois. Nesse meio tempo, eles precisam se proteger dos "inimigos que congelariam seu coração" (pag 258) por um tempo suficientemente extenso para enfrentar um desastre das proporções de um hobbit. É de se esperar que, mesmo depois do dia de ajuste de contas, eles continuarão a ser indivíduos simples, apenas um pouco mais sábios e compassivos. Na verdade, durante toda a aventura pela qual passarm os três hobbits que acompanham Frodo, eles apelam para sua simplicidade nos momentos mais obscuros e descobrem que isso os sustenta.
Por outro lado, existem muito mais coisas no coração do mais simples de nossos amigos do que podemos notar. Até mesmo Frodo se surpreende com a pesarosa e poética resposta que seu amigo Sam deu aos elgos que ambos encontraram enquanto deixavam a Vila dos Hobitts.
"(...) São muitos diferentes do que esperava - tão velhos e jovens, e tão alegres e tristes, de certo modo...
Frodo riu de Sam, bastante surpreso, como quem esperasse enxergar algum sinal externo da estranha mudança que se operara nele. Não parecia a voz do velho Sam Gamgi que julgava conhecer. Mas era o mesmo Sam Gamgi ali sentado, a não ser por sua expressão extraordinariamente pensativa" (pag 89).
É muito fácil cair em padrões de relacionamento nos quais todas as reações são previsíveis, especialmente porque nós mesmos não estamos dizenso nada novo. É preciso ver os amigos em contextos diferentes, na companhia de estranhos, para que nossos olhos sejam abertos para as insuspeitas profundezas de seu caráter.
Se a simplicidade é uma virtude, então viver de modo simples e valorizar prazeres simples é tudo o que se necessita para que nossa vida tenha valor. Não precisamos nos sentir culpados quando suspeitamos que deveríamos estar fazendo mais pelo Reino de Deus, pois, quando precisar de nós, ele nos chamará; até chegar esse momento, podemos ficar satisfeitos em poupar nossas energias; aprofundar nossas raízes e desfrutar das boas coisas que nos foram dadas. Isso não quer dizer que não devemos buscar a melhoria ou ministrarmos àqueles que estão ao nosso redor. Quer simplesmente dizer que limitar nossos esforços à nossa família imediata e aos nossos vizinhos é suficiente até que nosso chamado seja revelado.
Pode ser que Deus nos chame para uma jornada de perigo e terror, sem possibilidade de volta; ou então, podemos simplesmente ser chamados para confrontar um chefe cujas práticas parecem um pouco duvidosas. A pessoa mais simples entre nós não está a salvo dessas possibilidades. Por outrolado, pode ser que nosso chamado seja simplesmente viver bem no meio da comunidade onde nascemos. Isso não deve ser desprezado. O encontro de Frodo e seus amigos nos enche de esperança de que receberemos a força e a ajuda de que precisamos para completar qualquer tarefa que for colocada diante de nós.
Justificação - Muito Antes de Lutero
Introdução
Não há doutrina mais importante para a teologia evangélica do que a doutrina da justificação pela fé somente - o princípio sola fide da Reforma. Martinho Lutero o definia como sendo o artigo que determinava se uma igreja estava de pé ou caindo.
A própria Bíblia coloca sola fide como única alternativa a um sistema de justiça pelas obras que leva à maldição. "Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça"(Rm 4.4,5, ênfase acrescentada). A apostasia de Israel se baseou no seu abandono da justificação somente pela fé: "Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus"(Rm 10.3). Em outras palavras, aqueles que confiam em Jesus Cristo para a justificação pela fé somente recebem uma justiça perfeita que lhes é atribuída. Os que tentam estabelecer sua própria justiça ou misturam fé com obras só recebem o salário terrível que é o devido aqueles que não alcançam o alvo.
Na verdade, a justificação foi a doutrina que acendeu a Reforma. A teologia católica havia negligenciado o assunto por séculos. Roma estava despreparada para responder ao desafio doutrinário dos primeiros reformadores. Por isso, a resposta inicial da Igreja foi desviar o debate para a questão das reformas morais e eclesiásticas. Martinho Lutero ficou frustrado pela relutância de Roma em falar sobre doutrina, especificamente sobre a justificação pela fé. Ele até declarou que teria prazer em ceder ao papa em matérias eclesiásticas se o papa abraçasse o verdadeiro evangelho. Lutero entendeu que todas as ofensas morais e eclesiásticas toleradas pela Igreja foram em última instância resultado do obscurecimento da justificação. A doutrina da justificação somente pela fé teria automaticamente posto fim à venda de indulgências e outros abusos do poder eclesiástico.
Portanto, quando a pregação dos reformadores sobre a justificação pela fé começou a despertar as massas para a verdade da Bíblia, foi inevitável que a Igreja Católica Romana respondesse.
O Evangelho segundo Roma
A Igreja finalmente expôs seus pontos de vista sobre a justificação em meados do século XVI no Concílio de Trento, e muito do trabalho do Concílio visava especificamente colocar a doutrina católica em forte contraste às idéias protestantes. No tratamento dado à justificação, mais do que em qualquer outro ponto, a divergência entre Roma e os reformadores é bem acentuada.
Os Cânones e Decretos de Trento não são meramente a opinião arcaica de alguns bispos medievais. Representam a posição oficial da Igreja [Católica Romana] até o dia de hoje. Todos os concílios católicos subseqüentes têm reafirmado de maneira uniforme os pronunciamentos de Trento. Na verdade, o Segundo Concílio Vaticano dos anos 60 declarou serem essas doutrinas "irreformáveis". Ordena-se a todos os católicos fiéis que as recebam como verdade infalível. Portanto, para entender a doutrina católico-romana da justificação, precisamos retornar ao Concílio de Trento.
Trento não negou abertamente que os crentes sejam salvos pela divina graça. Para dizer a verdade, o Concílio declarou especificamente que "Deus justifica os pecadores pela graça, por meio da redenção que está em Jesus Cristo".(1) Isso, é claro, é um eco de Romanos 3.24. Mas a Escritura vai um passo além do que Trento estava disposto a ir. Romanos 11.6 diz: "E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". Trento assumiu uma posição que fazia com que as obras fossem parte essencial da justificação. Fazendo assim, ficaram só com uma graça que "já não é graça". Portanto, embora Trento começasse com uma afirmação da graça divina, a doutrina da justificação que descreveu realmente é já um "outro evangelho" que corrompe a graça de Deus.
O Conselho viu a justificação como um processo pelo qual o pecador é realmente tornado justo. Em outras palavras, Trento dizia que a justificação compreende todo o processo de santificação. Segundo o Concílio, a justificação é "não meramente a remissão de pecados, mas também a santificação e renovação do homem interior, pela recepção voluntária da graça e dos dons pelos quais um homem injusto se torna justo".(2)
Além disso, segundo o Concílio, a justificação é um processo que dura toda a vida.(3) Na verdade, o processo se estende além dessa vida e entra na outra. O purgatório é necessário para apagar a dívida toda do castigo eterno:
"Se alguém diz que a culpa é perdoada a todo pecador penitente depois de ter sido recebida a graça da justificação, e que a dívida do castigo eterno é de tal maneira apagada que não fica nenhuma dívida de castigo temporal para ser descontada, seja neste mundo, seja no próximo ou no Purgatório, antes que a entrada ao reino dos céus possa ser aberta - que seja anátema".(4)
Não há garantia alguma de que alguém há de perseverar no processo,(5) e alguns poderão cair pelo caminho e ser perdidos para sempre. Mas "aqueles que, pelo pecado, tiverem caído da graça da justificação recebida poderão ser novamente justificados... pelo sacramento da penitência".(6)
Em outras palavras, as boas obras são necessárias para preservar a justificação, e quando os crentes pecam, precisam ganhar de novo sua justificação por meio de um ritual religioso. Isso é uma negação inconfundível do Sola Fide.
Ao mesmo tempo que prestava falso culto à importância da fé na justificação, Trento declarava que a causa instrumental da justificação (o meio pelo qual é obtida) não é a fé; e sim "o sacramento do batismo".(7)
E dentro desse mesmo raciocínio, o Concílio determinou: "Se alguém disser que a justiça recebida não é preservada e que também não é aumentada perante Deus por boas obras, mas que essas obras são apenas frutos e sinais da justificação obtida, e não a causa desse aumento, que ele seja anátema".(8) Em outras palavras, as obras são necessárias para se obter, preservar e aumentar a justificação. Se as obras não forem acrescidas à fé, a justificação não atinge o seu alvo.
Até mesmo a graça é conferida por meio de obras no sistema católico-romano:
"Se alguém disser que pelos ditos sacramentos ... a graça não é conferida por meio da obra executada, e [disser] que a fé nas promessas divinas sozinha é suficiente para obtenção da graça, que seja ele anátema".(9)
O Concílio emitiu ainda um repúdio à sola fide: "Se qualquer pessoa disser que pela fé somente o pecador é justificado, com o sentido de que nada mais seja requerido para cooperar a fim de obter a graça da justificação... que ele seja anátema".(10) Em outras palavras, Trento decretou que qualquer pessoa que afirme ser justificado com base na fé sozinha sem as obras, será condenada à maldição eterna.
Graça Infundida, e Não Justiça Imputada
Como se notou anteriormente, quando a justificação é misturada com a santificação, a base para a justificação torna-se a justiça imperfeita do próprio pecador, em vez da justiça perfeita de Cristo. Trento reconhecia isso de modo explícito:
Se alguém disser que os homens são justificados seja pela imputação da justiça de Cristo somente, seja pela remissão de pecados somente, para exclusão da graça e amor que é derramado em seus corações pelo Espírito Santo e que é inerente neles; ou mesmo que a graça pela qual somos justificados é somente o favor de Deus - que ele seja anátema".(11)
Aqui o Concílio estava claramente contradizendo o ensino da Reforma, que a justiça perfeita de Cristo, atribuída como crédito na conta do pecador, é a base mediante a qual nós somos aceitos diante de Deus. Em lugar disso, o Concílio declarou que a graça é infundida no coração do crente, resultando numa justiça que é inerente (i.e, a justiça do próprio crente). Essa justiça inerente - que precisa ser aperfeiçoada pela santificação e purgatório - oferece a base para que sejamos aceitos diante de Deus.
Um outro Evangelho, e Não a Mensagem Bíblica
A Escritura não ensina nada disso. Na verdade, a doutrina católica da justificação é precisamente o que Paulo condenou como sendo "um outro evangelho". De acordo com a Bíblia, Deus "atribui justiça independentemente de obras"(Rm 4.4-6). Paulo considerava todas as outras coisas como lixo e refugo por amor a uma doutrina correta da justificação: "para conseguir a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria que procede de lei, senão mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé" (Fp 3.8,9, ênfase acrescentada). Isso é um repúdio claro da própria doutrina ensinada pelo Concílio de Trento!
A Bíblia também ensina que a justificação é um ato declarativo de Deus, e não um processo. Jesus prometeu salvação imediata aos crentes: "quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida"(Jo 5.24). Esse versículo afirma claramente que na base da fé somente, os pecadores passam da morte para a vida eterna. A santificação é resultado, não pré-requisito; e o purgatório sequer é mencionado na Escritura. De fato, onde quer que a Bíblia fale da justificação dos crentes, sempre fala de um evento no pretérito que ocorreu no momento da fé: "[Tendo sido] Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo"(Rm 5.1, ênfase acrescentada). "Como agora fomos justificados pelo seu sangue, muito mais ainda seremos salvos da ira de Deus por meio dele!"(Rm 5.19 NIV, ênfase acrescentada). "Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus"(Rm 8.1, ênfase acrescentada). Nossa justificação é um fato realizado, não um projeto inacabado.
A Bíblia também esclarece que a justificação é pela fé somente, não pela fé mais as obras: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie"(Ef 2.8,9).
A justificação pela fé somente é e sempre foi o único caminho da salvação:
"Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus imputa justiça, independentemente de obras" (Rm 4.3-6).
O que devemos fazer para sermos salvos? A Bíblia responde a essa pergunta nos termos mais claros possíveis: "Crê no Senhor Jesus e serás salvo"(At 16.31). As obras não fazem parte nenhuma de nossa justificação. A única coisa que pode tornar qualquer pecador aceitável a Deus é o mérito imputado do Senhor Jesus Cristo.
O Evangelho de acordo com Jesus
É certo que se a justificação pela fé somente é uma doutrina tão crucial, seria de se esperar que a encontrássemos ensinada de maneira clara pelo nosso Senhor. De fato, é precisamente isso que descobrimos.
Embora Cristo não tenha dado nenhuma explicação formal da doutrina da justificação (como fez Paulo em sua Epístola aos Romanos), a justificação pela fé fundamentava e permeava sua pregação do evangelho. Embora Jesus nunca tenha discursado sobre o assunto, é fácil demonstrar a partir do ministério evangelístico de Jesus que ele ensinava a sola fide.
Por exemplo, foi o próprio Jesus quem declarou: “quem ouve a minha palavra e crê...passou da morte para a vida” (Jo 5.24) – sem passar por qualquer sacramento ou ritual, e sem qualquer período de espera ou purgatório. O ladrão na cruz é o exemplo clássico. Mediante a prova de sua tão pequenina fé, Jesus lhe disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”(Lc 23.43). Não foi exigido nenhum sacramento, nenhuma obra, para que ele obtivesse a justificação.
E mais ainda, as muitas curas que Jesus realizou foram evidência física de seu poder de perdoar pecados (Mt 9.5,6). Quando curava, ele com freqüência dizia: “a tua fé te salvou” (Mt 9.22. Mc 5.34; 10.52; Lc 8.48; 17.19; 18.42). Todas essas curas foram lições concretas sobre a doutrina da justificação pela fé somente.
Mas a ocasião única em que Jesus realmente declarou alguém “justificado” oferece o melhor vislumbre para se entender a doutrina conforme ele a ensinou:
"Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros. Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando de pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para a sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado" (Evangelho Segundo Lucas 18.9-14, ênfase acrescentada)
Essa parábola certamente chocou os ouvintes de Jesus! Eles "confiavam em si mesmos, por se considerarem justos" (v. 9) - a definição exata de farisaísmo. Seus heróis teológicos eram os fariseus, que se atinham aos mais rigorosos padrões legalistas. Jejuavam, exibiam suas orações e doação de esmolas, faziam muito mais do que era exigido quando da aplicação das leis cerimoniais que Moisés tinha realmente prescrito. "Quanto à justiça que há na lei", consideravam-se "irrepreensíveis" (cf. Fp 3.5,6).
Contudo, Jesus tinha deixado multidões pasmas quando disse: "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (Mt 5.20) - seguido de "sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste" (Mt 5.48). Não há dúvida de que ele estabeleceu um padrão humanamente impossível, pois ninguém poderia superar a vida rigorosa dos escribas e fariseus.
Em seguida pasmou ainda mais os ouvintes com uma parábola que parecia colocar um cobrador de impostos detestável em melhor posição quanto à espiritualidade do que um fariseu que orava.
A lição de Jesus é clara. Estava ensinando que a justificação é pela fé somente. Toda a teologia da justificação está ali contida. Mas sem entrar em teologia abstrata, Jesus nos pinta o quadro com uma parábola.
Um Ato Judicial de Deus
A justificação do cobrador de impostos foi uma realidade que aconteceu no mesmo instante. Não houve processo, intervalo de tempo, nem medo do purgatório. Ele "desceu justificado para sua casa" (Lc 18.14) - não por causa de qualquer coisa que tivesse feito, mas por causa daquilo que fora feito a seu favor.
Observe que o cobrador de impostos compreendia sua própria falta de capacidade. Ele tinha uma dívida impossível e sabia que não tinha meios de pagá-la. Tudo que podia fazer era se arrepender e rogar por misericórdia. Compare sua oração com a do fariseu arrogante. Que contraste! Ele não recitou o que havia feito. Sabia que mesmo suas melhores obras eram pecado. Não ofereceu fazer nada por Deus. Simplesmente rogou pela misericórdia divina. Estava buscando que Deus fizesse por ele aquilo que ele próprio não podia fazer. Essa é a natureza da "penitência" que Jesus pedia.
Pela Fé Somente
Além disso, esse homem saiu justificado sem fazer nenhum ato de penitência, sem realizar uma só obra meritória que fosse. Sua justificação estava completa sem qualquer uma dessas coisas porque aconteceu só pela fé. Tudo que era neessário para expiar seu pecado e lhe dar perdão já fora feito por ele. Estava justificado pela fé naquele momento.
Repetindo, ele se contrasta totalmente com o fariseu presunçoso, tão certo de que todos seus jejuns e dízimos e outras obras o tornavam aceitável para Deus. Mas enquanto o operoso fariseu continuava não-justificado, o coletor de impostos crente recebia a plena justificação pela fé somente.
Uma Justiça Imputada
Você se lembra da declaração de Jesus no Sermão do Monte "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (Mt 5.20)? Contudo aqui ele afirma que esse cobrador de impostos - o mais ímpio dos homens - estava justificado! Como um pecador desse pôde obter uma justiça que excedia a do fariseu? Se o padrão é a perfeição divina (v.28), como podia qualquer cobrador de impostos traidor tornar-se justo aos olhos de Deus?
A única resposta possível é que recebeu uma justiça que não era dele próprio (cf. Fp 3.9). A justiça lhe foi atribuída mediante a fé (Rm 4.9-11).
De quem era a justiça que foi atribuída a ele? Só podia ser a justiça perfeita de um Substituto sem defeito, que por sua vez devia suportar os pecados do cobrador de impostos e sofrer penalidade da ira de Deus em lugar dele.
O cobrador de impostos ficou justificado. Deus o declarou justo, atribuindo-lhe a plena e perfeita justiça de Cristo, perdoando-o de toda injustiça, e livrando-o de toda condenação. Depois disso ele se apresentou diante de Deus para sempre na posição de perfeita justiça que tinha sido computada a seu favor.
Esse é o sentido da justificação. É o único evangelho verdadeiro. Todos os outros pontos da teologia emanam desse. Como escreveu Packer: "A doutrina da justificação pela fé é como Atlas: suporta um mundo em seus ombros, o conhecimento evangélico completo da graça salvadora".(12) A diferença entre Roma e os reformadores não está em teimas sob minuciosidades teológicas. Um entendimento correto sobre a justificação pela fé constitui o fundamento do evangelho. Não é possível errar nesse ponto sem corromper junto todas as outras doutrinas. E é bem por isso que todo "outro evangelho" está sob maldição eterna de Deus.
Realmente, não se pode dizer que Lutero tenha inventado a idéia da justificação pela fé somente. Muitos anos antes de Lutero ela foi ensinada por Santo Agostinho, por Paulo, por Jesus e por Moisés. Mesmo remontando ao Jardim do Éden, Adão e Eva perceberam logo após o seu pecado que as folhas da figueira com que tentaram cobrir a vergonha do que fizeram eram deploravelmente inadequadas. O evangelho é dado em Gênesis 3.21 quando Moisés nos diz que Deus os vestiu. Precisavam de algo que não podiam providenciar por si próprios; é Deus dando ao homem aquilo de que carecia para se posicionar na presença favorável dele - esta é a essência do evangelho. Lutero só reafirmou o que os cristãos já compreendem há séculos, que a justificação é pela fé somente.
J. MacArthur, Jr.
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Notas
1 Cânones e Decretos do Concílio de Trento, seção 6, cap.6.
2 Trento, seção 6, cap 7.
3 Trento, seção 6, cap. 10.
4 Trento, seção 6, cânone 30.
5 Trento, seção 6, cap. 13.
6 Trento, seção 6, cap. 14.
7 Trento, seção 6, cap 7.
8 Trento, seção 6, cap. 24.
9 Trento, seção 7, cânone 8.
10 Trento, seção 6, cânone 9.
11 Trento, seção 6, cânone 11.
12 Parker, em Buchanan, p.2.
Quarta-feira, Julho 12, 2006
Expiação - Sua Natureza III
Na busca de expor a natureza da Satisfação que o Mediador rendeu a Deus em lugar do Seu povo, nós vimos, primeiro, que Sua obra foi uma obra federal : que Cristo entrou neste mundo não como um indivíduo privado, mas num caráter oficial, como o Cabeça pactual dos eleitos de Deus, como o seu Representante legal. Isso excepcionalmente aparece em Seu primeiro pronunciamento ministerial. Em Lucas 2:49 temos a primeira palavra pessoal , que as Escrituras registram como procedendo daqueles lábios nos quais a graça havia sido “derramada” (Salmo 45:2, “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre.”), a saber: “ Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? ”. Ali Ele expressou a Sua relação para com Deus , para com Aquele que O havia enviado: Ele havia vindo aqui para tratar dos negócios, para fazer a obra que o Pai O havia designado. Aquelas palavras foram por Ele pronunciadas enquanto um Garoto de doze anos. Um intervalo de dezoito anos se passou antes de ouvirmos um outro pronunciamento Seu, feito como nunca um homem o fez, a saber, “ Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” (Mateus 3:15). Aqui Ele expressou a Sua relação para com o Seu povo , para com aqueles no lugar de quem Ele havia sido enviado.
O Salvador havia agora saído da reclusão de Nazaré e Se apresentado para o batismo, nas mãos do Seu anunciador. João deve ser considerado como a expressão viva e o ponto culminante da lei e dos Profetas (Lucas 16:16, “ A lei e os profetas duraram até João...”) que tiveram por longos séculos testemunhado para a vinda do Messias, e os quais agora, pelo seu grande representante (Mateus 11:11, “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista...”), devia apresentar Cristo ao Seu ofício (João 1:31, “E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.”). Como Cristo reconheceu a eles (ao dirigir-se a João), também eles (nEle, seu representante) deviam confirmá-Lo como a verdade dos Profetas e a substância dos tipos da lei. A princípio João hesitou, e Cristo disse “Deixa por agora .” Em Grego, o termo “agora” é enfático: deixa em Meu presente estado de humilhação, como um ato apropriado ao Meu ofício como Substituto . O motivo apresentado foi: “porque assim Nos convém”, não “Me”, no sentido pessoal, mas “nós” — Cristo sendo um com aqueles a quem Ele havia vindo salvar! Eis a relação federal, vista desde o começo!
“Assim nos convém cumprir toda a justiça.” Aquelas palavras não devem ser limitadas ao ato do batismo. A linguagem é mais geral em seu escopo, ainda que particular em seus termos. A expressão “convém” significava, “Não é indigno do Filho de Deus descer tão baixo, pois a “justiça” assim o exige”. Sua linguagem intimidava, “É apropriado que eu apareça ‘em semelhança da carne do pecado' (Rm 8:3), identificando-Me com eles no ‘confessar dos seus pecados' (Marcos 1:5)”. Era conveniente que Ele devesse ser batizado naquele rio do qual se falava de morte (Jr 12:5) bem no início do Seu ministério público, pois isso simbolizava aquele “batismo” de sofrimento pelo qual Ele passaria (Lc12:50) e mostrasse Sua disposição para enfrentá-lo. Passar por sob as águas do Jordão era um símbolo adequado de todas aquelas ondas e vagas (Salmo 42:7) da ira de Deus, que cedo quebrariam sobre Ele. Era apropriado que ele devesse “executar toda justiça”, submeter-Se a tudo aquilo que a lei prenunciara e que os profetas predisseram, e assim concluir, completar todas as demandas de Deus sobre o Seu povo.
Segundo, vimos que a Satisfação rendida por Cristo para com Deus foi uma satisfação vicária . Agora como o Substituto de Seu povo, a lei exigia duas coisas de Cristo: primeiro, que Ele rendesse aquela obediência que era exigida deles, enquanto criaturas; segundo, que Ele devia sofrer aquele castigo que eles mereciam, enquanto pecadores. Assim, a obra mediadora que foi dada a Cristo para executar envolvia dois aspectos, os quais embora inseparavelmente conectados, todavia são claramente separáveis em pensamento, ou seja, uma obra de obediência distinta dos sofrimentos que Ele padeceu. Em toda Sua obediência Ele sofreu; em todos os Seus sofrimentos Ele obedeceu. Por conseguinte, é de primária importância reconhecer que durante todo o curso de Sua vida terrena Cristo sustentou uma relação dupla para com a lei: pessoalmente sem pecado, oficialmente sob a sua maldição. O próprio fato de Seu postar-se “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3) evidencia que o pecado havia sido transferido a Ele desde o momento que Ele foi concebido no útero da Virgem. Não obstante, Ele que “sofreu pecado” durante todos os Seus dias de carne, também foi O Executor de uma obra Divina.
A própria condição sem pecado de Cristo foi a base necessária para a Sua obra de tolerar o pecado (II Coríntios 5:21). Ele devia ser inocente para representar os culpados; Ele devia ser santo para tomar o lugar dos ímpios, do contrário Ele também necessitaria de um Salvador. Foi o Justo que sofreu pelo injusto (I Pedro 3:18). Assim a maravilhosa vida de Cristo é muito mais que um espetáculo a ser apreciado com admiração, e mais que um exemplo a ser seguido por Seu povo (I Pedro 2:21); ela deve ser considerada como a obra de um pela multidão . Única, gloriosa, perfeita, foi Sua formosa vida. “...porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (João 5:30), apresenta os princípio orientador que sempre O governou — compare em João 4:34 (”Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”). “Eu faço sempre o que lhe agrada.” (João 8:29). Sua vida foi uma vida de serviço constante a Deus: ininterrupta em duração, perfeita em grau, impecável em seu equilíbrio. Uma graça não excluiu ou prejudicou outra: tudo estava lá, tudo estava perfeitamente combinado. Tal vida, tal obediência, tal serviço, merecida recompensa , e é em verdade concedida a todos quantos Ele representou, a todos aqueles a cujo substituto Ele foi. Nós agora estamos prontos para considerar que:
3. FOI UMA OBRA PENAL
As Escrituras ensinam claramente que Deus é ambos, Santo e Justo, e que “justiça e juízo” (e não “amor e misericórdia”) são a base do “trono” de Deus (Salmo 89:14). Dessa forma existe na Essência Divina o que abomina o pecado por sua pecaminosidade intrínseca, tanto no que diz respeito à poluição como em seu aspecto de culpa. As perfeições de Deus são portanto mostradas tanto pela proibição como pela punição do pecado. Ele comprometeu-Se que “ a alma que pecar, essa morrerá.” (Ezequiel 18:4). Portanto, de forma que uma Satisfação completa seja rendida a Deus, o pecado deve ser punido, o castigo da lei deve ser aplicado. Consequentemente, como o Salvador de Sua Igreja, Cristo tinha de sofrer vicariamente a imposição da maldição da lei.
O que procuraremos mostrar agora é que os sofrimentos e a morte de Cristo foram uma satisfação à justiça Divina em favor dos pecados do Seu povo. No caso de alguma objeção quanto ao utilizarmos o termo “satisfação”, chamemos a atenção para o fato de que esta palavra é encontrada em nossas Bíblias , tendo sido usada pelos tradutores como o equivalente à palavra em Hebreu que é geralmente usada como “Expiação”: “ E não recebereis resgate ( satisfação) pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate (satisfação) por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote.” (Nm. 35:31,32).
A profunda humilhação à qual foi sujeito o Filho de Deus ao tomar sobre Si a forma de servo, e de ser feito “em semelhança da carne do pecado”, foi um castigo judicial imposto sobre Ele pelo Pai, todavia voluntariamente submetido por Ele próprio. O propósito particular de Sua humilhação, Sua obediência, Seus sofrimentos, os torna penais , pois eram para a satisfação das exigências da lei de Deus sobre o Seu povo. Ao ser feito “nascido sob a lei” (Gl 4:4), Cristo tornou-Se sujeito a tudo o que é imposto pela lei: “ Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz” (Rm 3:19), o que significa que a lei exige o cumprimento de seus termos. “Cristo em nosso lugar e espaço, através de ambos, Seus atos e Seu sofrimento, satisfez a justiça Divina , nos aspectos legislativo, punitivo e vindicativo, da forma mais perfeita, satisfazendo toda a justiça da lei, que de outra forma a lei exigia de nós para impunidade, e para termos o direito à vida eterna” (H. Witsius, 1693).
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito.” (I Pe. 3:18). A referência aqui não deve ser restrita ao que Cristo sofreu nas mãos de Deus enquanto encontrava-Se pregado na Cruz, nem a tudo por quanto Ele passou durante aquele dia e a noite precedente. Acautelemos-nos de limitar a Palavra de Deus! Não; a totalidade da sua humilhação está aqui incluída. A vida toda de Cristo foi vida de sofrimentos, portanto foi Ele apontado como “o Homem de dores” (Is. 53:3), e não simplesmente, “dor”. Desde o Seu nascimento e até a Sua morte, sofrimento e dor marcaram-No como sua legítima vítima. Enquanto ainda uma criança Ele foi levado ao exílio, para escapar da fúria daqueles que perseguiam Sua vida. Aquilo foi nada mais que o prenúncio de toda a Sua vida terrena. O cálice de angústia, posto em Seus lábios em Belém, nunca foi removido, até que Ele sorvesse seus sedimentos amargos no Calvário.
Cada variedade de sofrimento foi experimentada por Ele. Ele provou da pobreza em seu rigor mais severo. Nascido numa estrebaria, sem qualquer propriedade na terra, dependente da caridade de outros (Lucas 8:3, “... e muitas outras que o serviam com seus bens.”), frequentemente estando em pior situação do que as ordens inferiores da criação (Mateus 8:20, “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”). Ele sofreu censura de ser um glutão, um beberrão, um enganador, um blasfemo, um demônio. Portanto, sim O ouvimos gritar, “Afrontas me quebrantaram o coração” (Salmo 69:20). Ele experimentou tentação em toda a sua malignidade. O Príncipe das trevas O assaltou com toda sua esperteza e poder, fazendo com que as suas legiões infernais O atacassem, vindo contra Ele como “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge.” (Salmo 22:12,13). Acima de tudo, Ele sofreu a ira de Deus, de forma que Ele afirmou, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” (Mateus 26:38), “em agonia” (Lucas 22:44), e finalmente, “abandonado por Deus” (Mateus 27:46; Marcos 15:34).
Qual é, então, a explicação destes “sofrimentos” sem paralelo? Por que a mais perfeita obediência foi seguida pelo castigo mais terrível? Por que a santidade imaculada foi visitada por angústia inexprimível? Davi declarou, “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo...” (Salmo 37:25); por que, então, foi O Justo abandonado por Deus? Somente uma resposta é possível, somente uma resposta atende por completo a todos os fatos do caso; somente uma resposta esclarece o governo de Deus. Ao tomar o lugar dos pecadores violadores da lei, Cristo tornou-Se obrigado a liberá-los de todas as suas dívidas, e isso significou carregar os seus pecados, ser acusado com a culpa que era deles, sofrer a punição que era deles. Consequentemente, Deus tratou-O como o Representante do Seu povo criminoso, infligindo a Ele tudo o que mereciam os seus pecados. Como o Substituto portador dos pecados de Seu povo, Cristo foi justamente exposto a todas as terríveis conseqüências do desprazer manifesto de Deus.
Há muito, a pergunta já havia sido feita, “Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu?” (Jó 4:7), à qual podemos, sem a menor hesitação, responder, Ninguém. Deus nunca matou e nunca matará o inocente. Portanto, antes que a Sua ira punitiva pudesse cair sobre Cristo, os pecados de Seu povo deviam primeiro ser transferidos a Ele, e isto é precisamente o que a Bíblia afirma. Isso foi notavelmente prenunciado nos tempos antigos, no grande tipo que era o Dia da Expiação anual em Israel, “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode,” (Levítico 16:21). Assim também foi claramente profetizado, “Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos ... Ele levou sobre Si o pecado de muitos.” (Isaías 53:6, 12). Também é expressamente afirmado no Novo Testamento, “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Uma vez mais afirmaríamos que não há sequer um indício que Cristo suportou os pecados de Seu povo somente enquanto Ele encontrava-se pendurado na Cruz. Estamos cientes de que muitos assim o afirmam, mas em fazendo-o eles não somente se tornaram culpados de acrescentar à Palavra de Deus, mas também de contradizê-La diretamente.
Nós já chamamos a atenção que a expressão em Romanos 8:3, “em semelhança da carne do pecado”, claramente pressupõe a transferência dos pecados de Seu povo a Cristo, e que o que aconteceu imediatamente após o Seu nascimento foi em total cumprimento deste fato, e não pode ser entendido de outra forma. Que Ele foi circuncidado (Lucas 2:21) não somente provou que Ele havia sido feito “semelhante aos homens” (Filipenses 2:7), mas também evidenciou que Ele havia sido feito “em semelhança da carne do pecado.” Assim também o cerimonial de “purificação” de Sua mãe (cf Lucas 2:22) e sua apresentação de uma “oferta pelo pecado” (cf Levítico 12:2, 6), foi em perfeita observação do fato que, embora Sua humanidade fosse imaculada, ainda assim Ele havia adentrado neste mundo oficialmente culpado.
Nós pecamos enquanto crianças pequenas — “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Salmo 58:3) — e portanto enquanto criança, Cristo sofreu, sofreu não somente como o nosso Substituto, mas porque os nossos pecados haviam sido transferidos a Ele. Nós pecamos enquanto adolescentes, e em sua juventude Cristo sofreu, e sofreu nas mãos de Deus, como claramente testificam as Suas próprias palavras: “Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado” (Salmo 88:15). No início da nossa maturidade, nós pecamos, e Cristo sofreu no início da Sua maturidade. Referimo-nos uma vez mais à tentação que Ele sofreu de Satã. Em Hebreus 2:18 nos é dito que Ele, “sendo tentado, padeceu ”, e aquele mesmo sofrimento foi penal . Que o “padecer” de Cristo quando tentado por Satã foi determinado e decretado como uma punição de Deus, está provado pela afirmação de que “ENTÃO foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1).
Tendo o homem se permitido ser sujeitado por Satã, Deus, por uma sentença justa, entregou-o como escravo da tirania daquele; portando era necessário que Cristo, como o Substituto de Seu povo pecador, devesse ser exposto às tentações do Diabo, de forma que neste aspecto Ele pudesse satisfazer a justiça divina. Muito certamente Satã e seus agentes nunca poderiam haver assaltado a Cristo, não tivesse Ele sido (legalmente) acusado com a culpa pelos nossos crimes, que Deus justamente O expôs às injúrias deles (cf Atos 2:23). Os próprios eleitos, como pecadores, estavam sujeitos ao poder de Satã (cf Colossenses 1:13), e isso pela justa sentença do Juiz de toda a terra; portanto não eram eles somente “presas do poderoso”, mas também eram “ legalmente presos” (cf Isaías 49:24). Portanto, como Cristo aqui veio como a Certeza, em lugar deles, Ele, pela virtude da sentença de Deus, também Se tornou sujeito às bofetadas de Satã.
“A obediência passiva, ou dolorosa de Cristo, não deve ser confinada a o que Ele experimentou no jardim e na cruz. Este sofrimento foi a culminação, mas não a totalidade de Sua aflição expiadora. Tudo em Sua carreira humana e terrena foi doloroso pertence à Sua obediência passiva. É uma afirmação verdadeira de Jonathan Edwards, que o sangue vertido na circuncisão de Cristo foi realmente uma parte de sua expiação vicária, como o foi o sangue vertido de seu lado perfurado. E não somente Seu próprio sofrimento, mas também a Sua humilhação, foi expiatória” (W. Shedd). “A satisfação ou propiciação de Cristo consiste tanto em Seu sofrer o mal, como em Seu estar sujeito à humilhação . . . O que quer que seja a que Cristo estava sujeito, em se tratando do resultado judicial do pecado, tinha a natureza de satisfação pelo pecado. Mas não somente o próprio sofrimento, mas toda a humilhação e depressão do estado e circunstância de natureza humana abaixo do seu estado primitivo de honra e dignidade, tal como o Seu corpo permanecendo sob o domínio da morte, e corpo e alma estando separados, são frutos, resultados judiciais do pecado” (Jonathan Edwards, 1743).
Quando as Escrituras falam da Satisfação de Cristo, elas a relacionam com os Seus sofrimentos em geral, como em Isaías 53:4, “ Verdadeiramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si;” isto é, Ele sofreu todas as dores e agonias devidas a nós, pelo pecado. Deve ser o mais cuidadosamente notado que a declaração inspirada de que “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Isaías 53:6) vem antes de “Ele foi oprimido e afligido” e antes de “como um cordeiro foi levado ao matadouro”; já que foi no início de Seu ministério público, e não enquanto Ele encontrava-Se pendurado na Cruz que Deus moveu um dos Seus servos para clamar, “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” {João 1:29}. Cristo foi levado “ao matadouro” e até mesmo a aflição foi estendida sobre ele e a nossa iniqüidade foi exigida dEle, antes das três horas de escuridão. Então também este mesmo capítulo (Isaías 53) relaciona a nossa “cura” às pisaduras que Ele recebeu de homens, tão plenamente como outras passagens atribuem o nosso livramento da maldição da lei ao fato de haver Deus O visitado com tal maldição.
“Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo” (I Pedro 2:21). “Aqui, sofrer denota estar em aflição: pois aqui se entende todos aqueles demais sofrimentos, nos quais Cristo nos deixou um exemplo de paciência. Estes sofrimentos ele (Pedro) afirma serem por nós, isto é, passados tanto em nosso lugar, como em nosso favor. Pois este é o significado em geral da palavra huper , e tal é verdadeiramente o que Pedro quer dizer. Concluímos, destarte, que em 3:18 ele diz, ‘Cristo padeceu uma vez pelos pecados', em outras palavras, que Ele pudesse ser a propiciação pelos nossos pecados” (H. Witsius).
Quando os direitos soberanos de Deus são enfatizados, ali é geralmente levantada a objeção de que estamos de tal forma “reduzindo homem a uma mera máquina.” Muitos são aqueles que estão preparados para sustentar um sumário pela responsabilidade humana. Mas na realidade é de fato muito raro ouvirmos qualquer coisa sobre responsabilidade transferida . Todavia é neste ponto que se encontra uma das principais maravilhas e glórias do Evangelho. A responsabilidade do povo de Deus foi transferida para Cristo. Ele assumiu as suas dívidas, Ele Se fez imputável pelos seus débitos, responsável por cada demanda da lei contra eles. Não tivesse este sido o caso, como poderia Deus ter com justiça posto as iniqüidades de Seu povo sobre a cabeça do Seu Santo Filho? Ainda menos poderia Ele ter chamado pela espada da Justiça para golpeá-Lo. Foi porque Cristo foi “feito pecado” por nós, que Ele também foi “feito maldição” por nós: esta última não poderia ser sem a anterior. Como este é um ponto de vital importância, nós devemos amplificá-lo um pouco mais.
Hebreus 7:22 declara que Cristo “De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador”: Ele foi o Responsável pelo Seu povo, como Judá o foi por Benjamin. “Eu serei fiador por ele, da minha mão o requererás; se eu não o trouxer, e não o puser perante a tua face, serei réu de crime para contigo para sempre” (Gênesis 43:9). Ou, como Paulo o foi por Onésimo, “E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta . Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei” (Filemon 1:18, 19). Exatamente assim Cristo Se responsabilizou perante Seu Pai, por nós: cobra de Mim o que quer que seja que eles Te devem, e Eu satisfarei. “Um fiador, cujo nome é colocado num contrato, não somente é obrigado a quitar o débito, mas ele faz de tal o seu próprio débito também, tanto quanto é o débito do principal, de modo que ele possa ser processado e acusado pelo débito. Assim Cristo, quando Ele uma vez Se fez um Fiador, Ele também colocou-Se no lugar pelos pecadores, de modo que aquilo que a lei apresentasse contra eles, fosse apresentado contra Ele” (T. Goodwin, 1680).
Cristo devia tomar sobre Si a culpa pelas nossas transgressões antes que Ele pudesse tomar o nosso castigo sobre Si, e então satisfazer a justiça divina em nosso lugar. Que Ele assim o fez , é demonstrado por Suas próprias palavras. É realmente extraordinário descobrirmos como Cristo realmente possuiu os nossos pecados como sendo Seus . Primeiro, no Salmo 40. Que se trata de um Salmo Messiânico, sabemos da citação sobre o mesmo em Hebreus 10. Que ele contém as próprias palavras de Cristo, é claramente evidente dos versículos 7 a 11 (“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração. Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade”). Ele é ainda o Orador no versículo 12, onde Ele declarou, “Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniqüidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração.” Que prova esta é, de que os pecados de Seu povo haviam sido transferidos a Ele! Segundo, no Salmo 69, um outro grande Salmo Messiânico. Aqui também nós O encontramos dizendo, “Tu, ó Deus, bem conheces a minha estultice; e os meus pecados não te são encobertos.” (versículo 5). Quão inequivocamente estas palavras mostram que os nossos pecados foram computados a Ele! Tais pecados não eram Seus por perpetração, mas sim por imputação.
“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre [a] o madeiro” (I Pedro 2:24). “ ‘Nossos pecados' aqui são as nossas obrigações para castigo por conta das nossas violações da lei Divina, e as conseqüências necessárias daquelas obrigações; em outras palavras, culpa no sentido de vinculada ao castigo, e o castigo em si mesmo” (J. Brown). Aqueles pecados Cristo “levou”, suportou como um fardo pesado. O significado principal do verbo Grego é “carregar acima”, a alusão sendo feita ao animal típico que era carregado até o altar, o qual era sempre erigido num lugar elevado. A margem dá a tradução mais preferida — “ ao madeiro”: a preposição é a mesma como no versículo seguinte, “tendes voltado ao Pastor.” O motivo por que a Cruz aqui é chamada de “o madeiro”, veremos mais adiante.
Havia obrigatoriamente a necessidade de Cristo tomar sobre Si a culpa das nossas transgressões, de modo que a justiça Divina O punisse, pois “ bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade” (Romanos 2:2). Quem quer que seja punido por Deus deve ser culpado de pecado. Portanto nós lemos, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” (II Coríntios 5:21). Cada palavra aqui requer um parágrafo em separado. A crase na abertura do versículo [nota do tradutor: o autor utiliza-se da Bíblia na versão King James, “For he hath made him [to be] sin for us, who knew no sin”, e na frase em questão refere-se à preposição “for”, na abertura do versículo] determina o terreno no qual encontra-se a mensagem da reconciliação (versículos 19, 20): o versículo 19 declara que Deus não imputa ao Seu povo os seus pecados; o versículo 21 nos conta o por que: porque eles foram imputados a Cristo. Aqui a Expiação é rastreada de volta à sua fonte. “Deus estava em Cristo reconciliando”: Ele fez Cristo ser pecado — quando? Na aliança eterna: Ele era pessoalmente sem pecado, foi Deus quem assim O adjudicou! “Aquele que não conheceu pecado” é a forma negativa de dizer que a Sua obediência era perfeita. A lei não tinha nenhuma falta contra Ele, seja de comissão ou de omissão. Não obstante, “Ele [Deus] O fez [constituiu legalmente a Cristo] ser pecado por nós,” não em mera aparência, mas em terrível realidade, e isto, desde o momento de Sua encarnação.
Ao sentar-se no banco do réu de Seu povo, Cristo tornou-se responsável para com a justiça de Deus no lugar deles: o que quer que eles devessem, devia ser exigido do seu Fiador: ele devia quitar os débitos deles, sofrer o castigo completo das suas iniqüidades, receber o salário do pecado, em lugar deles. Cristo agora tornou-Se exposto a tudo o que a santidade de Deus devia infligir sobre o pecado. Lemos, portanto, que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13). “A cruz era maldita, não somente na opinião dos homens, mas através do decreto da lei Divina. Portanto, quando Cristo foi levantado sobre a cruz, Ele Se fez odioso para com a maldição” (Calvino).
A própria forma da morte que Deus designou para o Seu Filho nos revela a natureza penal da mesma. A Cruz não foi nenhum mero “acidente”, como se não fizesse diferença a forma que tivesse a Sua morte. Razões fundamentais tornaram conveniente e necessário que o Fiador devesse ter uma morte que fosse amaldiçoada de Deus ; portanto as freqüentes referências no Novo Testamento à “cruz” e ao “madeiro” — cf João 12:32, 33. No Calvário, a maldição terrível de Deus para com o pecado foi revelada publicamente, da qual a cruz não era a causa, mas o símbolo: cf. João 3:14. Sob a lei Mosaica (à qual o apóstolo se refere em Gálatas 3:13), pendurado num madeiro era uma morte reservada para grandes criminosos. Portanto a força da palavra “madeiro” em I Pedro 2:24. Cristo pendurado no madeiro foi o testemunho público da maldição de Deus sobre Ele. “A causa da maldição não era o fato de ser pendurado no madeiro, mas o pecado com o qual Ele foi acusado; e aquele modo de castigo demonstrava que Ele era o objeto do santo desprazer de Deus; não realmente porque Ele encontrava-se pendurado no madeiro, mas porque Ele era o portador dos pecados, e o castigo das ofensas pelas quais aquele castigo ignominioso foi designado foi então infligido. A sabedoria Divina apontou que Aquele que carregava o pecado do mundo devesse ser exposto como uma maldição, pois o desprazer Divino era ali demonstrado da forma mais horrível” (G. Smeaton).
Quanto a por que esta forma e método de morte foi selecionado por Deus dentre todas outras possibilidades — envenenamento, apedrejamento, decapitação, etc. — Gênesis 3 nos provê com a resposta: “Como o pecado mortal que difundiu a maldição sobre a raça humana estava relacionado com a ‘árvore' proibida, Deus sabiamente ordenou que o último Adão devesse expiar o pecado ao ser suspenso em um madeiro: e Ele apontou na lei (Deuteronômio 21:22,23) tal símbolo da maldição que relembrava a todos homens da origem da maldição Divina no mundo. Ele não removeria a maldição de qualquer outra forma” (G. Smeaton). Entre os Romanos, morte por crucificação era humilhação mais baixa possível. Era o mais degradante dos castigos, infligidos somente em escravos e o mais inferior dos povos, e se homens livres fossem a qualquer tempo sujeitos à crucificação por grandes crimes, tals como roubo, alta traição, ou sublevação, a sentença não poderia ser executada até que eles tivessem sido listados como escravos, e isso, pela máxima humilhação. Sua liberdade lhes era tirada por intermédio de os entregar a chibatadas e açoites, como foi feito com Cristo. Assim a maldição da lei de Deus foi executada sobre o Cabeça e o Substituto de Seu povo. “Pregar a Cristo crucificado” (I Coríntios 1:23) é proclamar e expor o Seu haver sido “feito pecado por nós” (II Coríntios 5:21).
Porque Cristo foi “feito pecado” e “feito uma maldição” por Seu povo, a ira da santidade de Deus inflamou contra Ele e a espada da Sua justiça O feriu. “Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos. Fere ao pastor” (Zacarias 13:7), e cf. Mateus 26:31. Deus infligiu castigo a Cristo como se Ele tivesse sido o ofensor pessoalmente. “Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma Se puser por expiação do pecado” (Isaías 53:10). Como todos os sofrimentos dos homens, sejam infligidos imediatamente por Deus ou mediatamente por Satã ou homens (cf. Jeremias 2:15–17), surgem dos deméritos do pecado; assim também todos os sofrimentos de Cristo, de homens, de Satã, de Deus, surgiram dos deméritos dos pecados de Seu povo, imputados ao seu Substituto.
O castigo que Deus assinalou a Cristo era o próprio castigo que era devido ao Seu povo. Que Ele foi amaldiçoado de Deus é visto pelo fato de haver Ele sido pendurado no madeiro. Que Ele recebeu as pagas pelos pecados foi evidenciado por Deus O haver desamparado. Que ele foi contado com transgressores foi demonstrado pelo fato de haver Ele morrido ladeado por dois ladrões. Verdade, Ele não sofreu eternamente, pois a eternidade do nosso castigo era somente uma circunstância advinda da nossa incapacidade de sofrer todo o peso da ira de Deus numa breve sessão, e portanto a brevidade da duração dos sofrimentos de Cristo não é uma objeção válida contra a identidade do castigo que Ele recebeu. Além disso, a infinita dignidade de Sua pessoa mais do que compensou a lei. “Ao olho esclarecido, é encontrada na cruz uma outra inscrição, ao lado daquela que Pilatos ordenou fosse escrita: “A Vítima da culpa. Os Salários do pecado” (J. Brown).
A. W. Pink
Terça-feira, Julho 11, 2006
A Escravidão da Vontade - Argumentos 2 e 3.
Não somente são todos os homens,sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram servos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios têm-se mostrado capazes de desvenlilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem.
Essa escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não e a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O mais admirável que há nos homens é sua razão e sua vontade, todavia, é forçoso reconhecer que essa mais nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12: "Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem fala o bem, não há nem um sequer". O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humana. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-lo.
Talvez alguma pessoa audaciosa atreva-se a dizer que somos capazes de fazer mais do que de fato fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somos capazes de fazer, e não o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo, em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto a incapacidade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os homesn fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimentarem-se em direção a Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus permitiria que os homens salvassem-se a si mesmos. Porém, nenhum deles está apto nem ao menos a fazer a tentativa.
No trecho de Romanos 3.19, Paulo declara que toda a boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá argumentar contro o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor - nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: "Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus", esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada, mas tal idéia contradiz as Escrituras.
Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse a verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar de tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que de maneira alguma procuram guardar a lei de Deus. todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode nem mesmo sussurar uma palavra contra elas!
Argumento 3: O "livre-arbítrio" não pode obter aceitação diante de Deus através das observância da lei moral e cerimonial.
Eu argumento que quando Paulo disse em Romanos 3.20,21: "...ninguém será justificado diante dele por obras da lei", pensou na lei moral ( os dez mandamentos), bem como na lei cerimonial. Tem-se generalizado a idéia de que Paulo tinha em mente apenas a lei cerimonial - o ritual de sacrifícios de animais e a adoração no templo. É espantoso que chamem Jerônimo,que criou essa idéia de santo! Eu o classificaria de forma bem diferente! Jerônimo declarou que a morte de Cristo pôs fim a qualquer possibilidade de alguém ser justificado (ou declarado justo) por meio da observância da lei cerimonial. Mas deixou inteiramente aberta a possibilidade de alguém ser justificado mediante a observância da lei moral, contando apenas com as suas próprias forças, sem a ajuda de Deus.
Minha resposta a isso é que se Paulo quis dar a entender somente a lei cerimonial, então o argumento do apóstolo não tem qualquer significado. Paulo estava afirmando que todos os homens são injustos e necessitados da graça especial de Deus - o amor, a sabedoria e o poder de Deus - por intermédio dos quais Ele nos salva. O resultado da idéia de Jerônimo seria que a grala de Deus é necessária para salvar-nos da lei cerimonial, mas não da lei moral. Todavia, nós não podemos observar a lei moral à parte da graça divina. Você pode intimidar as pessoas para que observem as cerimônias, mas nenhum poder humano pode forçá-las a guardar a lei moral. paulo estava argumentando que não podemos ser justificados diante de Deus mediante a tentativa de guardar a lei moral, ou mesmo a lei cerimonial. Comer e beber, e fazer outras coisas semelhantes, em si mesmos, nem nos justifica nem nos condena.
Irei ainda mais longe, afirmando que Paulo queria dizer que a totalidade da lei, e não alguma porção particular dela, é obrigatória a todos os homens. Se a lei não se aplicasse mais aos homens devido a morte de Cristo, tudo quanto Paulo precisava dizer era isto e nada mais. Em Gálatas 3.10, Paulo escreveu: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-las". Nesse texto, Paulo busca apoio em Moisés para afirmar que a lei é imposta sobre todos os homens, e que o fracasso na obediência à lei sujeita todos os homens a maldição divina.
Nem os homens que procuram obedecer a lei, nem aqueles que não tentam guardá-la estão justificados diante do Senhor, porquanto todos estão espiritualmente mortos. O ensinamento de Paulo é que há duas classes de pessoas no mundo - aquelas que estão espiritualmente vivas e aquelas que não estão. Isso está em harmonia com o ensinamento de Jesus Cristo em João 3.6: "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito". Para as pessoas que não possuem o Espírito Santo, a lei é sem utilidade. Não importa quanto procurem guardar a lei, não serão justificados exceto pela fé.
Finalmente, portanto, se existe tal coisa como o "livre-arbítrio", deve ser a mais nobre das capacidades humanas, porque, mesmo sem o Espírito Santo, professa possibilitar o homem a guardar a lei inteira! Entretanto, Paulo assevera que aqueles que são das "obras da lei" não estão justificados. Isso significa que o "livre-arbítrio", mesmo considerado por seu melhor ângulo, é incapaz de corrigir a situação do homem diante de Deus. De fato, em Romanos 3.20, Paulo afirma que a lei é necessária para mostrar-nos no que consiste o pecado: "...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". Aqueles que são das "obras da lei" não são capazes de reconhecer o que o pecado realmente é. A lei não foi dada a fim de mostrar aos homens o que eles podem fazer, mas para corrigir as suas idéias sobre o que é o certo e o errado aos olhos de Deus. O "livre-arbítrio" é cego, porquanto precisa ser ensinado pela lei. E também é impotente, pois não consegue justificar a ninguém diante de Deus.
Segunda-feira, Julho 10, 2006
A Escravião da Vontade - Introdução e 1º Argumento.
Martinho Lutero escreveu "A Escravidão da Vontade" como reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. Nascido em Rotterdam, na Holanda (1463 - 1494). Erasmo foi monge agostiniano, um dos maiores humanistas de toda a história... (Leia a Biografia de Erasmo aqui no Blog). Erasmo rejeitava os métodos fantasiosos das Escrituras, bem como as muitas superstições dos mestres da Igreja Católica Romana. Rebelou-se contra a preguiça e o vício, comuns nos mosteiros. Erasmo acertadamente preferia uma abordagem simples dos ensinamentos de Cristo aos complicados e pormenorizados métodos dos teólogos profissionais. Ele evitava as controvérsias,e, por longo tempo, procurou não tratar publicamente sobre o conceito do "livre-arbítrio", no entanto, ao fazê-lo, constituiu um desafio que Martinho Lutero não pôde ignorar.
Martinho Lutero era uns 14 anos mais jovem que Erasmo. Enquanto ainda era monge passou por uma dramática experiência com o evangelho da graça de Deus. A partir de então, compreendeu que cada crença e experiência precisa ser testada através da autoridade das Escrituras Sagradas. Ele entendeu que a salvação é recebida como uma graça divina, "mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, parqa que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9).A sua própria experiência confirmou essa sua vonvicção.
Lutero era professor, teólogo e também pastor. Os membros de sua igreja sabiam que ele sentia o que pregava. Ele não era um erudito seco e indiferente. Ele sentia a pressão da eternidade cada vez que pregava. Isso o compelia, algumas vezes,a fazer coisas impopulares e, por vezes, perigosas. Era alguém disposto a defender a verdade de Deus, ainda que fosse contra o mundo inteiro.
A princípio, Erasmo parecia ser um dos aliados de Lutero, visto que ambos rejeitavam muitos dos erros e falhas da Igreja de Roma. Todavia, Lutero desafiava cada vez cam maior intensidade o ensinamento romanista da salvação mediante as obras, insistindo que o "Justo viverá por fé" (Rm 1.17). Entrementes, Erasmo continuava na Igreja de Roma, e, como era um grande erudito, cedeu a pressão de sua igreja para defender o ensino do "livre-arbítrio" - da igreja Romana. Desafiando a solicitação de Lutero para que não fizesse tal coisa, Erasmo publicou sua "Discussão Sobre o Livre-Arbítrio", em 1524, tendo escrito a Henrique VIII nestes termos: 'Os dados foram lançados. O livreto sobre o 'livre-arbítrio' acaba de ver a luz do dia". O livro agradou ao Papa e ao Sacro Imperador Romano, e foi elogiado por Henrique VIII.
Esse fato levou Lutero a declarar que Erasmo era um adversário da fé evangélica. Deus controlou soberanamente a intensa luta entre esses dois homens, para vantagem de seu reino. O conflito produziu uma grandiosa declaração da doutrina evangélica que tem enriquecido a Igreja de Cristo desde então, a saber, o livro de Lutero, "A Escravidão da Vontade".
O estilo de Lutero normalmente nos impeliria a acrescentar certas palavras, toda vez que ele empreta a expressão "livre-arbítrio". Por exemplo: o livre-arbítrio que você supõe que existe. Entretanto, temos preferido refletir o sentido tencionado por Lutero, usando aspas - "livre-arbítrio".
"As Escrituras são como diversos exércitos que se opõe à idéia de que o homem tem um "livre-arbítrio" para escolher e receber a salvação. Porém, basta-me trazer à frente de batalha dois generais - Paulo e João, com algumas de suas forças". (Martinho Lutero).
Argumento 1: A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem exceção, merecem ser castigados por Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça". Se todos os homens possuem "livre-arbítrio", ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os está conduzindo a uma única direção - da "impiedade e da iniqüidade". portanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquento os deixa sob a ira de Deus.
Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não seguir de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam queu o texto dá a entender que algumas pessoas não "detêm a verdade pela injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens.
Além do mais, notemos o que Paulo escreveu imediatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis divinas em seus mínimos detalher, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas esses não os aproximaram em nada de Deus. havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu "livre-arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles.
Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se revela". Por conseguinte, Deus mostra a sua retidão aos homens. Deus, porém, não é um tolo. Se os homens não precisassem de ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ala e vance-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, nunguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é ensinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de uma Salvador singular, o Deus-Homem, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios levou-os a deixarem de buscar a justiça Divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores tornan-se as coisas.
Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos - um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-Se a eles. Se fosse possível ao "livre-arbítrio" dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29;0 não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores condenados juntamente com todo o resto dos homens. ora, se todos os homens são possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto "livre-arbítrio' é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte,a vontade dos homens, afinal, não é livre.
Não perca próximo artigo - Argumento 2 - O domínio universal do pecado prova que o "livre-arbítrio" é falso.
Terça-feira, Julho 04, 2006
A Propagação do Calvinismo no Século XVI
O Luteranismo também se espalhou bastante rapidamente nos primeiros tempos da Reforma, mas logo começou a recuar como maré vazante, com exceção feita apenas às regiões mais teutônicas como a Alemanha e Escandinávia. As idéias de Calvino, por outro lado, penetravam e, freqüentemente, suplantavam as de Lutero em regiões tão diversas quanto as da França, Escócia, Holanda e Hungria. Apesar das dificuldades da geografia física, dos obstáculos causados por oposição política e pela perseguição instigada por autoridades católicas, o Calvinismo conseguiu expandir sua influência e ampliar suas fronteiras a ponto de vir a ser considerado o inimigo numero um da Igreja Católica Romana e dos governos absolutistas. Embora haja inúmeras razões que demonstram este fato, um fator muito importante é constituído pela forma e pelos meios utilizados na propagação do Calvinismo por toda a Europa do século dezesseis.
Ao tentarmos compreender esta questão da comunicação, devemos reconhecer que a transmissão de idéias depende muito da sociedade em que estas idéias são expressas. Temos tido muito bons exemplos deste fato nos jargões criados por estudantes universitários e pela geração hippie dos anos sessenta. Além disto, a questão de tecnologia da comunicação e da transmissão de idéias na sociedade hoje é de importância crucial. Haja vista que hoje o computador está assumindo uma função completamente revolucionária neste mesmo campo. No entanto, dada à técnica desta maneira de comunicar, ela é compreendida por muitos poucos, ou seja, apenas por aqueles que foram tecnicamente treinados para usá-la. Desta forma, para compreender o sucesso da transmissão das idéias de Calvino, e para explicar parcialmente o sucesso obtido em divulgá-las, é necessário que olhemos primeiro os antecedentes sociais da Reforma e o desenvolvimento dos meios de comunicação.
Desenvolvimento no Final do Período Medieval e no Início dos Tempos Modernos
Os dois séculos que se passaram entre 1300 e 1500 foram séculos de mudanças rápidas, e mesmo revolucionárias, na sociedade da Europa Ocidental. Se Petrarca ou Dante pudessem voltar para conversar com Erasmo, teriam se encontrado em um mundo completamente diferente daquele que haviam conhecido. De um lado, a Europa havia sofrido o ataque devastador da Peste Negra ou peste bubônica que matara um terço da população de alguns países. Esta tragédia produzira efeitos e implicações de longo alcance. Precisamos nos lembrar também de que foi durante estes séculos que eclodiu a Renascença, que o Grande Cisma e o Movimento Conciliatório na Igreja seguiam seu curso e, finalmente, que descobertas geográficas modificaram muitas das perspectivas dos europeus ocidentais – inclusive a descoberta da América e a circunavegação do Cabo de Boa Esperança, e a abertura posterior de um caminho direto para o distante Oriente. Por volta de 1500 a Europa era um continente diferente, com uma sociedade fundamentalmente modificada.
Um dos efeitos da Peste Negra foi o declínio da economia na Europa Ocidental, quando diminuiu a demanda de bens, assim como a mão-de-obra que os produzia. Contudo, por volta da metade do século quinze, na medida em que as pessoas se tornavam mais resistentes à doença, as populações começaram a crescer e, mesmo que seu número não tenha chegado aos níveis anteriores à praga – senão quando o século dezesseis já ia bem adiantado -, a indústria e o comércio começaram a se recuperar. Novas técnicas criadas nas indústrias de manufatura de tecidos de lã, nas de mineração do carvão e nas de produção de armamentos, tudo contribuía para estimular a economia; especialmente nos países do noroeste, como a Inglaterra e Holanda. Em função disto, aumentou a necessidade de um fluxo maior de dinheiro, resultando no aperfeiçoamento dos métodos de financiamento, e no surgimento de importantes empresas de operações bancárias, como a dos Médicis de Florença e a dos Fuggers de Augsburg. Todos estes fatores contribuíram para a expansão geral do comércio depois de 1450, o que levou, por sua vez, à formação de uma rede de comunicações que viria a desempenhar papel muito importante na transmissão de idéias durante o século dezesseis.
Esta rede surgiu também em função das mudanças de classe que estavam ocorrendo em algumas regiões da Europa, em conseqüência dos desenvolvimentos econômicos. Apesar de sempre ter havido mercadores e artesãos aos quais podemos chamar de classe média por estarem entre a nobreza e a classe dos servos, não foi senão na última parte do século quinze que a verdadeira classe média começou a surgir. Ao invés de alguns poucos comerciantes e banqueiros, um número muito maior de homens interessados em comércio, mesmo que em escala bastante pequena, começou a desempenhar esta função na sociedade. Ao noroeste da Europa, em países como a Inglaterra, Holanda e Alemanha, a nova classe de homens começava a desalojar a nobreza de sua posição de comando da sociedade. Enquanto a nobreza sofria por causa da inflação que grassava, a nova classe comercial vicejava em decorrência da expansão econômica e se tornava o suporte de reis que tinham uma necessidade cada vez maior de dinheiro vivo.
Politicamente, os séculos quatorze e quinze viram o rápido crescimento de um sentimento de nacionalismo em muitas regiões. Foi o período do esforço de expansão dos ingleses, tanto nas ilhas Britânicas como na França, do outro lado do Canal, esforços que resultaram no desenvolvimento e na consolidação do sentimento nacionalista não apenas dos ingleses, mas também dos franceses e escoceses. Já no final do período, o nacionalismo espanhol fortaleceu-se na luta contra os mouros. Este nacionalismo popular, por sua vez, auxiliou o surgimento do que veio a ser conhecido como as “novas monarquias”. Os monarcas das nações em desenvolvimento, com o objetivo de consolidarem seu poder, tanto dentro de seus próprios países como na oposição a inimigos externos, precisavam de uma administração e de exércitos que só podiam ser mantidos com o apoio financeiro da nova classe média. Desta forma, o equilíbrio político do poder estava começando a se modificar em alguns países.
Uma outra mudança, que ocorreu entre 1300 e 1500, teve lugar na orientação do pensamento ocidental. A teologia de Thomas de Aquino, com sua aceitação da realidade dos universais, nos quais participavam os particulares, perdeu a primazia com o surgimento de idéias “modernas” anunciadas por homens como Marsílio de Pádua e Guilherme de Occam. O individual ou o particular passou então a ser considerado como a única entidade real, ao passo que os universais passaram a ser considerados apenas como classificações nominais. Este novo modo de pensar foi ainda mais enfatizado com o interesse demonstrado pelo pensamento clássico expresso nas então recém-descobertas ou recém-estudadas obras de autores gregos e latinos. O humanismo renascentista, com sua ênfase sobre o indivíduo, particularmente sobre homem de “virtu”, deu uma força adicional ao ponto de vista de que o indivíduo é a figura central de qualquer conceito a respeito do homem e de suas atividades, visão esta concretamente demonstrada por Pico dela Mirandolla em sua “Oration on the Glory of Man” (= “Oração à Glória do Homem”).
Todas estas mudanças tiveram sua influência sobre o padrão de comunicação. Certamente, a Idade Média tinha seu próprio método de transmitir idéias, mas esse método alcançava um número relativamente pequeno de pessoas e, por isso, o movimento de idéias era bastante limitado. Considerando que a grande maioria das pessoas era analfabeta, a sociedade medieval era uma sociedade basicamente oral e visual. A Igreja transmitia seus ensinamentos às pessoas através de quadros, imagens e cerimônias. Mesmo a pregação não era comum. Normalmente, quando os governos precisavam registrar muitos atos, privilégios e eventos, usavam os serviços do clero, a única classe letrada. As novas idéias, desenvolvidas nas escolas daqueles dias por pensadores revolucionários, como Pedro Abelardo, eram geralmente transmitidas por alunos que haviam estudado com estes homens. Os livros e documentos daquele tempo, produzidos em pergaminho até 1300, eram normalmente escritos em latim. Desta forma, sua leitura era limitada àqueles que tinham educação universitária e dinheiro suficiente para comprar artigos extremamente caros.
O século quinze assistiu a uma mudança radical de mentalidade. De um lado, a redescoberta da literatura clássica despertou um novo interesse pela educação e pela cultura, interesse fortalecido pelo uso do papel na produção de livros, fato que reduziu consideravelmente seu preço. Além disso, apesar dos conflitos internacionais constantes, o surgimento de estados nacionais facilitou um pouco a circulação pela Europa, resultando no aumento do número de estudantes que se deslocavam de uma universidade para outra. O fato de Copérnico, depois de estudar na Polônia, poder ir estudar ciência na Universidade de Pádua, na Itália, demonstra o quanto a situação estava se modificando. À medida que a classe média crescia, era indispensável, que os que a integravam, tivessem ao menos uma educação elementar para poderem comerciar e negociar. Um novo grupo de leitores começou a surgir; contudo, um público capaz de ler no vernáculo e não no latim das universidades.
Tudo isto fornecia as bases para o mais revolucionário desenvolvimento do século quinze: a invenção da imprensa. No início do século, havia sido divulgado o uso de blocos de madeira entalhada para a reprodução de ilustrações e de textos relativamente curtos. Apesar de os livros poderem ser reproduzidos desta maneira, sua publicação era lenta e bastante dispendiosa. Foi por volta de 1450, no entanto, que John Gutenberg, um alemão de Mainz, desenvolveu uma liga de metal que podia ser usada para fazer tipos móveis. O resultado foi uma verdadeira revolução em todo o processo de transmissão e comunicação de idéias.
Trabalhando primeiro em Mainz e depois em Estrasburgo, Gutenberg conseguiu uma reputação bastante rápida para suas publicações e, conseqüentemente, outros indivíduos destas duas cidades passaram a se dedicar também ao ofício de impressor. A partir da Alemanha, as técnicas do novo processo logo se espalharam para a Itália, e Veneza se tornou o principal centro de obras impressas. Pouco tempo depois, outras cidades, como Basiléia, na Suíça, seguiram seu exemplo, de forma que por volta de 1500 a imprensa se tornara relativamente comum. Estima-se que entre 1450 e 1500 tenham sido produzidos entre 10.000 a 15.000 textos diferentes, atingindo um total de quinze a vinte milhões de cópias. O uso do papel e do tipo móvel deu, à produção de livros, um caráter completamente diferente do que tivera antes de 1450.
Além de tornar possível a produção de livros baratos e em grande quantidade, a imprensa contribuiu para o surgimento de uma revolução intelectual em muitos outros aspectos também. Embora seja verdade que, até 1500, a maioria dos livros impressos eram antigas obras de autores latinos, obras novas começaram a surgir com freqüência cada vez maior, nas línguas vernáculas. Isto significa que os novos métodos de produção de livros visavam aos novos leitores. Estas obras não eram mais produzidas só para as pessoas que tinham formação universitária, mas também para aqueles que só podiam ler em sua língua materna. Talvez, de igual importância, como apontado por Marshall McLuhan, uma nova disposição de espírito foi gerada pela revolução da imprensa. Conquanto seja um pouco difícil pensar segundo o padrão linear de pensamento de McLuhan, resta pouca dúvida de que a ênfase passou a ser dada muito mais à palavra escrita e à sua compreensão intelectual. A comunicação visual tornou-se menos importante do que a capacidade de compreender o raciocínio intelectual ou, mesmo, abstrato.
A nova classe de leitores, tendo recebido um tipo de treinamento diferente daquele que era dado um século antes, começava agora a pensar em diferentes termos, podendo avaliar e absorver novas idéias. Além disto, com a possibilidade de produzir livros mais rápida e economicamente, as novas idéias podiam ser espalhadas mais facilmente, alcançando classes sociais que, até aquele momento, haviam estado à margem de tais questões. Mesmo que muitas pessoas não pudessem ler, outros liam para elas, dando-lhes condições para aceitar e avaliar não apenas a necessidade de instrução, mas também as idéias contidas nos livros. Esta foi a base sobre a qual se deu a transmissão dos ensinamentos dos Reformadores protestantes e, particularmente, dos de João Calvino.
Desenvolvimento do Século Dezesseis
O século dezesseis viu o clímax do desenvolvimento dos dois séculos precedentes, nos quais o novo padrão cultural se tornara completamente declarado, preparando o advento da Idade Moderna. Assim, para entendermos o que aconteceu no século dezesseis, precisamos ter em mente o que aconteceu antes e reconhecer que novas formas e elementos estavam influenciando a cultura e a civilização da Europa Ocidental.
Uma das características do século dezesseis foi a aceleração do processo que tivera início cerca de cinqüenta ou cem anos antes. A inflação, por exemplo, parece ter sido acelerada, em parte devido à afluência do ouro vindo do Novo Mundo, aliada à reabertura das minas de prata do Tirol, de onde os Fuggers de Augsburg retiraram muito de sua riqueza. O resultado desta espiral inflacionária, aliada ao aumento da população e a outros fatores, foi a aceleração do desenvolvimento do comércio com seu conseqüente estímulo ao crédito, operações bancárias e investimentos. Consta, ainda, que com a economia européia dirigida para o Oeste mais do que para o Oriente Próximo, e devido ao rápido desenvolvimento econômico de regiões como a Holanda, o Vale do rio Reno e partes das Ilhas Britânicas, o peso da economia européia voltou-se mais rapidamente do que antes para o Noroeste.
Estas mudanças econômicas produziram mudanças correspondentes nas relações das classes sociais assim como em sua distribuição geográfica. No decorrer do século dezesseis, a nobreza começou a sentir que sua posição econômica se tornava mais difícil e cada dia, pois, apesar de serem ricos em terras, tinham pouco dinheiro vivo. Por esta razão, com freqüência, estavam direta o indiretamente, na dependência financeira dos elementos da população que se dedicavam ao comércio. Diretamente, eles podiam obter empréstimos dos comerciantes ou banqueiros, e, indiretamente, eles podiam se alistar em exércitos mercenários ou no serviço dos monarcas cujas rendas tinham uma proporção cada vez maior das taxas cobradas à classe média. Isto significa que “quem paga a conta, dá o tom”. As classes mercantis, aliadas a grupos de profissionais liberais, como os advogados, estavam desta forma ganhando cada vez maior influência sobre o governo, fenômeno particularmente visível nas regiões do Noroeste.
As mudanças sociais se refletiam na arena política, mesmo nos países onde o absolutismo da Nova Monarquia se tornara mais óbvio. A dependência que o Imperador Carlos V tinha do apoio financeiro dos Fuggers para a guerra contra os turcos ou contra os luteranos, e a dependência que Francisco I tinha dos comerciantes de Paris tanto para manter seu poder dentro de seu próprio país, quanto para a guerra contra o imperador, demonstram a importância que a classe dos comerciantes e banqueiros havia assumido para os monarcas, que já não podiam mais depender de serviços feudais ou de seus vassalos, quer na qualidade de soldados, quer na qualidade de conselheiros. Na verdade, foi a recusa dos banqueiros em fornecer mais fundos para o rei francês, de um lado, e para o imperador, de outro, que pôs fim à guerra franco-espanhola por volta de 1559, com o Tratado de Chateau-Cambresis. Outros monarcas, como Henrique VIII da Inglaterra, e os Stewarts, da Escócia, todos enfrentavam os mesmos problemas.
Quase se poderia afirmar que foram os constantes conflitos do século dezesseis que tornaram possível, à classe média, adquirir tanto poder. Até 1559, França e Espanha, e depois o Império, estavam quase que constantemente lutando um contra o outro, estando a Inglaterra, a Escócia e a Dinamarca sempre envolvidas, ora de um lado, ora de outro. O envolvimento do papado nestes conflitos, acabou por minar sua influência espiritual. A partir de 1560, o tipo de conflito começou a mudar, pois esta era a idade de guerras religiosas. De fato, tinha havido lutas na Alemanha entre os luteranos e as forças imperiais na década de 1530 e 1540, mas estes conflitos eram bastante intermitentes, ao passo que as guerras religiosas na França e Holanda, com a participação adicional da Inglaterra e Escócia, ocuparam a maior parte dos últimos quarenta anos do século dezesseis.
Por trás destes conflitos, em todo o decorrer da última parte do século, havia diferenças e conflitos ideológicos. Novas idéias estavam sendo disseminadas à medida que a Renascença alcançava seu apogeu no pensamento literário, artístico, político e social. Não é por acaso que grandes trabalhos como os de Michelangelo, na Capela Cistina, a conclusão da Basílica de São Pedro, a obra “O Príncipe” de Maquiavel, e “The Courtiers” de Castiglione, todos pertencem ao século dezesseis. Na década de 1540, surgiu a obra de Copérnico sobre a revolução dos astros e o livro de Vesalius sobre a fábrica do corpo humano. Estes foram dois tratados científicos revolucionários que causaram, à Igreja Católica Romana e também a algumas Igrejas Protestantes, sérias dificuldades intelectuais. Com o surgimento da imprensa, esta nova mentalidade estava se espalhando velozmente, particularmente entre a crescente classe média, agora um público leitor que acolhia, de bom grado, a visão humanística do indivíduo como sendo o responsável por seu próprio progresso por meio do uso de sua razão.
No entanto, a maior das mudanças intelectuais veio com a Reforma. No dia 31 de Outubro, segundo a tradição, Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Apesar de ele ter feito isso inicialmente apenas como um exercício acadêmico, desafiando, em latim, a todos os que viessem para um debate sobre aqueles pontos, logo se tornou claro que esse gesto havia gerado um conflito, na verdade, uma revolução muito maior do que ele jamais poderia ter imaginado. Sua declaração de que a Igreja Católica e suas doutrinas estavam em conflito com os ensinamentos das Escrituras causaram tal furor na Alemanha e além de suas fronteiras, que tanto ele quanto a Igreja foram tomados de surpresa.
A pergunta que surge então é: Como e por que o fato de Lutero ter divulgado suas teses – um estratagema acadêmico comum para provocar debates – causou tamanho tumulto? Provavelmente, a razão fundamental foi o fato de Lutero ter sido primeiramente, e antes de mais nada, um pregador que proclamava suas idéias, em primeiro lugar, dentro da Igreja, para as pessoas do povo. Ele sustentava que apenas pela pregação as Escrituras se tornavam a palavra viva. Além disso, ele tinha dois grupos de aliados na disseminação de suas idéias: estudantes de Wittenberg e os pregadores treinados e enviados de sua universidade para viajar pelo país pregando as doutrinas que haviam aprendido nas aulas de Lutero.
Tão importante quanto os pregadores e professores das doutrinas de Lutero, foi a palavra impressa. Uma das razões para a rápida disseminação das Noventa e Cinco Teses por toda a Saxônia, foi o fato de um arrojado impressor local ter conseguido que o documento fosse traduzido para o Alemão. Em seguida, imprimiu-o em grande quantidade e vendeu-o por todo o país. Comerciantes, soldados e outros viajantes que passavam pela Saxônia, obtinham cópias que levavam para suas próprias terras. Quer porque concordassem com Lutero ou comprassem as cópias só por curiosidade, o fato é que as idéias de Lutero foram divulgadas ampla e rapidamente. Contudo, Lutero não parou nestas teses, pois tornou-se um prolífero panfletário para o resto de sua vida, soltando panfletos como balas de canhão a cada duas semanas, para o desconforto do inimigo e auxílio dos amigos e de seus defensores.
Lutero, no entanto, não era um pensador ou escritor sistemático. Ele resolvia os problemas à medida que surgiam, mas nunca elaborou uma afirmação sistemática de sua posição teológica que, por esta razão, precisa ser montada a partir de seus panfletos, de seus comentários e de suas “conversações ao redor da mesa”. A sistematização da Reforma luterana foi feita por Philip Melanchthon, que tentou estabelecer, com seu “Loci Communes” (1521), a primeira teologia sistemática luterana. Contudo, apesar de ter sido um trabalho muito importante, no sentido de apresentar uma visão sistemática da fé evangélica, parece nunca ter tido grande popularidade fora da Alemanha. Escrita originalmente em latim, nunca foi traduzida para muitas línguas vernáculas como foram muitas das produções de Lutero. Os escritos de Lutero e de Melanchthon, no entanto, divulgaram as novas doutrinas amplamente apesar de serem freqüentemente atacados e reprimidos por autoridades políticas e eclesiásticas antagônicas.
Enquanto isto, a Reforma tomava corpo na Suíça, onde Zwínglio liderava um movimento pró-Reforma em Zurique, obtendo relativo sucesso, pois conseguiu, inclusive, persuadir algumas das outras cidades da região germano-suíça, como Basiléia e Berna – cidades de língua francesa – a livrarem-se do jugo da Igreja de Roma. Ele também entrou em conflito com Lutero sobre a doutrina da presença de Cristo no Sacramento da Ceia do Senhor. Como outros homens envolvidos no movimento reformado, escreveu alguns trabalhos curtos que não parecem ter gozado de grande popularidade em seus próprios dias. Envolvendo-se nos conflitos políticos com o Cantão Suíço, Zwínglio morreu na Batalha de Kappel, e 1532.
Henry Bullinger, o homem que substituiu Zwínglio, teve uma vida bem mais longa e uma influência bem maior do que a de seu predecessor. Oferecendo proteção a protestantes perseguidos em outros países, foi capaz de influenciar muitos que tinham vindo em busca de segurança e de instrução em sua cidade. Quando estes refugiados voltavam para seus lares, Henri Bullinger mantinha com eles constante correspondência, tendo escrito mais cartas que todos os outros reformadores reunidos. Para aumentara a extensão da influência do Protestantismo, Bullinger também escreveu extensivamente e, apesar de nunca ter produzido uma teologia sistemática completa, sua “Decades”, que consistia de estudos bíblicos, e seus muitos panfletos exerceram influência sobre protestantes tão distantes quanto os Reformadores ingleses e húngaros. Desta forma, Bullinger, como os outros Reformadores, produziu seu impacto sobre as consciências religiosas da Europa Ocidental.
Enquanto isso, na pequena cidade de Genebra, situada junto ao Lago Leman e, na verdade parte do Ducado de Sabóia, os acontecimentos, vinham se dirigindo para a Reforma, não obstante ter surgido primeiro como uma revolta dos cidadãos conta a autoridade do bispo. Quanto de interesse religioso os cristãos tinham, realmente, é difícil de avaliar. Mas o fato é que expulsaram seu bispo e, ao mesmo tempo, com a ajuda dos habitantes de Berna, seus vizinhos de língua francesa, forçaram o Duque de Sabóia a fugir para o norte. Em 1535, um certo Guillaume Farel (também conhecido como Willian Farel em inglês), pregador protestante refugiado que veio de Paris, chegou a Genebra onde, imediatamente, tomou providências no sentido de implantar uma reforma religiosa que teve resultados que ele, provavelmente, nunca previra.
A Disseminação das Idéias de Calvino
Caso algum leitor deste artigo venha a pensar que gastamos um tempo muito longo para chegar ao tema aqui apresentado, é necessário levar em conta dois fatos. Primeiro, não é possível compreender a disseminação das idéias teológicas de Calvino ou, mesmo suas outras idéias, a menos que tenhamos alguma noção do clima social e intelectual no qual ela ocorreu. Foi o ambiente radicalmente transformado que possibilitou a difusão rápida e ampla de suas idéias. E só na medida em que conhecemos a forma como as idéias de outros reformadores foram transmitidas, é que podemos compreender como num espaço de tempo menor do que vinte anos, as idéias de Calvino se propagaram mais largamente do que as de muitos, senão de todos os outros reformadores.
Para que possamos compreender as bases da influência de Calvino, precisamos nos reportar à sua educação inicial. Em primeiro lugar, estudando na Universidade de Paris, provavelmente sob a orientação de homens como John Major, o escolástico escocês, ele se interessou pelas disciplinas humanistas à medida que se preparava para ingressar no clero. No entanto, em função de uma controvérsia que seu pai teve com o bispo de Noyon, para quem vinha trabalhando como tabelião, Calvino, de repente, recebeu ordens para deixar o sacerdócio e mudar para Orleans, onde poderia receber treinamento como advogado. Em Orleans e Bourges, Calvino recebeu instrução sobre Direito do professor tradicionalista, Pierre de L’Estoile e do humanista italiano Andréa Alciat. Igualmente importante é o fato de Calvino poder ter-se convertido ao protestantismo enquanto estudava em Orleans ou Bourges, de forma que, após a morte de seu pai, Calvino retornou a Paris para continuar ali seus estudos humanistas. Sua perspectiva agora era bastante diferente da que tivera ao sair dali.
Nos primeiros tempos de sua vida cristã, Calvino recebeu a incumbência de escrever o prefácio de uma Bíblia francesa traduzida do latim por um primo seu, Pierre Robert Oliétan, e isto deve ter ocorrido aproximadamente na mesma época em que ele publicava seu primeiro trabalho importante, o seu comentário sobre o “De Clementia”, do filósofo romano Sêneca. Pouco depois disto, Calvino iniciou sua participação na disputa teológica ao escrever um ataque à doutrina que ensinava a “morte da alma”, anunciada por um dos grupos anabatistas. O mais importante neste momento, no entanto, foi seu pequeno livro de sete capítulos, escrito para auxiliar grupos de estudo, livro no qual divulgava doutrinas bíblicas visando a defendê-las de interpretações errôneas. Este livro era a sua “Instituta da Religião Cristã”, publicado em Basiléia, em 1536. Era o início de uma longa série de sete edições revistas e aumentadas até 1559.
A intenção original de Calvino era passar sua vida estudando e escrevendo sobre teologia e filosofia; contudo, não seria assim. Quando de passagem por Genebra foi, na verdade, detido por Guillaume Farel que insistiu com ele para que o ajudasse a implantar a Reforma naquela cidade. Apesar de relutante, Calvino, afinal, consentiu. Ele e Farel, no entanto, buscavam uma Reforma tão absolutamente completa, não só em questões de fé como também nas de moral, ou seja, nas de comportamento e costumes. Por isso, em 1538, foram obrigados a se retirar. Calvino, sem dúvida, recebeu sua expulsão com grande prazer, esperando encontrar em Estrasburgo a paz e o sossego para estudar. Isto, no entanto, não aconteceria, pois Martin Bucer constrangeu-o a assumir o pastorado da congregação de refugiados franceses naquela cidade, fazendo-o também participar de alguns encontros entre protestantes e católicos que ocorriam naquela época. Para completar, quando o Cardeal Sadoleto escreveu ao povo de Genebra, induzindo a população a retornar ao aprisco romano, mandaram sua carta para Calvino, pedindo-lhe que a respondesse. Ele o fez, e com grande eficiência.
Em parte, como conseqüência da resposta de Calvino a Sadoleto em 1540, momento em que Genebra se encontrava em estado de virtual anarquia, o Conselho da cidade decidiu chamar Calvino de volta para ser seu orientador e guia. Quando Calvino respondeu que não desejava retornar, as autoridades de Genebra escreveram a Farel, que havia partido para Lausanne, e ele, finalmente, persuadiu Calvino a retornara a Genebra em 1541. Depois do seu retorno, Calvino permaneceu em Genebra até sua morte, em 1564. Foi desta pequena cidade – na cabeceira do rio Ródano, cidade de pouco prestígio econômico, político e intelectual -, que Calvino exerceu grande influência sobre a Reforma religiosa da Europa Ocidental, sentindo-se, ainda hoje, os efeitos deste movimento. Em seus cinqüenta e cinco anos de vida, Calvino provocou impacto em sua própria geração, e nas gerações posteriores foi um impacto igualado por muito poucos na história. A questão que se levanta é: como e por que foi ele capaz de provocar tal impacto? Os Calvinistas, obviamente, responderiam, como o fez John Knox, que ele era um “notável servo do Senhor”. Contudo, houve também alguns fatores circunstanciais de seu trabalho e uma situação que, pela providência de Deus lhe deram condições para exercer sua influência tão ampla e efetivamente.
É provável que o fator mais importante na divulgação das idéias de Calvino tenha sido o próprio caráter dele. Calvino era um pensador e escritor sistemático. Quando se lê, mesmo a primeira edição das Institutas, escrita quando ele tinha vinte e cinco anos, fica-se impressionado com o estabelecimento cuidadoso de sua posição e de suas afirmações. Mesmo que alguns acusem a Calvino de ser um racionalista, a verdade é que ele era lógico em seu raciocínio, procurando evitar deduções e analogias falsas. Contudo, ao mesmo tempo, ele estava totalmente preparado para reconhecer que não tinha todas as respostas, uma vez que lidava com o mistério do Próprio Deus. Agindo assim, estava sempre disposto a traçar uma linha e dizer: “Até este ponto, e não além”. Nisto demonstrava um misto de lógica sistemática e um senso de mistério que respeitaria, e não investigaria. Suas Institutas, seus comentários bíblicos, suas cartas e seus panfletos, todo o seu trabalho traz estas características que podem não ter agradado alguns, mas que falaram ao coração de muitos.
Talvez, possamos compreender a estrutura de pensamento de Calvino se observarmos os princípios que regiam o seu pensamento teológico.
O seu princípio formal era a autoridade das Escrituras, do Antigo e do Novo Testamentos. Ele acreditava que a Bíblia era a Palavra de Deus escrita. Não obstante o esforço de alguns, em anos recentes, em incluir o apoio de Calvino a várias formulações doutrinárias sobre inspiração verbal, inerrância das Escrituras ou coisas semelhantes, Calvino não faz qualquer declaração explícita sobre este assunto. Sua opinião era que a Bíblia é reconhecida como a Palavra de Deus, não por deduções lógicas ou por observações e testes experimentais, mas porque o Espírito Santo testifica ao crente que ela é a Palavra de Deus. E, por ser a Palavra de Deus, deve ter autoridade final sobre todas as outras formas de conhecimento no que se refere à natureza do homem e à sua relação com Deus, seu Criador e Senhor. Quanto ao conhecimento e compreensão humana da natureza, o homem faz descobertas através de investigações experimentais, tendo sempre em mente, é claro, que a Bíblia estabelece a interpretação final para todas as coisas (cf. seus comentários sobre astronomia e Gênesis 1.16).
O princípio material do pensamento de Calvino era a soberania de Deus. Como Criador, Sustentador, Redentor e Rei, Deus é soberano sobre todas as suas criaturas, bem como sobre as ações destas. Esta doutrina estabelece a base e o fundamento para todas as demais. Caso alguma formulação doutrinária tendesse a transgredir a soberania de Deus, precisaria ser ou reformulada, ou rejeitada completamente.
Desta forma, sua declaração sistemática da fé cristã partiu, naturalmente, da doutrina da soberania de Deus. No entanto, todas as declarações de fé devem, necessariamente, ser orientadas e delimitadas pelos ensinamentos das Escrituras. Ao formular uma doutrina como a da eleição, por exemplo – não obstante estar ela baseada na soberania de Deus -, seria possível ceder à tentação de incluir muitas implicações lógicas, e Calvino considerou impróprio, na verdade, pecaminoso, ir além daquilo que a Bíblia diz sobre a questão. Ainda que esta limitação deixe, mesmo assim, certos paradoxos na fé cristã, esses paradoxos devem ser aceitos, disse ele, pois idéias que parecem inconciliáveis devem ser mantidas em tensão, uma vez que o Deus soberano falara por intermédio de Seus Profetas e Apóstolos. Mesmo que esta postura não satisfaça aos racionalistas, Calvino, seguindo seus dois princípios fundamentais, não poderia pensar de outra forma.
Calvino, no entanto, não era apenas um teórico desvinculado de qualquer interesse prático. Como advogado – função pela qual de certa maneira, se tornara a força motriz da reforma legislativa de Genebra e, como polemista, lutando constantemente para manter e fortalecer o Movimento Reformado -, ele precisava ser prático na utilização de seus princípios teológicos. Quando se lêem suas Cartas, suas Institutas, seus Comentários e seus Panfletos, tem-se a impressão de estar diante de um homem muito ligado aos fatos que ocorriam em seu mundo. Seus panfletos sobre astrologia e sua carta sobre a questão da usura, refletem pensamentos práticos, da mesma forma as alusões que fazia de seus textos em seus sermões. Não é de surpreender, portanto, que não só os estudiosos, mas também o obstinado negociante de seus dias respondessem com considerável entusiasmo às suas idéias.
Para entender a ampla influência de Calvino, devemos observar não apenas o seu modo de expressar-se e sua maneira de pensar, mas também os meios de que se utilizou para comunicar suas idéias. Pregações e cursos foram os meios básicos de propagação de seus pensamentos; de igual importância foram seus contatos pessoais e, mais importante que tudo, foram seus escritos. Será necessário examinarmos todos estes meios de comunicação se quisermos compreender como ele teve, e por isso ainda tem, uma força tão abraangente sobre o pensamento Ocidental. Mais do que isto, precisamos adquirir alguns conhecimentos a respeito daqueles a quem ele influenciou; daqueles que aceitaram sua teoria e a colocaram em prática no século dezesseis.
Como já foi mencionado, a pregação era fundamental na exposição e na comunicação das idéias de Calvino. Neste aspecto, Calvino estava de pleno acordo com Lutero, Bullinger, Bucer, e com a maioria dos outros Reformadores. Poder-se-ia quase dizer que a reforma trouxe o renascimento da pregação. Calvino, aparentemente, começara a pregar logo depois de sua conversão, pois, segundo a tradição afirma, ele costumava pregar em algumas igrejas em Bourges ou perto de Bourges, quando era estudante. Ao voltar para Genebra, em 1541, a pregação se tornou sua principal ocupação, uma vez que assumira o púlpito da Igreja de Saint Pierre não apenas aos domingos mas, inclusive, por mais três vezes durante a semana. Este fato deu a ele grande oportunidade de apresentar sua interpretação das Escrituras para os cidadãos de Genebra bem como para os estrangeiros, tanto os que viviam na cidade, como para os que ali se encontravam apenas de passagem.
Provavelmente, devido ao fato de pregar com tanta freqüência, Calvino, ao que parece, não tinha o hábito de escrever seus sermões, senão esporadicamente, pois sabemos que, em certa ocasião, redigiu alguns sermões que havia pregado, mandando-os para Elizabeth I, rainha da Inglaterra. Seu procedimento normal parece ter sido o de gastar um tempo considerável pensando no significado do seu texto. Depois disto, subia ao púlpito preparado para fazer uma homilia sobre uma passagem de cinco a quinze ou vinte versículos. Isto consistia num rápido comentário sobre o texto, com uma aplicação de seu ensino essencial à vida cotidiana do cristão, mas especialmente voltada para o crescimento espiritual e para uma avaliação de sua relação com Deus.
De acordo com sua maneira sistemática de trabalhar, Calvino normalmente seguia o esquema de pregar sobre um determinado livro da Bíblia, do começo ao fim, capítulo por capítulo, domingo após domingo. Isto significa que havia continuidade nos seus ensinamentos, tanto em relação à explanação do texto como na aplicação das Escrituras. Calvino tinha o cuidado de manter suas explanações, bem como suas aplicações, dentro do contexto do livro como um todo e, também dentro do contexto de sua situação histórica. Não interpretava as Escrituras alegoricamente. Sempre trazia os ouvintes de volta ao fato de que o centro da vida cristã é o próprio Cristo.
Os ouvintes de Calvino, freqüentemente, expressavam o desejo de ter cópias impressas de seus sermões, para sua própria leitura ou para dá-las a outros, mas Calvino não cedia, em parte por redigir apenas alguns de seus sermões. Em conseqüência disto, e apesar de sua oposição, alguns dos membros de sua Congregação contrataram um certo Raguenier de Bar-sur-Seine, um refugiado francês, para anotar os sermões de Calvino em uma espécie de taquigrafia. Alguns impressores de Genebra quiseram, então, imprimir estes sermões, ao que Calvino foi firmemente contrário, a princípio. Afinal, em 1557, deu a Conrad Badius, cunhado do editor Robert Estienne, permissão para imprimir sua série de sermões sobre os dez mandamentos. No ano seguinte, outra vez, depois de muita pressão e discussão, permitiu a publicação de seus sermões sobre a vida e a obra de Cristo. Muitos destes sermões nunca foram publicados, tendo sido descobertos apenas recentemente. Contudo, os sermões publicados foram logo traduzidos para muitas outras línguas vernáculas e se tornaram um importante meio para a divulgação ampla dos ensinamentos do Reformador de Genebra.
Foi assim que os sermões de Calvino passaram a cumprir uma dupla função. Naturalmente, influenciavam aqueles que os ouviam, pois sabemos que, depois das pregações, as pessoas se aglomeravam ao redor de Calvino para conversar com ele sobre o que ele havia dito e, em geral, formavam uma procissão para acompanhá-lo até sua casa. Mas os sermões influenciavam também os que os liam em outros países, quer no original francês, quer em suas próprias línguas. Com relação a este fato, é interessante notar o que Richar Bannatyne, secretário de John Knox, relata. Diz ele que enquanto Knox estava em seu leito de morte, alguns sermões do “Messire João Calvino” eram lidos para ele em francês, língua que ele compreendia muito bem. Eram, provavelmente, os sermões sobre “La passion de Notre Seigneur”. Os sermões eram, portanto, o principal meio de transmissão das idéias de Calvino.
Profundamente relacionada com seu trabalho de pregador era sua atuação como professor. Quando, em Estrasburgo, ele esteve em íntimo contato com Jean Sturn e Martin Bucer, ambos muito interessados em desenvolver um sistema educacional que proporcionasse instrução a todas as crianças da cidade. Ao voltar para Genebra, ele trabalhou por algum tempo com base nesta idéia, até que, finalmente, ele em 1559, estabeleceu um completo sistema de educação. A partir de seus esforços, surgiu a Academia de Genebra, instituição que, mais tarde, se tornaria a Universidade da cidade. Calvino não apenas desempenhou proeminente papel no estabelecimento da Universidade, mas foi também um dos seus professores de teologia, ensinando aqueles que planejavam entrar para o ministério. Durante muitos anos, ele fez conferências, fazendo exposições sobre vários livros da Bíblia. O responsável pela Academia era Theodore Beza, que viera de Lausanne.
O trabalho de Calvino, tanto como pregador quanto como professor, foi extremamente eficaz em Genebra, pois, estudando-se a história da cidade durante este período, pode-se ver que muito da mudança ocorrida ali foi provocada por suas atividades. É verdade que até 1555 ele enfrentou forte oposição às suas idéias, especialmente às que se referiam à disciplina da Igreja, oposição por parte daqueles que discordavam tanto de suas doutrinas quanto de seus conceitos a respeito de moralidade. Contudo, a partir do momento em que assumiu o principal púlpito da cidade, do qual pregava cerca de cinco vezes por semana, além das preleções bíblicas que fazia, Calvino passou a dispor do meio mais eficiente para instilar suas idéias. Como resultado, por volta de 1555, ele ganhou a batalha e, deste ano em diante, até sua morte em 1564, sua influência teológica e moral dominava Genebra.
Contudo, havia algo mais do que a influência geral que ele exercia sobre Genebra e além dela. A população da cidade, cerca de nove mil habitantes, quase se duplicara pelo número de refugiados que para ali afluíam a fim de descansarem das perseguições que sofriam em seus próprios países. A Congregação francesa era a maior e, em alguns aspectos, a mais impopular, mas havia também Congregações espanholas e italianas às quais foi acrescentada a Congregação inglesa sob orientação de John Knox, durante o reinado de Mary Tudor. Havia ainda aqueles que vinham estudar com Calvino e com seus colegas de magistério. Vinham de muitos países diferentes, mas, particularmente, da França, Holanda, Alemanha, Inglaterra e Itália. Muitos deles voltaram para seus próprios países mais tarde, continuando ali o trabalho da Reforma. Depois da fundação da Academia, a afluência de estudantes se tornou ainda maior, na medida em que vinham estudar não apenas teologia, mas também direito, bem como para adquirir uma educação geral. Quando estes estudantes retornavam para seus lares, levavam consigo as idéias de Calvino, as quais buscavam proclamar. Não era raro que terminassem suas carreiras na fogueira.
Não obstante, a maioria dos historiadores de Calvino enfatizam o valor de sua pregação e de seu magistério, e pouco parecem achar que sua relação com as pessoas fosse de alguma importância. Calvino é normalmente descrito como um homem muito austero, triste, e, mesmo, mal humorado. No entanto, o testemunho daqueles que visitaram Genebra, e tiveram contato com Calvino, nos oferece uma imagem muito diferente: Ele, ao que tudo indica possuía um senso de humor que tinha um quê de satírico, como se pode ver através de alguns de seus escritos como, por exemplo, seu panfleto sobre a necessidade de se fazer um inventário de todas as relíquias religiosas da Europa. Apesar de sofrer de uma série de doenças crônicas, inclusive de úlcera, Calvino parece ter sido muito hospitaleiro. Um relato conta que ele era saudável o suficiente para gostar de jogar boliche. Acima e além de tudo isto, no entanto, o fato de ele ter conquistado a lealdade quase feroz de uma ampla variedade de tipos de personalidade, indica que era capaz de comunicar suas idéias de forma efetiva e dinâmica em seus relacionamentos pessoais.
Calvino recebia muitos visitantes que vinham das mais diversas regiões e passavam pouco tempo em Genebra, muito freqüentemente apenas para encontrarem-se com ele. John Foxe, o martirologista inglês, e o Bispo Coverdale são dois bons exemplos. Calvino estava também em constante contato com outros Reformadores, especialmente com Bucer, Bullinger e Melanchthon, com os quais sempre trocava idéias. Foi em conseqüência de seu relacionamento com Bullinger que ambos assinaram o Consensus Tigurinus de 1549, no qual fazem a declaração de que “presença real” de Cristo, na Ceia do Senhor, é efetivada pelo Espírito Santo no momento em que o crente recebe os elementos. Desta maneira, foi definida uma posição intermediária entre a “consubstanciação”, defendida por Lutero, e a interpretação puramente simbólica de Zwínglio.
Além de seus contatos com estudantes e com outros Reformadores, Calvino mantinha volumosa correspondência, com homens e mulheres de toda a Europa, desde reis e seus conselheiros, até pessoas de classes baixas que lhe escreviam pedindo auxílio ou conselho.
Talvez, estas suas cartas sejam o melhor retrato do “verdadeiro” Calvino. Estas cartas eram sempre práticas e muito diretas. Ele escreveu uma carta para confortar John Knox quando Majorie, sua esposa, morreu; escreveu uma convicta carta de repreensão para Louis du Tillet, um velho amigo que desertara da causa reformada, retornando à Igreja de Roma; escreveu também cartas de incentivo para os que enfrentavam perseguições e conflitos por causa da fé, como foi o caso de cinco estudantes de Lausanne que iam ser mortos na fogueira de Lyon; escreveu cartas, dando conselhos a protestantes que planejavam fundar uma congregação e mandou também uma carta a um ministro que lhe escrevera pedindo conselho sobre problemas particulares. Em todas essas cartas, pode-se ver suas muitas facetas: sua ternura, sua compaixão, sua raiva ocasional para com aqueles que se provavam indignos de confiança e, também, sua integridade e força intelectual. Quase não há dúvida de que estas cartas tenham sido muito importantes, não apenas no sentido de manifestar sua personalidade como também no sentido de divulgar suas idéias por toda a extensão do território europeu.
Não obstante falarmos das pregações e do magistério de Calvino, de seu relacionamento pessoal e de sua correspondência, sem dúvida sabemos que o meio mais eficaz de que se valeu para difundir suas idéias, foram seus escritos formais. Pode-se dizer que os outros meios de comunicação eram a fonte de onde brotavam seus escritos formais, pois em mais de uma ocasião foi como resultado de suas próprias experiências como pregador, professor ou em conseqüência de seus contatos pessoais que ele sentiu a necessidade de escrever. E, foram seus escritos que tiveram a maior circulação e o efeito mais duradouro, como se pode observar no fato de muitos deles estarem sendo republicados em diferentes países e em muitas línguas diferente ainda no século vinte e vinte um.
Sem dúvida que, dentre todos os seus escritos, as Institutas da Religião Cristã foi, e ainda é, a mais importante. Publicado originalmente em 1536, foi revisada e republicada sete vezes tanto em Latim como em Francês, partindo de uma pequena monografia de sete capítulos que ele mesmo escreveu, para se tornar uma obra de setenta e nove capítulos na edição de 1559. No início, Calvino procurou seguir a ordem do Credo Apóstólico, mais tarde, no entanto, achando isto insatisfatório, mudou a estrutura da obra, expandindo e ajustando seu pensamento mais completamente a cada nova edição. Quando se lê o trabalho da última edição em inglês, editada por J. T. McNeil e Ford Lewis Battles, na Biblioteca de Clássicos Cristãos, atento para as referências às diferentes edições, pode-se observar facilmente que Calvino, o estudante incansável, acrescentava a cada nova edição os conhecimentos exegéticos e teológicos que acumulara desde a edição anterior. Estudando constantemente, tanto a Bíblia como escritores como Bernard de Clairvaux e muitos dos diferentes pais da Igreja, Calvino acrescentava um número cada vez maior de referencias a eles, edição após edição.
Da maior importância neste processo de divulgação foi o fato de que, a partir de 1541, Calvino estava preparando Comentários sobre vários livros da Bíblia, em função de suas pregações e suas aulas. Rejeitando o método alegórico quádruplo dos comentaristas medievais, e evitando as “admoestações” do Comentário de Lutero sobre Gálatas, Calvino seguiu a técnica tipicamente humanista da exegese histórico-gramatical, apegando-se firmemente ao contexto histórico dos livros e procurando entender exatamente o que eles estavam querendo dizer. Seu método era um método verdadeiramente empírico. Na medida em que acumulava mais conhecimentos com estes estudos, Calvino foi capaz de utilizá-los nas revisões de sua “Institutas”. No decorrer de toda sua vida, escreveu Comentários sobre a maior parte dos livros da Bíblia, tendo evitado alguns dos textos mais difíceis, como o de Cantares de Salomão e o Livro das Revelações ou Apocalipse. Calvino parece ter evitado fazer afirmações claras sobre o que estes livros verdadeiramente significavam. O conjunto de seus Comentários foi finalmente editado em Genebra, no final da década de 1570 e no início da década de 1580, sendo amplamente disseminados.
Calvino era também um panfletário. Uma das primeiras edições de sua coleção de panfletos, de posse do autor deste artigo, forma um volume, in-fólio, de mais de mil páginas. Seus panfletos eram, não só numerosos, mas muito variados também em temas e objetivos. Um dos principais motivos que levavam Calvino a divulgar, em formato pequeno, o significado de algumas das doutrinas e práticas cristãs, era seu desejo de esclarecer o povo. Um de seus panfletos, “Forme dês Prières (=Forma de Orações), era, na verdade, um guia de culto para a Igreja de Genebra, mas teve considerável influência sobre a prática litúrgica das Igrejas Reformadas em Genebra, na França bem como na Escócia, Holanda e em outros países, onde suas idéias haviam sido aceitas. Talvez, o mais panfletário de todos os seus panfletos tenha sido sua explanação sobre o significado da Ceia do Senhor. Este panfleto foi parcialmente responsável pela assinatura do “Consensus Tigurinus”; Lutero afirmou que este teria evitado seu conflito com Zwínglio.
O motivo essencial de Calvino, para escrever panfletos, no entanto, parece ter sido a polêmica. Naturalmente que um de seus alvos principais era a Igreja Católica Romana. Foi em 1541 que ele escreveu sua carta ao cardeal Sadoleto, o qual instara com os genebreses para que retornassem à Igreja Romana. Nesta carta, Calvino mostra que Roma desertara do Cristianismo bíblico. Dois anos mais tarde, publicou seu artigo satírico sobre as relíquias e outro artigo constrangendo o Imperador Carlos V a parar de perseguir os protestantes. Depois das primeiras sessões do Concílio de Trento, Calvino escreveu um panfleto atacando suas decisões. Não podemos nos esquecer também, de que as Institutas, com sua carta dedicada a Francisco I da França, rogando tolerância para com os protestantes, era, em si mesma, um panfleto, ainda que um panfleto bastante volumoso.
Calvino não se limitou a controvérsias com os católicos romanos. Um dos seus primeiros panfletos, intitulado PSYCHOPANNICHIA, atacava a doutrina da “morte da alma” defendida por alguns anabatistas. Em um panfleto posterior, lançou alguns dardos sobre um grupo de anarquistas espirituais conhecidos como os Libertinos. Em outro escreveu uma crítica devastadora à astrologia, que era tão popular naquele dias quanto o é hoje e, em grande parte, pelo mesmo motivo: o declínio na fé cristã. Assim, mesmo imerso em questões de pregação e magistério, mesmo enquanto escrevia Comentários e revisava suas Institutas, Calvino encontrava tempo para abordar os problemas temporâneos enfrentados pelo movimento protestante. É de se perguntar como ele conseguia fazer tudo isto? Não surpreende que Calvino tenha morrido aos cinqüenta e cinco anos!
A maior parte de seus panfletos aparecia primeiro em Latim, pois eram endereçados à classe mais instruída; aos acadêmicos. Contudo, pouco tempo depois surgiam também em francês, traduzidos, às vezes, pelo próprio Calvino, e às vezes por algum dos editores de Genebra. Normalmente, depois de um panfleto surgir em francês era logo publicado também em língua vernácula. Uma das primeiras traduções foi a de seu panfleto contra o papa Paulo II, que surgiu em alemão em 1541. Em 1545, seu Catecismo foi publicado em Latim, Francês e Italiano, quase que simultaneamente. Em 1546, houve uma versão tcheca de um folheto, e a partir de 1548 seus panfletos começaram a surgir em Inglês, Espanhol, Holandês e mesmo em Grego. Desta maneira, tiveram um efeito bem amplo sobre o movimento da Reforma.
Os escritos de Calvino tinham uma grande gama de leitores porque eram publicados tanto em Latim como em várias outras línguas vernáculas. Era natural que, sendo em Latim a língua dos eruditos, acadêmicos e teólogos pudessem ler seus artigos logo que surgiam em Latim. Isto, no entanto, teria tido relativamente pequeno efeito sobre o povo comum. O importante é que havia então uma classe média letrada, que podia ler em sua própria língua, mesmo que fossem incapazes de fazê-lo em Latim. Foi a esta classe que Calvino fez seu maior apelo. Tendo vindo da classe média, possuindo vivência profissional, ele sabia falar àquelas pessoas tão bem quanto aos acadêmicos, ganhando sua atenção desde o início.
Um dos fatores importantes no sucesso de Calvino em propagar suas idéias, foram seu estilo e método de apresentação. Ele não estava interessado em fazer um nome para si mesmo ou em tornar-se uma figura literária proeminente. Sua primeira preocupação era a de ser capaz de fazer com que suas idéias chegassem até o leitor. Ele queria ser claro como cristal naquilo que tinha a dizer. Acreditava que a característica mais importante de um bom estilo era a clareza, e praticava aquilo que pregava. Como resultado, era muito bem compreendido tanto por aqueles que o ouviam como por aqueles que liam seus trabalhos. Mesmo hoje, seu estilo, quando comparado com o de muitos de nossos contemporâneos, é mais claro e mais direto. Sua clareza e precisão, sem dúvida, desempenharam um importante papel na difusão de seu pensamento.
Contudo, Calvino não deve sua influência apenas a seu estilo. Conforme destacou Pierre Chaunu, os movimentos de Reforma, na Igreja, passam por dois estágios. O primeiro é evangelístico, e o segundo sistemático. Lutero foi o evangelista da Reforma. Além do mais, ele era obviamente teutônico em sua abordagem, e conservador quase ao ponto de ser arcaico, seguindo o princípio de que só deveria ser mudado, na Igreja, aquilo que conflitasse com a Palavra de Deus. Calvino, por outro lado, educado como humanista e advogado, foi o sistematizador Par Excellence. Mais do que isto, sua insistência em que, no campo da teologia e da liturgia da Igreja, nada que não fosse ordenado pelas Escrituras deveria permanecer, era muito mais radical do que qualquer posição defendida por Lutero. Além do mais, Lutero permitia que as autoridades civis tivessem sobre a Igreja uma influência muito maior do que a que Calvino jamais lhes permitiu.
Foi assim que todo o enfoque e posicionamento de Calvino se adaptaram muito mais rapidamente à estrutura de pensamento dos elementos mais radicais do cenário da Europa Ocidental.
Como Lutero, Calvino também estava interessado primeiramente nos aspectos religiosos e teológicos da Reforma e, na maior parte dos pontos, Calvino se sentia de acordo com seu precursor alemão. Há, em seus trabalhos, freqüentes referências de apreciação às realizações de Lutero, e Calvino constantemente reiterava as doutrinas fundamentais pregadas pelo Reformador alemão sobre a autoridade exclusiva das Escrituras e sobre a justificação só pela fé. No entanto, em função de seu enfoque mais sistemático, pode-se mesmo dizer, do seu enfoque científico, Calvino não apenas tornou mais claro o ponto de vista de Lutero, como também desenvolveu outros aspectos da fé cristã que não haviam sido abordados por Lutero. Nesse sentido, foi além do reformador alemão, criando uma estrutura teológica mais ampla, estrutura que satisfazia a muitos, inclusive a alguns dos mais veementes defensores de Lutero, como Phillip Melanchthon. Esta foi uma das razões pelas quais o Calvinismo suplantou o Luteranismo em muitos países, como por exemplo, na França, Inglaterra, Escócia e Holanda.
Foi também por causa de seu enfoque teológico mais amplo e sistemático que Calvino exerceu uma considerável influência sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, de forma geral, sobre sua própria geração e sobre as gerações subseqüentes. Ele acreditava que a teologia, de tal forma, envolve todo o pensamento humano, que todo o pensamento pode estar sujeito ou submisso a Jesus Cristo. Desta maneira, observa-se o poderoso impacto que ele teve nas universidades, não apenas de uma maneira geral, mas muito concretamente no trabalho de homens como Pierre de la Rameé, Jerome Zanchius, Andew Melville, e de muitos outros. Estes homens procuraram aplicar a teoria Calvinista de Vida-e-Mundo a todas as áreas do pensamento, esforçando-se por apresentar suas interpretações das várias áreas do pensamento, com vistas sob dois aspectos: sub specie seternitatis e soli Deo Gloria.
Calvino, como declarado anteriormente, não escrevia apenas para os acadêmicos, nem seu trabalho era mero exercício teórico. Ele era um homem prático que acreditava que o pensamento precisa produzir ação. Em Genebra, lutou pela organização de uma cidade que manifestasse, em sua forma de vida, uma cultura que confessasse o Senhorio de Jesus Cristo em todas as suas atividades. Este princípio tornou-se o ponto predominante no pensamento de seus seguidores em outros países. O resultado disto foi que calvinistas da Inglaterra, Escócia, França, Holanda e América, vieram a ser considerados políticos radicais, pressionando constantemente para o estabelecimento de uma forma democrática de governo. Alguns chegavam ao extremo de afirmar que os magistrados subordinados, que constituíam os Estados Gerais ou o Parlamento, poderiam mesmo destronar um rei – e, em algumas ocasiões chegaram a fazê-lo. Por outro lado, foram os calvinistas que, na França, Inglaterra e na Holanda, se mostraram dispostos a tomar a iniciativa de aventuras comerciais fora do continente europeu, mostrando-se prontos a arriscar até mesmo suas próprias vidas na colonização de novos países. Eles é que estavam sempre prontos a enfrentar o trabalho árduo para atender ao chamado para o qual Deus os vocacionara, não importando o que fosse. Qualquer que tenha sido o erro cometido pelo sociólogo Max Weber, em sua teoria sobre a relação entre o Calvinismo e o surgimento do Capitalismo, este erro certamente não foi sua ênfase sobre a importância que a doutrina da vocação tem no pensamento Calvinista, uma doutrina cujos efeitos temos podido observar de país para país, até o momento presente.
Precisamos reconhecer também que, em função deste sentimento de vocação, a influência de Calvino não foi originalmente gerada por organização ou propaganda de massa. Sua influência foi espalhada através de indivíduos devotos que haviam sido imbuídos da visão de Calvino a respeito da soberania de Deus e de seu chamado para o trabalho de Deus, tendo respondido a este chamado em fé e em obediência. Acadêmicos como Zanchius, Ramée e Melville; cientistas como Ambroise Pare, Bernard Palissay e Francis Bacon; artistas como os mestres holandeses do final do século dezesseis, e muitos outros, todos desempenharam seu papel. Algumas vezes, a influência calvinista levou à organização de grupos como o exército huguenote de Coligny e Henrique de Navarra e o exército dos Lordes escoceses da Congregação de Jesus Cristo, mas, em última instância, o impacto de Calvino surgiu da convicção de indivíduos crentes que confessavam a fundamentação de suas idéias na autoridade suprema da Bíblia, a Palavra de Deus.
O impacto de Calvino não ficou limitado a seus próprios dias, mas continuou nos séculos subseqüentes, em diversas regiões do mundo, à medida que a Europa se expandia, quer por comércio, quer por conquista. Na última metade do século dezenove e início do século vinte, esta influência tendeu a desaparecer em face da modificação dos padrões de pensamento provocada pelo humanismo ateu e pelo materialismo. Em anos recentes, no entanto, o Calvinismo vem passando por um reavivamento de proporções consideráveis. Está começando, uma vez mais, a exercer influência no cenário mundial. Esta obra traz, de alguma forma, o testemunho deste ressurgimento.
Não deixe de ler SUÍÇA: TRIUNFO E DECLÍNIO, o próximo artigo desta série a ser postado.
Expiação - Sua Natureza II
Em nosso último capítulo nós apontamos que a obra expiadora de Cristo foi,
Primeiro, uma obra federal: que houve uma união oficial existente entre o Mediador e aqueles em benefício de quem Ele mediou, que há uma unidade legal entre Cristo e Seu povo. Antes da fundação do mundo os eleito de Deus foram “eleitos em Cristo” (Efésios 1:4), a eles foi “prometida” a vida eterna (Tito 1:2), e que a graça lhes foi “dada” nEle (II Timóteo 1:9). Foi portanto como seu Cabeça pactual, e por causa disso, como sua Garantia pactual, que quando da plenitude dos tempos Deus enviou Seu Filho para agir em seu benefício. Tudo quanto Cristo fez e tudo quanto Ele sofreu foi como seu Representante legal. A menos que isto seja firmemente agarrado, firmemente compreendido como o que perdura na própria fundação do sacrifício redentor de Cristo, estaremos certos de nos enganarmos e errarmos ao tentar interpretar seu escopo e aplicação. Cristo e Seu povo, juntos, formam uma única Pessoa mística, no conceito de Deus.
Segundo, a obra redentora de Cristo foi uma obra substitutiva. O que Cristo fez e o que Cristo sofreu foi não somente em benefício de outros, mas o foi também expressamente no lugar de outros. É verdadeiro, abençoadamente verdadeiro, que a Sua obediência e os Seus sofrimentos tenham beneficiado a outros, mas é preciso ser enfaticamente dito e firmemente sustentado que a obediência que Ele prestou e que os sofrimentos que Ele sofreu assim o foram, realmente no lugar de outros. Cristo tomou o lugar de réus de Seu povo, assumiu suas dívidas e responsabilidades, tornou-Se Responsável por eles, e tomou para Si a tarefa de satisfazer a justiça Divina por eles. Cristo engajou-Se a fazê-lo quando Ele aceitou os termos da Aliança Eterna. Cristo veio para fazê-lo quando Ele Se encarnou. De Belém e até o Calvário, Ele deve ser considerado como tendo tomado o lugar do Seu povo culpado, sofrendo e fazendo, fazendo e sofrendo, tudo quanto a justa lei de Deus exigia deles.
“ Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei” (Gálatas 4:4). A derivação de Cristo de humanidade real através de Sua mãe terrena não é algo de somenos importância, no que se refere à Expiação, pois a Sua relação de irmandade, como o nosso Redentor consangüíneo, depende absolutamente do fato de que ter Ele derivado sua humanidade da substância de sua mãe, sem o que Ele não possuiria nem a união legal nem a união natural com o Seu povo, a qual deve estar na base, na fundação do Seu caráter representativo. Para ser o nosso Redentor, a Sua humanidade não poderia nem ser trazida do céu, nem imediatamente criada por Deus, mas derivada como a nossa, a partir de uma mãe humana, porém com esta diferença, que a Sua humanidade nunca existiu no pacto de Adão, para conferir por herança, fosse culpa ou mancha. Ele devia encontrar-se na palidez, na fraqueza da raça humana. Não obstante, Cristo “nasceu sob a lei” não através da condição de criatura, mas para os objetivos da Fiança, da Garantia: então, por conseguinte, o valor atribuível da Sua obediência. (condensado, da obra de George Smeaton).
As palavras “nascido sob a lei” precisam ser cuidadosamente definidas. “Cristo tornou-Se sujeito à lei por intermédio de uma constituição Divina. Ele não nasceu sob a lei como todos os homens o são; sua sujeição à lei segue-se ao fato de serem eles os descendentes naturais de Adão, a quem a lei foi dada originalmente, e ao fato de ser ele ocupar para com eles o lugar de representante. Mas cristo não era um descendente natural de Adão, nem foi o primeiro Adão um representante do segundo Adão, pois ele era o Senhor do céu. Sua obrigação para com a lei surgiu não do Seu nascimento, mas Ele nasceu sob ela, sob a lei, por intermédio de uma indicação peculiar a Si mesmo, para responder a um fim específico, a saber, a redenção dos homens pecadores. E portanto, o que a lei exigia deles, fosse numa forma de sofrimento ou de obediência, Ele Se tornou obrigado a submeter-Se e a executar” (John Brine, 1743, “A Eficácia Certa da Morte de Cristo”).
Cristo foi ambos, “nascido” e “dado” ao povo de Deus (Isaías 9:6), e isso com vistas à salvação deles: o que Ele fez e o que Ele sofreu foi para o bem e no lugar daqueles por causa de quem Ele veio ao mundo. Alguns têm procurado burlar a característica vicária da Sua obediência, argumentando que como Homem, Cristo estava sob a obrigação de cumprir a lei. Mas isso é negar, não implicitamente todavia explicitamente, que Ele era o filho de Deus. Muito cuidado precisa ser tomado neste ponto. A humanidade de Cristo, tal como, era impessoal , e portanto não devia nenhuma obediência qualquer que fosse à lei. O Deus-homem não é duas pessoas numa só: Ele é uma pessoa com duas naturezas. Como o filho de Deus Ele era uma pessoa já antes que Se tornasse encarnado. Ao encarnar-Se, Ele tomou sobre Si a humanidade, a natureza humana, mas não como uma segunda personalidade. Portanto, a humanidade de Cristo estando unida ao Filho de Deus, ele não estava nem poderia estar obrigado a obedecer à lei. Foi por intermédio de uma constituição Divina, através de acordo pactual, que Ele “nasceu sob a lei”, com vistas á redenção e à justificação do povo eleito de Deus.
No momento em que Cristo foi “nascido debaixo da lei”, Ele adentrou ao lugar ocupado pelo Seu povo, considerado como criaturas caídas. Isso sozinho explica as experiências com que Ele Se deparou, a degradação que Ele sofreu, a injustiça que Ele encontrou nas mãos dos homens, e o castigo que Ele recebeu do Próprio Deus. Temos em nosso coração as mais desonrosas e degradantes concepções de Deus se imaginarmos, por um momento que seja, que Ele permitiria a uma pessoa inocente sofrer, quanto menos ainda se Ele permitisse ao Seu Filho amado sofrer injustamente nas mãos de desprezíveis humanos. Nós jamais teremos uma visão correta da manjedoura, da necessidade da fuga para o Egito, do trabalho na bancada de carpinteiro, do não ter aonde reclinar Sua cabeça, das horríveis indignidades que Ele suportou dos Seus inimigos, e do tratamento injusto que Ele recebeu daqueles que Lhe imputaram a sentença de morte, até que reconheçamos que desde Belém e até o Calvário Ele foi a Vítima vicária de Seu povo, que Ele carregava os pecados deles, e que sofria as devidas retribuições pelas iniqüidades deles.
“Porquanto o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dará graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão” (Salmo 84:11). Mas como os descendentes do Adão caído, o povo de Deus, nos seus dias não regenerados, fizeram exatamente o contrário de “andar na retidão”. Eles abandonaram o caminho dos mandamentos de Deus e seguiram um curso de vontade própria, e isto, não ocasionalmente, mas constantemente. Em conseqüência, muitas coisas boas lhes foram negadas. Embora endereçadas diretamente a Israel, as palavras de Jeremias 5:25 contém um princípio de ampla aplicação: “As vossas iniqüidades desviaram estas coisas, e os vossos pecados apartaram de vós o bem.” Portanto, quando Cristo aqui veio como o Portador dos pecados do Seu povo, a justiça Divina exigiu que a Ele Lhe fossem negadas “muitas coisas boas”.
Como um errante da casa do Pai (Lucas 15:13), o homem perdeu todo o direito a tanto quanto uma moradia terrena, por conseguinte aqui encontramos Cristo tomando o lugar do Estrangeiro sem lar. Na medida em que o homem caído prefere o “mundo” a o que quer que seja que Deus coloque perante ele, encontramos Cristo levado ao Egito (o símbolo evidente de “o mundo” na Escritura), e portanto disse Deus, “ Do Egito chamei o meu Filho.” (Mateus 2:15). Em conseqüência da Queda, Deus pronunciou a seguinte maldição sobre o homem, “No suor do teu rosto comerás o teu pão,” {Gênesis 3:19}, portanto encontramos Cristo trabalhando pelo Seu pão (cf. Marcos 6:3). Porque os eleitos, enquanto pecadores falharam em amar aos seus próximos, nós encontramos a Cristo sofrendo o ódio dos homens. Porque nós temos sido culpados de glutonaria, Ele foi feito sentir fome. Porque nós temos sido imoderados ao beber, Ele sentiu sede. Porque nós temos usado dissolutamente o nosso dinheiro, Ele não tinha nenhum centavo (cf. Mateus 17:27). Porque temos falado mal de Deus, contra Ele falaram mal; porque nós O negamos, Ele foi negado. “Nem um só palpitar de dor Ele sentiu, nem uma só agonia de aflição Ele experimentou, nem um só suspiro de angústia Ele exalou, nem uma só lágrima de pesar Ele verteu, por Si mesmo. Foi tudo pelos homens; foi tudo por nós. Se nem um só dos Seus sofrimentos foi pessoal., segue-se que todos eles foram substitutivos, que todos eles estavam, é claro, incluídos na matéria ou substância do Seu sacrifício expiador. Durante todo o período de Sua vida mortal a vítima estava por ser imolada. No momento do Seu nascimento, a espada da justiça foi desembainhada contra o homem que é O parceiro de Jeová, e não retornou à bainha até que tivesse sido banhada no sangue do Calvário.
“Pode se supor em desacordo com esta visão do tema, que a redenção do homem algumas vezes está relacionada nas Escrituras simplesmente ao sangue de Cristo, ou só à Sua morte. Mas linguagem tal não deve ser entendida como limitando a Expiação de Cristo ao simples ato de morrer, ou àqueles sofrimentos nos quais houve um literal derramamento de sangue. A agonia sangrenta no jardim, e a morte amaldiçoada na Cruz, foram partes importantes e conclusivas do Seus sofrimentos, e, em linguagem comum, aparentemente, a consumação da Sua humilhação, sem a qual todo o que ocorreu antes deve ter sido em vão; e pode ser considerado como tendo alcançado salvação, no mesmo modo como aquela última prestação de uma dívida que é liquidada gradualmente cancela o débito e proporciona a liberação do débito. Mas, como quando de Cristo é dito ter sido “obediente até à morte” {Filipenses 2:8}, devemos entender a frase, não como de um ato solitário , mas da duração da Sua obediência durante todo o período da Sua vida, então pode ser dito que Ele sofreu até à morte, como expressivo da duração do Seu sofrimento durante todo o curso de Sua vida terrena.” (W. Symington).
É nas cenas finais dos “dias da Sua carne” (Hebreus 5:7) que podemos o mais amplamente descobrir a Cristo como ocupando o lugar do Seu povo pecador, e recebendo de Deus aquilo que lhes era devido. Mesmo aonde O vemos diante de homens, o que se nos mostra deve ser lido e interpretado sob a luz da Sua posição vicária e de Sua completa identificação com o Seu povo culpado. O que teve lugar aqui na terra nada foi senão o esboço, a descrição visível do veredicto da Suprema Corte. Tomemos a Sua aparição perante Caifás e Pilatos. Ousamos dizer que os anais da história humana serão perscrutados em vão, não somente na busca de um paralelo, mas por qualquer coisa que chegue perto de uma semelhança. Não obstante, o significado mais profundo do tratamento sem precedentes dispensado a Cristo foi percebido somente por poucos. Aqui, tanto quanto quase que em todos outros lugares, homens se ocuparam com o lado humano , em vez de com o lado Divino das coisas. Em muito, escritores têm se assombrado com a conduta iníqua do sumo sacerdote de Israel e do governador Romano na Judéia, e fulminantemente condenado seus atos injustos; mas aparentemente nunca lhes ocorreu questionar, Por que Deus não somente sofreu, mas ordenou aquilo tudo? (cf. Atos 4:27, 28).
Os Romanos eram renomados pelo seu respeito pela lei, pela eqüidade dos seus relacionamentos, pela generosidade com a qual eles tratavam os povos que conquistavam. Como então deve ser o tratamento injusto dispensado por Pilatos para com Cristo ser considerado? Verdadeiro, do lado humano, ele temeu que se ele resistisse às demandas dos líderes Judeus, uma reclamação seria feita a Cezar, e então ele provavelmente perderia a sua posição. No entanto, isto ainda deixa não resolvida a questão mais profunda e mais importante: Por que Deus exigiria que o Seu Filho fosse ridicularizado ao ser submetido a um julgamento o qual parece pior que uma farsa, realmente, uma paródia de justiça? Nós sugerimos que aquela consideração somente, fornece a chave para este grande problema, e que, a dupla relação sustentada por Cristo: pessoalmente inocente, oficialmente culpado; nEle mesmo, sem pecado; em virtude da Sua identificação com o Seu povo, “feito pecado” (II Coríntios 5:21). Era o Pecador quem foi julgado por sentença. “Ele foi [judicialmente] reconhecido [por Deus] entre os transgressores” (Lucas 22:37): isso igualmente se aplica ao Seu julgamento, às bofetadas no salão do julgamento, e à Sua real crucificação. A passagem em João 18:8 prova isso: Se o Representante for dominado, então aqueles a quem Ele representa devem ser libertos.
Como o Substituto de Seu povo pecador, Cristo tinha de ser encontrado inocente e ainda assim pronunciado culpado! Embora pessoalmente imaculado, a justiça Divina exigia que ele devesse ser tratado como oficialmente merecedor de condenação. O que aconteceu em Jerusalém não foi nada a não ser a expressão visível do grande Julgamento que havia ocorrido no Céu. A sentença pronunciada por juízes humanos nada foi senão a intimação ou a promulgação da sentença que havia sido passada pelo Divino Juiz ao portador do Pecado. Cristo não ocultou Sua face da vergonha e da cusparada. Por que? Porque como criminosos culpados, como foras-da-lei culpados, como o mais desprezível dos desgraçados, aquilo é o que os nossos pecados mereciam. Quando perante Seus acusadores Ele permaneceu mudo, não oferecendo resposta às acusações que Lhe foram feitas (Mateus 26:62, 63). Por que? Porque embora pessoalmente inocente, Ele ocupava o lugar de pecadores culpados , portanto nada havia que Ele pudesse alegar em atenuação.
Isto joga uma maravilhosa torrente de luz nas narrativas dos Evangelhos. A acusação que foi imposta contra Cristo enquanto Ele permaneceu no Sinédrio, como trazida contra aqueles a quem Ele representava não era uma acusação falsa! Culpado de blasfêmia contra Deus, certamente que cada um de nós o é. Portanto como o Representante oficial de Seu povo pecador, o Senhor Jesus permaneceu em silêncio, não apresentando nenhum argumento de defesa que interrompesse o julgamento. Tão verdadeira era a acusação contra nós , que não havia nenhuma necessidade de testemunhas (cf. Mateus 26:65)! Dizemos novamente, o tribunal terreno, al lidar com a acusação de blasfêmia, ou desonra praticada contra o Nome e a Palavra de Deus, e ao sentenciar à morte a nossa Garantia, foi a promulgação da sentença contra os nossos pecados, muito do mesmo modo como a sombra no relógio de sol registra os movimentos que estão acontecendo numa outra esfera! A santa Pessoa de Cristo estava ali, no lugar dos culpados, e o juiz humano nada fez senão expressar o veredicto do Juiz Divino! Foi o Pecador que foi acusado e julgado. No começo, o Juiz de toda a terra já havia formalmente pronunciado a sentença, “...certamente morrerás.”; e tal sentença agora era cabal e finalmente executada, vicariamente , nos pecadores eleitos.
Seria um insulto ao Seu governo moral supor por um momento que o inflexivelmente justo e inefavelmente santo Deus permitiria a um Homem perfeitamente inocente e puro sofrer as indignidades, os castigos, e a sentença que Cristo recebeu. Sua própria e infalível Palavra nos assegura, “ Sendo os caminhos do homem agradáveis ao Senhor, até a seus inimigos faz que tenham paz com ele.” (Provérbios 16:7). Ah, não era nenhuma pessoa inocente que compareceu perante Caifás e Pilatos; ao contrário, era o pecador quem estava sob julgamento — ali, na Pessoa do seu Substituto imaculado e sem pecado. O tribunal de júri terreno era senão o adiantamento; na realidade foi o Portador do pecado fazendo uma aparição real perante o Tribunal de Deus! Por conseguinte, podia haver somente uma decisão possível: embora pessoalmente sem pecado Ele era oficialmente culpado, e nada ficou senão a sentença de condenação e sua imediata execução. Assim podemos nós, e assim deveríamos nós admirar a super-dominante providência de Deus, que fez com que a corte inferior na terra projetar tão claramente a sombra da ação da Suprema Corte nas Alturas.
O que tentamos salientar acima é tão pouco compreendido, é sim tão completamente desconhecido da maioria dos nossos leitores — tão superficiais até o último grau são as ministrações dadas de púlpito pelos melhores hoje em dia! — que confiamos que eles terão paciência com as nossas repetições, e até mesmo se darão ao trabalho de reler o que tem sido escrito. Então dizemos novamente, que não existe nenhuma explicação possível daquele julgamento (aparentemente) anômalo, o qual passou pelas devidas formas de lei e de ordem, a menos que reconheçamos ter sido uma representação simbólica, sim, uma representação Divinamente arranjada, de um mistério espiritual, expondo a completamente única, porque dupla , relação que Cristo ocupou. Assim foi Pilatos obrigado a afirmar quanto à absoluta inocência dAquele abençoado que se encontrava perante ele: por sete vezes ele declarou “Não acho culpa alguma neste homem”. Não obstante, ele O sentenciou à morte! Cristo era pessoalmente inocente, todavia como a Vítima vicária, como o Representante do Seu povo criminoso, Ele era oficialmente culpado. Assim, Cristo foi justamente pronunciado ser imaculado, mas oficialmente condenado à morte. É por isso que Deus fez com que o Seu amado sofresse tal zombaria, ignomínia e sofrimento.
“Suportando vergonha e zombaria rude,
Em meu lugar, condenado Ele foi,
Selou meu perdão com Seu sangue,
Aleluia! que Salvador.”
As passagens da Bíblia que expressamente apresentam o caráter vicário da obra redentora de Cristo são tão numerosas que não podemos senão fazer aqui uma seleção delas. Foi predito que, “E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo” (Daniel 9:26). Então, porque foi Ele “cortado”? Ouça a resposta do povo ensinado pelo Espírito de Deus: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53:5). De Suas próprias declarações, podemos citar as seguintes: “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” {Mateus 20:28}; “o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.” (João 10:11). Dos escritos apostólicos, as seguintes podem ser tomadas como amostras: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5:6); “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos,” (I Pedro3:18); “Deus, . . . enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.” (I João 4:10).
Inimigos da Verdade, ansiosos para repudiar a natureza substitutiva da obediência e da morte de Cristo têm apontado que a palavra “pelos” não é conclusiva. Ela pode significar “no lugar de”, ou também pode significar somente “em favor de.” Assim: o soldado morre “pelo”, ou em benefício, em favor de seu país. A resposta suficiente para isto é que embora em algumas passagens seja usada a preposição Grega “huper”, a qual tem também o mesmo significado duplo que a preposição “por”, ainda assim há outras passagens onde o Espírito Santo empregou o termo “e” e isso não pode significar outra coisa senão “no lugar de”. Esta é a palavra usada em Marcos 10:41, “... Isto é o meu corpo, que por (e para) vós é dado...”
Na tradução Septuaginta Grega do Velho Testamento a palavra “anti” é usada para expressar a troca de posição de alguma coisa ou pessoa, por outra. Isto pode ser comprovado em referência aos seguintes trechos, onde o termo “anti” é traduzido pelas palavras que colocamos em itálico : “ Deus me deu outro filho em lugar de Abel” (Gênesis 4:25). “...e José deu-lhes pão em troca de cavalos, e das ovelhas, e das vacas e dos jumentos...” (Gênesis 47:17). “...faleceu Arão, e ali foi sepultado, e Eleazar, seu filho, administrou o sacerdócio em seu lugar .” (Deuteronômio 10:6). Estas passagens são tão claras e a aplicação da preposição é tão óbvia que comentários quanto a isso seriam supérfluos.
Esta preposição Grega é também utilizada no Novo Testamento, em passagens outras que onde Cristo está em vista, que definem seu significado de maneira inequívoca. Tomemos os seguintes casos, onde o termo “anti” é o equivalente em Grego para as palavras em português que colocamos em itálico : “ ...Arquelau reinava na Judéia em lugar de Herodes, seu pai...” (Mateus 2:22). “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.” (Mateus 5:38). “...se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?” (Lucas 11:11). “A ninguém torneis mal por mal...” (Romanos 12:17). Em nenhuma dessas passagens pode “e” possivelmente significar “em lugar de”. Não, com exceção daqueles casos onde é usada no sentido de contra , como em “anticristo” — a preposição Grega “anti” tem o significado uniforme de “no lugar de”.
Assim, após breve exame das passagens onde esta preposição Grega é encontrada, temos completa satisfação de que somos inteiramente garantidos ao dizer com A.A. Hodge, “Se a intenção o Espírito Santo fosse que compreendêssemos que Cristo substituiu estritamente no lugar de réu de Seu povo, Ele não poderia ter usado nenhuma linguagem mais exatamente adaptada para expressar Sua intenção. Se não fosse esta a Sua intenção, nós bem podemos perder qualquer esperança de chegar à compreensão da Sua intenção no assunto através do estudo das Suas palavras em qualquer departamento da Escritura.”
Embora a preposição Grega “huper” tenha o duplo significado que o termo “por” possui, não é motivo para permitir que os inimigos da Verdade arranquem de nossas mãos aquelas passagens que tratam da Expiação de Cristo, onde ocorre este termo em particular. Que “huper” algumas vezes tem a mesma força que “e”, nenhum estudioso honesto negará. Que em muitas passagens somos forçados a compreendê-la como significando “em lugar de” , pode ser mostrado claramente e definitivamente estabelecido através de várias considerações. Tome apenas uma passagem, “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por [huper] todos, logo todos morreram.” (II Coríntios 5:14 — Almeida, Corrigida e Revisada). O fato da substituição aqui é pleno; uma vez que Cristo morreu no lugar e na posição de “todos”, então os “todos” são legalmente considerados como tendo morrido também. Em outras palavras, a expiação vicária de Cristo é contada como a expiação pessoal do crente. Seria mera tolice dizer, “Se um morreu em benefício de todos, então todos morreram”. Se perguntado por que o Espírito Santo utilizou-se da expressão um tanto quanto ambígua “huper” em algumas passagens, ao invés de o inequívoco “e”, a resposta é, Porque Cristo não somente morreu no lugar do Seu povo, mas também por seu benefício!
Resumindo o que se nos apresentou nesta segunda divisão da natureza da Satisfação de Cristo, diríamos: Os sofrimentos aos quais o Senhor Jesus foi exposto, desde a hora do Seu nascimento até Ele entregou o Seu espírito nas mãos do Pai, foram absoluta e definitivamente vicários, nascido como o Substituto de Seu povo — não somente para vantagem dele, mas verdadeiramente no lugar e no espaço deles . Ele aqui veio como o Representante e Cabeça federal deles, tomando para Si e liberando-os de todas as suas obrigações, recebendo em Seu espírito e alma e corpo, tudo o que lhes era devido. Ele foi o seu Resgate, pagando todos os seus débitos. Ele foi o seu Mediador, postando-se entre Deus e eles, recebendo de Deus e a Ele rendendo, tudo o quanto era devido a eles e por eles. Ele foi o seu Sumo Sacerdote, fazendo oblação por eles. Ele foi humilhado por causa do nosso orgulho. Ele foi feito pobre para expiar a nossa cobiça. Ele teve fome porque nós, em Adão, comemos do fruto proibido. Ele teve sede, porque nós bebemos de fontes proibidas. Ele morreu, porque nós estávamos mortos em pecados.
Embora seja uma antecipação do que pertence, estritamente falando, a um aspecto futuro do nosso tema, não podemos encerrar este capítulo sem chamar a atenção para a implicação clara, inescapável e inexpressivelmente abençoada do que tem estado perante nós. Cristo não somente morreu em nosso lugar, Ele morreu para assegurar a nossa salvação. Ele não somente morreu em nosso espaço, Ele morreu em nosso benefício. Porque Ele Se tornou pobre, nós somos enriquecidos. Porque Ele foi abandonado por Deus, nós somos reconciliados com Deus. Porque Lhes foram arrancadas suas roupas, nós somos vestidos com o manto da Sua justiça. Ele foi humilhado para que pudéssemos ser exaltados. Ele veio à terra, para que pudéssemos ir ao céu. Ele Se fez servo, para que pudéssemos ser livres. Ele foi atribulado, de modo que pudéssemos ser confortados. Ele foi tentado, para que pudéssemos triunfar. Ele foi espancado, para que pudéssemos ser sarados. Ele foi desonrado, para que pudéssemos ser glorificados. E não há nenhuma contingência ou incerteza quanto a isso. Que o Seu povo colhesse os benefícios da satisfação de Cristo não depende de quaisquer condições que eles venham a cumprir. Arrependimento e fé foram comprados por Cristo para cada um por quem Ele obedeceu e sofreu. Justiça Divina exige que Cristo veja do labor de Sua alma e esteja satisfeito. A lei de Deus demanda que a sua recompensa seja concedida a todos por quem Cristo a obedeceu. A própria retidão e fidelidade de Deus insistem que, porque o Capitão da sua salvação foi feito perfeito através de sofrimento, Ele traga os “muitos filhos à glória”.
“Deus não pode exigir pagamento duas vezes, Primeiro na sangrenta mão da minha Certeza E depois, outra vez, na minha .
“Expiação complete, Tu o fizeste, E pagaste até o último centavo O que quer que fosse que o Teu povo devia.
“Pode então a ira derramar-se sobre mim Se estiver protegido na Tua justiça E molhado com o Teu sangue?
“Volte-se então, minhalma, ao teu descanso, Os méritos do teu Grande Sumo Sacerdote Proclamam paz e liberdade. .
“Confia em Seu sangue eficas, Não teme teu banimento de Deus Já que Jesus por ti morreu.” (Toplady) .
A. W. P
Domingo, Julho 02, 2006
Expiação - Sua Natureza
A passagem em Romanos 3:23 define o pecado como “destituição da glória de Deus”, i.e., da Sua glória declarativa e manifesta. Pecado é a falha em render a Deus aquilo que é de direito à Sua alta honra, a saber, respeito e tributo constantes, perfeitos, implícitos. As bem-aventuranças essenciais de Deus não podem ser atacadas pela criatura: onde assim LHE aprouver, bastar-LHE-ia simplesmente balbuciar as palavras, e cada rebelde em todo o universo deixaria imediatamente de existir. Mas a Sua glória afirmativa pode sim, ser atacada pelos nossos pecados. O pecado desonra a Deus, e o homem caído é completamente incapaz de restaurar-LHE a honra, e todavia essa incapacidade para fazê-lo é criminosa e aumenta a sua culpa. Não somente o pecado desonra a Deus, mas também não pode ser perdoado por Ele nem o transgressor absolvido, até que cada exigência da lei seja cumprida. Isso, a criatura não pode fazer. Como mostramos no capítulo anterior, ninguém exceto um mediador que fosse tão Divino quanto humano, era competente para render plena satisfação a Deus. E isso foi o que Cristo fez: A Sua Expiação trouxe de volta à glória declarativa de Deus o benefício de honra e de louvor que LHE é devido.
Mas a vida e a morte de Cristo são fatos históricos, que são, praticamente, universalmente admitidos, mas a “ palavra da cruz” (como escrita em I Coríntios 1:18), ou seja, a explicação Bíblica de Sua obra expiadora, é assunto puramente de revelação Divina, e deve ser recebida com humildade inconteste e dela depender com segurança pacífica, simplesmente porque nos é dada a conhecer pela autoridade de Deus. Raciocínios e argumentos, aqui, são inteiramente vãos, e especulações são profanas. Ademais, como proclamamos no capítulo inicial, todas tentativas de ilustrar , a partir de supostas analogias humanas, desonram a Deus e pervertem a Sua Verdade de modo grosseiro. A obra redentora de Cristo é única. Ela permanece só, em sua magnificência solitária. Não há nada em toda história que de alguma forma lhe seja semelhante. Quanto um pregador tenta “simplificar” o mistério das três Pessoas da Trindade através de alguma ilustração da “natureza”, ele somente demonstra a sua própria tolice, e a ninguém auxilia. Assim também, cada esforço para explicar a Expiação com o auxílio do que quer que seja, fora das Sagradas Escrituras, é somente voltar da luz para as trevas. Os mistérios Divinos não podem ser compreendidos por intermédio de qualquer coisa que se esteja no escopo dos nossos sentidos físicos.
Com razão foi dito que “a exatidão dos termos esclarece os pensamentos”, a o que podemos acrescentar, A precisão, a exatidão do pensamento é essencial a uma correta visão de qualquer porção da Verdade, e visão correta da Verdade é honrosa a Deus. Portanto, nenhum esforço deve ser poupado na busca por alcançar a mais alta possível precisão de linguagem, quando aspirando expor as coisas de Deus. Muitas vezes um leitor somente obtém uma visão nublada de um assunto, porque o escritor confundiu os efeitos com a natureza daquilo com o que lidava em seus escritos. Por exemplo, certeza de salvação é um dos frutos da fé (tanto quanto um dom do Espírito), todavia tem sido considerado como um elemento essencial da própria fé. Em conseqüência, porque lhes faltou segurança, alguns verdadeiros Cristãos mergulharam no que Bunyan temia ser o Lamaçal de Desânimo, por imaginarem que não estavam salvos. Semelhantemente, muitos escritores versando sobre a Expiação têm descuidadamente misturado alguns dos seus principais efeitos e frutos, com a sua própria natureza.
Um exemplo pertinente do que acabamos de dizer é visto na agora quase idéia corrente, de que a Expiação de Cristo significa “o colocar juntos, Deus e o pecador” ( N.T. o escritor utilizou um jogo de palavras, desmembrando o termo em Inglês “Atonement” — Expiação, em “At-one-ment”, que traduzido ao pé da letra significaria mais ou menos “em uma fábula” ) . Mas este não é de forma alguma o significado do termo, seja utilizado pelas Sagradas Escrituras ou empregado em obras teológicas seguras, confiáveis. A reconciliação é um dos muitos efeitos ou frutos da Expiação de Cristo, mas não se constitui parte da obra que ele perpetrou. Muitos outros têm falhado em distinguir entre a Expiação de Cristo e a Redenção, que é um dos seus frutos. É de vital importância distinguir entre o que Cristo fez e o que resultou a partir dali. Para compreender o que Ele fez, vamos agora tentar definir a natureza da Sua Expiação.
Ao empregar o termo “federal”, queremos dizer que havia uma unidade oficial existindo entre o Mediador e aqueles por quem Ele mediou, ou, numa linguagem mais simples, que existe uma união legal entre Cristo e Seu povo. “Quando, no Velho Testamento, aos eleitos é feita referência como a parte com a qual Deus faz uma aliança, eles tão vistos como estando em Cristo, e sendo um com Ele. A aliança não é feita deles somente, e enquanto separados de Cristo. Isso nos é ensinado na carta aos Gálatas, 3:16, ‘ Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.' Os eleitos são aqui (como também em I Coríntios 12:12) chamados de ‘Cristo', por causa da união entre Cristo e os eleitos. E de maneira similar, quando de Cristo, conforme em Isaías 42:1-6 é dito ser a parte com a qual o Pai tem aliança, os eleitos devem ser enxergados como estando nELE. Tão unidos e um com Ele, que o Seu sofrimento expiador é visto como sendo o seu sofrimento expiador, ‘estou crucificado com Cristo' (Gálatas 2:20).” — (Wm. Shedd, 1889).
“Cristo não é somente o Substituto, mas a Fiança do Seu povo. O Evangelho está alicerçado no fato de que Adão e Cristo são cabeças pactuais e representantes de suas respectivas famílias. Por conseguinte, são ambos denominados de “o primeiro homem” e “o Segundo homem” {conforme em I Coríntios 15:47}, como se não tivesse havido ninguém mais a não ser eles, pois os filhos de cada um eram inteiramente dependentes de seus cabeças. Em Adão todos eles morrem; em Cristo todos eles são vivificados {leia em I Coríntios 15:22}. O primeiro “todos” refere-se e inclui cada indivíduo da espécie humana, enquanto que o segundo “todos” é explicado pelo apóstolo com sendo “os que são de Cristo” (I Coríntios 15:23).” — (James Haldane, Doutrina da Expiação ).
Foi como o cabeça dos Seus eleitos que Deus comprometeu-se, fez aliança com Cristo, de modo que, num sentido muito real, tal aliança foi também feita com eles. Isto é o que explica todas aquelas passagens que falam da unidade dos santos com Cristo, como se, estivessem “crucificados com Cristo” (Gálatas 2:20), “morrido com Ele” (Romanos 6:8), tivessem sido “sepultados com Ele” conforme simboliza o batismo escritural (veja em Romanos 6:8}, houvessem sido “ressuscitados com Ele” (como Colossenses 2:12), “elevados com Ele” (conforme Efésios 2:6), e tivessem sido feitos “assentarem-se nos lugares celestiais, em Cristo Jesus ” (como declarado em Efésios 2:6}. Então eles eram legalmente um com Ele, e Ele com eles, em tudo o quanto Ele fez para render satisfação completa a Deus. Neste ponto que é vitalmente importante, não podemos fazer melhor do que dar uma sinopse da última seção do capítulo dois da inestimável obra de H. Martin:
Como podemos nós formular e estabelecer a relação subsistente entre Cristo e os Seus, como Redentor e redimidos, a menos que voltemos atrás, para a doutrina do Pacto? Alguma relação, é evidente, deve ser reconhecida como subsistindo entre Cristo e aqueles no lugar de quem Ele morre, do contrário nem de longe nos aproximamos da idéia de um sacrifício vicário. A possibilidade de real expiação absolutamente postula, e requer, uma conjuntura, uma combinação entre Aquele que expia e aqueles por quem a Sua expiação está disponível. Isto está além da necessidade de alguma prova. E como existe uma obrigatoriedade de alguma conjuntura ou relação, então na busca da conjunção ou relação que verdadeiramente subsiste, nossa busca não pode terminar satisfatoriamente até que tenhamos encontrado e reconhecido a unidade pactual. A mesma razão que demanda uma relação, permanece insatisfeita até que se encontre com esta relação.”
Não satisfaz as necessidade do caso referir-se à união entre Cristo e Seu povo, a qual é efetivada na sua regeneração, pela agência do Espírito Santo e a instrumentalidade daquela fé, que é o Seu dom. Verdade, é indispensável antes que qualquer um possa desfrutar de quaisquer das bênçãos da compra efetuada por Cristo. Mas deve ter havido uma relação entre Cristo e o Seu povo antes que Ele os resgatasse. Tampouco são as necessidades do caso satisfeitas, ao referir-se à Encarnação. Verdade, o Redentor devia tomar sobre Si carne e sangue antes que Ele pudesse redimi-los, mas ainda assim deve haver um laço de união mais íntima do que aquele que Cristo tem, com os salvos e os não salvos. Ele apoderou-se da “semente de Abraão ” (conforme em Hebreus 2:16), não da “semente de Adão”! Nem seria suficiente dizer que a relação é aquela de fiança e de substituição, pois a pergunta ainda pende de resposta, O que adequou e tornou justo, que o Filho de Deus devesse sofrer por outros, o Santo ser feito pecado? É até este ponto que a investigação deve ser afunilada.
Cristo foi a Fiança de Seu povo porque Ele era o seu Substituto. Ele agiu por eles porque Ele se colocou em seu lugar. A relação de um substituto justifica a Fiança; mas o que justificará a substituição? Eis aqui o eixo sobre o qual tudo gira. Nós concordamos de coração com o Dr. Martin, quando ele diz, “Não podemos obter satisfação alguma neste ponto, nenhuma resposta suficiente a esta questão, e portanto nenhuma conclusão satisfatória a toda a nossa linha de investigação, até que a doutrina da sempiterna unidade-pactual venha à tona. Aquela é a sublime relação. Aquela é a sublime e principal conjunção entre o Redentor e os redimidos, que sozinha suporta e responsabiliza-se por tudo o mais com respeito à relação que pode estabelecida como verdadeira, no que a eles se refere. ‘ Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos.' (Hebreus 2:11). Ele nos substituiu, porque Ele é um conosco — identificado conosco, e nós com Ele.”
Promovido por infinito amor, Cristo, como o homem-Deus, aceitou livremente os temos da Aliança Eterna, que foi proposta a Ele, e voluntariamente assumiu todas as responsabilidades legais por Seu povo. Como seu Cabeça, Ele veio à terra, viveu, sofreu e morreu como seu Representante vicário. Ele obedeceu e sofreu como seu Substituto. Através da Sua obediência e dor, Ele os desencarregou de todas as suas obrigações. Seus sofrimentos dispensaram o castigo da lei, e Sua obediência mereceu bênçãos infinitas para eles. A passagem em Romanos 5:12-19 afirma de modo explícito que os eleitos de Deus são, legalmente, “feitos justos”, em precisamente o mesmo princípio pelo qual eles primeiro foram “feitos pecadores”. “Nossa união com Cristo é da mesma ordem, e envolve a mesma classe de efeitos, como a nossa união com Adão. Nós a chamamos uma união, tanto federal como vital . Outros podem chamá-la como lhes aprouver, mas não obstante permanecerá certo que trata-se de união de natureza tal, como para envolver uma identidade de relações legais e de obrigações e direitos recíprocos” (A. A. Hodge). “ Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” {Romanos 5:19} — “para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (II Coríntios 5:21).
Mais de mil anos atrás, Agostinho observou que, “Tal é a inefável proximidade desta união transcendental, que ouvimos a voz dos membros sofrendo, quando eles sofreram em seu Cabeça , e clamaram através do Cabeça, na cruz, ‘Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?' (Mateus 27:46). E, de maneira similar, nós ouvimos a voz do Cabeça sofrendo, quando Ele sofreu em Seus membros, e clamou ao perseguidor no caminho de Damasco, ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?' (Atos 9:4).
A relação federal de Cristo para com o Seu povo era uma relação real, na qual o Deus infalível considerou justo punir Cristo pelos pecados do Seu povo, e creditá-los com a Sua justiça, e satisfazer assim, completamente, todas as demandas da Sua lei sobre eles. Como resultado aquela união, Cristo foi em todas as coisas foi feito em tudo “semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:17), sendo “contado (reconhecido como) com os transgressores” (Isaías 53:12); e eles, por sua vez, são “membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos” (Efésios 5:30). Como conseqüência desta união federal, Cristo também é feito “espírito vivificante” (I Co. 15:45), de modo que, no tempo devido, cada um de Seu povo se torne um membro vivo e vital daquele corpo espiritual do qual Ele é o Cabeça (conforme Ef. 1:19-23, “E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.”)
A relação entre Cristo e aqueles que se beneficiam da Sua Expiação não foi, portanto, algo vago, indefinido, casual, mas consistiu de uma unidade pactual real, identidade legal, união vital. A fiança assim pressupõe. A substituição explícita assim demanda. Imputação real procede di sso. O castigo que Cristo sofreu não poderia ter sido infligido de outra forma. Aqueles por quem a Satisfação foi prestada, por necessidade inevitável, compartilham dos seus benefícios e recebem o que foi por eles comprado. Somente isso satisfaz a objeção da injustiça de o Inocente sofrer pelo culpado, como também somente isso explica a transferência dos sofrimentos e dos méritos de Cristo, para os redimidos.
2. FOI UMA OBRA SUBSTITUTIVA
Os termos “substitutiva” e “vicária” são comumente usados de forma muito relaxada. Muitos que têm buscado ganhar uma reputação pela ortodoxia e a partir de então insinuarem-se na confiança do povo de Deus têm feito uso dos termos simples, vazios, todavia com não outra intenção senão de dizer que Cristo sofreu em favor de outros, para o benefício de outros. Mas isso é somente uma meia verdade, e portanto parente muito próxima de uma mentira. Sofrimento ou castigo vicário é mais do que sofrimento suportado pelo bem de outrem. Os sofrimentos ou martírios pelo bem de uma causa, de patriotas pelo seu país, de filantropos pelo bem da raça humana, não são “vicários”, pois eles não são substitutivos . Sofrimento vicário é o sofrimento suportado não somente em favor de outros, mas no lugar de outros, no lugar real de outros. Carrega, portanto, consigo, a isenção da parte no lugar da qual o sofrimento é padecido. O que um substituto faz pela pessoa cujo lugar ele preenche, ele absolve tal pessoa da necessidade dela mesma passar ou sofrer a mesma coisa! Assim,quando afirmamos os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, queremos dizer que Ele a Si mesmo Se colocou no lugar dos pecadores e satisfez a lei por eles, e que, de forma tal, que a lei não pode mais fazer nenhuma reivindicação, qualquer que seja sobre eles. Os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, identicamente do mesmo modo que a morte de animais no Antigo Testamento era em lugar da morte do transgressor que os oferecia em sacrifício.
As Escrituras ensinam que Cristo era, num senso exato e completo, o Substituto do Seu povo, i.e. que por indicação Divina e de Sua livre vontade, Ele assumiu todas os seus débitos, tomou o seu lugar perante a lei, e obrigou-SE a fazer no lugar deles tudo o que a lei exigia, rendendo a ela aquela obediência da qual dependia todo o bem-estar deles, e sofrendo o castigo da lei, merecido pelos seus pecados. Cristo veio a ser o seu Patrono vicário, assumindo todas as suas obrigações e responsabilizando-se por satisfazer a justiça Divina em seu lugar. Tão real foi a Sua substituição em lugar deles, que o que Ele fez e o que Ele sofreu por eles evitou toda necessidade de eles cumprirem com as demandas da lei em suas próprias pessoas. Assim, a Satisfação prestada por Cristo foi muito mais que um expediente para “remover aqueles obstáculos” que impediam a Deus justificar os pecadores: era o que exigiu a Justiça, para perdoar os pecados de todos quantos por quem tal Satisfação foi feita. A Satisfação de Cristo foi infinitamente mais do que uma maneira de “abrir o caminho” por onde a graça de Deus pudesse fluir: era o que necessitavam todos pelos quais ela foi feita, para serem vestidos com toda a sua excelente eficácia.
Ao tornar-Se o Substituto por Seu povo, ao colocar-Se sob as obrigações deles, ao engajar-Se para liberá-los de todas as suas responsabilidades, Cristo foi, necessariamente, “ nascido sob a lei ” (Gálatas 4:4), de forma a poder
